EntreContos

Detox Literário.

[EM] Sobre as Esferas e os Observadores (Aoi)

Que ideia foi essa de segui-lo? Agora, estava no escuro, naquele… carro? Nem sabia o que era aquilo em que estava escondida. Em que foi se meter?

Ele saiu sem perceber que fora seguido e, depois de muito tempo, ela resolveu sair também, queria entender onde estava. De repente, uma forte movimentação a pressionou intensamente para baixo, como se ela estivesse dentro de um elevador que subia muito rápido, e ela se deitou com cuidado. O que foi isso?

Ao se levantar, aturdida, ouviu alguém chamando seu nome.

Seguiu a voz.

***

Na Central de controle do Observatório, Aleek acompanhava a aproximação de Nure e iniciou os procedimentos para permitir sua entrada no perímetro. Desligou o Espelho, dispositivo que tornava todo o complexo do Observatório invisível. Apesar de estarem nas profundezas do mar, numa região abissal, precisavam estar preparados para a improvável aproximação de algum nativo, ou de algum de seus artefatos tecnológicos que vinham se tornando mais eficientes a cada década.

Desligou também o campo de repulsão, que afastava os seres vivos a uma distância segura do complexo. Tão logo registrou a entrada da cápsula de Nure na zona interna, ativou novamente todos os dispositivos de segurança. O Observatório estava, novamente, invisível e isolado daquele mundo.

— Ele voltou, Aleek?

— Sim, acabou de chegar.

Enquanto verificava as comunicações com a Esfera, Qarim perguntava, meio distraído:

— Bom. Foram quantos dias, dessa vez?

— Vinte dias.

— Ele está aumentando seu tempo na superfície. Na última missão, ele demorou-se quinze dias, sendo que havíamos estimado dez.

— Por que me diz isso?

Qarim sempre admirou a lealdade de sua companheira de missão.

— Ah, Aleek, só estou externando meus pensamentos para que você possa conhecê-los. Não estou fazendo fofoca, não me contaminei pelos hábitos dos nativos – sorriu. — Estes meus comentários, eu os repetirei todos diante de Nure, assim que estivermos todos juntos. Mas, você, o que acha?

— Não sei, Qarim. Nure está diferente, parece distraído, embora venha seguindo os protocolos e apresentando seus relatórios pontualmente. Ele parece…

— Sim?

— Ele parece… feliz.

— Feliz… este é um termo muito caro aos nativos deste planeta.

Qarim estava pensativo. Aleek, preocupada.

— Agora que Nure está a bordo, vamos iniciar os procedimentos.

— Não devemos falar com ele antes?

— Deveríamos, mas, depois de um período tão longo fora, ele vai precisar de tempo para se recuperar. Tempo que não temos. — Qarim mostrava a Aleek a última mensagem vinda da Esfera.

***

Nure chegou a seus aposentos após passar pela câmara de descontaminação. Sentia-se exausto, pesado. Mesmo após tantos anos como observador naquele planeta, ainda sentia os efeitos da atmosfera poluída e dos resíduos emocionais que abundavam nas aglomerações populacionais daqueles nativos ainda tão primitivos. Ou talvez fosse somente a sensação de culpa. Tomou o tônico restaurador e, enquanto esperava fazer efeito, esticou-se em sua cama e perdeu-se em divagações.

Ele foi o primeiro a chegar ao Observatório, há 2500 anos, junto de Yanek. Yanek desobedeceu à primeira regra do Observatório e partiu e, há 1100 anos, Aleek o substituiu. Pouco depois, veio Qarim.

Desde seu surgimento, quando da ascensão da primeira Esfera, o Observatório estabelecia bases em planetas em estágios iniciais de evolução e testemunhava e documentava seus progressos. Nesses estágios, qualquer contato com civilizações mais evoluídas podia ser desastroso. Os nativos, impressionáveis, poderiam tomá-los por deuses ou por demônios, o que fomentaria superstições e ilusões e poderia desviá-los de seu curso natural de evolução.

