EntreContos

Detox Literário.

A louca e o mar (José de Nazaré)

Num gesto sentido, Nazaré deixa as sandálias de madeira na areia. A praia vazia de gente é fustigada por um vento forte de noroeste. Um ano antes, o vento também soprava assim, anunciando tempestade. Nessa altura, Nazaré tinha tudo. Uma felicidade contida e sofrida, a cuidar dos três filhos enquanto Sidónio ia para a faina da sardinha. Ela queria ter nascido homem para ir também para o mar. Ela, que Deus teimou em não deixar nascer. 

Maria, a sua mãe, contara-lhe vezes sem conta a história do seu nascimento. Nazaré veio ao mundo num pequeno aglomerado de tábuas ao qual só alguém com muita imaginação chamaria de casa. Foi num dia de tempestade. O vento parecia querer deitar abaixo as paredes enquanto Maria berrava de dor. A avó Isilda, que tinha fama de parteira, tentou tudo o que podia e sabia, mas Nazaré parecia contrariada e mostrava já a sua teimosia, querendo prolongar o seu confinamento no útero de Maria, que estava no limite das suas forças. O seu rosto lívido, quase exangue, alertou Isilda. Ajoelhou-se, pegou no terço e rezou, pedindo a Deus que a levasse a ela e deixasse a sua filha e a neta viver. Nesse preciso momento, a cabeça de Nazaré apareceu. Pouco tempo depois, Isilda acolhia nos braços a neta, coberta de muco e sangue, que se apressou a limpar. Pressentiu a garra da neta assim que a teve nos braços, mas não viveria o suficiente para a confirmar – Deus cobraria a promessa feita passados exactamente dois anos do nascimento da neta. 

Nazaré cresceu no meio do peixe e do mar. Nunca aprendeu a ler nem a escrever. Bastava-lhe conhecer os números para ser feliz. O pai levava-a para a pesca sempre que havia tempo e o mar estava de feição. Nazaré devia ter nascido homem, dizia ele, reconhecendo na filha a força que faltava a muitos que faziam do mar o seu sustento. A pequena Nazaré não percebia a razão pela qual tinha de ficar em casa, ou ajudar a mãe a vender o peixe pelas ruas de Matosinhos. Passava o tempo a fugir de casa, a jogar à bola e a lutar com os outros rapazes. Com o tempo, passaram a dizer que ela era louca. Nazaré, a Louca. Ali vai a Louca. Corram, que ela vai partir-vos os dentes. E os rapazes fugiam dela. Da Nazaré, a Louca. 

Aos treze anos, Nazaré notou uma mancha de sangue nas cuecas. Assustada, correu para a mãe, que lhe explicou que era a Natureza a fazer dela mulher. Nazaré empertigou-se, protestando enquanto a mãe a lavava. Queria ser como os rapazes. A mãe abanou a cabeça. Ela era uma menina que se estava a transformar numa mulher – a mais bonita mulher que alguma vez fora vista naquela pequena aldeia piscatória. Pouco tempo depois, Nazaré, a menina Louca, transformou-se na Nazaré, a mulher Louca. Muito pouco mudara dentro dela. Só se interessava por jogar à bola e pela pesca. Os rapazes queriam meter-se com ela. Vinham de longe, que a fama da sua beleza chegara já a Matosinhos e ao Porto. A todos ela recusava. A mãe já se acostumara com a ideia de que a filha, já com uma certa idade, ficaria solteira. Quem teria força suficiente para aplacar o seu génio, a revolta que lhe ia pela alma? 

Sidónio viera do sul. Era uma homem já maduro, dos seus trinta e poucos anos. Tinha uma filha de uma namorada que abandonara. Gabava-se disso. Tinha sido marinheiro – o mito de que tinham uma mulher em cada porto encaixava-se nele com perfeição. Estivera preso em Custóias. À saída da prisão foi ver o mar e calhou cruzar-se com uma varina de corpo esbelto e olhar atrevido. Foi forjado um feitiço, ali mesmo, na rua. Ele não descansou enquanto não soube quem ela era. Nazaré não quis saber dele, mas Sidónio não desistiu. Comprou uma pequena casa na aldeia com algumas economias e fez-se pescador. A população desconfiou do desconhecido. Era certo o seu objectivo. Até mesmo para Nazaré, que o mandou “ir para o Inferno”, na primeira vez que falou com ele. 

Mas ele não foi. Comprou um pequeno barco ao qual deu o nome de Nazaré. Fez-se ao mar. Mostrou que sabia da arte, era destemido e forte como um touro.  

“Eu não posso ir para o Inferno”, disse ele um dia, “Porque no Inferno já estou por causa dessa sua indiferença.”

“Sabe quem eu sou? Eu sou Nazaré, a Louca. Não quer estar perto de mim.”

“Também não consigo estar longe.”

“Não me interessa.”

Aquilo que Nazaré dizia era mentira, mas só ela sabia. Fosse pelo azul profundo dos olhos dele, fosse pelos seus modos, tão diferentes, ela sabia que era mentira. Apareceu na casa dele num fim de tarde, quando ameaçava chover. Ele abriu a porta, ela entrou. Deixou cair o vestido, sem tirar os olhos dele. Ele pegou nela com um abraço de pedra, deitou-a na cama e fez dela a sua mulher. A única. 

Lembrava-se de cada momento, de cada gesto. Dançava na praia, agora sozinha. A chuva caía, o oceano estava revolto. Ela avançou pela areia molhada. Um pé de cada vez. Sidónio estava ali. Ela ouvia-o chamar por ela. Nazaré entrou na água. Que estava fria. Gelada. Vida. Morte. O mar era tudo. As ondas envolviam-na num abraço. Ela sentiu que Sidónio a abraçava. Não era o mar. Era ele. O pai dos seus três filhos.

Nazaré, a Louca, continuou a avançar mar adentro. Tinha na boca o sal com que cobria o tabuleiro do peixe que vendia. Agora, era o seu único e magro sustento. 

Dançava nas ondas. A recordação dos filhos puxava-a para trás. Era uma força imensa, que lhe vinha das entranhas e a agarrava à vida.

Ela tinha tudo. O sorriso dos filhos, o abraço do marido, um tecto. Era feliz, mesmo sem o saber. Daria tudo para voltar àquele tempo. 

