EntreContos

Detox Literário.

Livro de Graça na Praça – Conto (Anderson Prado)

A vida vinha bem, até que me cruzou o caminho a aposentadoria. A frase é boa, mas não faz inteira justiça. Antes de uma coisa, sempre vem outra. É a cadeia infinita dos antecedentes e dos consequentes. Antes da aposentadoria, vieram as doenças. Antes das doenças, vieram os filhos. Como uma coisa puxa a outra, fiquei doente, meus filhos descobriram, e palavrearam minha paciência até me obrigarem a me meter na fila de velhos da porta do instituto de previdência. Trinta dias depois, minha inutilidade para o trabalho estava atestada e o pecúlio da aposentadoria depositado na conta.

No primeiro dia, o relógio de dentro, o biológico, manteve-me madrugador: antes das seis, estava de pé. Sem outra coisa para fazer, fiz o de sempre: banho rejuvenescedor, gilete nos pelos do rosto, loção refrescante e, por fim, o gancho do cabide de minha roupa, que, para início de meus diários infortúnios, não estava ali, evidenciando que a velha, esposa minha, aposentara-se da tarefa de aprontar-me os trajes do dia. Contrariado, tornei a vestir o pijama e rumei para o café preto e pão com manteiga do meu matinal. Trajado em listras verticais de cores alternadas, mantive-me consternado de cara em permanente protesto contra a soma de minhas indignidades: inválido e mal trajado.

No dia seguinte, a velha, senhora de mediúnicos poderes, cônscia já de meu mudo protesto do dia anterior, providenciou para que a calça e a camisa me aguardassem no após a toalete, penduradas pelo cabide no mesmo gancho que há mais de trinta anos me servia. Restituído à honorabilidade de que me julgava merecedor, foi com outro gosto e outro garbo que mastiguei o pão com manteiga regado a café preto. Asseado os dentes e gargarejado o hálito, julguei boa a hora para deixar a casa, sem destino embora, já que a aposentadoria precoce me livrara do ponto no setor de contabilidade da firma. Ao “onde você vai?” da velha, ruminei um “dar uma volta”, e saí sem rumo.

Gosto de supor que, depois que saí, minha velha esposa se colocou à janela para, atormentada, vigiar meus passos e aguardar meu regresso – é dessas ilusões que se alimenta um amor solidificado pelo convívio. Porém, no inconsciente das verdades sonegadas, eu suspeitava na velha os mesmos sentimentos que encontrava em mim: uma indiferente segurança de um regresso que é certo – uma incapacidade de partir retroalimentada pela necessidade de voltar, ser que já não sabe ser sem o outro. Na rua, eu, aferroado à escolha da verdade mais cômoda, segui resoluto e iludido de que um par de olhos espreitava meu destino vadio.

Sem a vigilância da mulher e sem os rigores do ponto, flagrei-me desvirginando caminhos: descobri que, seguindo por ali, saía aqui e, dobrando aqui, saía ali. Rejuvenescido, defrontei-me com um mundo enorme de um tempo imenso que eu tinha que preencher. De tanto vagar em duas horas de dia que mal amanhecia, fui tomado de assombro pela constatação de que o mundo era do tamanho do tempo que se tem para ele. Em trinta e cinco anos indo e voltando rigorosamente nos mesmos horários e pelos mesmos caminhos, entediei-me de um bairro que era apenas segue reto pela rua de casa, dobra à direita no mercadinho, aguarda um tempo pelo coletivo, estende o dedo ao ônibus e desce à porta da firma. Ao fim da tarde, a mesma coisa, mas no invertido.

A aposentadoria, que começara mal, com doenças, fila de velhos e pijama de listras, revelava novos interesses. Mapeei as dobraduras de ruas e os cruzamentos de vias, pontuei casas e prédios, e me surpreendi com utilidades e necessidades esquecidas: sapateiros, ainda os havia; alfaiates, de alguma maneira ainda existiam; e jornaleiros, por céus, sustinham bancas às esquinas. Perscrutei os sapatos, conferi as bainhas das roupas e resgatei umas moedas para um jornal qualquer, escolhido assim, a dedo e pela capa: “qual?”, “aquele”, “este?”, “sim, esse mesmo”. Troquei o jornal pelas moedas, prometi-me encontrar uns sapatos velhos e umas peças desembainhadas de roupas para trazer aos respectivos reparos, e parti, já cansado das andanças, rumo a um banco de praça.

