EntreContos

Detox Literário.

Entre irmãos – De volta à Rua Morgue (Rafael Sollberg)

O Comissário de polícia Jean Baptiste apertou minha mão com o entusiasmo de quem agarra uma boia em pleno maelstrom. Os olhos suplicantes e dóceis típicos de um sujeito acostumado a ludibriar bandejas de prata e que luta diariamente por conservar a cabeça sobre o pescoço.  Afinal, somos conhecidos pela devoção ao croissant crocante e à guilhotina afiada, e não por acaso. Desde a revolução vivemos uma história de amor e ódio por decapitações espetaculosas e pescoços partidos. Por falar em “acaso”, essa é uma palavra que evito usar e quando o faço, trata-se exclusivamente por respeito às probabilidades e a incrível força do um por cento. Porém, a única coincidência que essa história poderia comportar, era o fato de que pela segunda vez em um ano estava de volta à Rua Morgue. 

Entrei no Solar dos Karaopoulos e logo retirei o lenço que cobria meu rosto. Paris era sempre escaldante no verão e seu majestoso esgoto fermentava podridão em suas mais diversas fragrâncias. A construção tinha resquícios da imponência aristocrática perdida em alguma depressão do século passado. Provavelmente quando os parisienses resolveram abandonar os calçados gregos pelos modernos modelos italianos. Dizer que sua arquitetura tinha algo de anacrônico seria de imensa redundância, sobretudo porque a cidade, em si, era um generoso complexo de misturas temporais. O preço proporcional por ser a capital do mundo. O casarão espartano apenas mais um lembrete da permissividade cosmopolita dos governadores franceses. 

No centro do grande salão, exatamente embaixo do soberbo chandelier que parecia escorrer do mofo do teto, ou escalar, dependendo da perspectiva, os três suspeitos da morte da octogenária Condessa Lydia Karaopoulos permaneciam sentados sob o olhar atento dos guardas. À direita, Dom Petros Karaopoulos, irmão da falecida, me olhava com falsa resignação, buscando demonstrar uma tranquilidade que sua bengala denunciava como inautêntica ao golpear repetidamente o assoalho acarpetado. O viúvo de meia idade era figura notória no submundo social dos cabarés. Fanfarrão de muitas histórias e inventor de segunda categoria, gabava-se da perna perdida na guerra, quando todos sabiam do verdadeiro acidente etílico com seu modelo defeituoso na fábrica de sapatos da família.  

À esquerda, Catarina Karaopoulos, irmã mais nova de Lygia e Petros, espremia com vigor as coxas magras para disfarçar o tremor de suas mãos. O olho esquerdo, possivelmente colocado às pressas, encarava o teto em um desconfortável estrabismo. Ainda descalça, era possível notar porque havia sido escolhida como o rosto da marca, ou melhor, os famigerados pés. O Santo Graal de qualquer degenerado podólatra ou bailarina invejosa. 

Ao centro, Abel Simenon em quase nada se parecia com o Quasimodo do livro de Vítor Hugo. Ao contrário do rosto bestial da criatura ficcional, Abel tinha uma face absolutamente simétrica. Olhos agateados, que pingavam sem parar. Nariz fino e bem desenhado. Queixo firme e testa chapada. Não fosse o protuberante calombo na nuca, coberto por um espesso capote negro, o mordomo poderia facilmente interpretar virtuosos galãs nos mais variados palcos da cidade. Inconsolável, sentado na ponta da cadeira, o sujeito balançava a cabeça de um lado para o outro.

Diante deste quadro estranho e desolador, o Comissário me apresentou, impostando a voz tal qual um cabaretier de circo itinerante. Mera formalidade, tendo em vista que, vez por outra, minha foto estampava as capas dos hebdomadários encimando adjetivos bastante elogiosos; C. Auguste Dupin, magnifico, fantástico, estupendo. Todos bregas, embora merecidos. Acenei de forma comedida para o trio, deixando que meu silêncio agisse como cavalos fechando o cerco em um tabuleiro com poucas peças. Ciciei no pé do ouvido de Jean Baptiste e pedi que me levasse até o local do ato assassínio. 

