EntreContos

Detox Literário.

A máquina de remoer remorsos (Daniel Reis)

INSTRUÇÕES

Parabéns!

Você é o feliz proprietário de um equipamento extremamente complexo, especialmente projetado para controlar todas as funções básicas e avançadas da sua vida. Antes que você proceda qualquer tentativa de controle e operação da Máquina®, por gentileza efetue a leitura atenta e na íntegra das seguintes instruções. Quando for iniciar sua Máquina®, certifique-se de que já dispõe de conhecimentos suficientes sobre como operá-la e de contar com plena compreensão quanto ao funcionamento de seu frágil mecanismo, uma vez que a manutenção e bom uso estão integralmente condicionados ao perfeito entendimento e aceite das condições/termos gerais constantes no presente documento.

VISÃO GERAL

Após séculos de evolução, o projeto e construção da Máquina® aperfeiçoou-se até atingir na atualidade o mais avançado grau de desenvolvimento, característica demandada por uma geração exposta diariamente a milhares de milhões de estímulos nervosos e disposta a obter uma quantidade cada vez maior deles, atingindo um nível que seria impensável à época de nossos predecessores. O equipamento como um todo opera praticamente por conta própria, realizando diversas rotinas simultâneas sem qualquer interferência ou controle por parte do Usuário. Porém, com toda essa tecnologia à sua disposição, você é capaz de realizar cálculos profundos, decisões assertivas, reações imediatas e tarefas complexas, além daquelas funções antes dependentes de mecanismos rudimentares como os antigos Sistemas de Reflexo e Reação, hoje integrados à estrutura lógica da Máquina®, ainda que pretensamente evoluídos e parcialmente ocultos no Módulo do Instinto. MAS ATENÇÃO: devido à essa característica, a Máquina®  efetua dezenas de operações ocultas em segundo plano, muitas delas indesejadas e no modo automático, não sendo passível de atribuição ao Fabricante®  qualquer responsabilidade por esse tipo de comportamento, característico e individualizado conforme cada equipamento e perfil de Usuário.

DESCRITIVO

Instalada no Sistema Central, a Máquina® assume controle e comando das funções cotidianas, básicas e avançadas, de forma que o Usuário não precise responsabilizar-se por quaisquer decisões adotadas a própria Máquina® faz isso por ele. Por se tratar de um mecanismo bastante complexo e de arquitetura fechada, não serão detalhadas aqui todas as estruturas e componentes envolvidos, apenas o que é essencial à compreensão do seu funcionamento e, em algum nível, que possa ter alguma serventia à sua operação.

A estrutura básica da Máquina® compreende os seguintes Centros Periféricos:

a) Córtex Frontal (fig.1-A, à esquerda): centro de controle e elaboração de planos e projetos abortados.

b) Córtex Motor (fig 1-B, acima): centro responsável pelas idas e vindas, movimentos impensados e tentativas frustradas de avanço.

c) Córtex Parietal (fig. 1-C, à direita, parte superior): centro responsável pelo processamento das emoções desajustadas e das sensações desconfortáveis, bem como pela sua coordenação com as ações e decisões atabalhoadas, sobretudo aquelas adotadas nos momentos mais cruciais.

d) Córtex Occipital (fig. 1-D, à direita, parte inferior): centro especializado na visualização das situações constrangedoras e na percepção de oportunidades perdidas.

e) Córtex Temporal (fig. 1-E, parte inferior): área crítica da Máquina®, onde é realizada  toda a codificação de lembranças, e principal responsável por remoer, sem interrupção, todos os remorsos advindos de experiências e estímulos entregues pelos outros Centros.

EXEMPLOS DE FUNCIONAMENTO E OPERAÇÃO

A Máquina® costuma operar em situações específicas, interpretando dados aleatórios e incentivando ações inopinadas por parte do Usuário.

A título de ilustração, apresentamos alguns exemplos em que a Máquina® realiza sua tarefa mais crítica (a destruição de estruturas da autoconfiança e a produção de arrependimentos):

a) o Usuário detecta, por disparo de estímulo externo ou de sua própria memória virtual, algo deveria ter sido muito importante e não se concretizou, seja por motivos internos ou externos, quase sempre alheios à sua vontade. Uma conquista, realização pessoal, amorosa ou profissional, qualquer sonho não realizado ou sufocado sob camadas e camadas de desculpas. Nesse caso, o mecanismo da Máquina® entra imediatamente em ação, processando de forma contínua as imagens, sons, gostos e sentimentos relacionados à situação inicial, resgatando e/ou alterando a percepção dos arquivos classificados na categoria Frustrações e repetindo a mesma experiência ad nauseam.