“Até amanhã”, dissera-lhe ele, naquela manhã de 2 de Dezembro de 1947. Estava doente, com gripe. No dia anterior chegara ao porto de Matosinhos uma traineira cheia de sardinha. Um milagre, para todos os que estavam há demasiado sem pescar. Tiago chegou a casa de Sidónio e Nazaré. Precisava de um homem para completar a tripulação do seu barco. Sidónio aceitou de seguida. Nazaré abanou a cabeça. Pediu para que ele reconsiderasse. O tempo era muito instável em Dezembro. Ela pressentia a desgraça. Ele reconfortou-a. Seria outra saída para o mar, que dava mostras de estar calmo. 

“Até amanhã”, despediu-se ele. 

“Até logo”, disse ela, vendo-o partir. Aquelas palavras cravar-se-iam na sua alma a fogo, tal como a visão dele a desaparecer na noite. 

Pouco tempo depois, o vento muda e aumenta de intensidade. Nazaré berra, chamando por Sidónio. 

A louca sai de casa, vai para a praia. Os outros não percebem, não entendem. 

A meio da manhã pára na estrada enlameada um jipe da GNR. Dois guardas saem dele. Nazaré sabe, nesse exacto momento, que se tornara viúva de Sidónio. Ela e outras noventa e nove mulheres que naquele dia perderam os seus maridos. Cai por terra, de joelhos. Pede a Deus para que não seja verdade. Outras duas mulheres também choram pelos seus maridos e filhos. Nazaré, a louca, enlouquece de vez. 

“Até logo”, grita ela, rodeada pelo mar. 

“Assim como o levaste a ele, leva-me também a mim, Ó mar!”, grita, rindo.

“És a minha vida e a minha morte, Ó mar. Tudo me trazes, tudo me levas!”

Um relâmpago ilumina o mar. A chuva engrossa. O vento ruge, furioso. A louca está sozinha na praia, num mar revolto. Uma onda mais forte atira-a para trás. Ela engole água. Sente que é o momento de se juntar ao marido. 

Mas, ao mesmo tempo, sente que braços a puxam para trás, para a terra. Ela debate-se, mas a força é imensa. Ele. Só ele tem essa força, a força de a deter. Nazaré olha para trás. Não vê ninguém. Ao longe, vê apenas as luzes fracas da aldeia. Aldeia onde tem a casa e onde estão os filhos entregues ao avô. 

Idalina. 

José. 

Pedro.

A sua vida. 

Vida. 

Esperança.

Nazaré, a Louca, era agora a Esperança de três pessoas. 

Uma onda maior levou-a consigo. Ela já não tinha pé. Tentou chegar à margem, nadar contra a corrente que entretanto aumentara. As ondas puxavam-na para baixo, para a morte que ela tinha desejado, mas que que agora queria adiar. Nadou até ficar sem forças. Repetiu o nome dos filhos uma última vez. 

O corpo de Nazaré, a louca, deu à costa a um quilómetro dali. Foi levada para o hospital, quase sem vida. Esteve uma semana em coma. Durante essa semana, Sidónio povoou os sonhos de Nazaré. Estavam na traineira que tinha o seu nome. Ela, feliz, ajudava a puxar a rede. No meio da sardinha vinha um tamboril imenso. Estavam com eles dois rapazes e uma rapariga, adolescentes. Os seus filhos, felizes. À noite, ela preparou o tamboril. Beberam vinho. Ela e Sidónio foram para o quarto. Fizeram amor uma última vez. Ela fechou-se no abraço dele até que ele se levantou. 

“Não vás”, pediu ela. 

“Tenho de ir. Até logo.”, disse ele, vestindo-se.

“Não digas essas palavras.”

“Adeus”, disse ele, saindo do quarto. 

“Adeus”, disse ela.

Nazaré, a Louca, abriu os olhos na cama do hospital.

 

Nota do autor: na madrugada de 2 de Dezembro de 1947 morreram 152 pescadores ao largo da costa entre a Aguda e Leixões, no maior naufrágio da história moderna de Portugal. Este conto, baseado em factos reais, é a minha singela homenagem.

38 comentários em “A louca e o mar (José de Nazaré)

  1. Fil Felix
    1 de dezembro de 2020

    Boa noite!

    Nazaré é uma mulher decidida e diferente das mulheres de seu tempo, tendo o mar como protagonista em toda a sua vida, do nascimento à morte do seu marido e, então, seu renascimento.

    É um conto muito bonito e forte, com vários pontos positivos. Entretanto, alguns pontos negativos também me vieram à tona. Começando pela simbologia, é um texto rico em significados e em metáforas, com descrições lindas e inspiradas, como o nascimento da protagonista e o momento que pensa em se suicidar. A escrita também é forte, assim como a protagonista, com uma linguagem simples, mas recheada de lirismo, o que considero um feito e tanto (até por conta da estranheza num primeiro contato, por ser pt-pt). Resultando num conto muito belo e quase bíblico.

    Mas acabei torcendo o nariz para alguns detalhes. Um deles é referente à discussão de gênero da protagonista, colocando-a como louca por ser diferente das outras meninas de sua época, preferindo ter nascido homem. Mas isso vai caindo por terra (ou por mar?), já que da metade pra frente ela entra numa história de amor mais tradicional, sendo tanto mãe quanto esposa apaixonada. E apesar de ter se baseado em fatos, que traz um peso maior ao conto (e aí a gente pode entrar no ditado da vida imita a arte ou vice e versa), a história em si não é muito original, já lemos ou vimos filmes que retratam essa fúria do mar, que engolem os maridos e deixam as esposas viúvas, várias vezes. Mas no geral, um conto que gostei bastante.

  2. Alexandre Coslei
    30 de novembro de 2020

    RESUMO:
    A história de uma personagem feminina que ganha e perde tudo no cotidiano do seu ofício

    ABERTURTA:
    Num excelente primeiro parágrafo, logo identificamos um autor de boa escrita, seguro de sua técnica, sabendo como quer começar e onde pretende chegar. Ótima abertura, que nos faz pressentir um texto de qualidade.

    DESENVOLVIMENTO:
    Confirmando a abertura, o texto segue muito bem desenvolvido, estruturando personagens sólidos e criando o enredo numa narrativa habilidosa e realizada com capricho.

    CONCLUSÃO:
    A ideia segue pelo trágico, faz questão de afirmar o trágico em suas últimas linhas. É a loucura tratada como tragédia pessoal através de uma ótima e sensível escrita.

    Desejo boa sorte e sucesso.