Para meu inteiro estranhamento, o quarto da Condessa Lygia Karaopoulos ficava no primeiro andar. Providência lógica, fui logo saber. Fruto de sua cada vez mais escassa mobilidade e receio legítimo dos degraus homicidas que residem em todas as escadas. Um faustoso umbral guardava as portas duplas que, segundo o Comissário, só podiam ser abertas pelo lado de fora. Artimanha fundamentada pelo sonambulismo recorrente da anfitriã e, de modo elementar, digno de nota. Ao adentrar no quarto, logo me veio à cabeça o drama dos autores em descrever detalhadamente os desertos. Não pude deixar de perceber que aquele cômodo seria o pesadelo dos dramaturgos mais talentosos. Nos fundos do aposento, distanciada por uns dez passos da entrada, uma cama de solteira jazia sozinha absorta pela penumbra. No canto direito, uma janela alta vazava a parede sem cor, sem quadros, sem marcas. No chão apenas um caco de vidro avermelhado brilhava refletindo a luz da lua, que timidamente abocanhava o negror do lugar. Inclinei um pouco o meu corpo e calculei mentalmente a altura; dois metros e meio de queda. Considerável, contudo, dificilmente fatal. E era basicamente isso, o quarto cela em toda sua austeridade. Nada mais. Exceto, é claro, pelo corpo da vitima tombado no colchão. 

Respirei fundo, limpei o suor que escorria da minha testa e pedi para que Jean Baptiste segurasse a lamparina próxima ao rosto da vitima. Sem muita demora, concluí que o ferimento mortal no pescoço tinha sido causado por uma mordedura. A jugular rompida, a pele despedaçada e a poça de sangue coagulado eram fortes indícios da hipótese. Contudo, o dente ainda cravado na carne da velha era a certeza que por excelência transformava teses em verdades. Eivado de zelo, coletei a evidência e constatei que se tratava de um exemplar de incisivo humano. Entreguei ao policial, ao passo que recuperei minha chama.  

– Um vampiro? – o Comissário me perguntou arqueando as grossas sobrancelhas. 

– Que não gosta de sangue e sofre de escorbuto? – devolvi sem paciência para crendices populares. 

Prestes a sair daquele dormitório com vocação para calabouço, identifiquei algumas gotas vermelhas, teoricamente de sangue, ao lado de uma das portas. Os primeiros esboços começavam a se desenhar em minha mente. Método dedutivo em todo o seu esplendor. Antes de voltar para o salão, travei conhecimento com Jean Baptiste e tomei ciência dos depoimentos preliminares dos suspeitos. Li os relatórios gravando todos os pormenores em meu cérebro. Ao menos uma dúvida estava elucidada. O maníaco estava sentado em uma daquelas três cadeiras. 

De volta ao salão, encarei demoradamente a trinca de personagens memoráveis. Eles permaneciam como havia os deixado, como se não tivesse me ausentado por mais do que alguns segundos. A realidade é que o tempo tinha a mania de se comportar de modo estranho com aqueles que carregavam culpa em seu coração. Para mim, restava claro que todos os três tinham motivações suficientes para findar a existência terrena de Lygia. Não era segredo que Dom Petros queria vender o casarão para quitar antigas dividas e começar outras novas. Por sua vez, Catarina ainda não havia se recuperado da demissão de garota propaganda dos Calçados Karaopoulos. O ressentimento era palpável. Não havia superado o fato de ser trocada por pés mais jovens, maiores e melhores bronzeados. Por fim, como todo mordomo corcunda que se preze, Abel Simenon possuía o estimulo original, evidentemente justificável, de se revoltar contra qualquer pessoa na terra, no céu e no inferno, e madame Karaopoulos habitava alternadamente essas três instâncias. 