b) o Usuário acredita que tomou decisões causadoras de resultados diversos aos esperados, e não encontra outra maneira de reverter as consequências do processo como um todo. Aqui, a Máquina® integra todas as possibilidades não-realizadas às consequências desastrosas obtidas pelas decisões tomadas, amplificando ainda mais a intensidade do processamento de remorsos. Não há descarte apenas a reciclagem desses elementos, em um loop contínuo.

c) o Usuário percebe que deixou de tomar atitudes ou decisões em momentos críticos da sua vida, e essas omissões ocasionam ainda reiteradas sensações de perda ou sofrimento, seja em si, seja aos outros. Nessa rotina, a Máquina® dobra sua velocidade de processamento, repassando o remorso com máxima intensidade a todos os Centros Periféricos. Deve-se isso ao senso comum: “sente-se mais pelo que se deixou de fazer (caso “c”) do que pelo que efetivamente acabou sendo feito (caso “b”, acima)”. Ao longo da operação em análise, a estrutura límbica amplifica o mecanismo de dor mediante retroalimentação contínua, e a Máquina® interpreta que seria preferível pedir desculpas por ter feito algo do que pedir licença para o fazer. Por isso, introduz ainda uma carga adicional de sofrimento ao circuito.

MANUTENÇÃO

De tempos em tempos, a Máquina®  pode exigir um reboot completo, realizado pela reprogramação da Estrutura Límbica e do comportamento emocional do Usuário. Esse procedimento consiste no desligamento programado do Neocórtex, incluindo os lobos frontal, parietal e temporal, quer por meio de eletrochoques, quer pelo uso de interferentes químicos ou físicos. Como alternativa, a privação de sono ou sugestão hipnótica podem ser aplicados numa eventualidade como procedimentos acessórios para ação preventiva e corretiva. ATENÇÃO: não tente realizar quaisquer dessas manobras sozinho, sob risco de dano permanente e irreparável ao frágil mecanismo central da autoestima.

TROUBLESHOOTING

a) A Máquina® não desliga? Aditivos químicos têm sido empregados com relativo sucesso. Todavia, aconselha-se moderação e algum conhecimento farmacológico.

b) A  Máquina® efetua operações bizarras e/ou erráticas? Deve-se avaliar os referidos aditivos químicos empregados quanto à sua quantidade e qualidade.

c) A Máquina® não localiza registro das operações já realizadas ou destrói dados sensíveis? Eventualmente, o funcionamento de parte ou de todo equipamento degrada-se com o passar do tempo e/ou devido ao uso em condições ambientais adversas, sobretudo no núcleo da Unidade de Memória. Recomenda-se realizar o backup periódico de segurança por meio dos processos de escrita ou narrativa oral, de forma a preservar a essência básica dos fatos ou pelo menos a interpretação que se faz deles.

 d) A Máquina® desliga sozinha ou entra no modo de espera? Algumas vezes não se trata de um defeito em si, mas de um mecanismo de autoproteção. Também esse evento pode estar relacionado ao uso dos aditivos citados. Como alternativa, é aconselhável avaliar a conveniência de operar, nesses casos, exclusivamente no modo silencioso.

GARANTIA

Não há.

É simples: aceite isso.

RECOMENDAÇÕES FINAIS

Caso detecte qualquer anomalia, procure a opinião de um especialista. Saiba de antemão que você há de encontrar centenas deles, profissionais ou amadores, todos com suas próprias opiniões e experiências com Máquinas® absolutamente díspares. Você mesmo vai ter de fazer os ajustes necessários, no fim das contas, seja por meio de upgrades adicionais, não incluídos ou inativados, como os Módulos de Esquecimento,das Desculpas ou do Conformismo. Por fim, tenha em mente que toda essa estrutura maravilhosa foi projetada com precisão e absoluta certeza para dar defeito. Mais dia, menos dia, a Máquina® acaba com você.

26 comentários em “A máquina de remoer remorsos (Daniel Reis)

  1. Pingback: Resultados do Desafio “Engrenagens da Criação” | EntreContos

  2. Andrea Nogueira
    21 de março de 2021

    Entrega o tema proposto, mas foge do gênero ‘Conto’. Sem trama e personagens, apenas um narrador oculto, o texto não se enquadra na categoria. Talvez funcione melhor como Crônica.

    Mas mesmo fugindo ao gênero, esse texto ficcional tem uma qualidade acima da média e merece a avaliação de Ótimo’!

    Bem escrito, revela erudição e domínio do assunto e da linguagem dos Manuais.