Do mapa que desenhara há pouco, colhi uma praça e tracei uma rota. Duas esquinas e um tanto de reta depois, sentei num canto sombreado e comecei o folheio do noticioso. Do que já conhecia, li apenas as manchetes. Não que eu tivesse hábito de ler jornal – muito pelo contrário, foi com susto e com pasmo que redescobri a sobrevida dos bravos jornaleiros do entorno –, no entanto, de política, economia, esportes e tragédias, eu estava saturado pelos noticiários da televisão. Assim, em meio à profusão de páginas e à inundação de palavras, salvei umas crônicas, umas notas de cultura e, onde mais me demorei, poupei do esquecimento umas palavras cruzadas ladeadas de uma coluna social de gosto duvidoso.

Os anos de contador deixaram heranças. Como o espólio não é feito só de créditos, mas também de débitos, ficou-me, destes últimos, as doenças que me obrigaram à aposentadoria e uma sovinice matemática e centaveira. Dos créditos, que não foram muitos, ficou-me o prestimoso e oportuno hábito de ter sempre ao bolso, avizinhados, uma caneta e um lápis. A bem da precisão – aliás, também matemática –, o lápis fora substituído, de há muito, pela lapiseira, tudo para me livrar do inconveniente de ter comigo, também, apontador e borracha. A juventude é sempre muito solícita, sobretudo para zombar: foi um dos contadores mais jovens da firma que me apresentou a revolucionária lapiseira e sua ponta não apontável com seu outro lado emborrachado, rejeitando, por ultrapassado, os até então funcionais lápis, apontador e borracha.

Enfim, munido de jornal e caneta, e sentado ao canto sombreado da praça, iniciei a cruzadinha. Antes da caneta, tentei a lapiseira e, para consternação dos centavos que gastara com o jornal, furei a folha. Enfurecido, pensei mesmo em pôr fora a lapiseira, mas, por amor à caneta, poupei a companheira de bolso, decidindo apenas trocar o instrumento de escrita. Vencidas essas ingratas dificuldades iniciais, concentrei-me na cruzadinha, franzindo os sobrolhos, conforme melhor convém para esforços mentais árduos. Horas há, nesses momentos de hercúleos esforços, em que não podemos ser interrompidos. Mas é justamente em momentos desses que se nos interrompem: no extremo da praça, uma mesa de velhos se reuniu para gritar “truco!”, “seis!”, “nove!”, “doze!”, numa matemática de doido.

Tabuada assim, ao grito e no meio da praça, é desses inusitados que nenhuma boa-maneira ou discrição me ensinaram a ignorar. Dobrei o jornal tão bem quanto pude, guardei a caneta no bolso e escamoteei até o entorno da mesa dos velhos. Por umas duas horas, acompanhei sucessivas partidas e, detetivesco, adivinhei, uma a uma, as regras do carteado, tornando-me perito naquela tabuada louca de trucos, de seis, de noves e de dozes. Quando o jogo acabou, dúzias de velhos se dispersaram e, no meio deles, achei-me tão velho quanto eu era. Entrosados como estavam, os velhos pareciam uma turma, à qual soou-me de todo razoável juntar-me.

No dia seguinte, percorrendo menos ruas e menos bancas, cheguei à praça um pouco mais cedo, antes ainda que o quarteto de velhos terminasse de se formar nas quatro mesas da praça. O “vai jogar?” me concedeu espaço no quarteto final e, depois daquele momento, os que chegassem apenas assistiriam, jogando somente se algum dos velhos abandonasse em meio as eufóricas disputas. Não demorou muito, tornei-me tão bom ou tão mau jogador quanto qualquer outro, ganhando feijões a uns dias e perdendo em outros. As duplas e quartetos nunca eram os mesmos, e nem sempre os mesmos jogadores encontravam lugar a uma das quatro mesas. Dias havia em que eu, por exemplo, apenas expectava, pagando o preço de minha chegada tardia à praça. Ainda numa das primeiras manhãs na praça, descobri que as partidas se repetiam ao fim da tarde, indo para casa, ao meio do dia, aquela cambada de velhos, apenas para almoçar e sestar.

