EntreContos

Detox Literário.

Broto de Bambu (Alvo Dumbledore)

Viver a própria vida é bem fácil, quando nos isolamos dos problemas alheios e de apegos doentios. O universo é inconstante. Num dia uma oração, noutro explosão. Vivemos dos cacos da misericórdia que temos pela individualidade. Buscamos o prazer como fuga, como doce e suave brisa que sopra nos dias de calor intenso. Tentamos alcançar a paz interior mendigando aceitação e afeto entre aqueles que nos rodeiam.

O sistema é bruto. Na infância nos escoramos no sentimentalismo dos nossos pais para fazer o que nos dá na telha. Uma chinelada aqui, um bofetão ali. Isso muda quando as bases não são sólidas. Muitos continuam a cometer os mesmos erros. Alguns se perdem no processo.

O modernismo dissociou ainda mais nossa capacidade de raciocinar. Uma criança boa tem que ir bem na escola, tirar boas notas, passar horas a fio deteriorando sua mente com a fantasia de que conhecimento é poder. Um ciclo interminável. “Estude ou você não será ninguém nesta vida”. Isso começa bem cedo.

De-repente, a adolescência chega. Junto dela a descoberta do: “Quem eu quero ser neste mundo”? Uma fuga aqui, outra ali.  Aquele que conseguiu fugir de verdade do sistema consegue ter o seu momento de paz. Os que ficaram se entregaram. Foram derrotados no instante que tiveram suas vidas controladas. O controle começa dentro de casa.

A mulher se casa aos dezessete. O homem aos vinte. Isso é quase um padrão. Ela nem sabe o que realmente quer da sua vida. Ele, nem atingiu maturidade para saber quão pesadas são suas escolhas. Amadurecer é uma dádiva, quando somos livres para fazê-lo. Livres do consumismo. Livres do poder acima de tudo.

— Formado em quê?

— Engenharia Bioquímica.

Cinco anos de estudos e mais três de especializações. Dominador do conhecimento. Título para o titular. Reverenciam sua capacidade com pequenas placas metálicas todo ano.

Em casa ele é um homem comum. Dia após dia buscando raros momentos de prazer. Uma dose. Uma escapada sugestiva. Uma viajem cara sem sentido. Ele segue se perguntando sobre o que lhe falta para ser feliz.

A mulher tenta alcançá-lo. Vê-se perdida com a desproporcional distribuição de tarefas. Isso começou lá atrás. É bem antigo. Dos primórdios da criação do mundo. Lava, passa, cozinha, cuida e arruma tempo para tentar deixar seu amado feliz. Dedica-se a alcançá-lo. Quer ajudar. Quando alcança deseja o reconhecimento. Poucas conseguem. De um jeito ou de outro ele dirá ser o provedor. Ela não tem outra opção senão aceitar as fatias que lhe são dadas.

Ele se lembra de sua infância. Do momento que abdicou, obedeceu aos pais e mergulhou de cabeça numa mesa de estudos. Sente-se realizado, desbravador, conquistador. A casa de oito ou nove cômodos acomoda o valor de sua realização pessoal. Há quem diga que ele é um homem de sorte. Esposa bonita, dois filhos, carro do ano. Ele tenta fugir de sua crise. Entrega-se fácil, fácil a qualquer coisa que apague sua mente. Muda o mundo, mas não é capaz de mudar seu próprio mundo.

O filho de dezesseis revela-se. Faz tudo que o pai não foi capaz de fazer. Veio para confrontá-lo. Faz ele perceber o quão covarde foi. O garoto não se esforça. Tem as piores notas da turma. É apto no quesito viver. Não perde um só fim de semana sem praia. O corpo bronzeado pelo sol é um aperitivo para as menininhas da sua idade. O pai se consome pela ira. Frente a uma mesa cheia de contas e uma estante cheia de livros ele se pergunta: “Onde foi que eu falhei? As escapadas sugestivas não conseguem mais confortá-lo.

Como seria, se tivesse escolhido viver a própria vida? Os fins de semana de praia do filho nem lhe pareceriam tão absurdos assim. Trocaria a estante cheia de livros por uma soneca a sombra de uma palmeira. O desespero toma conta e aperta o peito. Culpa? Indignação? Raiva? Nada disso importa. Culpar o pai que já morreu não lhe trará absolutamente nada. O peso de suas escolhas parece não ter fim.