    Em sua complexidade, o texto traz uma ironia cômica, capaz de descarregar as tensões que por identificação o leitor possa, eventualmente, desenvolver, provocando-lhe um riso, ainda que, amarelo e constrangido.

    Muito criativa na forma e profunda em conteúdo (do literal ao das entrelinhas), a narrativa opta por seguir o formato e a linguagem típicos de um Manual de Instrução.

    O Conto trata da apresentação do lançamento de uma Máquina® que faria as funções cotidianas, básicas e avançadas, do dia a dia do seu usuário, tomando decisões e assumido as responsabilidades por ele. Mas que o leitor* não se engane: a promessa de auxílio de ‘quebra-galho’, na tomada de decisões e na solução de perrengues, tem suas contrapartidas: destruir a autoconfiança e a produção de arrependimentos.

    A mensagem do ‘conto’ é uma crítica caustica e definitiva sobre o Homem moderno e seu atual estágio de inteligência emocional: cada vez mais se revela incapaz de tomar decisões responsáveis, posterga e delega; incapaz de reconhecer e aprender com os próprios erros; incapaz de reverter omissões, ações desastrosas, perpetuando seus insucessos, suas frustrações e dores.

    Assim, faz todo sentido o alerta presente no Manual:
    – O fabricante não dá garantias e nem assume qualquer reponsabilidade por ações ‘desastradas’ do produto. E há uma lógica nisso: a tecnologia, o sistema ‘lógico’ das máquinas é fruto da inteligência humana e criado à sua semelhança. Mas, de forma alguma, substitui seu criador.
    Finalizando esses comentários, uma sugestão: releiam o Conto “AD NAUSEUM” e quem sabe, assim, consigamos aprender alguma coisa com ele.

    (*) público-alvo do produto (a humanidade): ”geração exposta diariamente a milhares de milhões de estímulos nervosos e disposta a obter uma quantidade cada vez maior deles” (qualquer semelhança com essa nossa geração NÃO é mera coincidência!).

  3. Renato Silva
    21 de março de 2021

    Olá, como vai?

    Primeiramente, não serão considerados gosto pessoal e nem adequação ao tema, já que o mesmo passou a ter entendimento extremamente esparso. Para evitar injustiças por não compreender que o autor fez uso dos termos escolhidos, ainda que em sentido figurado, subjetivo, entenderei que todos os contos terão os pontos correspondentes a este quesito.

    A minha avaliação é sob a ótica de um mero leitor, pois não tenho qualquer formação na área. Irei levar em questão aquilo que entendo por “qualidade” da obra como um todo, buscando entender referências, mensagens ocultas e dar algumas sugestões, se achar necessário.

    Agora, meus comentários sobre o seu conto:

    Eu gosto bastante deste tipo de texto. Não sei se encaixa no gênero conto, pois seu formato foge um pouco daquela coisa tradicional de apresentar uma trama, com núcleo único e um clímax para encerrar. Aqui temos, apenas, a descrição de uma máquina incrível e complexa. A analogia não deixa de apresentar grande sarcasmo e sua comparação à uma máquina pode nos fazer refletir sobre o que nos define como seres pensantes, no que nos diferenciamos das máquinas?

    Enfim, ótimo texto. Perfeito domínio do vocabulário utilizado. Parabéns e boa sorte.

  4. Fabio Monteiro
    13 de março de 2021

    Resumo: Corpo humano citado como uma maquina através de mecanismos de ação, funções básicas, funções secundarias, mecanismo de ação voluntario e involuntário. O processo do pensar é detalhado através do sistema nervoso e seu córtex com a finalidade de explicar detalhadamente o que ocorre, como ocorre e efeitos que tais funções podem ter no individuo. Ressaltando que para cada um, a maquina age em conformidade, variando suas funções conforme seu modo de pensar, agir e responder as variações de seu meio.

    Pontos fortes do texto: Autor(a), que sacada genial neste certame abordar o corpo humano citando-o como uma maquina funcionando com engrenagens bem especificas. Como profissional da saúde posso dizer que me encantou tua escrita, levando-me a compreensão de cada frase que dispôs a leitura.

    Pontos fracos: Se tem, não os vi, nem os notei. Teu texto é fabuloso.

    Comentário Geral: Acredito que seja um dos melhores contos que li neste certame. Espero que possa ter cativado os demais. Agradecido pela prazerosa leitura.

    Boa Sorte neste desafio!

  5. Catarina Cunha
    13 de março de 2021

    Criação: O manual de instruções de uma máquina que ninguém compraria se lesse; como a maioria dos manuais de instruções e bulas. Exatamente por isso gostei da forma e conteúdo. Principalmente da pesquisa técnica muito bem incorporada ao humor fino.

