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Detox Literário.

A Presença de Meu Pai – Conto (Angelo Rodrigues)

Ao se entrar na casa daquele que acabou de morrer, é palpável o sentimento de estar próximo a uma companhia densa e silenciosa. Assim eu me sentia ao retornar a casa de meu pai: podia senti-lo pelos cômodos que percorria, nos móveis em que tocava, nas portas que o revelavam quando se abriam, todas as vezes, como se em tudo houvesse o prazer de uma impossível surpresa. Sua presença era adensada por lembranças tão vívidas que me faziam atravessar o tempo, desde a infância até aquele momento, no esplendor de um instante tão doce quanto melancólico. Por onde ainda andaria meu pai naquela casa?

Era um homem alto, magro, vigoroso, que se curvara sob o peso dos anos. Tinha o rosto consumido pelos dias, tomado pelas lembranças de uma ausência que aos poucos o demolia, vivendo a tristeza de irreconciliáveis saudades.

Em seu quarto um chapéu Fedora permanecia imóvel e pronto sobre um cabide, à espera de que, a qualquer momento, ele pudesse voltar a usá-lo em um passeio com mamãe nos jardins de nossa casa. Seus sapatos sempre limpos e escovados repousavam ao lado de sua cama, a bengala com castão prateado, o pente, a escova, a tesoura longa e fina que deixava uma linha perfeita em seu bigode. Todas as suas coisas ainda estavam lá, como se aguardassem o toque de suas mãos para renascerem. A poltrona onde se sentava para ler, guardava suas marcas, seu peso, sua forma, seu cheiro, que me pareceu ainda mais intenso quando percebi que chegava das lembranças que guardo dele. Sobre o criado-mudo permanecia a foto de mamãe ao seu lado, inseparáveis, como sempre quiseram atravessar a vida.

A casa continuava como se tudo que havia nela o aguardasse retornar, firme na certeza irrefutável de um retorno, desejando a perpetuidade da sua presença.

Deixou-nos quando quis o tempo que o levou, tirado deste mundo porque aqui, antes dele, morrera a sua alegria. Completara noventa e dois anos havia poucos meses. Não o abateram as doenças que drenam a vida ou algum mal que chega súbito, surpreende e põe sobre tudo a sombra da desesperança. Estava ainda firme, embora com a alma resumida a uma saudade imensa deixada por mamãe. Levou-o a solidão que experimentou; a fulminante melancolia.

Apagou-se como se apagam as velas quando o lume fraqueja, deixando no lugar a insuperável escuridão. Não tinha mais motivos para iluminar uma outra luz, uma vida que habitara com ele este mundo, e por tantos anos.

Na grande sala, luzes vindas da claraboia deixavam suspensas no ar partículas luminosas, grãos dourados que flutuavam no vazio respondendo às ondas que chegavam do movimento do meu corpo, e encarnavam no espaço silencioso a figura sólida de meu pai. Tudo ali o refletia e ecoava a sua presença. Sua imagem percorria espaços, paredes, móveis, os objetos que amava. Tudo o solidificava diante dos meus olhos, na poeira dourada, na luz que preenchia aquele imenso vazio.

Entre a tristeza por invadir um ambiente tão pessoal e a enorme saudade que tinha dele, inventariava objetos, saudades, aquilo que levaria dali para ficar eternamente comigo; partes de sua vida, quase todas as partes de mim, impregnadas em cada um dos objetos, impregnadas de sua alma.

Numa das gavetas de seu armário encontrei uma caixa de couro escuro e me lembrei de sua flauta de dois pedaços, um pouco maior do que um pífaro, onde meu pai só tocava uma única música, aquela que havia aprendido para me entreter, ou talvez fosse ela inventada toda vez que era tocava. Entre risos e brincadeiras, me fez ganhar uma infância maravilhosa, embalada pelas notas claudicantes que tirava daquele instrumento.

A caixa estava vazia, habitada apenas pelas marcas da sua forma e do seu peso sobre o feltro negro. Por onde ela andaria?

Comecei outra vez a ouvir aquela música, claudicante e linda, a mesma música que ele sempre tocou para mim, e aquele som voltou a encher novamente a casa, e me trouxe ainda mais de saudades de meu pai.

11 comentários em “A Presença de Meu Pai – Conto (Angelo Rodrigues)

  1. angst447
    8 de fevereiro de 2021

    Uma narrativa muito sensível, construída com a delicadeza de lembranças queridas. Cada detalhe descrito como marca daquele que se foi, mas de certa forma, ficou para sempre. Dá para sentir o envolvimento amoroso de pai e filho, o narrador transborda emoção e beleza através de palavras tão bem escolhidas. Parabéns.

  2. Anderson Prado
    7 de fevereiro de 2021

    É um conto que enternece e que, em mim, despertou um certo receio de um futuro em que os que amo não estarão mais por aqui e, mesmo, receio de um tempo em que eu mesmo não estarei mais por aqui e de se e como serei lembrado! Belo trabalho, Ângelo! Parabéns!

  3. Leda Spenassatto
    5 de fevereiro de 2021

    Socooorrro,?
    Hoje, 03 anos que meu pai partiu, 04 depois da minha mãe.
    Com 93 anos e sem doença alguma.

    Tudo nesse conto descreve meu querido velho. A pasta de couro (que está comigo) onde quardava seus documentos a solidão e a tristeza que joravam de seu olhar.

    Obrigada por

  4. Fabio D'Oliveira
    5 de fevereiro de 2021

    O ser humano é incrível. Você parece ser uma pessoa bem racional, mas, em seus textos, você explora bastante o lado emocional do personagens. Sempre parece que há um toque de poesia na escrita, não sei se isso é na estética, mas, arrisco, diria que está na forma como expressa os sentimentos do personagem. Talvez seja a essência do texto. Não sei mesmo, é apenas uma sensação que tenho. É uma zona comum, sim, mas válido, pois o amor,a tristeza e a saudade são universais e acho até benéfico enxergamos essas coisas nas suas mais variadas formas.

  5. Shay Soares
    4 de fevereiro de 2021

    Que calma ler esse texto. Muito obrigada, Angelo

  6. Regina Ruth Rincon Caires
    4 de fevereiro de 2021

    Bruno Raposa, socorro!!! Tem a ver… É o TOC…

  7. Ronaldo
    3 de fevereiro de 2021

    O que isso tem haver com processo criativo ou criação?

    • Bruno Raposa
      3 de fevereiro de 2021

      Esse ainda não é um texto do desafio, Ronaldo. Os contos do desafio serão lançados, juntos, no dia 21, conforme o regulamento.

      • Ronaldo
        3 de fevereiro de 2021

        Ah, tá. Obrigado.

  8. Cilas Medi
    3 de fevereiro de 2021

    Um lugar comum, a morte, a melancolia, a saudades e as lembranças, mas descrita e escrita de uma maneira singela, amorosa, gentil e de esperança. Ao ouvir a música o encanto permaneceu, o respeito prevaleceu e a saudade foi amenizada. Parabéns!

  9. Thiago de Castro
    3 de fevereiro de 2021

    Uma homenagem ao pai. Um desabafo de gratidão. Gostei de me deparar com este conto pela manhã, honesto e direto que, de certa forma, assombra aqueles que ainda possuem por perto os entes queridos e, ao mesmo tempo, acalanta com a forma que o personagem encara a partida do pai. Objetos, gestos e cômodos carregam as lembranças e vestígios dessas presenças em vida, nos atravessando com memórias.

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Informação

Publicado às 3 de fevereiro de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .