EntreContos

Detox Literário.

[EM] 1000 anos depois (Embreagadinho)

A paisagem a frente era desoladora. As ruínas de torres antigas erguiam-se até onde olhos podiam ver. Mesmo com o passar de séculos, nas fissuras do chão pedregoso e nas  grossas camadas de cinzas atômicas crescia só uma fina grama amarelada e poucas árvores  retorcidas que mal se sustentavam. O sol irradiava por trás das nuvens castanhas em um tom pálido iluminando o que um dia foi a mais efervescente cidade da civilização.

Rode deu um passo firme em frente mas logo uma mão pousou sobre o seu ombro. Tagos sussurrou:

– Não faça isso meu amigo – Disse o velho apoiado no cajado – Não vale a pena.

– É a única chance, eu preciso resgatar a Jolene – Olhava Rodes triste para o companheiro de viagem – Tagos, é única forma deu ter ela de volta, você entende?

– Não seja burro – Tagos respirou fundo – Não adianta. Paluk nunca vai devolver ela pra você, não importa o que você vai trazer daí. Mesmo que você viva, ele vai te matar…Ou só te deixar morrer.

– Mas é a única chance… -Suspirou para o velho.

– Ninguém é tão importante assim. Esse lugar é amaldiçoado! Você não entende Rode? Ir lá é morte certa. Mesmo se você voltar e Paluk te devolver a Jolene… Você morreria pouco depois ou a mataria. Você quer isso? Quer a matar? – inquiriu firme o ancião– Eu mesmo já vi um homem que entrou nas antigas cidades – Rode esbravejou mas Tagos ergueu a voz e levantou o seu cajado – Chega! Me ouça – Rode silenciou-se e o velho continuou com calma– Eu conheci um homem… Há muito tempo eu conheci. Era como você, apaixonado. Não por uma mulher mas pela vida. Ele sabia que havia muitos tesouros escondidos nessas terras de desolação – Respondeu olhando fixo para a estrada que desenhava-se entre as lúgubres construções abandonadas– Tesouros tão grandes como era esse tempo. Lá encontrou uma grande sala com uma porta de metal nas profundezas do que um dia foi um grande castelo. Ao entrar encontrou pesadas barras de ouro. Mais ouro do que um homem poderia carregar na vida inteira e levou tantas quanto conseguiu.

“Quando retornou a vila, o acompanharam os espíritos malignos que vivem nessa terra maldita – escarrou no chão – por dois anos viveu como um poderoso senhor. Até que um dia começou a tossir sangue e sua pele passou a descolar da carne. Em pouco tempo seus filhos e esposas vomitavam bile e os cabelos caíam como os de um velho. Quando o homem morreu, o chefe do clã ordenou, como manda a tradição, que seus restos fossem guardados em um caixão de chumbo e enterrados tão fundo que nem as raízes das árvores pudessem tocar a carcaça. As mulheres e os filhos foram enviados ao degredo para que os espíritos carnívoros os acompanhassem para longe da terra. Esse é o tipo de maldição que  espera todos que entram ali.”

– Eu sei o que me espera, mas se a posso ter por um minuto ou uma vida é um sacrifício que vale a pena.

– Então qual a diferença entre você e Paluk? – Perguntou severo para o jovem de não mais que quinze sóis.

– Como ousa! –respondeu Rode com ódio para o velho que rapidamente ergueu a voz e apontou os dedos como garras de corvo para o jovem – Como você ousa? Eu sou um ancião! E estou aqui para te dar uma lição e uma escolha. Paluk é um senhor da guerra, um homem poderoso que com a força das armas e da riqueza toma das pessoas tudo, inclusive a liberdade. E é isso que fez com a sua amada Jolene. Se pelo egoísmo usa dos sentimentos dela para a jogar nos braços da morte ou a obrigar a ver você definhar como uma planta seca, não estaria arrancando dela a liberdade?

– Eu a amo! Você não entende? – Disse Rode caindo de joelhos.