Conhecimentos obtidos fora de hora, ou de maneira artificial, eram igualmente perigosos. O avanço tecnológico, em seus níveis superiores, era dependente do avanço ético. Esta não era uma regra da Esfera Hyx, que governava a galáxia à qual pertenciam, ou de qualquer outra das inúmeras Esferas. Esta era uma regra da natureza e, portanto, advinha da Unidade, que governava todas as Esferas.

Por isso, era vetado aos Observadores qualquer interferência nas questões enfrentadas pelos nativos. As regras que os Observadores deviam seguir estavam registradas no Código:

1 – Não Interferir

2 – Não Tirar Vidas

Apenas duas regras, parece fácil a princípio, uma vez que a missão deles é documentar a história. Mas tudo fica muito mais complicado fora do Observatório.

No começo, e por muito tempo, Nure só observou a vida se desenvolvendo, se diversificando e se espalhando. Ia à superfície esporadicamente para coletar materiais e verificar os níveis de diferentes gases na atmosfera, temperatura e pressão. Eram dias mais simples. Logo, uma das espécies começou a mostrar-se mais apta à evolução intelectual e, em algum tempo, as primeiras sociedades começaram a se formar.

O Observatório contava com instrumentos que mediam a qualidade dos pensamentos e emoções emanadas pela coletividade. Mas, a partir de um certo nível de complexidade intelectual e emocional, era importante travar contato direto com alguns indivíduos, para uma avaliação mais correta.

Seria mais certo Nure sair para tais missões. Ele era idêntico aos nativos. Yanek, por sua vez, precisaria vestir o Manto, traje especial que emanava uma aparência escolhida já que, como todo steliano, ele tinha brilhantes escamas douradas espalhadas por um corpo extremamente alongado. Mas, Yanek gostava tanto de sair e se aventurar entre os nativos, misturando-se entre eles, fazendo-os crer que era um deles, que Nure deixou esta atividade em suas mãos. Nure planejava a logística das expedições e acompanhava e suportava Yanek pela Central e estava satisfeito.

Até que chegaram as guerras e tudo mudou.

Ainda hoje, os nativos eram bastante beligerantes, o normal dentro de seu estágio evolutivo. Mas naquela época, eram muito mais e as diferentes tribos estavam em uma guerra constante e sangrenta umas com as outras. Pensaram em suspender as expedições à superfície por um tempo, mas Yanek se opôs. Era importante observar o comportamento dos indivíduos em períodos de intensa crise, como aquela. E ele havia identificado alguns elementos que já demonstravam estar à beira de um novo estágio evolutivo. Era importante observá-los naquele estágio e naquelas circunstâncias. Nure assentiu.

Aconteceu que, justamente um desses indivíduos, uma criança, foi terrivelmente ferida durante um ataque. A ferida, mortal nesse mundo, levaria a criança a agonizar por muitos dias. Mas não no mundo de Yanek, ou no de Nure. Com os medicamentos e tratamentos de que dispunham, a criança estaria brincando no dia seguinte. Yanek deveria ter virado as costas e retornado à base. Nure tentou convencê-lo, insistiu. Mas Yanek não conseguiu se omitir e aplicou à criança alguns medicamentos, em segredo, que salvaram sua vida.

Quando retornou à base, ele mesmo informou à Esfera o ocorrido e disponibilizou seu lugar no Observatório. Ao se despedir de Nure, disse:

— Sinto muito. Eu o decepcionei.

— Não estou decepcionado. Surpreso, apenas. O que o levou a quebrar a Primeira Regra?

— É difícil de explicar, Nure. Viemos de planetas diferentes, eu e você. Mas tanto minha Stelia quanto sua Orgone estão nos últimos estágios evolutivos. Não sabemos mais o que é o sofrimento e, assim, os sentimentos todos parecem diluídos. Mas os nativos… suas emoções são exacerbadas e sua realidade, muito crua.

Nure estava calado e Yanek continuou:

— Não se morre mais em Stelia, como não se morre em Orgone. As pessoas escolhem quando desejam retornar à Unidade, despedem-se e se reintegram. Simples. Mas os nativos, na superfície, estão morrendo. E como sofrem. É dilacerante.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, Nure absorvendo aquela confissão, tão verdadeira. Yanek prosseguiu.