A quietude que precedia minha argumentação já podia ser quebrada. O momento outrora suspenso, declinando lentamente como uma foice pendular. Em breve, muito breve, minha lógica afiadíssima e incontestável trespassaria o casulo mal construído do homicida. Não havia escapatória. Dali pra frente toda e qualquer impunidade passaria necessariamente por violência e ausência completa de astúcia. 

– Senhoras, Senhores, Comissário e demais Agentes da Lei. Antes de tudo, faz-se necessário estabelecer algumas premissas. Primeiramente, ao realizar a cronotanatognose…

– O que? – perguntou Jean Baptiste, interrompendo o raciocínio e despertando alguns tremores na coluna do corcunda. 

– Cronotanatognose, do grego, kronos que significa tempo, thanatos que corresponde à morte e gnosis que se traduz por conhecimento. Logo, em termos populares; a hora da morte.

– Vejo que o senhor tem boa fluência em grego – pontuou Catarina, com sua voz grave e arrastada. 

– Sim. E em mais oito idiomas. Pois bem, com base em minha análise sei que a Condessa morreu por volta de duas horas atrás. Sei também que ela morreu em virtude de uma severa hemorragia, consequência de uma mordida profunda e voraz. 

– Um animal! – Petros exclamou, batendo sua bengala com força no pé de madeira maciça.

– Sem dúvidas. Mas da nossa própria espécie – completei, sem deixar que a indignação fraudulenta do sujeito contaminasse outras pessoas – Tendo ciência da hora da morte, do local e da arma utilizada, só me falta clarear mais dois aspectos; agente e motivação.

– Quem e porquê? – Baptiste achou por bem observar para marcar sua posição de autoridade especialista.

– Com base nos relatos colhidos pelos inspetores consegui desenvolver a dinâmica dos fatos. Pois bem, a primeira a chegar à cena do crime foi a Sra. Catarina. Alega a nobre cidadã que estava em seu quarto no segundo andar quando ouviu uma briga. Ao que parece dois homens discutiam. Em seguida, ouviu o grito de sua irmã e por ultimo o som de vidraça se quebrando. Conta ainda que quando chegou ao local teve que girar as maçanetas, vez que as portas estavam fechadas, e que ao acudir a irmã conseguiu ouvir uma palavra sendo repetida. Que fique registrado que a palavra citada pela depoente era “outros”. 

– Correto – Catarina anuiu, coçando o olho que não era de vidro. 

– Ainda de acordo com os depoimentos, o segundo a surgir no quarto foi o Sr. Abel, que pouco acrescentou ao relato e que em linhas gerais corroborou com as versões apresentadas. Aqui, ressalto que é plenamente compreensível que tenha sido discreto em suas informações e que sua capacidade cognitiva tenha sido momentaneamente afetada pelo lamentável episódio – expliquei, enquanto o mordomo se agitava na cadeira ao passo que chacoalhava a mão dentro do bolso da calça. 

– Desculpe por não poder ajudar mais – o corcunda comentou abaixando os olhos ao mesmo em tempo que seu bócio tremia por baixo da roupa. 

– Por último, compreensivelmente, Dom Petros apresentou-se esbaforido no dormitório de sua irmã, afirmando que também havia ouvido a discussão, porém sem conseguir identificar os gêneros das vozes envolvidas no imbróglio. Outrossim, escutou o grito e o barulho da janela se partindo. Conta ainda que no momento em que chegou, Catarina acudia a moribunda Condessa Lygia e que o maldito corcunda, suas palavras, estava perto da janela. Por fim, confirma que ouviu a velha repetir duas vezes o seguinte vocábulo antes de falecer: “ortos”.  Assim sendo, temos um processo bastante homogêneo, excetuando a divergência dos verbetes “outros” e “ortos”, que me satisfaz, contudo, por sua confluência. 