  3. Elisa Ribeiro
    29 de novembro de 2020

    A história de Nazaré, que perde o marido em um naufrágio e, deprimida, decide dar fim à própria vida.
    O conto narra a história de Nazaré desde seu nascimento, em um parto difícil, até a tentativa de suicídio após a perda do marido, passando por alguns conflitos de gênero durante a infância e adolescência e o enamoramento por Sidônio, seu marido e amor de sua vida.
    A narrativa é linear, fluída, poética e muito agradável. Algumas coisas passaram na revisão.
    O final do conto é bastante dramático. Fiquei feliz com o bom gosto autor em optar pela sobrevivência de Nazaré.
    O que não gostei: a julgar pelo destaque dado pelo autor aos conflitos de gênero da personagem durante a infância e adolescência, era de se esperar que tais conflitos se desdobrassem na segunda parte do conto, da maturidade da personagem. Como tal não aconteceu o efeito foi de um estranhamento, como se o autor a princípio pretendesse contar uma história que acabou se transformando em outra.
    O que gostei: o fato de o texto ser baseado em fatos reais contribui bastante para o interesse e o impacto do conto.
    Parabéns pelo trabalho.
    Desejo sorte no desafio. Um abraço.

  4. Rafael Penha
    24 de novembro de 2020

    RESUMO: Acompanhamos a vida de Nazaré, uma mulher que desde cedo foi tratada como homem na vida dura do mar, até que o mar que tudo lhe deu, decide também tudo lhe tomar.

    COMENTÁRIO: Um conto sensível. A narrativa é bem fluída, tema beleza lírica, mas não o enfado que costuma vir com ela.

    A personagem é bem estabelecida e desenvolvida. O enredo trata de sua vida, seus percalços e romance, da infância á vida adulta, narrado com maestria, há sentimento na escrita.

    O melhor momento é de fato, quando o mar leva seu amado, e ela, surtada pela perda do amor, se vê numa ânsia de reencontrá-lo no mar onde o perdeu.
    O conto é belo, bem escrito, mas não consegui encontrar o tema “loucura” em suas linhas. O fato de todos chamarem-na de louca, não a qualifica como tal. Muito menos o fato dela ser mais masculina que muitos homens, afinal, em nossas vidas reais, todos já conhecemos uma menina masculinizada ou um menino efeminado, nenhum dos dois arquétipos pode ser taxado como sinônimo de louco.

    O próprio texto parece confirmar a sanidade da protagonista, quando ela em meio às ondas, decide viver por seus filhos, mudando de ideia quanto ao suicídio e lutando pela vida.

    Apesar de não conseguir enquadrá-lo no tema, gostei bastante do conto.
    Um abraço!

  5. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá José. Gostei bastante deste seu conto, que narra a história da viúva de um pescador que, vítima de uma depressão profunda, tenta o suicídio. O texto é bastante poético e impactante, resultando bem em filme. O facto de ser baseados em factos reais aumenta o interesse. Como pontos negativos, alguns pormenores que deveriam ter sido apanhados numa revisão mais apurada.

  6. Luciana Merley
    18 de novembro de 2020

    A louca e o mar

    Olá, autor.
    Nazaré viveu uma infância perturbada na tentativa de transformar-se no homem que o pai tanto desejava para a lida na pesca. Quando ela finalmente encontra o amor da sua vida e reencontra a sua identidade feminina, ela perde seu marido num terrível naufrágio que a faz desejar a morte.

    Impressões Iniciais – Um belo conto, muito envolvente, com personagens muito bem construídos e uma linguagem muito leve. O título me lembrou da mega novela do Hemingway, em especial pelo clima de contemplação do mar e pela angústia.

    COESÃO – São dois focos narrativos no texto. 1 – A história da infância dela com a confusão acerca da identidade e 2 – a perda trágica do marido que a faz desejar a morte. Poderia acrescentar mais um ponto de tensão que é a luta entre a angústia profunda e o amor pelos filhos no momento limítrofe. Claro que podem ser contados como você o fez, mas, no caso de contos, o ideal é que se escolha um foco e todo o resto seja para dar mais força a ele. No caso do seu texto, não consegui distinguir qual desses 3 pontos de tensão é o mais importante. Ainda assim gostei do texto.

    RITMO – Bom ritmo, leve, de acordo com o clima da história.

    IMPACTO – Foi muito bom. Uma bela história e com final feliz. Senti-me aliviada por ela ter escolhido o caminho do amor aos filhos e não o do egoísmo da autodestruição. Também acho que o título não condiz muito com a história da personagem.

    Parabéns pelo texto.

  7. Priscila Pereira
    17 de novembro de 2020

    Resumo: Mulher tenta se matar após perder o marido, mas a lembrança dos filhos dá forças para continuar vivendo.
    Olá, José!
    O seu conto é muito bonito! Escrito com muita delicadeza e poesia. A imagem do mar, da pesca, do vilarejo, da moça bonita e “louca”, tudo tem uma beleza quase perfeita. Esse conto seria uma pintura incrível!
    Mas… Não vi o tema: ela não era realmente louca, ela estava de luto, depressiva, mas não era louca. A força que os filhos deram para que ela desistisse de morrer prova que ela não estava louca, mas isso não vai diminuir sua nota. O conto é realmente muito bom!
    Parabéns! Boa sorte!
    Até mais!!

  8. Anna
    17 de novembro de 2020

    Resumo : A protagonista Nazaré é uma mulher forte.Sempre teve força para trabalhar e desejava ser homem, até que um viajante chega e rouba seu coração. O marido morre por um naufrágio e ela tenta se afogar.
    Comentário : Li todos os contos e esse me cativou muito mesmo. Achei Nazaré em mim mesma, sempre fui forte e independente. Nazaré representa todas as mulheres que ousam ser elas mesmas, Nazaré é força e fragilidade. O conto tem uma sensualidade pura do amor mais romantico possivel.

  9. Ana Maria Monteiro
    15 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: a história de Nazaré, uma mulher temperamental, que enlouquece quando perde o marido, vítima de naufrágio. Ela tenta suicidar-se, vacila na decisão quando já não pode voltar atrás, mas acaba por dar à costa e milagrosamente está viva.