– O seu amor é doente. Você, Paluk… São todos iguais. Mesquinhos e egoístas. Não são nada diferentes dos feiticeiros que destruíram cidades como essa – Gritou para o garoto de joelhos enquanto apontava com o cajado para as ruínas– Crianças que acreditavam que podiam mandar no mundo e ergueram exércitos para ter a riqueza e a vontade dos homens nas suas mãos… – Tagos deu dois passos a frente e caiu de joelhos com os olhos marejados – lançaram sobre a terra a lágrima dos anjos – Olhou sobre o ombro – por toda a orbe milhões morreram consumidos pelo fogo. Então uma chuva negra caiu sobre a terra como veneno, fazendo a carne daqueles que tocava derreter como a neve no começo da primavera. Desde então as almas dos mortos ainda vagam buscando vingança. Dizem que depois da guerra dos bruxos, uma frondosa neblina encobriu os céus  por causa do pranto da orbe ferida pela necromancia. E por isso, pela vida de um homem – Com o cajado apontando ao firmamento – não se pôde ver o sol brilhar.

“Mesmo o mais cruel dos bruxos não se arrisca a entrar nesse lugar, entende isso Rode?”

“Ela foi condenada a viver como uma serviçal de Paluk e você a padecer com a saudade da amada até o final dos dias. É o seu destino – Continuou enquanto se levantava e secava as lágrimas – Assim é que Oa, o criador de tudo, decidiu.”

– Ela é minha! Você não entende? Minha! Me foi prometido – Respondeu o jovem em prantos – Não dele…não dele.

– Pessoas não são cabras para pertencerem a outras, Rode – A raiva de Tagos reacendia conforme falava – Talvez se homens como você e Paluk entendessem isso a guerra dos bruxos nunca teria acontecido. Mas parece que ânsia em ter os fez esquecer que nada são – Tagos caminhou até o garoto, o segurou pelos cabelos, o ergueu e com todo o ódio que podia esbravejou nos seus ouvidos – Veja essas ruínas! Viviam ali tantas almas que não se pode contar. Todas morreram em um piscar de olhos! Cremadas pelas mesmas ideias de poder que você inutilmente carrega. Ela até pode te amar, mas está disposto a matar ela e a você por isso? Não seja tolo seu idiota. O último ano da guerra já se perdeu nas eras e ainda sim somos miseráveis por conta desse maldito combate e você! Paluk! Todos vocês! Ainda se embebedam do mesmo vinho que afundou a orbe em tragédia.

– Não! – Gritou Rode empurrando o velho – Eu não sou como ele!

O velho quase caindo com o empurrão do garoto apoiou-se no cajado e riu com a garganta seca.

– Sim é! É exatamente como ele – escarrou – Se Paluk move exércitos para ter só um punhado de terras e paga uma fortuna para corromper homens a vender seus filhos por uma noite de prazer -Tagos riu -Sua prometida? Vê como trata ela? como uma coisa. Você é como Paluk! Não há quer por amor puro e genuíno. Quer que seus braços como gaiola a prendam entre grades.

Rode tomado de irá lançou-se contra o velho o derrubando no chão. Tagos o observou irado e gritou – Não vá!  – Rode assustado com o seu ato se distanciou fitando o ancião, com passadas cada vez mais rápidas até que seus pés finalmente tocaram a camada de cinzas que recobria o chão da cidade perdida.

Tagos caído ergueu seu cajado e gritou colérico – Você é um tolo Rode! Você condenou tudo que ama por puro capricho. Você acabou de se lançar nos braços de Samael.

Rode desapareceu nas ruínas, afundando-se nas catacumbas de uma guerra nuclear. Quando retornou, semanas depois, Paluk devolveu sua amada  como uma flor seca após dias servindo na torre do senhor da guerra.

Ao pisar nas terras do clã, o casal foi recebido com um apedrejamento e desapareceram em um exílio forçado. Deles, não se soube mais nada de concreto. Passado décadas, ainda se conta como uma história de amor o sacrifício de Rode pela sua  Jolene; uma história encerrada com os dois, entre beijos e abraços venenosos, sendo devorados pelos espíritos carnívoros do jazigo atômico. E sobre os ossos dos amantes cresceram videiras floridas cujo os espinhos carregam o mesmo veneno que findou a vida do casal.