— Não consegui observar sem agir. Errei, espero não ter causado um problema muito grande neste planeta. Mas não pude fazer de outra forma.

De fato, o problema não foi muito grande, embora pudesse ter sido. A cura da criança causou assombro, uma onda de misticismo e o surgimento de feiticeiros clamando para si a façanha, iniciando ritos religiosos baseados na cegueira do ego. Mas, a guerra avançou, toda a tribo foi dizimada e a história caiu no esquecimento.

— E o que acontecerá com você agora?

— Retornarei a Stelia e escolherei outro caminho, fora dos Observatórios.

— Boa sorte, amigo.

De volta ao agora, deitado em sua cama, Nure era assombrado pelas palavras de Yanek. Ele entendia agora, de forma clara e dolorosa, cada uma das palavras do amigo. Inadvertidamente, ele próprio se enredara em ações muito mais graves e com consequências certamente desastrosas. A dúvida agora era como ele iria lidar com a situação.

Já livre da incômoda sensação de peso, mas não da culpa, foi se encontrar com seus companheiros.

***

A Central de controle era o maior espaço do Observatório e, como todos os outros, circular e impecavelmente branco. O sistema de iluminação não se baseava em focos. A luz vinha de todas as paredes e de todo o teto. No centro da sala, uma grande mesa redonda, rodeada pelos muitos monitores transparentes que pendiam verticalmente e sem apoio, onde sentavam-se agora os três Observadores.

Nure começaria relatando o andamento de sua missão e suas descobertas, muito do que já havia sido exposto em seus relatórios. Mas havia questões mais urgentes a tratarem e foi Qarim quem começou:

— Nure, percebi que você se demorou em sua missão, tal como da outra vez. Você passou vinte dias na superfície. Nunca havia feito isso antes. Estou preocupado.

Nure manteve o silêncio. Ele não sabia mentir. Ninguém em seu planeta natal sabia como fazê-lo há muitos milênios.

— Você nunca gostou muito de ir à superfície, mas isso parece ter mudado. O que aconteceu, Nure? – era a vez de Aleek dar voz a suas inquietações.

— Este planeta me lembra Orgone. Acho que estou com saudades. Tenho sentido falta de ver a luz das estrelas e caminhar a esmo, sentir o vento.

— Você se afeiçoou a este planeta.

— Sim, Aleek. É verdade.

— Você não deveria. Não é aconselhável.

— Sei disso, Qarim. Mas não consegui evitar. Estou aqui há tanto tempo e venho pensando muito em Yanek, ultimamente.

— Você… você fez o mesmo que Yanek? Interferiu? – Aleek não podia acreditar.

Após uma longa e angustiante pausa, a voz clara de Nure se fez ouvir.

— Sim.

***

Os nativos agora viviam em grandes aglomerações, amontoados uns sobre os outros em altos edifícios. A quantidade de angústia e medo que existiam no ar vinha crescendo. Nure sentia isso quase como uma dor física.

Elisa o abraçou e beijou, seus cabelos castanhos espalhados sobre o travesseiro. A dor passou.

— Que pena que você precise partir.

— Eu também gostaria de poder ficar mais.

Para sempre, na verdade. Mas, já faz 20 dias. Nunca havia ficado tanto tempo fora.

— Eu queria que você não fosse um explorador e que eu não fosse uma enfermeira e que pudéssemos ficar juntos o tempo todo.

Nure sorriu. Um sonho.

— E o que seríamos, então?

— Bom, poderíamos ter um sítio, não? Passaríamos o dia cuidando de nossa terra e, à noite, teríamos um ao outro.

Um doce sonho.

Elisa continuou, subitamente séria:

— Você não poderia dar um tempo nas suas expedições? Os noticiários têm me deixado preocupada.

— Por que?

— Ah, o de sempre. O clima está muito tenso. Falam de uma nova guerra mundial.

