EntreContos

Detox Literário.

Estações (Condutor)

I

O cavalgar da máquina sobre a linha eletrificada gera um silvo constante. Uma senhora sentada observa um homem desenlaçar sua máscara da orelha, desrosquear uma garrafinha d’água e beber. Há uma moça do lado do homem, agarrada na bolsa, de pernas encolhidas. Ela soslaia o rapaz com desprezo e se apressa em higienizar as mãos com o tubinho de álcool gel penso no zíper. 

II

— Casa comigo!

— Sou menina moça, ainda.

— Casa comigo, te tiro desse mato. Te dou casa, comida. 

Ela sorriu, abaixando a cabeça, carecia de avisar o pai, mas o homem, mais velho, bonito, dizia que não, a chance era aquela, ou vai ou fica naquele fim de mundo, naquele tempo árido, naquela fome de vida. Mal concordou e foi puxada pelo punho fino até o carro.

III

O anticasal está sentado na frente da senhora. Ela ignora-os tombando a cabeça na janela e observa as imagens que correm pelo vidro, riscos cinzas e azuis, suspensos pontos de luz, sente o nariz roçar o tecido da máscara, os óculos se embaçam. Formas indefinidas ganham nitidez conforme o vagão perde velocidade: linhas amarelas e pretas, a ponta da plataforma, multifaces encarando o trem, cabeças áreas em fones de ouvido, a ponto de voarem, outras cravadas no tronco, miram o celular. 

IV

A longa viagem findou na cidade que emergia em pontas, fumaça e odores tão inéditos quanto hostis. O homem apontava tudo pela janela, como Adão no paraíso, nomeando ruas, bancos, marcas de carros, lojas, bairros. Conhecia cada fresta suja do seu lugar, um saber empírico em anos como cobrador. Agora era taxista, em franca ascensão social, da qual se orgulhava e falava com a nova mulher. 

— Não é fantástico, pombinha?

O caos daquela gente, daquilo tudo, invadia-a violentamente. A nova morada tardava em chegar, era mais distante desse grande centro opulento, afinal, o novo marido ainda galgava posições: já possuía carro e esposa, o apartamento era o próximo passo. Até lá, escondia-se num bairro de várzea, de ruazinhas barrentas. Estacionaram num tosco terreno que abrigava uma construção diminuta e sem reboco. Ainda muda, ela contemplou o novo lar enquanto o homem apanhava as malas. 

— Entra. 

Seguiu a ordem e ocupou a casa. Havia móveis esparsos no chão de vermelhão, uma geladeira beje, a tv sobre um caixote de feira e um colchão de casal. Ela analisava tudo como quem admira um quadro sem entender a intenção do artista, fechou os olhos e recordou da mão enfiada na terra, há poucos dias atrás. Um abraço forte pelas costas lhe arrancou do devaneio, mãos passearam sobre sua barriga trêmula, subiram até os seios, desabotoaram o vestido de missa. O queixo do homem pinicou-lhe o pescoço baforando palavras quentes no ouvido. 

— Minha pombinha.

V

O silvo do atrito entre trem e trilhos ralenta conforme o freio. A máquina bufa com a pneumática tecnologia das portas. Sai manada, entra manada. Alguns bípedes se chocam, a senhora aperta os olhos, procurando, entre corpos apertados, virilhas constrangidas, o nome da estação, o mapa das linhas. Desiste. O apito anuncia a partida, o trem bufa novamente, faces preocupadas tentam alcançar o transporte, inutilmente. Fecham-se as portas, é retomado o embalo. 

VI

Vida esquisita, feito pássaro preso, em casa, no desconhecimento da cidade nova, do bairro, dos caminhos percorridos pelo marido, que saía todas as manhãs asseado e perfumado com seu táxi e tardava em voltar, cheio de planos, cheio de fome. 

Tratou de dar um jeito no lar, na vassourada, no rango, arriscou uma feira, uma amizade com a vizinhança, um desinibimento que levou a exigir do companheiro um fogão melhor, uma cama descente. 

— Da casa cuido eu!

— Pombinha, e eu cuido de ti!