Paluk conseguiu para si um soldado do décimo ano da guerra dos bruxos em troca do corpo esfarrapado de Jolene. Um guerreiro feito de placas metálicas, incapaz de dormir, comer ou respirar. Com a força de cem homens e despido da piedade e da desobediência de um coração humano.

7 comentários em “[EM] 1000 anos depois (Embreagadinho)

  1. Ana Lúcia
    6 de maio de 2021

    Ambientação: Achei interessante, um mundo que dizem ter acabado por magia, mas na verdade foi por causa de uma guerra nuclear.
    Enredo: Achei mais ou menos. Não sei bem como explicar, mas senti que poderia ter tido mais, a história podia te se aprofundado mais em alguns pontos.
    Escrita:Achei boa, mas vi um ou dois erros que podiam ter sido consertados em futuras revisões então não acho que seja um ponto muito negativo
    Considerações gerais: um bom conto, não teve muita coisa nova, mas sem dúvida não foi ruim

  2. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Bem feita, um mundo desértico e desolado que, no decorrer da história, se revela como consequência de desastres nucleares.

    Enredo: Muito agarrado ao debate entre os personagens, não consegui me apegar ao conflito de Rodes, nem empatizar com o casal. É uma quase história de amor, com muitas subjetividades. Entende-se que no final, em troca de Jolene, Paluk ganhou um robô/tanque de guerra, alguma arma de poder inimaginável, e que o casal virou uma lenda nesse mundo pós atômico.

    Escrita: Correta, em boa parte do texto, há poucos erros de revisão.

    Considerações gerais: Há aspectos positivos, uma tentativa de movimentar o diálgo inserindo ações entre as falas, mas o foco no debate entre os personagens talvez não tenha sido a melhor escolha para se contar essa história. A sagas de Rodes, perdeu espaço para as reflexões e admoestações de Tagos, imprimindo um tom alarmista para um final bastante conciliador, ainda que Paluk tenha ganhado ainda mais poder.

  3. Lucas Julião
    3 de maio de 2021

    Ambientação: A ambientação foi boa, deprimente no ambiente e deprimente na vida. Prum fim do mundo só resta a melancolia e a raiva, não?

    Enredo: Parece uma história de amor mas não é, ou é, sei lá! Me pareceu filosófico e nihilista. Ele só queria a possuir ou a amava de fato? tem alguma complexidade. Pra falar a verdade, foi um dos que melhores conseguiram dar densidade até agora.

    Escrita: Eu peguei pelo menos três erros. Não é das melhores que tem aqui mas também não é das piores.

    considerações gerais: O conto é divertido. É denso, usou bem as palavras, mas não me foi muito chamativo comparado com outros. Nota 8,0/10

  4. Anderson Prado
    2 de maio de 2021

    Ambientação: Para mim, a ambientação não foi suficiente. Como o desafio permitia até quatro mil palavras, achei que o autor poderia ter usado mais delas para ambientar melhor sua história, que me pareceu repleta de perguntas sem respostas, como se se tratasse de um capítulo de uma obra maior.

    Enredo: O enredo me soou um pouco piegas, limitando-se a um homem desesperado para resgatar seu amor, inclusive sacrificando a própria vida por ele.

    Escrita: A escrita está encaminhada, mas ainda pode melhorar bastante. Há erros de revisão espalhados pelo texto.

    Considerações gerais: O conto não me fascinou, mas, por ser bastante dialogado, acabou oferecendo uma leitura agradável. É um nota 9,6.

    • Lucas Julião
      3 de maio de 2021

      Oxi! se tu achou o enredo piegas, ambientação pouco explorada e a escrita mais ou menos pq deu nota 9,6? Que avaliação sem sentido.

      • Anderson Prado
        3 de maio de 2021

        Cuida dos seus critérios que eu cuido dos meus. O que está sob avaliação é o conto, não meus comentários.

      • embreagadinho
        3 de maio de 2021

        Lucas Julião, fica quieto cara

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.