Manhãs e tardes se multiplicaram todas iguais. Fizesse sol, fizesse nublado, já que apenas a chuva era proibitiva, eu me reunia aos velhos para gritar os múltiplos de três das alvoroçadas partidas de carteado. Nessa rotina azarenta, disputando feijões a grito, quase não percebi a instalação, a um canto da praça, do que me pareceu uma caixa de correio, casa de passarinho ou coisa que o valhesse. Quando as partidas de uma certa manhã acabaram, aproximei-me do novo adorno e, visto assim de perto, afastei para longe a possibilidade de se tratar de uma caixa de correio ou casa de passarinho.

Visto de perto, o novo adorno me despertou devoção com suas duas portinhas de uma espécie estranha de oratório rústico. Num lanço, acerquei-me do arredor e me assegurei contra os olhares alheios. Entregue à solidão dos velhos que iam longe, escancarei as portinholas e, no lugar da imagem de santo que esperava encontrar, deparei-me com cerca de uma dúzia de livros enfileirados – coisa aliás muito estranha para se ter assim, abandonado no meio da praça. Nessas horas, o cérebro sai à caça de óbvios absurdos: procurei, nas casas ao redor, os olhos do dono daqueles volumes armazenados em oratório.

Até aquele momento, nunca fora homem de mexer no alheio, mas, de uns tempos para cá, vinha me tornando senhor de uns tantos absurdos. Em casa, minha velha mal me reconhecia. Cochichava, ao telefone, com meus filhos. Ela e eles especulavam sobre minhas constantes ausências e vadiagens. Tanto falaram, tanto cochicharam, que acabaram por tornar banal meus inusitados e, quando tudo finalmente se acomodara, voltei para casa com um encadernado sob o braço e, depois do almoço, troquei a sesta e até mesmo o carteado da tarde pela poltrona e pelo livro, cujas páginas virava a intervalos regulares. Também a intervalos regulares, minha mulher cruzava o corredor para vigiar através do vão da porta minha súbita ruptura de rotina. Ao fim daquele mesmo dia, depois de uma tarde inteira e de um pedaço de adiantado de noite, terminei a leitura e, tomado de pasmo, fui dormir ainda envolto pelo arrebatador destino daquela gente de sonhos que habitava as páginas do livro.

Na manhã seguinte, cheguei à praça cedo bastante para evitar os velhos do carteado. Devolvi o livro ao oratório, apossei-me de outro e, sorrateiro, fugi para casa com o produto desse segundo crime. Três dias depois, facínora, tornei ao oratório para promover mais uma devolução e mais um roubo. Teria permanecido nessa minha vida de crimes, não fosse meu neto avisar que o oratório nada mais era que livro de graça na praça: bastava escolher um volume, ler e, depois, devolver ao lugar; caso possível, e caso quisesse, eu mesmo poderia doar livros para o projeto. Desde então, tornei-me um compulsivo criminoso desses roubos impossíveis de livros sem donos. Minha aposentadoria agora é viajar todo dia, com lugar sempre reservado à poltrona da sala.

6 comentários em “Livro de Graça na Praça – Conto (Anderson Prado)

  1. thiagocastrosouza
    10 de março de 2021

    Anderson e seus velhos! Belo texto amigo, sobre descobertas que, mesmo tardias, tornam a vida mais bela do que jamais foi. Me lembrei de um conto chamado Viagem aos Seios de Duília, de Aníbal Machado, que trata também desse vazio pós aposentadoria.

    Imagino se essa praça é a mesma reformada pelo outro velho do seu livro de contos. Quem sabe a ideia da caixa não tenha partido do menino?

    Grande abraço!

    • Anderson Prado
      11 de março de 2021

      Obrigado pelo carinho da leitura e comentário, Thiago! Você é D+!!!