Eles se conheceram em uma das últimas florestas nativas daquele mundo. Elisa, de férias, perambulava distraída após se afastar de seu grupo e deparou-se com Nure, que fingiu ser um explorador solitário, o que não deixava de ser verdade. Ela o encantou. Talvez por que, junto dela, Nure não sentia o mal estar costumeiro causado por emoções residuais. Elisa era tranquila e trazia ao coração de Nure uma inquietação agradável, que os nativos chamavam de alegria.

Nure tentou esquecê-la, sem sucesso. Então, na missão seguinte, estendeu um pouco seu prazo e foi vê-la em sua casa. Elisa morava em uma daquelas habitações empilhadas no centro de uma grande cidade e ficou feliz em revê-lo. Depois disso, ele sempre dava um jeito de ficar alguns dias a mais com ela.

Quanto à crise naquele mundo, Nure estava, de fato, preocupado. Eles vinham acompanhando as tensões a partir do Observatório e a situação era realmente alarmante. Enviaram as informações à Esfera, e estavam esperando por instruções. Talvez por isso sentira a urgência de rever Elisa e assegurar-se de que ela estava bem.

Só não esperava a emoção avassaladora de encontrá-la tão linda e grávida.

***

Aleek e Qarim se entreolhavam, sem saber o que dizer.

— Nure, sinto muito.

— Por que, Qarim?

— Se você se afeiçoou a este planeta, será difícil para você. Recebemos ordens da Esfera de partir imediatamente.

— O quê????

— A guerra será inevitável. Mísseis nucleares estão apontados uns contra os outros. Um deles contém uma falha grave que causará um colapso no núcleo do planeta.

Nure estava pálido e Aleek prosseguiu.

— Estávamos preocupados com você pois nossa hora limite se aproximava. Tentamos avisá-lo, mas você manteve o canal fechado…

— Quanto tempo temos?

— Cinco minutos. Enquanto esperávamos por você, fizemos todos os preparativos e iniciamos a conversão do Observatório.

— Não! Preciso de mais tempo! Interrompam o procedimento! – Nure gritava. Então era isso que os nativos chamavam de desespero?

— Não é possível. O Observatório já se fechou. Não dá mais para interromper.

— Mas, eu preciso… eu tenho que buscá-la!

Qarim e Aleek, boquiabertos, não entendiam nada. Nure parecia enlouquecido.

— Quem? Do que você está falando?

Neste momento, o Observatório, já inteiramente lacrado em sua forma oval de nave, se descolava da base rochosa que o apoiava e, numa velocidade impensável, se lançou para cima, em direção ao espaço, no exato momento em que o primeiro míssil era disparado.

Das paredes agora transparentes da Central, observavam o fim daquele mundo. Aleek e Qarim, tristes com aquele espetáculo trágico. Nure, completamente prostrado.

Mísseis cruzaram continentes e oceanos, de um lado e de outro, atingindo diferentes alvos sucessivamente. Os oceanos ferveram, a crosta tremeu e rachou, nuvens negras bloquearam o sol inteiramente e ocultaram o agonizante planeta. De repente, um raio vermelho o atravessou de um polo a outro, perfurando as nuvens densas e, num silêncio ensurdecedor, o planeta se desfez em incontáveis pedaços. Um deles atingiu a lua e a despedaçou também. Em questão de minutos, nada mais havia.

Nure, largado em sua cadeira, olhar fixo no lugar onde antes existia aquele planeta primitivo e, sabia agora, todo o seu mundo, só fazia repetir:

— Elisa… Elisa… não…

Qarim correu em seu auxílio, oferecendo-lhe um copo de infusão reconfortante. Era preciso tirá-lo daquele estado catatônico e restaurar sua capacidade de pensar.

— Nure, quem é Elisa? – perguntou enquanto ele bebia.

— A mãe de meu filho – foram suas últimas palavras antes de mergulhar num sono profundo e escuro, levado pelo poder da infusão.