    Engrenagem: O título, o melhor do desafio, me ganhou de cara. Embora o começo seja lento e confuso, ( o que pode ser um defeito desta máquina que vos lê), ganha velocidade e profundidade. O leitor é levado para dentro de um complexo processo de autoflagelo. Funcionou.

    Destaque: “Ao longo da operação em análise, a estrutura límbica amplifica o mecanismo de dor mediante retroalimentação contínua, e a Máquina® interpreta que seria preferível pedir desculpas por ter feito algo do que pedir licença para o fazer. Por isso, introduz ainda uma carga adicional de sofrimento ao circuito.” – Ri muito com essa construção técnica. Adorei.

  6. Kelly Hatanaka
    11 de março de 2021

    Gostei muito desse formato de manual, especialmente a parte das “garantias” rsrsrs. Estranho como faz sentido pensar no cérebro como uma máquina de remoer remorsos, como fazem sentido seus componentes, seu funcionamento. Amei!

  7. cgls9
    11 de março de 2021

    Memória RAM, memória ROM, processador, motherboard, toda essa arquitetura é muito similar ao funcionamento do nosso cérebro. Dessa premissa temos o nosso conto. O autor (a) centra as funções da mente com uma visão bastante negativa. Foi feito pra dar defeito… sem dúvida, uma iniciativa original e muito bem desenvolvida. Parabéns e boa sorte!

  8. Eduardo Fernandes
    11 de março de 2021

    Eu comecei a ler o conto com muitas expectativas, porque li vários comentários positivos no fórum, e talvez tenha sido isso que não gosta gostado dele.

    Veja bem, estava a espera de ler um texto que me arrebatasse logo de cara, mas o ele leva muito tempo até entrar no cerne da questão.
    Ter que vencer “INSTRUÇÕES”, “VISÃO GERAL” e “DESCRITIVO” com muita informação que poderia ser pura e simplesmente retirada para deixar o texto mais ágil, também me deixou sem tesão para ler o texto quando cheguei onde ele realmente é bem escrito.

    Não é que o texto seja mau, ele apenas leva muito tempo até “ser bom”.

  9. Bruno Raposa
    6 de março de 2021

    Olá, Da Vintze.

    Achei o texto criativo, inteligente e divertido. Porém, creio que ele ficou por demais engessado pelo formato e ofereceu bem menos do que a ideia poderia.

    Digo isso, antes de mais nada, porque achei a ideia excelente. Fazer do cérebro um produto, com patente e tudo, foi uma ótima sacada. Assim como fazer desse produto uma máquina falha e feita para alimentar – e remoer – remorsos. As descrições das partes e particularidades da máquina são muito inteligentes, com um humor sutil e eficiente. Não há um único escorregão no texto: ele é preciso, afiado, muitíssimo bem escrito e não sai do tom em nenhum momento.

    Como pode ver, só tenho elogios ao conto. O problema é que ele é por demais limitado. Não há personagens, ambientação, enredo, conflito, nada realmente sendo contado. Abrir mão de todos esses elementos parece excessivo. É difícil ter alguma conexão mais forte com o texto. Ele é um manual esperto, bem bolado, mas só.

    Entendo que o limite de palavras não permitia muitos malabarismos, mas havia espaço para trazer um pouco mais de humanidade e identificação. Creio que um personagem interagindo com o manual aqui faria toda a diferença. Existiam várias alternativas para isso, como fazer do manual um programa de instalação, por exemplo, ou trazer alguém tentando consertar um defeito técnico. Não gosto muito de dar esse tipo de sugestão, não tenho a pretensão de definir o que pode ser melhor na escrita de outros, apenas quero apontar que esse elemento realmente fez falta aqui. Ao menos eu assim senti.

    Gostei bastante da última parte, principalmente a alusão aos especialistas. Talvez um desses especialistas fosse bem-vindo numa trama também.

    Enfim, de forma alguma eu diria que o texto é ruim. É escrito com competência e embasado numa ideia realmente interessante. Apenas gostaria de ver essa ideia em ação de uma forma menos fria. Ficou muito… maquinal, rs.

    De toda forma, foi uma boa leitura.

    Abraço.

  10. Andrea Nogueira
    6 de março de 2021

    A máquina que alerta e correção dos ‘erros humanos’ (maus passo, omissões, etc.), que concede uma 2a. chance, mas ao alto preço de punição (dor, remorso, culpa). Essa máquina construída para dar defeito, pede ajustes e cuidados humanos, por isso mesmo dá defeitos e pode levar a auto-destruição. Boa sacada temática e excelente redação – inteligente e sofisticada, sem perder a clareza e sem complicar, foge da chatice e afastamento que têm e provocam os ‘manuais de instrução’. Essa máquina já existe dentro de nós, é só lhe dar espaço para funcionar. Nota de 1 a 5: 5.