VII

Fuça a sacola no colo, confere os itens, os hábitos são repetidos. Atenta-se ao ruído que o trem faz no túnel, um coro sintético, eco de metal e concreto. Abre e fecha as mãos sobre as coxas, observa os nódulos, manchas e rugas que ondulam no lento exercício de esticar e contrair os dedos. Há uma aliança prateada na mão esquerda que encara com curiosidade. Breque, apito, bufada, porta abre, sai gente, entra gente, choque, apito, bufada, porta fecha. Volta o silvo, o ruído, uma moça senta-se ao lado da senhora que, estática, ainda fixa a aliança de cenho franzido. 

VIII

Não tardou para embuchar. O homem estava doido por um primogênito, um pequeno equivalente da sua bravura e gana de tomar o mundo. Finalmente acertaram casório, de papel assinado e tudo, um ou outro gato pingado da família dele, primos distantes que tentavam a vida na cidade, uns amigos do ponto de taxi. Da família dela, nem notícia, nem nada, desde sua partida. Ainda assim, casou contente, no mesmo vestido de missa que o marido lhe desfolhou, e que agora já se apertava no ventre.

A casa outrora pobre, com aspecto inacabado e triste, ganhara mimos, mesmo que poucos, dos amigos e vizinhos que souberam da notícia. Cortinas novas, um jogo de cama, panos de prato, fraldas, roupinhas e até um bercinho veio de bom grado por uma mãe mais velha do bairro. O marido animado trabalhava o dobro, chegava tarde, cheio de fome e planos, fissurado. 

— Pombinha, vamos sair daqui em breve. Prometo. 

IX

A senhora gira a argola de prata com o dedão, esfregando na saia jeans, freneticamente, quase que com raiva. A moça ao lado arrisca perguntar se está tudo bem, mas desiste pela fadiga possível que a devolutiva pode gerar, todo um lero, uma conversa, e abandona a velha na lustrosa obsessão.

X

Ela acatava tudo. Curtida na solidão insistente, mesmo com a presença rara de gente solícita querendo entretê-la, se acabrunhou casmurra nos afazeres de casa, num mau humor azedo, fixa na ideia de esperar aquele corpo estranho ser expelido de si. Na primeira vez ríspida com o marido, ele a encarou severo, como o pai, e a percebeu esmorecer em culpa chorosa. Suplicou uma desculpa, um afago, mas ele sustentou um silêncio ofendido, só quebrado na hora de dormir, após ela ajeitar a barriga de 5 meses na cama e desejar a ele uma boa noite. 

— Boa noite, pombinha. 

Despertou assustada com o barulho do taxi arrancando na madrugada. 

XI

A voz do condutor no alto falante solicita o desembarque. É a estação terminal da linha vermelha. A senhora desce caçando o letreiro, atabalhoada, não reconhece o nome, vai ao mapa das linhas, todas elas se embaralham em cores e nomes. Procura no dedo a aliança, girá-la lhe ajuda a pensar, a se acalmar, a tentar pensar como o marido, sempre tão reto e sagaz, tão prudente. O anel não está lá. Leva as mãos ao peito batucante, coça a cabeça, vira-se para o lado da linha, chega um trem vazio, sorte, ela conjectura e embarca, novamente.

XII

O nome seria Larissa, e com ele foi sepultada, natimorto. Numa tarde, dessas vazias e amargas, na ausência do esposo, no batente da casa, aquele universo emergente concentrado no ventre começou a sucumbir em dores agudas, em gritos e desespero. Saiu à rua, clamou ajuda que tardou a chegar. Um vizinho a levou de Kombi para o hospital, ela agarrada à barriga, só com o documento e o telefone do ponto de táxi do marido.  Foi socorrida às pressas e, na caoticidade do hospital, entre seringas, alardes, máquinas apitando, se entregou a letargia química que lhe enfiaram nas veias. 

Acordou vazia, com o marido na beira da cama, o rosto vincado e sombrio. 

— Era uma menina, pombinha. 

XII

Um não lugar inominável, a palavra em fuga da mente deixa o registro angustioso no rosto octogenário. Tudo é familiar, as paredes, as janelas, as pessoas agarradas às barras de ferro, mas não o nome da coisa que a leva, mas não o destino incerto que a todos carrega. Tonteia com o zunido, o barulho da porta ecoa como um tiro, o nome lhe foge, busca os mapas, a aliança no dedo, não está lá, abre a sacolinha, caça o anel, só uns papéis e trocados, levanta-se subitamente, tudo escurece, o corpo afunda numa surdez escura. Há um baque dolorido.