Enquanto Qarim amparava a queda de Nure, Aleek, paralisada, olhava para a porta. Difícil saber quem estava mais estupefato: Aleek que descobria carregar no Observatório o último dos nativos daquele malfadado planeta, ou Elisa que contemplava um homem muito alto com o corpo coberto por uma translúcida pele prateada segurando Nure e uma mulher de pele lilás e três olhos que a fitavam com assombro.

***

Nure acordou em sua cama, ainda sentindo uma espada trespassando seu peito. Dor. Ele nunca se sentira assim em sua vida. Não havia dor em Orgone, porque lá não havia perdas. Perdera Elisa. Perdera seu filho. Abriu seus olhos com relutância e percebeu-se rodeado por três vultos.

Aleek. Qarim. Elisa? Estava tendo alucinações?

Qarim quebrou o silêncio.

— Nure, quando você falou em “mãe de meu filho” eu esperava que fosse uma metáfora.

— Elisa!  

— Segui você. Estava com medo, mais do que me permiti demonstrar. Quando você saiu de casa, fui atrás, me escondi em seu carro. Queria que você me levasse em sua expedição porque, se o mundo fosse acabar, como acabou… eu queria estar a seu lado. Imaginei que se você me descobrisse no meio do caminho, não me mandaria de volta.

Nure olhava de um para outro, atônito e, após longo silêncio, explodiu numa risada incontrolável. Aleek e Qarim nunca haviam visto nada parecido. Nure estava cheio de sentimentos oscilantes, que coisa estranha! Ele ria e chorava e abraçava Elisa. Contemplavam aquele espetáculo sem saber como reagir.

— Você me seguiu!

— Sim. Tomei um susto quando o carro se transformou num submarino…

— Cápsula – corrigiu Aleek.

— Numa cápsula e entramos no mar. Quando começamos a ir cada vez mais fundo, fiquei com medo e resolvi não me revelar. Fiquei bem quieta por muito tempo depois que você saiu. Criei coragem, saí do… da cápsula e fiquei tentando entender onde estava até ouvir você falar meu nome. Segui sua voz e seus amigos me acharam.

— Já nos apresentamos, Nure. E contamos tudo a ela. E, devo dizer que ela reagiu ao fim de seu mundo com muito mais dignidade do que você.

Nure sabia que não. Ela ainda não havia compreendido de verdade o fato de que seu mundo fora destruído, de que nada do que ela já conhecera existia. Era um choque grande demais para absorver imediatamente. Ela sentiria a dor e o choque gradativamente nos próximos dias. Mas ela estava lá, viva e bem. Era o que bastava.

Como se ouvisse seus pensamentos, Aleek, sempre racional, disse:

— Isto é só o começo, Nure. Você sabe. O que nós diremos à Esfera?

— Eu causei a confusão, eu falarei com a Esfera.

— O que acontecerá comigo? – Elisa soava preocupada.

Nure gostaria de poder tranquilizá-la. Mas aquela era uma situação sem precedentes. Ninguém sabia o que poderia acontecer. Abraçou-a e respondeu como um nativo responderia.

– Vai ficar tudo bem.

***

Nure comunicou-se com a Esfera e relatou o ocorrido. Como esperava, a resposta foi calma e fria.

— Chame todos. Conversaremos juntos.

Na Central, os quatro se acomodaram e Qarim ativou a comunicação expandida. Aleek, Qarim e Nure já estavam acostumados com aquilo, mas Elisa estava maravilhada.

Onde antes pendiam os monitores e painéis da nave, havia agora uma grande assembleia. Eles quatro ocupavam o centro. Ao seu redor, centenas de seres luminosos, de espécies variadas pareciam mesmo estar ali fisicamente, sentados numa espécie de anfiteatro. Alguns se assemelhavam remotamente a anfíbios ou insetos ou humanoides, mas na verdade, era impossível descrevê-los. Todos possuíam uma compreensão, ou inteligência, no olhar que era a característica dominante de cada um deles e que parecia se sobrepor ao aspecto físico. No ar, o que Elisa descreveria como partículas sólidas de luz, flutuavam como flocos de neve que subiam em lugar de descer.

— Saudações, Observadores. Saudações, mãe. Por qual nome a mãe é conhecida?