  11. Regina Ruth Rincon Caires
    6 de março de 2021

    A máquina de remoer remorsos (Da Vintze)

    Comentário:

    Antes de qualquer coisa, quero parabenizar o autor pela brilhante correção do texto. Um trabalho de mestre. Narrativa completamente limpa, redigida com impecável esmero. Não há nem mesmo uma pontuação incorreta. Parabéns, que lindeza de trabalho!

    O conto é primorosamente construído em formato de manual. Como está em uso dizer, vou definir como um tutorial, um guia para compreender o funcionamento da “máquina” e os cuidados que ela exige.

    Interessante que a máquina, cérebro humano, restringe-se ao cérebro emocional. A engenhoca oferecida não é aquela que define movimentos corporais, nada que comanda a matéria. A máquina cuida do sensorial, do abstrato.

    Apesar da tecnicidade que há num manual, o conto trabalha com o inverso. Nada é técnico. Cada frase está envolta por reflexões filosóficas, fala ao espírito. Um tratado sobre o mundo caótico e delicioso que existe em cada um de nós.

    Algumas das pérolas que encontrei e que me fizeram refletir:

    “”efetua dezenas de operações ocultas em segundo plano, muitas delas indesejadas e no modo automático”

    “controle e elaboração de planos e projetos abortados.”

    “responsável pelas idas e vindas, movimentos impensados e tentativas frustradas de avanço.”

    “processamento das emoções desajustadas e das sensações desconfortáveis, bem como pela sua coordenação com as ações e decisões atabalhoadas, sobretudo aquelas adotadas nos momentos mais cruciais”

    “visualização das situações constrangedoras e na percepção de oportunidades perdidas.”

    “codificação de lembranças, e principal responsável por remoer, sem interrupção, todos os remorsos advindos de experiências e estímulos”

    “(a destruição de estruturas da autoconfiança e a produção de arrependimentos)”

    “integra todas as possibilidades não-realizadas às consequências desastrosas obtidas pelas decisões tomadas, amplificando ainda mais a intensidade do processamento de remorsos. Não há descarte – apenas a reciclagem desses elementos, em um loop contínuo.”

    “interpreta que seria preferível pedir desculpas por ter feito algo do que pedir licença para o fazer”

    “desliga sozinha ou entra no modo de espera? Algumas vezes não se trata de um defeito em si, mas de um mecanismo de autoproteção. Também esse evento pode estar relacionado ao uso dos aditivos citados. Como alternativa, é aconselhável avaliar a conveniência de operar, nesses casos, exclusivamente no modo silencioso.”

    “Mais dia, menos dia, a Máquina® acaba com você.”

    É, Da Vintze, um trabalho primoroso! O pseudônimo deve ser homenagem camuflada ao mestre da pintura, mas, pesquisando, encontrei uma autora canadense com esse sobrenome (Annie Vintze).

    Parabéns, Da Vintze!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  12. Priscila Pereira
    2 de março de 2021

    Olá, Da Vintze!

    Olha… Eu entendi mas não entendi, entende? 😅
    Então, não sei o que comentar…

    Não é um conto (aquelas chatas), eu queria ver personagens usando a máquina e os efeitos e reações, uma história mesmo, mas…

    De qualquer forma, está interessante, bem escrito, original e criativo. Não sei se está dentro do tema… Embora seja sobre uma máquina, não vi as engrenagens… Contudo, podem ser metafóricas… 🤔

    Acho que não consegui alcançar todo o conteúdo do seu texto, Sorry 🥺

    Parabéns pela participação e pelo texto original e enigmático.
    Boa sorte 😘

  13. Jorge Santos
    1 de março de 2021

    Olá. Um remorso que não vou ter de remoer vai ser o remorso de ter lido o seu conto. Se é que na realidade se trata de um conto. Pela estrutura, mais parece um manual de utilização de uma máquina, a mais complexa de todas as máquinas – o nosso cérebro. O texto está feito com uma ironia corrosiva, demonstrando o autor uma experiência literária bastante desenvolvida.
    A adequação ao tema é evidente. A utilização do cérebro como “engrenagem” demonstra criatividade e o texto é lido de um trago. Só peca por não ser conto, mas isso não vai pesar na minha avaliação. Bora lá mudar o nome do grupo para entretextos…

  14. Elisabeth Lorena Alves
    1 de março de 2021

    A máquina de remoer remorsos (Da Vintze)
    Resumo
    O Conto escrito como um manual de uma inovadora máquina, mostra prós e contras da aquisição já efetuada. Apresenta parte por parte, modo de execução, manutenção e garantia – que não há.