    Comentário: Ainda não li todos, mas arrisco sem receio afirmar que este é, provavelmente, o melhor conto do desafio. Todos os seus elementos estão na medida certa e em perfeito equilíbrio. Posto isto, vamos aos pequeníssimos “quês” que refiro apenas porque um conto tão bom, merece sê-lo nos mais ínfimos detalhes: a nível de revisão, só não está perfeita, por conta da repetição do que, nada mais; depois temos o título que talvez ficasse melhor sem a palavra louca, apenas “Nazaré” ou, quando muito, “Nazaré e o mar”; a questão mantém-se no enredo, “a louca” não faz muito sentido, apesar de a época e o contexto sociocultural poderem justificar essa alcunha, mas não é necessária, a sua loucura irá manifestar-se no ato desesperado e é quanto basta.

    Repare, autor, que apenas me debrucei sobre estes detalhes mínimos e irrelevantes, porque considero que a qualidade do seu conto merece a lapidação de qualquer pormenor, por menor que seja – e estes são-no.

    Poderão perguntar-me se este é o conto mais original, o mais bem desenvolvido, o mais poético, o que melhor retrata a loucura e a minha resposta poderá não ser positiva a cada quesito em particular, mas no seu todo, não me restam dúvidas quanto à sua inquestionável qualidade e à mestria de contador de boas histórias revelada por um autor maduro e de grande competência.

    Nazaré é o personagem principal e fictício da história, em torno de quem se desenvolve toda a ação, uma ação que corresponde à dura verdade vivida por homens e mulheres que, por gerações e gerações, viveram (mal) por e para o mar, a pesca. Quase dói, ler um relato tão autêntico.

    Os meus sinceros parabéns ao autor, a quem nem necessito desejar boa sorte no desafio pois, seja qual for o resultado, quando se tem este talento, a sorte é apenas um acessório.

    PS: enquanto lia, ia ouvindo mentalmente a velha música: “Não vás p’ro mar, Tonho” e sobretudo aquele trecho “Ai Tonho, Tonho, que mal fadado és, Ai Tonho, Tonho, nem umas tens p’rós pés”.

  10. Andre Brizola
    15 de novembro de 2020

    Olá, José.

    A história de Nazaré, filha de pescador, que cresceu querendo ser menino e, adulta, casou-se, teve três filhos, e perdeu o marido para o oceano. Num acesso de desespero se joga ao mar. Mas, antes de efetivamente morrer afogada, se arrepende e delira com o marido morto. Acorda viva em uma cama de hospital.

    O conto é extremamente bem escrito. Tecnicamente perfeito. Nazaré é uma personagem rica de detalhes, colorida e profunda. Tantos detalhes em tão pouco espaço revelam um autor que usa a narrativa de forma muito segura. E digo pouco espaço porque o enredo aqui apresentado poderia tomar muito, muito mais que apenas três mil palavras. Sidónio, personagem acessório de Nazaré, também é bem construído e participa perfeitamente como suporte à personagem principal. O parágrafo que o apresenta, para mim, é um ótimo exemplo de concisão em que não se abre mão da riqueza de detalhes.

    Meu único senão aqui é com relação ao tema do desafio. Nazaré tem o apelido de Louca, sendo, na verdade, apenas uma garota/mulher tomada de uma individualidade própria e alheia ás imposições sociais da época. O suficiente para ser chamada de louca por aqueles que não a aceitavam daquele jeito, mas não para todos. Hoje, inclusive, ela seria uma pessoa bem normal (embora a gente tenha observado um retrocesso absurdo nisso…). Alguma loucura é apresentada no delírio frente à proximidade da morte, e acho que é o que mais contribuiu para alocar o conto dentro do tema.

    Bom, é isso. Boa sorte no desafio!

  11. Paula Giannini
    14 de novembro de 2020

    Olá, Contista,
    Tudo bem?
    Resumo – Por querer ser livre, Nazaré é tratada como louca em uma comunidade de pescadores. Ela encontra seu lugar no mundo, mas o perde toda a família para o mar.
    Minhas Impressões:
    O conto, para mim, divide-se em dois “capítulos”. O primeiro, no qual conhecemos a protagonista, uma dessas emblemáticas figuras taxadas de loucas em uma comunidade de pescadores. E o segundo, quando Nazaré, a louca, casa-se e encontra seu lugar no mundo, perdendo, entretanto, toda a família para um naufrágio.
    Interessante notar que a força da personagem é, neste conto, o que conduz ambas as partes da narrativa. Taxada de louca desde a infância, a mulher nada mais é que alguém que gostaria de ocupar um lugar masculino, ou melhor, um lugar de respeito e protagonismo dentro de sua comunidade; e esse é o mote que conduz a história até um momento de cisão, quando a protagonista resolve entregar-se ao amor e a uma vida, de certo modo, mais tradicional, com família, marido, filhos. Assim, o que era loucura no início, transforma-se em uma insanidade de outra natureza. Na segunda parte, a louca já não é aquela que rompe com as estruturas e faz “coisas destinadas apenas aos homens”, mas, a louca capaz de matar-se por amor, ou, ainda, a louca capaz de tirar a própria vida por pressentir a perda da vida “normal” agora conquistada.
    Dito isso, gostaria de destacar que a pena por traz da história é ótima e que, em minha opinião, mesmo o conto sendo muito bem executado, mereceria, com certeza, uma narrativa de maior fôlego, atando ambas as partes em, quem sabe, um romance ou novela.
    Saber que o naufrágio foi real, foi algo forte e comovente no final. Linda homenagem.
    Como digo a todos, se algo em minha análise está em desacordo com sua obra, desconsidere. Aqui, estamos todos para aprender.
    Beijos
    Paula Giannini

  12. Amanda Gomez
    13 de novembro de 2020

    Resumo📝 Nazaré é uma mulher conhecida como louca na pequena ilha pesqueira onde vive. Conhece o amor e logo o perde pro mar. Tenta se matar, mas a vida lhe dá uma nova chance.

    Gostei 😃👍 Gostei do clima do conto, a ambientação foi bem retratada, imagens claras, a cena do nascimento muito bem escrita, deu pra sentir o desespero da mãe e da avó, o clima da tempestade. O crescimento da personagem também foi interessante acompanhar. Uma mulher livre em um tempo antigo em um lugar humilde só poderia ser retratado como loucura mesmo. Aliás, ainda nos tempos de hoje. Gostei do romance ainda que passageiro, tem clima de novela seu conto. A angústia e depressão de Nazaré também foi bem retratada, achei que ela iria morrer… um suicídio arrependido seria bem complicado de aceitar. No sonho ela se despede e resolve seguir a vida, pois o amor lhe trouxe três vida que ela precisa amar. Ainda vale a pena viver. A observação final também foi um acerto.