Elisa abriu e fechou a boca, incapaz de emitir som. Mãe?

— Elisa. Seu nome é Elisa.

— Elisa, meu nome é Aoi e sou parte da Esfera. Lamentamos a sorte de seu planeta. Ele era belo e promissor. Esperávamos que ele conseguisse completar seu ciclo evolutivo e se juntasse a nós.

— Vocês não poderiam tê-lo salvo?

Elisa mal podia acreditar em sua própria petulância. Arrependeu-se no momento em que as palavras saltaram de sua boca. Mas Aoi não pareceu nem remotamente ofendida. Era uma figura estranha, muito alta, andrógina, a cabeça lembrava vagamente a de uma ave.

— Só poderíamos ter feito alguma coisa se o desastre fosse natural. O choque de um asteroide, por exemplo, o que nós já impedimos mais de uma vez. Porém, quando o desastre ocorre pela ação dos próprios nativos, nada podemos fazer.

Aoi fez uma pausa, olhou fixamente para Nure e prosseguiu.

— Existe um motivo para nossas leis. “Não Interferir” não é um convite à omissão e sim, ao respeito. A vontade dos nativos, a vontade de cada ser, é soberana. Se os nativos escolheram a guerra e a destruição, nós devemos honrar essa escolha, mesmo discordando. Nós, de mundos que ultrapassaram o quinto estágio, devemos respeitar a liberdade dos mundos iniciais de evoluírem no seu próprio tempo e em seus próprios termos. Vocês, Observadores, deveriam saber disso melhor do que ninguém, pela sua própria experiência.

— A culpa não é de Nure. Não o puna! Fui eu que me escondi em seu carro. Não fosse por isso, não haveria mal nenhum porque eu teria deixado de existir junto de meu planeta.

No longo silêncio que se seguiu, todos se entreolhavam sem entender. Aoi inquiriu o ser a seu lado com o olhar e ele pareceu pesquisar alguma coisa em um dispositivo transparente. Trocaram algumas palavras e Aoi retomou:

— Elisa, entendi agora. “Castigo” é um termo que caiu no esquecimento entre nós. Por isso o Observatório é tão importante. Para nos lembrar do caminho que todos nós percorremos. Hoje, não sabemos o que significa punição. É um termo estranho. Porém, como nativa de um planeta do terceiro estágio, entendo que você ainda lidava fortemente com esta questão. Fique tranquila. Vocês não estão aqui para serem punidos. Não existe tal coisa. Precisamos somente resolver esta situação e entender que caminho Nure deseja seguir a partir de agora. Compreende, Nure?

— Sim – Nure compreendia. Ele não podia seguir sendo um Observador. Ele se apegara a um planeta, envolvera-se com uma nativa. Qualquer outra missão seria um sofrimento para ele.

— E, Elisa, o fato de você e seu bebê estarem vivos é bom, uma dádiva. Nenhum de nós lamenta por isso. Mas precisamos descobrir um bom lugar para vocês e aí reside o problema. Os demais planetas de terceiro estágio de nossa galáxia estão ainda muito atrasados e sua vida seria difícil. E qualquer planeta fora de seu estágio lhe traria sofrimento e desorientação insuportáveis.

— E Sindred? – as palavras de Nure saíram cheias de esperança.

— O planeta vazio? – Aoi estava surpresa.

— Vazio? – Elisa não entendia. Ficaria sozinha num planeta inteiro? Só ela e seu filho?

Qarim foi a seu socorro:

— Sindred é um planeta que sofreu um cataclisma como o do seu e toda a vida foi exterminada. Com o tempo, novas formas se desenvolveram, mas não há nenhum sinal de que alguma delas se tornará a dominante e desenvolverá inteligência. Há alguns poucos nativos, humanoides como você e Nure, mas eles estão estacionados num estágio cheio de afetividade, bondade e pureza, porém, sem intelecto. Por isso o chamam de vazio, embora esteja cheio de vida.

— Seria interessante ter lá seres inteligentes de uma espécie já existente no planeta. Isso poderia alavancar o processo de evolução intelectual. Mas, Elisa não deveria ficar lá sozinha. Não seria bom.