A mãe, já aos setenta, não reconhece mais o filho. Precisa de ajuda constante para comer, banhar, se vestir. Ele grita, esbraveja desesperado. Só que, ninguém escuta. Quem se importa? Todos têm suas vidas. Todos seguiram em frente, dando força a engrenagem que não para.

A mídia moderna o faz acreditar que teve sorte. O mundo está de pernas para o ar. Assassinatos, corrupção, indecência. O vencedor teme pela vida dos seus. Não quer para os filhos o pior. De qualquer forma, perdeu as rédeas que poderiam mudar a mente distorcida do filho.

O psiquiatra lhe diz que o filho sofre de uma série de desajustes. Transtorno de atenção, hiperatividade, estresse familiar. O jovem passará fazer parte de um outro tipo de sistema. Aquele que tentam fazê-lo mudar a própria condição de vida. Siga os padrões ou você será considerado impróprio neste tipo de sociedade. Ramificamos cada vez mais estes conceitos.

O rapaz começa a experimentar outros tipos de tortura. Em razão disto, busca saídas que não lhe passavam pela sua cabeça. Drogas. Refúgio para estagnar a dor. Na primeira vez, um barato. Na segunda, uma onda. Da terceira em diante, compulsão. Necessidade de não ver a realidade. O que não tem remédio, remediado está. Deviam ter deixado como estava. A mente de um jovem sonhador é um campo minado. Quem é que nunca se encantou pela beleza do mundo? Pela necessidade de viver algo novo e intenso a cada dia? Nascemos aventureiros e nos tornamos covardes. Nos tiram a capacidade de pensar que não devemos temer nada, nos fraquejamos. Apavoramos com a intensidade de informação que nos permitimos ser bombardeados. É neste momento que surgem outras opções, ocas. O vizinho apegado em Cristo nosso Senhor faz uma oração. Lê uma passagem qualquer. Chega à conclusão de que o que lhes falta é Deus no coração.

Tem poucos meses que eles deixaram a igreja.  O covil da reconciliação. Ore, senão não será abençoado com a graça da salvação. Teus problemas não te abandonarão. Seja bom o tempo todo, perfeito. É proibido errar. Seja o semeador e você conquistará o reino dos céus. Se a vida lhe for pesarosa, não passa de uma provação. Isso irá santificá-lo e levá-lo aos Elíseos.

O sistema é uma engrenagem construída com dentes bem afiados. Desafie-o e você sairá machucado. Aceite-o e você será aquele que mantém suas lâminas agradavelmente cortantes.  Alguns tentam mudá-lo, mas aí vem a vida com os seus pontapés perfeitos. Você entra com a bunda e o sistema com os pés. De um jeito ou de outro você será chutado. Se for um vencedor carregará nas mãos as algemas pesadas da perfeição. Se perdedor, lhe tirarão a liberdade. Farão de tudo para te impedir de ser você mesmo.

Certa vez, um amigo me contou uma história. Que minha vida lhe lembrava a parábola do bambu. Na época, apenas ri. Não conhecia a parábola. Depois de algumas dificuldades enfrentadas, fiquei curioso com a comparação. Dizem que o bambu é uma das plantas mais resistentes do mundo. Desabrocha depois quase uma década. Brotinho frágil, de pouca beleza. Parece frágil, mas não é, cresce pra cima, enverga, contorce, vira um oito se precisar. Mas não quebra.  Broto de bambu, feito para suportar as tempestades.

O jovem defeituoso da história, Mathias, é o filho de um homem de bem. Digno de um pedestal na igreja. O materialismo o consumiu. Destruiu sua vida no momento que se entregou a necessidade de ter. Ter status, ter poder, ter controle, ter domínio. Dentro de casa ele não tem nada de santo. Traiu, violentou, controlou até o que deviam comer. No trabalho superou seus adversários sem piedade. Ascendeu rápido no ramo e fez exatamente o que o sistema pede que seja feito. Suas ações me levaram a buscar suas verdadeiras raízes.