    Não gostei 😐👎 Olha, nada em específico. Talvez a polêmica da adequação ao tema, loucura acaba sendo bem subjetiva. Não foi um conto que me arrebatou ( nem se sinta mal por isso, me tornei uma pessoa apática nas leituras) mas é um belo trabalho.

    O conto em um emoji : 😊🌊

  13. opedropaulo
    13 de novembro de 2020

    RESUMO: Nazaré, a louca, avança mar adentro sem intenção de retorno, enquanto pensa em seu amor perdido e nos filhos que têm para criar. Mudando de ideia tarde demais, quase perde a vida, tendo em seu coma a chance de uma última despedida e de um novo despertar.

    COMENTÁRIO: Neste conto, o relacionamento entre Nazaré e Sinódio é emblemático, sendo construído com delicadeza e sutileza. Nada é dito sobre a vida que tiveram juntos, mas, ainda assim, fica evidente a importância e felicidade que o casamento representava para a mulher à qual foi dada a alcunha de louca e a pecha de que ficaria sozinha. A forma de comunicar isso ao leitor é dar os vestígios desse amor. O peso dessa paixão aparece nos três filhos, na escolha pelo suicídio e, principalmente, na maneira como o casal veio a ser, com determinação, fingimento e, enfim, total entrega. O ponto em que ambos se conhecem é valioso no conto, pois concentra essa qualidade narrativa em que o sentimento permeia os eventos, sem necessariamente serem entregues nominalmente pelo autor. Então não se diz que “se apaixonaram à primeira vista”, mas ela, que inicialmente o rejeitou e xingou, voluntariamente o visita sem aviso e, sem trocarem palavras, vão à cama. Pode ser uma qualidade básica para um autor ou uma autora, mas eu aprecio bastante. Então as linhas acima dizem que vi no texto uma narrativa talentosa que se encerra com um final emocionante, descrevendo uma verdadeira jornada da personagem. A nota final foi uma ótima escolha, pois eu mesmo não teria consciência da homenagem se não fosse apontada. O conto tem bastante humanidade e distinguir seu embasamento na realidade dá a ele ainda mais profundidade. Minha única reclamação diz respeito à temática. Considero a loucura um traço essencialmente desviante da normalidade (esta última que fica a ser estabelecida pelo autor), então enquanto aceito que Nazaré foi julgada louca por um estigma cabível à sociedade de sua época, devo também apontar que o conto não narra sobre isso, focando nos efeitos de sua viuvez e no possível suicídio. Seria loucura se suicidar? Não acho que o conto tenha se importado em fazer ou responder essa pergunta. Por isso, a loucura como estigma é aceitável, mas reduz-se a um aspecto da trama, sem ocupar sua base. Isto quer dizer um pequeno decréscimo na nota, cujas exigências do certame me forçam a conceder, mas que não desvirtuam a beleza do conto.

  14. angst447
    12 de novembro de 2020

    RESUMO
    Nazaré nasce mulher, mas quer a liberdade dos homens, deseja viver do mar. Conhece Sidónio que acaba conquistando seu coração e lhe dando três filhos. Perde o amor de sua vida em um naufrágio e desesperada pensa em terminar com tudo se afogando também no mar, mas acaba sendo salva, e decide ser a esperança dos filhos, fortalecendo-se com a lembrança do marido querido, ausente para sempre.
    AVALIAÇAO
    O conto desenvolve-se de forma clara, linear, mas fluindo poesia. Tudo parece ser encantamento, desde o nascimento de Nazaré até ao seu luto espalhado pelo mar. Não há como se desprender da história que nos é contada com tanta habilidade e sensibilidade.
    O sotaque lusitano em nada altera a beleza do conto, muito pelo contrário, realça suas características. Tudo parece combinar perfeitamente.
    Como o mar, suas palavras invadem e salgam emoções. Achei seu texto lindo, forte, impactante. Nem sei mais o que dizer, preciso?
    Boa sorte e que o mar lhe devolva somente alegrias.

  15. Jefferson Lemos
    12 de novembro de 2020

    Resumo: a história de vida de Nazaré, uma mulher que era considerada louca por ser livre, e que decidiu se entregar ao mar para reencontrar um amor perdido.

    Olá, caro autor!
    Gostei muito do seu texto! Você tem uma sensibilidade e uma narrativa tão fluida, que dá pra sentir na pele as sensações descritas no conto. Gostei da sua personagem também, de como sua personalidade foi sendo construída durante a história de sua vida, a reviravolta na sua decisão, o preço a pagar por ter decidido fazer aquilo. Tudo muito belo e muito bem escrito. A nota ao final foi algo muito interessante e complementou bem sua narrativa. Só tenho elogios para você!
    Parabéns pelo belo trabalho e boa sorte!

  16. Alguém
    12 de novembro de 2020

    Meu caro Leandro: você usa os critérios que entender na avaliação, mas, a nível de língua, o que realmente conta é o português, seja ele o do Brasil, o de Portugal, Angola, Guiné, etc.

    • Leandro Rodrigues dos Santos
      12 de novembro de 2020

      Primeiramente senhora Alguém, quero parabenizá-la pelo sagaz disfarce camaleônico, sua identidade segue sendo um mistério.
      Após, lhe digo: não ligo do português usado, só repliquei devido o comentário abaixo ter justificado os possíveis erros do texto por ser um texto lusitano. Dessa vez, ô incógnita, conseguiu me compreender?!

  17. Leandro Rodrigues dos Santos
    11 de novembro de 2020

    Está entre os melhores contos que li aqui.

    Nazaré, a louca, nasce como uma oferenda, vive como um peixe-boi e morre como uma sereia [rs!].

    Tecnicamente tem levíssimos erros: uso de ênclise: “atira-a, levou-a, fechou-se” (acredito que nesses casos são próclise – tem mais algumas). Tem uma repetição de que a mais aqui: “mas que que agora queria adiar”, no todo uma repetição de mas e como aqui e acolá (sugiro porém, feito, tal qual). Em nada ferem o texto, são detalhes.

    Um texto bastante suave, as decisões são muito coerentes com a incoerência da protagonista, no todo um excelente conto.

    • Regina Ruth Rincon Caires
      11 de novembro de 2020

      É um texto lusitano.

      • Leandro Rodrigues dos Santos
        11 de novembro de 2020

        Acredito que o critério de avaliação seja o português do Brasil. Até, portanto, é inviável o tamanho de variações se considerar a ótica portuguesa.
        De qualquer modo são detalhes.