Nure olhou nos olhos de Elisa.

— Ela não vai estar sozinha.

***

Aleek e Qarim fizeram questão de levar Nure e Elisa até Sindred antes de partirem para sua próxima missão. Durante a viagem de 30 dias estelares, Elisa passou por todos os estágios do luto pela perda de seu planeta, de todos os seus amigos, de todas as suas referências. Sofreu enormemente, mas saiu do outro lado.

Qarim aproveitou o tempo para realizar todos os possíveis exames em Elisa e no bebê. Seria um menino, nasceria em 20 semanas, saudável e sem intercorrências no parto.

— Parece que teremos nosso sítio, afinal – disse Elisa a Nure, quando começou a reagir.

— Nosso doce sonho.

— Vai sentir falta do Observatório?

— Sentirei falta de Aleek e Qarim, como sinto de Yanek. Mas há muito vinha desejando agir livremente, em lugar de observar, e poder caminhar pela superfície. Olhar as estrelas.

— Fale-me de seu planeta. Não sei nada sobre ele.

— Orgone é linda, muito parecida com seu planeta. Possui um sol amarelo e uma natureza exuberante, rica, cheia de rios, mares e florestas. Nos primórdios, seguimos um rumo muito parecido com o de seu mundo. Por pouco não nos destruímos. Um dia, veio A Grande Crise, que afetou a todos. A princípio, nada parecia ter mudado, mas algo na alma de cada ser havia se quebrado e reconstruído e Orgone começou a evoluir de forma consistente. Ascendemos.

— Vai sentir falta de lá?

— Sim, mas eu estarei com você e com nosso filho. E Sindred é muito parecida com Orgone. Se o céu fosse azul em lugar de rosa, ele seria uma cópia quase exata de Orgone antes da ascensão, quando ainda era chamado de Terra.

7 comentários em “[EM] Sobre as Esferas e os Observadores (Aoi)

  1. Ana Lúcia
    6 de maio de 2021

    Ambientação: Linda, gostei muito desse universo e como foi construído
    Enredo: Tocante, me apeguei ao casal bastante e até fiquei torcendo para que terminassem juntos.
    Escrita: fluida e bem feita. Os diálogos são muito naturais e nem me senti cansada lendo mesmo sento um texto meio grande.
    Considerações finais: Foi uma história muito boa do início ao fim.

  2. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Muito boa, sem exageros e com referências à tecnologias que conhecemos, o que facilita a compreensão.

    Enredo: Bom, principalmente no início, cambiante no desenvolvimento e satisfatório no final. Me explico. Achei o mistério inicial desse personagem observador que flerta com a vida de um planeta distante muito boa, os amigos buscando compreender a demora, a constatação de que algo errado foi feito é excelente. No desenvolvimento, senti as coisas muito diretas e pouco críveis: o planeta explodirá em 5 minutos do retorno, a mulher consegue escapar, e bombas nucleares reduzem o país a pó numa questão de segundos. Há ainda os desdobramentos da fuga de Elisa, bastante convenientes para a trama, pois tudo dá certo. Já o final, a partir das pistas colocadas pelo autor, tem uma pequena surpresa que busca trazer uma lição otimista sobre o nosso futuro.

    Escrita: Correta e simples. Não há floreios nem lugares comuns em exagero. Os diálogos são bastante naturais, com exceção de uma passagem ou outra, como na conversa entre Nure e Elisa quando estão juntos.

    Considerações gerais: Bom conto, apesar de uma ou outra conveniência de roteiro, que atende o tema do desafio e propõe, sutilmente, um pouco de otimismo para o nosso mundo que não vai nada bem.

  3. Lucas Julião
    4 de maio de 2021

    Ambientação: impecável

    enredo: Piegas é o caralho, é humana. Seu enredo está ótimo. Só me senti um pouco decepcionado quando ela apareceu viva, tirou parte da carga dramática.

    escrita: Notei só um pequenino erro. Mas nem anotei então deixa para lá.