    Já disse em outros Desafios aqui no EC que não estou apta psicologicamente para encarar algum contos. E a máquina de remoer remorsos está quase lá. Eu leio e pergunto: isso é um sistema límbico, o sistema neurológico ou eu endoideci e estou a confundir capacete com cérebro.
    Brincadeira à parte, o texto cumpre seu papel de Conto dando tudo de si como deve. segue o tema – engrenagens, obviamente desenvolvido na descrição da Máquina®. Não peca na estrutura, tanto que capricha na narração. No papel de narrador há a figura anônima que parabeniza o feliz proprietário pela aquisição da Máquina® inovadora, no papel de personagem está o “objeto”, o ponto de vista é subjetivo, o enredo está bem construído e marcado e o clímax é o final é o vaticínio inesperado, a máquina não só falha, na verdade, “Mais dia, menos dia, a Máquina® acaba com você.”
    A opinião do narrador é sútil, porém sarcástica: “É simples: aceite isso.” Também é ele quem afirma que a máquina dá defeito, Até este ponto do texto ele vinha dando desculpas técnicas, se e quando der erro a culpa é do usuário: por sobrecarga, por uso indevido, por falta de cuidados essenciais e, por excesso de aditivos químicos, porém nas considerações finais deixa claro sua opinião – “ Por fim, tenha em mente que toda essa estrutura maravilhosa foi projetada com precisão – e absoluta certeza – para dar defeito. e descara o final fatídico: “Mais dia, menos dia, a Máquina® acaba com você.”
    Texto sem erro, fiel a escolha sintática, segue na apresentação da tal Máquina® como se fosse a descoberta da roda. De linguagem técnico-científica, detalha cada pormenor da figura imaginada.
    A escolha da formatação do texto como manual de instruções foi acertadíssima porque ela é a alma do corpo, embora quem observa de fora a veja apenas como estrutural. Aos que não o classificarem como conto, reservo a fala de Yosef Rodrigues:
    “ O original, para muitos, é uma roleta russa, uma ameaça, um mal que se suspeita, um prenúncio a abater.” (Yosef Rodrigues).

    Se fosse necessário apresentar uma utilidade social, o presente Conto cumpriria bem este papel pois apresenta funções de metalinguagem quando ensina como realizar os cuidados de segurança periódicos, orientando o uso de “ processos de escrita ou narrativa oral” e salienta que esses procedimentos têm a função “ preservar a essência básica dos fatos ou pelo menos a interpretação que se faz deles” – funções essas de fundo social e de higiene mental necessárias para o equilíbrio da Sociedade.

    Por último, porém não menos importante, a parte do texto que orienta o cuidado e fala da necessidade de autoproteção me leva a outro texto: “”Esconder-se no porão, de vez em quando, é necessidade vital. Precisamos de silêncio e solidão, e, não, apenas os poetas. Senão, corremos o perigo de nos esvairmos em som, fúria e esterilidade. O campo para que a palavra se instale para o autor e para o leitor é o campo do silêncio e da audição.”- Adélia Prado

  15. Anderson Prado
    28 de fevereiro de 2021

    Conto experimental, revelador de criatividade, inventividade, inteligência e senso de humor. Daqueles textos que obrigam a um “como foi que não pensei nisso?”! A falta de enredo não prejudicou o interesse pelo conto, que está escrito com pleno domínio técnico. Obra de escritor maduro, cioso da qualidade de seu próprio trabalho.

  16. Felipe Lomar
    27 de fevereiro de 2021

    cara, esse conto me deu gatilho. kkkkkk
    Brincadeiras a parte, eu gostei muito do humor e do sarcasmo. me tirou algumas risadas. Também é bem interessante ter usado um conceito de “engrenagem” tão distante do trivial. mas a falta de uma narrativa me faz questionar se esse texto pode ser mesmo considerado um conto. Não saberia definir com exatidão a que gênero ele pertence. Isso não é uma crítica negativa, somente uma observação. o texto é muito inteligente. Eu diria que parece que foi escrito pelo Jô Soares, tamanha a noção de humor que a escrita traz