      • Regina Ruth Rincon Caires
        12 de novembro de 2020

        Leandro, tenha paciência… Deixe essa tarefa para Camões…

  18. Regina Ruth Rincon Caires
    10 de novembro de 2020

    A louca e o mar (José de Nazaré)

    Resumo:

    A história de amor de Nazaré e Sidônio, uma homenagem que o autor (eu acho que é autora) fez às vítimas do naufrágio de 1947, em Portugal.

    Nota do autor: na madrugada de 2 de Dezembro de 1947 morreram 152 pescadores ao largo da costa entre a Aguda e Leixões, no maior naufrágio da história moderna de Portugal.

    Comentário:

    Caro autor, devo confessar que li este texto assim que ele foi publicado no site. A figura me fisgou. E adorei!

    Um lindo conto, a linguagem poética cativa o leitor. Percebe-se que o autor lusitano, arranjando as palavras de maneira muito bonita, trouxe uma história emocionante. Lindo trabalho, José de Nazaré!

    Não há deslize, não há nada a ser corrigido. Basta o leitor abrir o peito e a imaginação para “enxergar” tudo que o autor conta. É visível, palpável. No conto, o autor mescla amores, romance, loucura e sensualidade em doses milimetricamente cuidadas. Alquimia perfeita.

    Parabéns, José de Nazaré! Obrigada pelo presente que entregou!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  19. antoniosbatista
    9 de novembro de 2020

    Resumo: A história de Nazaré, tida como louca por seu jeito alegre, afoito, que perde o marido num naufrágio.

    Comentário: Gostei do conto, tem uma história interessante, personagens marcantes, de personalidade forte, com seus dramas e sentimentos. Embora dramático, o texto tem algo mais do que tristeza. Tem algo de poético nas descrições do ambiente, o que demonstra a habilidade do autor na sua escrita descritiva. Quando escrevemos uma história baseada em fatos reais, colocamos nela, também, os nossos sentimentos. Boa sorte.

  20. Misael Pulhes
    7 de novembro de 2020

    Olá, “José de Nazaré”.

    Resumo: Nazaré sofre com a morte de Sidónio, pai de seus três filhos, o único amor de sua vida, enquanto se entrega ao algoz da família: o mar. O Destino não o permitirá ainda.

    Comentários: Obrigado! Obrigado, obrigado e obrigado por esse conto, “José”. Eu literalmente arrepiei. Umas mínimas lapidações aqui e acolá, mas o texto é praticamente impecável. Já digo sem dó que é o meu preferido a essa altura do certame. Que prosa fluida, que imagens, que frases, que poesia, que estilo.

    Não sei se já agradecei, mas: obrigado e obrigado, meu caro!!

    Boníssima sorte!!!

  21. Fheluany Nogueira
    5 de novembro de 2020

    Nazaré se comportava como homem (por isso considerada louca), até que um homem estranho ao local levou-a a descobrir como era ser mulher. Quando o amado morre no mar, ela pensa também em se afogar, mas se lembra dos três filhos e desiste.

    Uma bela homenagem aos pescadores mortos, com um texto sensível e bem construído. Gostei do trabalho com os tempos verbais e do sotaque luso.

    O enredo é crível e verossímil. Leitura fluente e prazerosa. Os personagens são bem desenvolvidos e as cenas são bem visualizadas. O senão vai para as transições: a protagonista agiu como mulher e desistiu do suicídio repentinamente.

    Parabéns pelo trabalho. Sorte no desafio. Abraço.

  22. Fabio Monteiro
    5 de novembro de 2020

    Resumo: Protagonista comporta-se como um homem até uma certa idade. É chamada de louca pelo seu jeito diferente e masculino de ser. Aceita sua condição feminina e se casa. O esposo morre num naufrágio junto a outras dezenas de navegantes. Ela se desespera e vai ao seu encontro. Fatos reais.

    O que me chama um pouco a atenção é a virada que o texto dá repentinamente. Até certo ponto Nazaré me pareceu não desejar de forma alguma aceitar se despojar para um homem. De-repente ela entra na casa de um certo ser de histórico não lá muito bom e se entrega facilmente.
    Não ousaria julgar os comportamentos da jovem mas, nestes tempos, ela também seria rotulada de diversas formas.
    A sociedade ainda não aceita bem pessoas de personalidade como Nazaré.

    Houve um momento que achei que Nazaré se tornaria um homem. Manteria sua forma de ser e mudaria sua condição. Me enganei piamente.

    A verdade é que ela é uma pessoa de identidade forte, diferente das demais de sua época. Por isso, taxada de louca.

    Sobre o conto ser baseado em fatos reais, acho maravilhoso a abordagem desse contexto. Não havia ouvido falar de nada a respeito sobre tais acontecimentos. Acho contos assim inspiradores. Escrever usando a imaginação é algo alucinante. Escrever se baseando em acontecimentos evitando deslizes é uma encruzilhada. Um só descuido e tudo perde o sentido.

    Boa Sorte autor(a) por encarar esse risco. Em outros certames eu ousei algo assim e não tive boa aceitação.
    Espero que com você seja diferente.

    A escrita é fluida, de fácil entendimento. Amei isso. Me cansa ficar tentando entender um mesmo paragrafo cinco ou seis vezes.

  23. Fernanda Caleffi Barbetta
    3 de novembro de 2020

    Resumo
    Nazaré, considerada louca desde a infância por sua vontade de ser um menino, apaixona-se por um pescador, que morre no mar. Ela tenta o suicídio, mas se arrepende ao pensar nos 3 filhos.

    Comentário
    O seu conto é belíssimo. Escrito com maestria, fluido, envolvente. Por diversas vezes fui levada aos cenários do conto, tamanha a sua habilidade em descrever cada cena.
    Apenas um “que” a mais para macular a sua gramática perfeita.
    A nota final, arrebatou-me e me emocionou. Bela homenagem às vítimas desta tragédia.
    A escolha por misturar os tempos passado e presente indo e vindo como as ondas do mar foi uma boa ideia, mas acredito que faltou algo que sinalizasse melhor isso na trama, pois confundiu um pouco a leitura e não sei se estra opção valorizou o texto.
    A loucura dela seria o fato de querer parecer menino? Poderia ter entrado mais a fundo nesse tópico já que é o tema do certame.
    Encontrei muitas construções lindíssimas que merecem destaque, como “À saída da prisão foi ver o mar e calhou cruzar-se com uma varina de corpo esbelto e olhar atrevido. Foi forjado um feitiço, ali mesmo, na rua.” Muito bom isso.
    Parabéns pelo belo texto e pela homenagem.