XIV

Mudaram-se, enfim. Não o almejado apartamento, mas uma casa maior, de cozinha azulejada, um pouco mais centralizada. O marido exauriu o ímpeto imperativo de conquistar o mundo, mas não deixava de chegar tarde, acompanhado do cheiro de álcool, com a aura das farras e putas impregnadas no corpo, cada vez mais constante. Resignada, atravessou solitária o luto, e os afazeres, tanto dele como dela, para superar Larissa, se tornaram rotina nos anos seguintes. 

Nos absurdos e contradições da vida cotidiana, marcada pelo azedume, frustração, ao mesmo tempo que uma nesga de nostalgia, gratidão e medo mantinham juntas as duas figuras, encontros esporádicos aconteciam e, num deles, veio a notícia de um próximo fruto. Ambos se iluminaram, uma nova chance. Chegou o menino. 

— Vai se chamar Oscar, o nome do pai! Está definido, pombinha. 

Oscar cresceu doce feito a mãe. Do pai, só herdou a vontade de ganhar o mundo, mas à sua maneira. 

XV

Atônita, murmura nomes, Oscar, Oscar, o rosto apático não revela o lodo no qual a memória sucumbiu, o inexpressivo semblante é dessintonizado com a implosão mental, apenas a boca semiaberta e o fio penso de baba convergem com a fraca consciência. Se percebe ao leu, sentada na Central de Atendimento da estação, com um copo d’água em mãos. O guarda exclama algo no rádio, o raio de percepção é vago, de alcance parco, paredes e pessoas se movem, tudo muito rápido e borrado. A máquina não para enquanto ela sofre, enquanto a vista amarela e ela, novamente, apaga.

XVI

O menino encorpou e dentro dele floresceu a confusão perante o mundo, de quem era, do que seria, do que gostava, e esse redemoinho só se acalmou na entrega de seus desejos, numa paixão adolescente, na revelação, primeiro para a mãe, depois no enfrentamento, diante do genitor. 

— Eu gosto de meninos, pai. 

Fúria, regurgitadas manifestações de desgosto, de besta fera inconsolada que ameaça, ruge, o pai virou um bicho diante do menino que aguardava uma defesa da mãe. Não veio. Acuada em covarde silencio, viu partir o seu segundo fruto, seu pedaço, o único amigo, sua única família. 

— Você criou esse moleque igual uma donzela, a culpa é sua! É sua, que Deus me perdoe em te falar isso. 

Ignorava o homem, suas palavras, estava escura por dentro, permanecia presa no sofá, amarrada por um medo físico, mirando a porta pela qual o filho se foi.  

— Ele morreu para mim, e para você também. Prefiro dois filhos mortos do que um viado!

Os anos seguiram num luto estendido, no casamento estéril, na falta de notícias, numa fotografia escondida para recordar o corpo quente da criança no colo, na ausência constante do marido, na sua despreocupação em esconder o descaramento com as amantes, em marcas no corpo, no odor das roupas que ela seguiu lavando e pendurando no varal. Recebeu a notícia num ordinário final de tarde, a polícia na porta explanou que o marido morreu num acidente de trânsito, ele e uma passageira. 

— Meu Oscar!

— Meus sentimentos, senhora — a oficial tentou consolar, sem saber que, na verdade, era o filho que a mãe convocava. 

Já haviam se passado dez anos. A mente dava os primeiros sinais de degeneração, mas o rosto de seu menino passeava enevoado na memória.  

XVII

Despertou com uma mão quente no ombro, macia como um pássaro acolhido. Uma voz a chama pelo nome, ela pisca e foca intrigada para o rosto que se revela, irreconhecível, num bonito rapaz, que lhe deixa constrangida. Dele parte um convite:

— Vamos para casa? — lisonjeada, a senhora gargalha alto e cora-se ainda mais de uma vergonha infantil. O guarda questiona se está tudo bem, o rapaz responde que sim.

— Documentos, por favor. Só para eu confirmar o parentesco.

— Oscar, senhor. Ela Hilda, pode ver aqui.

O guarda apanha e lê o RG com a desconfiança do ofício.

— Ela é minha mãe, e mora comigo.     

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.