  17. Fernando Dias Cyrino
    27 de fevereiro de 2021

    Olá, Da Vintze, cara que viagem você faz com a sua Máquina. Começo pelo nome da sua história. Achei-o excelente. Somos realmente uma grande e complexa máquina de, dentre outras coisas, remoer remorsos, não é mesmo? Conto-lhe, Da Vintze, que gostei muito, bastante mesmo da sua história. A fina ironia de considerar o corpo humano como a tal máquina. Aliás, por falar em ironia achei fantástico você colocar o símbolo da marca registrada no fabricante. Nos problemas possíveis da máquina achei ótimo ter dito que aditivos químicos têm sido usados para desligar a máquina, só que é preciso moderação e mesmo conhecimento farmacológico. Confesso que me fez rir bem o seu conto. Criatividade excelente, uma narrativa diferente, feita ao modo de uma espécie de manual de instruções. Você escreve bastante bem e passa um humor sutil e mesmo cheio de ironia como disse acima. O ser humano e seus conflitos, uma hora tudo se acaba. Você retrata muito bem isto. Ou seria eu que viajo na maionese a partir do que me escreve. Bem, a obra é aberta e a interpretação fica por conta do leitor, não é? Sobre o seu uso do latim acho que seria mais apropriado dizer ad nauseam. No inglês também senti que sobrou (problema de digitação) um a em troubleshooting. No mais lhe desejo boa sorte no desafio e lhe dou os parabéns pela sua bela narrativa.

    • danielreis1973
      22 de março de 2021

      Obrigado, bem apontadas correções. Bruno Raposa já está me socorrendo… Abs!!

  18. angst447
    26 de fevereiro de 2021

    Conto muito bem escrito, ideia elaborada com precisão de um manual técnico. A princípio, a expectativa de ler instruções de uso e manutenção de uma máquina pareceu-me uma tarefa aborrecida. Não que tenha sido uma aventura divertida, mas sem dúvida, o autor demonstrou grande habilidade com o manejo das palavras e criatividade ímpar.
    O ritmo é aquele mesmo da leitura de uma bula, de uma manual burocrático, sem grandes entraves, mas também sem uma fluidez agradável. E não poderia ser diferente, pois destoaria do panorama traçado pelo autor.
    Não encontrei falhas na sua revisão. A máquina falha, mas a sua revisão pareceu-me impecável.
    A ideia é boa, não diria original, mas bem executada como um todo. Linguagem clara, limpa, objetiva como convém ao tipo de texto proposto. O tema do desafio foi abordado com sucesso.
    Que a minha máquina não tenha de remoer muitos remorsos depois de avaliar esse conto. Meu cérebro já sofre com o desgaste do tempo, embora ainda apresente espaço para novas memórias.
    Boa sorte.

  19. opedropaulo
    23 de fevereiro de 2021

    Gostei da ideia, uma exploração das “engrenagens” do cérebro, aqui uma máquina de ansiedade, insegurança e autossabotagem. Implico, entretanto, com o fato de que não há estória nenhuma sendo contada, mas o livre desenvolvimento de uma ideia a partir da sátira de um manual de instruções. Por não conter narrativa, o texto acaba perdendo força e apelo dentro do certame.

    Boa sorte!

  20. Luciana Merley
    23 de fevereiro de 2021

    A Máquina de Remoer Remorsos

    Olá, autor.
    Noutro dia escutei uma reflexão que fez muito sentido: “a hipocrisia, o cinismo, são condições para a convivência?” Sim, penso ser a resposta, porque ninguém sobreviveria num mundo em que todos dissessem tudo o que pensam e fizessem tudo o que querem. Seu texto me lembrou disso, por trazer a questão do “mecanismo” inconsciente de autopreservação de um modo tão inusitado e inteligente.

    Critério de avaliação CRI (Coesão, Ritmo e Impacto):

    Coesão – Um texto monumental em vários sentidos, que delimita a “grande máquina” humana em uma de suas funções primordiais: os mecanismos de regulação e autopreservação emocional. Toda a engrenagem do texto, muito bem elaborado e criativo, nos joga nesse mesmo ponto, tão paradoxal e comum a todos os seres humanos com as funções da consciência preservadas.

    Ritmo – A construção do texto, intercalando termos mecânicos, técnicos, com descrições de emoções e sensações, foi muito bem-feita de modo a não causar estranhezas ou entraves na leitura. Muito intenso, denso em informações, ainda assim fluido. Genial. Rápido, quase como uma sinapse e profundo como a sensação de arrependimento.