  24. Leda Spenassatto
    2 de novembro de 2020

    Nazaré, uma menina que gostava de brincar e trabalhar como os meninos, se apaixona por um pescador e viúva luta com a morte e a vida.

    Um conto lindo, leve e atual.
    Me encontrei na personagem da Nazaré. Sempre gostei de brincar com os meninos, jogar bola, subir no alto das árvores, trabalhar com o meu pai, andar a cavalo. Enfim de fazer tudo o que os meninos fazem.
    Até hoje, muitos anos depois, odeio cozinhar e arrumar a casa.

    Amei a Nazaré! Não vi loucura alguma nela .

    Sucessos!

  25. Matheus Costa
    2 de novembro de 2020

    Conto historicamente situado em que Nazaré tenta o suicídio após perder seu companheiro em um naufrágio.

    Gostei muito da história e de como o autor constrói o personagem de Nazaré o imaginando no episódio histórico do naufrágio. É um exercício muito interessante de escrita que mistura história com ficção e passa a imaginar como uma mulher da época viveria o episódio. Parabéns.

  26. Ana Cláudia Barros Fontenele
    2 de novembro de 2020

    Por onde eu começo? Isso é ouro. Eu não acho que “PARABÉNS!” seja o suficiente. Em um único conto, eu ri, chorei e me importei verdadeiramente com os personagens. Tudo o que eu quero fazer é te agradecer por ter escrito esse conto… Maravilhoso? Divino? Delicioso de ler? Todos. Ainda não foi criado um adjetivo que definisse adequadamente esse conto.

  27. Giselle F. Bohn
    2 de novembro de 2020

    Nazaré perde o marido em um naufrágio e, acometida pela dor insuportável, tenta o suicídio. Lembrando-se dos filhos, arrepende-se e consegue escapar da morte.
    Lindo conto. Poético, moroso, sensível, cheio de descrições imagéticas: um filme primoroso, daqueles com poucas falas e belas imagens. O final do conto é de uma beleza que chega a doer.
    Este trecho merece um lugar no panteão dos vencedores EC:

    “Um relâmpago ilumina o mar. A chuva engrossa. O vento ruge, furioso. A louca está sozinha na praia, num mar revolto. Uma onda mais forte atira-a para trás. Ela engole água. Sente que é o momento de se juntar ao marido.

    Mas, ao mesmo tempo, sente que braços a puxam para trás, para a terra. Ela debate-se, mas a força é imensa. Ele. Só ele tem essa força, a força de a deter. Nazaré olha para trás. Não vê ninguém. Ao longe, vê apenas as luzes fracas da aldeia. Aldeia onde tem a casa e onde estão os filhos entregues ao avô.

    Idalina.
    José.
    Pedro.
    A sua vida.
    Vida.
    Esperança.
    Nazaré, a Louca, era agora a Esperança de três pessoas.

    Uma onda maior levou-a consigo. Ela já não tinha pé. Tentou chegar à margem, nadar contra a corrente que entretanto aumentara. As ondas puxavam-na para baixo, para a morte que ela tinha desejado, mas que que agora queria adiar. Nadou até ficar sem forças. Repetiu o nome dos filhos uma última vez.”

    A informação de que esse conto se baseia em um fato histórico o tornou ainda mais emocionante. Parabéns ao autor ou à autora pela escrita tão delicada e pela homenagem às vítimas.
    Boa sorte no desafio!

  28. Angelo Rodrigues
    2 de novembro de 2020

    Resumo:
    Menina, crescida como garoto, na idade adulta experimenta o amor de um homem. Com ele tem filhos. Ele se vai ao mar, morre e ela deseja a mesma forma de morrer. A imagem dos filhos a divide. Sonha com o homem que se foi, com a vida familiar que lhe falta.

    Comentário:
    Gostei do conto.
    O autor explora diversos pormenores da personalidade de Nazaré, que desquerida pelos pais, que a queriam menino e não menina, é dada por louca e se aceita como tal.

    Não tem pressa em dar profundidade aos personagens, descer aos detalhes de cada um, que são, de maneira geral, arquétipos. Dá prevalência a contar uma história de amor e morte, de alegria e dor. Até porque, provavelmente, sendo uma história de muitos – de mães, de esposas, de netos e filhos –, os personagens precisam ser voláteis ao tempo em que são todos. Achei esta a forma correta de abordar os acontecimentos daqueles dias na vida de Nazaré.

    Na idade adulta, encontrando-se com Sidónio, ela se experimenta mulher, depois mãe, depois viúva desesperada por reencontrar seu amor, ainda que morto. Puxa-a à vida a lembrança dos filhos que a esperam junto ao avô, que os guarda em seu momento de loucura.

    Sonha com uma vida pacificada ao lado do marido quando, quase morta, mete-se em uma circularidade de sentimentos, retornando ao momento em que o marido parte para se encontrar com a desgraça.

    Uma história interessante por dois motivos: o conto em si, que é bom, e a representação poética de uma realidade certamente dificílima naquele ano de 1947.

    Boa sorte no desafio.

  29. Thiago de Castro
    1 de novembro de 2020

    Resumo: Nazaré cresce num contexto de dúvidas e incertezas sobre sua personalidade. Adulta se apaixona por um pescador e engravida de trigêmeos. Quando o homem morre num acidente, Nazaré decide findar a própria vida no mar, se percebendo diante do conflito: se entregar às águas junto de seu amor ou seguir em frente com as crianças recém nascidas?

    Comentário:

    Amor e loucura, os tema do teu conto. Bem enredado, o ritmo é bom, a leitura fluida e o drama dos personagens bem contado. A loucura, não sei, me parece presente desde a projeção paterna, de desejar um filho e a garota crescer nesse contexto de confusão indetitaria , talvez? Com a chegada de Sidónio, aparentemente essa questão se resolve, apesar de um pouco de pressa na sucessão dos fatos (ela crecse como louca, se apaixona repentinamente e se entrega ao pescador). A partir da morte dele, ela, grávida, degringola para uma tentativa de suicídio. Nesse ponto está o mérito maior do texto, quando se dá a virada, a luta pela vida, quando a loucura vira esperança. Achei muito poética a transição para a resolução do conto e o final otimista é um refresco comparado a tantas tragédias aqui registradas. Apesar de muito súbito, o despertar da protagonista após um ultimo encontro com Sidónio, consciente de sua partida e da necessidade dos filhos, tem um resultado impactante, um renascimento, ou teimosia pela vida, remetendo a personagem de Isilda.