  2. Anderson Prado
    20 de janeiro de 2021

    Obrigado pela leitura atenta e pelos apontamentos, Leandro! 😍😍😍

  3. Leda
    19 de janeiro de 2021

    Meu Joãozinho!
    Como pode algumas pessoas ficarem bisbilhotando coisas bobas num texto tão real.
    Não há pronome de mais ou de menos que tire a elegância do seu conto.
    Viajei , fui para os confins da aposentadoria e, ao primeiro momento sofri, depois surtei.

    Adddoooreeeiiii
    Parabéns!
    Nota mil e um .

    • Anderson Prado
      20 de janeiro de 2021

      Obrigado pela leitura e pelo carinho, Leda! 😊😊😊

  4. Euler d'Eugênia
    18 de janeiro de 2021

    Gosto do jeito que escreve, é com reminiscências sentimentais, a leitura pesa em releituras da vida, de significado, de conexão. Eu me senti velho, pensando sobre a minha aposentadoria, ressignificando o trabalho, o banco dos velhinhos, até a proposta da leitura (no incentivo da mesma ser simples, só oratório rústico com duas portinhas, já basta! Rs!). Trabalha-se muitos conceitos de maneira fluída, e dando estalos reflexivos no leitor. Transpassa a conexão que tem com o escrito, a história realmente é vivida, revivida pelo leitor. Tem uma belíssima prosa.
    Sua escrita brilha, vou apontar alguns lances que em nada tiram a fulgência dela. Usou a primeira pessoa, acho-a um desafio, pois, além da exposição, deve tomar-se cuidado com o reforço de si, vide:
    “ficou-me, destes últimos, as doenças que me obrigaram à aposentadoria”, aqui como em outros pontos, vi excesso no uso do pronome, a narrativa já é em primeira pessoa e acabou que reforçou muito com o uso do ‘me’. Creio eu que já está inerente tratar de si, logo nem usaria o pronome em alguns casos, logo tomo a liberdade da sugestão: “ficou, destes últimos, as doenças que me obrigaram à aposentadoria” (tirei um pronome, e o sentido ficou intacto), ou “ficou, destes últimos, as doenças e a aposentadoria” (tirei os dois, reduzi a frase e com o significado inerente, pois as doenças em conjunto com a aposentadoria, valida a existência da doença e vice-versa).
    Pronomes: ‘tarefa de aprontar-me’ (apesar do infinitivo, é próclise devido à preferência/preposição), ‘prédios, e me surpreendi’, ‘arredor e me assegurei’ (é ênclise devido a oração coordenada), ‘vinha me tornando’ (é ênclise devido o gerúndio).
    Repetição: um pouco além da conta de ‘mas’ e do ‘como’. E do uso do que ‘e’, separei aqui pra você notar (só com a vírgula já resolve, pois a maioria dos trechos está em gradação): “A aposentadoria, que começara mal, com doenças, fila de velhos e pijama de listras, revelava novos interesses. Mapeei as dobraduras de ruas e os cruzamentos de vias, pontuei casas e prédios, e me surpreendi com utilidades e necessidades esquecidas: sapateiros, ainda os havia; alfaiates, de alguma maneira ainda existiam; e jornaleiros, por céus, sustinham bancas às esquinas. Perscrutei os sapatos, conferi as bainhas das roupas e resgatei umas moedas para um jornal qualquer, escolhido assim, a dedo e pela capa: “qual?”, “aquele”, “este?”, “sim, esse mesmo”. Troquei o jornal pelas moedas, prometi-me encontrar uns sapatos velhos e umas peças desembainhadas de roupas para trazer aos respectivos reparos, e parti, já cansado das andanças, rumo a um banco de praça”.

    Sou seu leitor e apreciador, realmente curti seu estilo, sua ressignificação da simplicidade e o jeito sentimentalista que conduz a prosa e reconduz o leitor. Espero um livro seu, se já o tem, fale-me donde, comprarei de olhos fechados! Parabéns!

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Publicado às 18 de janeiro de 2021 por em Contos Off-Desafio e marcado .