    Impacto – Um espetáculo para mim. Um texto inteligente, na forma e no conteúdo. Desapegado de preconcepções sociológicas que tendem a amenizar o bicho homem, ou seja, que aponta a flexa para a natureza humana caída e atira sem dó. Melhor, que traz o diagnóstico inicial, irreversível, a não ser pela destruição da própria máquina. As sutilezas com relação ao remorso, esse sentimento tão amargo e difícil de digerir, foram construídas de forma sensível numa estrutura de texto mecânico. Habilidade linguística de sobra. Acho que a brincadeira que você fez quando descreveu os córtex te fará perder alguns pontinhos com um pessoal menos dado a contrariedades, mas….foi engraçado.
    Tenho uma sugestão apenas: achei a última frase dispensável, fechadora demais. Se terminasse com a palavra “defeito”, estaria perfeito.

    Parabéns, autor. Leva meu primeiro 10.

  21. Fheluany Nogueira
    22 de fevereiro de 2021

    O texto é estruturado como um manual de instruções, um folheto que ensina a operar a mente, como se fosse um software ou uma ferramenta. Organizado em itens típicos deste tipo de material, cada parte explicada detalhadamente com muito cuidado.

    Assim, um texto experimental que trabalha com as engrenagens do cérebro, relacionando-o ao comportamento emocional e ao poder de criar situações. Traz alguns termos técnicos e, de certa forma, é uma sátira, desde o título. Talvez, humor negro.

    Um conto capaz de divertir o leitor, e, ao mesmo tempo, fazê-lo refletir. Muito criativo. Se não tem o encantamento esperado, é sem dúvida um texto marcante.

    Enfim, uma ótima experiência de leitura. Parabéns, sorte no desafio. Um abraço.

  22. thiagocastrosouza
    22 de fevereiro de 2021

    Caro Leonardo, que texto maneiro!

    Me lembrou o vencedor do desafio experimental. Seu conto é exercício literário puro e do bom, de brincar com gêneros inusitados ( tive uma experiência em elaborar um conto em cima de um obituário) e criar histórias em cima deles. Acho que depois da vila de remédio e contrato imobiliário, manual de instruções são extremamente pedantes, apesar de necessários, e você conseguiu deixá-lo interessante até o final. Metamorfosear o cérebro numa máquina de remoer remorsos, como algo que não tem como fugir, cai como uma luva no tema proposto. Apesar de não ter um conto com conflito, personagem, começo meio e fim, toda a criatividade e cuidado para descrever a forma humana e como lidamos com nossas frustrações funcionaram muito bem.

    Parabéns!

    Grande abraço!

  23. antoniosbatista
    22 de fevereiro de 2021

    O conto usa de ironia sobre certas tecnologias. Não deu para saber que tipo de máquina é, mas provavelmente um capacete tecnológico que influi nos sentimentos do usuário. Máquina no sentido literal. Robô não é, porque tal máquina precisa, e deve obedecer às 3 leis da robótica; 1°- um robô não pode ferir um humano, ou permitir que um humano sofra algum mal. 2°- os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto no caso de tais ordens entre em conflito com a primeira lei. 3°- um robô deve proteger sua existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores.

    Então, a máquina do conto não deve ser um aparelho robotizado. Um produto químico, pílula poderia também, fazer o mesmo. Um remédio que cura e também provoca efeitos colaterais. Talvez nano-robôs injetados nos vasos sanguíneos, mas isso já é material para outra história.

    “Mais dia, menos dia, acaba com você”, finaliza o manual de instruções. A pessoa teria que ter muita coragem, ou estar desesperada para usar uma máquina dessas, com o risco de morrer. Ficou meio contraditório isso. O argumento é bom, a ideia bem desenvolvida, texto bem escrito. Tem várias interpretações, algo difícil de evitar.

  24. Rubem Cabral
    22 de fevereiro de 2021

    Olá, Da Vintze.

    Resumo do conto: trata-se de uma abordagem humorística ao funcionanmento do cérebro; muitas vezes mais uma máquina que fica a processar vergonhas e picuinhas quando tentamos dormir, por exemplo, do que algo que nos faça tomar as atitudes mais sensatas.

    Análise do conto:

    O texto não é um conto a priori, pois carece de introdução, desenvolvimento, clímax e conclusão. Idem para personagens. Ao invés, emula um manual técnico de algum aparelho eletrônico, brincando com o que é típico desse tipo de material. O texto é bem escrito e agradável de ler, tem bom ritmo também.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

  25. Ronaldo Brito Roque
    22 de fevereiro de 2021

    Resumo: Apresenta-se o manual e as operações básicas da Máquina de Remover Remorsos.

    Crítica: Não se trata de um conto mas de um texto bem escrito em gênero inovador, internamente coerente e divertido, simulando um manual de instruções. Faltou apenas descrever como a máquina opera o processo criativo, que é o tema deste desavio. Houve, portanto, desvio do tema principal.

    Nota (0 a 10): 6

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Informação

Publicado às 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação e marcado .