    Senti falta apenas de mais substância nas atitudes dos personagens, que acabam se relacionando muito rapidamente. A apresentação de ambos é ótima e sente-se a ausência da exploração dessa construção e narração dentro do texto. Mas o enredo é envolvente e o caminho final bem sucedido.

    Bom conto! Grande abraço e boa sorte

  30. Mac Brava
    1 de novembro de 2020

    Resumo: conto de amor e tragédia, vivida por Nazaré e Sidônio, seu marido e pai dos seus três filhos. Pelo afogamento de Sidônio, que é pescador, Nazaré quer se juntar à ele no mar. A autora presta uma homenagem coletiva a um acidente em que outras 99 mulheres ficaram viúvas na costa portuguesa, pelo mar revolto de dezembro. Nazaré a Louca possívelmente retrata como foi a dor de todas elas. Nazaré queria desde o começo ser homem. Talvez para evitar essas dores que as mulheres sofrem com a perda dos maridos e dos filhos. Conto primoroso e curioso, muito bem escrito. Não consegui parar de ler! Que pena que se limite ao regulamento de 3000 palavras.

  31. Almir Zarfeg
    1 de novembro de 2020

    Resumo:
    Nazaré, que veio ao mundo num parto complicado, se torna a “louca”. Sua vida se transforma quando conhece Sidónio.

    Comentário:
    Uma beleza de conto que explora, à exaustão, os sentidos de loucura. O enredo está bem estruturado em cima do amor que une Nazaré e Sidónio, os quais são separados tragicamente pelo mar. O texto se torna mais interessante graças às nuances do português de Portugal: jogar à bola, por exemplo, me fez pensar e admirar ainda mais a última flor do Lácio, inculta e bela!

  32. Bianca Cidreira Cammarota
    1 de novembro de 2020

    José de Nazaré,

    O conto relata a vida de Nazaré, uma mulher fora de seu tempo e de seu lugar, que tenta se afogar no mar em virtude da perda de seu grande amor. Em meio à tentativa de suicídio, ela relembra de sua vida e decide não morrer.

    José, que singelo, delicado, tocante e tão bonito relato! A poesia toca a tragédia e a natureza humana de uma forma tão ternamente triste que quase não tenho palavras para descrever…!

    Nazaré nascera forte! E, naquela época, fortaleza e independência eram associadas ao masculino e, por isso, ela negou sua feminilidade até encontrar o amor. Mas o amor não decepou sua estrutura e determinação, apenas uniu o feminino à sua própria natureza de força!

    A ligação simbiótica de Nazaré e o mar é maravilhosa. E como o amor de Nazaré e Sinódio também o era, o mar era Sinódio!. E também seus três filhos… que, como a maré, a empurravam para vida, quando a tristeza pela perda de Sinódio a puxavam para o fundo do mar.

    E, no derradeiro instante no qual ela se entregava ao desespero, os três filhos foram o motivo de ela viver…! No coma, Nazaré teve a oportunidade de se despedir devidamente de seu amor, com calma, usufruindo da companhia dele e do que ele significava… até o momento que percebeu o momento de reviver para viver com seus filhos (sim, ela resolveu. Quem, a não ser nós, é o dono de nossos sonhos…?

    Conto maravilhoso…! Muito obrigada por tê-lo publicado!

    Em agradecimento,desejo lhe dar uma lembrança. Não sei se conhece a música de Chico Buarque: Pedaço de mim. Lendo seu conto, me veio automaticamente essa canção, que tem tudo a ver com tua história. Vou postar aqui:

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade afastada de mim
    Leva o teu olhar
    Que a saudade é o pior tormento
    É pior do que o esquecimento
    É pior do que se entrevar

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade exilada de mim
    Leva os teus sinais
    Que a saudade dói como um barco
    Que aos poucos descreve um arco
    E evita atracar no cais

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade arrancada de mim
    Leva o vulto teu
    Que a saudade é o revés de um parto
    A saudade é arrumar o quarto
    Do filho que já morreu

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade amputada de mim
    Leva o que há de ti
    Que a saudade dói latejada
    É assim como uma fisgada
    No membro que já perdi

    Oh, pedaço de mim
    Oh, metade adorada de mim
    Lava os olhos meus
    Que a saudade é o pior castigo
    E eu não quero levar comigo
    A mortalha do amor
    Adeus

  33. Sábia
    1 de novembro de 2020

    Resumo : Nazaré já nasceu forte,uma parte do seu ser queria ser homem. Até que um viajante veio de longe e roubou seu coração e lhe ensinou a beleza de ser mulher
    Comentário : O texto é muito bom, em uma parte pensei que Nazaré fazia parte do grupo LGBT e que o texto seria sobre o preconceito que ela sofreria naquela época que mulher nascia para casar. Mas gostei do desfecho e considero que o amor nos faz descobrir nossa fragilidade e anseio por sermos amados. O tema do suicídio também é muito importante de ser abordado, é importante as pessoas refletirem sobre o desespero.

  34. Anderson Do Prado Silva
    1 de novembro de 2020

    Resumo:

    Mulher tenta o suicídio após perder o companheiro para o mar.

    Comentário:

    Escritor bom me pega pela mão e me leva para conhecer sua história, sem me soltar em nenhum momento. Este escritor é um tecelão habilidoso, que não perde o fio. Eu, leitor, fui e voltei, voltei e fui pelos diferentes tempos da história, sem me avizinhar de perder o interesse, sem me cansar.

    Este texto serviu para me mostrar que as diferenças entre o português desta banda e das outras não é tão grande assim.

    O texto é muito bonito, muito poético, sem, no entanto, descambar para o abuso (uso comedido de adjetivos, advérbios e demais palavras fortes ou pesadas).

    A nota do autor chegou a me provocar um arrepio ao revelar o quanto de real pode haver por trás do enredo do conto.

    Há um “que” repetido (assim: “que que”). Achei que houve um excesso de pronomes neste trecho: “À noite, ela preparou o tamboril. Beberam vinho. Ela e Sidónio foram para o quarto. Fizeram amor uma última vez. Ela fechou-se no abraço dele até que ele se levantou.”

    Parabéns pelo texto, do qual gostei muito, e boa sorte no desafio.

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2020 por em Loucura.