    Considerações gerais: Desconsidere o Anderson, ele fala coisas sem sentido e dá notas a esmo. Isso daria um ótimo filme de Sci-fi e se não ganhar esse concurso (o que só ocorreria por muita injustiça) pode dar uma leve aumentada nele (quem sabe um romance ou uma noveleta) e vender ele por conta. É uma ótima história, sem partes inúteis e com diálogos naturais. MInha nota é 9,8/10; O 0,2 foi só porque ela não morreu, apesar disso servir a história.

    • Bruno Raposa
      4 de maio de 2021

      Oi, Lucas.

      Convém respeitar as opiniões dos colegas. 😉

      Os comentários não estão aqui para julgamento. Cada um emite suas próprias impressões e utiliza seus próprios critérios avaliativos. Eles não precisam fazer sentido para você, assim como os seus não precisam fazer sentido para ninguém. O importante é que cada um tenha o seu espaço para se expressar, sem ter que se preocupar em ter sua opinião atacada dessa forma.

      O debate é saudável e sempre será estimulado. Mas existe uma linha, que não é exatamente tênue, entre discordar, ainda que de maneira incisiva, e ser agressivo, desrespeitoso. Aqui você ultrapassou essa linha. Peço para que não repita.

      O espaço de comentários é feito para a troca de ideias, não de insultos. Vamos mantê-lo assim, ok?

      Abraço.

    • Aoi
      5 de maio de 2021

      Saudações, Lucas Julião!

      Em primeiro lugar, agradeço imensamente pela sua leitura e por seu comentário. Fiquei muito feliz que tenha gostado, suas palavras iluminaram meu dia.

      Porém, eu jamais desconsideraria o Anderson Prado, por quem nutro um grande respeito. Todos os comentários me ajudam. Anoto e analiso cada crítica, pois são preciosas.

      Não discordo do Anderson. Toda história de amor é piegas. Pelo menos um pouco.
      Não discordo de você, tampouco. Se Elisa morresse, a história seria mais forte.

      Mas, eu queria mostrar a Esfera por um ponto de vista parecido com o nosso. Queria, também, retratar um novo gênesis e precisava de uma Eva.

      Parece-me que o que desagradou ao Anderson também desagradou a você, da mesma forma. Só que o Anderson chamou de pieguice e você chamou de redução da carga dramática: a não morte de Elisa.

      E assim, se todos concordamos, prossigamos com a boa convivência, onde brotam os melhores frutos.

      É assim que se faz na Esfera.

      Aoi.

  4. Anderson Prado
    3 de maio de 2021

    Ambientação: A ambientação está bem feita, verdadeiramente caprichosa mesmo.

    Enredo: O enredo não me fascinou. É uma história de fim de mundo e de amor piegas e pronto.

    Escrita: A escrita é bem clara, bem objetiva, sem erros vistosos.

    Considerações gerais: O conto não me fascinou, mas não posso negar que foi escrito com muita competência. Assim, não posso me furtar de lhe dar uma nota 10. Em alguns momentos, eu me senti um pouco confuso com o enredo, sobretudo nas transições de capítulos. Os diálogos, em alguns momentos, me soaram artificiais. O fato de o texto ter focado na história de amor me decepcionou um pouco (e levou junto o desfecho). Achei o romance meio lugar comum demais, piegas até. Enfim, registro as críticas sem deixar de reconhecer os méritos do conto: escrita correta, limpa, clara, fluida; texto bem revisado, bem estruturado; um trabalho longo, mas bem desenvolvido. Foi uma leitura prazerosa. Merece o 10 que leva.

    • Aoi
      3 de maio de 2021

      Saudações, Anderson Prado!

      Estive acompanhando seus comentários e confesso que, se eu não tivesse há muito superado certa gama de sentimentos, teria me sentido decepcionada e abandonada, por você ter pulado meu texto.

      Porém, você retorna e, ainda por cima, com uma nota dez!

      Sinto algo, uma vontade de sair correndo, pulando e gritando. Será isso o que os nativos chamam de felicidade?

      Muito obrigada pela sua leitura e por seus comentários!

      Aoi

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Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.