Dá pra aprender com a história dos outros. Visão privilegiada. Pergunta se teu vizinho não sabe mais da tua vida do que você mesmo? Se pergunte! Pode apostar que ele sabe. O que ele não sabe, é quanta força há em seu coração, nem as dificuldades que enfrentou. O irônico neste contexto é quando conseguimos juntar todas as peças do quebra-cabeças. Por que Mathias entrou no mundo das drogas? Por que aquele pai, poderoso, de alto poder aquisitivo, renomado, viu sua vida ser tão facilmente destruída? O desfecho, não foi dos melhores. Uma família inteira se perdeu.  Perdeu bem antes de tudo ter começado. Perdeu por que somos escravos da perfeição.

Leva pelo menos cinco anos para que o bambu comece a apontar. Ele não enverga antes dos dez. É rígido, firme. Se passarmos fortes pela fase do amadurecimento, talvez, nada mais nos derrube. Ganhamos o mundo mesmo quando o mundo não tem nada para nos oferecer. Viver, passa a ser um privilégio. A cruz dos outros não é sua cruz.

Aliás, não pensem vocês que conseguirão mudar este mundo. Não se vocês entenderam a parábola do broto de bambu. Brotos de bambu vão longe, pra cima e se tornam fortes superando as tempestades. Essas são as verdadeiras bases. Colecione pedras e você construirá uma muralha. Busquem o conhecimento, mas não permitam que o conhecimento torne vocês vítimas deste ciclo. Mentes sábias não controlam, partilham.

— Professor, preciso fazer uma pergunta?

— Fique de pé jovem! O rapaz hesita.

— Prefiro não, professor. Ele demonstra vergonha.

— Vamos lá, seja firme, forte como um broto de bambu e faça a sua pergunta.

— Quero saber por que o senhor nos contou essa história?

— Excelente pergunta rapaz. — Mais alguém nesta sala partilha dos sentimentos deste jovem pela minha história?

Seis deles se levantam. Não entenderam onde quero chegar ministrando conteúdo tão diversificado numa escola para jovens de QI elevado.

— Como forma de responder à pergunta, vou passar um exercício para a sala. Vocês deverão fazer a atividade em duplas.

— Pesquisem no intervalo que faremos sobre a parábola do monge e do escorpião.

Alguns gesticulam, outros me ignoram. Metade da sala não me deu crédito algum. A outra metade rapidamente mobilizou-se para formar as duplas e dar início as pesquisas.

Na sessão seguinte, cinco duplas apresentaram a atividade completa. As outras vinte que deveriam compor todo montante da sala, pouco se importou em refletir sobre a atividade proposta.

— Parabéns aos que completaram a atividade.

— Vocês são as mentes do amanhã. Ávidos no conhecimento. Aqueles que, de alguma forma, controlarão nossas vidas. Não há como saber quantos de vocês estarão na cabine pilotando o avião enquanto eu e minha esposa olhamos a paisagem da janela. Não há como saber se, um de vocês, será o responsável por tirar a pedra que está alojada no meu rim. Alguns estarão a frente, controlando, dominando. Vocês já são assim. Mentes valorizadas que dedicaram boa parte de suas vidas a realidade de que lhes falei.

— Muitos de vocês serão controladores do sistema.  Ouso dizer que, talvez, sejam aqueles que criarão um novo sistema. Se será bom ou não no futuro, não posso lhes dizer, não cabe a mim dizer.

— Quando ordenei que pesquisassem sobre a parábola do monge, eu os observava atentamente. Notei espontaneamente uma atmosfera de aproximação, de troca de valores e saberes. Tenho esperança de que este mundo não está completamente perdido.

— Mais uma vez, meus parabéns as duplas que se dedicaram a cumprir a tarefa livremente. Vocês me fazem perceber que podemos viver, fazendo a engrenagem girar da forma correta. Este é o verdadeiro poder. O dom de escutar, pesquisar, refletir, associar.

— Se Mathias tivesse sido ouvido, sua vida não teria se perdido.

— Professor! O que tudo isso tem a ver com a história do monge e do escorpião?

— Os que completaram a atividade são aqueles que se deixaram picar, salvando o pouco de humanidade que ainda nos resta. O mundo irá desafia-los. Talvez vocês construam um futuro brilhante. Morem numa casa de oito ou nove cômodos e gozem da verdadeira felicidade. Mas, cuidado, a engrenagem não é perfeita. Sejam firmes, sejam humanos. Desfrutem da paisagem. A vida nem sempre nos dá uma segunda chance.

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.