– Confesso que estou um pouco decepcionado – o sujeito falou, erguendo-se com dificuldade e, em seguida, caminhando claudicante em minha direção – Parece-me que sua fama foi construída em cima de obviedades – ele apontou a bengala na direção de Jean Baptiste e ordenou – Agora, por favor, abandone sua preguiça burocrata e ponha seus homens para vasculhar os becos atrás do psicopata que fugiu por aquela janela. 

– Ninguém saiu ou entrou por aquela janela. Queiram me acompanhar, por obséquio – disse sardonicamente, fatigado pelo falso espetáculo do bufão.

Parti em passadas alongadas, capitaneando o sinistro séquito que me seguia desconfiado. Entramos no quarto quente e abafado com cheiro de morte. Acendi algumas velas, cobri o corpo frio com um cobertor que estava no chão e fechei o portão duplo atrás de mim, mas não sem antes colocar um policial prostrado ao lado de fora impedindo que alguém entrasse ou, eventualmente, saísse. Após certa dose de impropérios e protestos, todos se calaram exaustos e vencidos pela minha incorruptível passividade. 

– Olhem para o chão! Não há vestígios de vidro, exceto por esse pequeno pedaço completamente fora do contexto espacial – anunciei, abaixando-me para apanhar o diminuto caco afiado pintado por delicadas gotas rubras – Assim sendo, a janela foi quebrada de dentro para fora, ou seja, ninguém entrou por aqui. E esse pequeno triângulo cortante ensanguentado é a prova de que igualmente ninguém saiu pela janela. Em suma, o assassino já estava neste quarto. E, vejo que agora, está novamente aqui – concluí, coletando os assombros nos semblantes dos variegados presentes. 

– Isso é um ultraje! – Dom Petros vociferou por entre os lábios moles e encharcados. 

– Juro pelo santo sudário imaculado que a porta estava fechada quando cheguei. Não havia ninguém aqui, juro! – Catarina desesperou-se.

– Acredito que a porta estava fechada, porém, o quarto não estava vazio. Perceba o que aconteceu – estalei os dedos e entreguei meu terno para o Comissário – De início, é importante ressaltar que o crime não foi premeditado. Não há vivalma nesse mundo que planeje matar alguém com dentadas. Contudo, foi o que ocorreu. Desesperado, o assassino percebeu-se preso como um rato em sua própria e desastrada armadilha. Por um momento, cogitou escapar pela janela, quebrando-a por impulso, mas em virtude de sua condição física retrocedeu rapidamente. Em uma manobra atilada, colocou-se à esquerda da porta ao perceber que você, Sra. Catarina, seria a primeira a chegar. Como posso dizer isso sem parecer rude…

– Poupe-me de suas delicadezas e eufemismos, Senhor Dupin.

– Justíssimo. A verdade é que o criminoso aproveitou-se do fato da senhora ter o campo de visão reduzido, em virtude de sua condição de caolha, e se posicionou em um ponto cego, com o perdão do trocadilho. Em seguida, impediu que a porta se fechasse mais uma vez, saiu furtivamente e depois retornou para garantir o seu álibi. 

– Eu não matei minha irmã! – Dom Petros berrou, olhando para a janela quebrada. 

– Entretanto – ignorei o lamento do bon vivant parasitário e continuei – isso ainda não explica a discussão que vocês ouviram antes do grito mortal. Primeiro cogitei uma disputa entre o mordomo corcunda e o bonachão perneta, mas além de extremamente caricato, isso não explicaria a janela quebrada, tampouco os pingos de sangue perto da porta. A hipótese de um sujeito sofrendo de transtorno dissociativo de identidade passou pela minha cabeça, mas o verbete final repetido pela Condessa Lygia Karaopoulos trouxe luz para minhas trevas. 

Atravessei o quarto em um átimo, parei em frente ao irritado – e irritante! – Petros e, pelo bem da encenação, pedi que ele sorrisse. O sujeito intragável arrancou sua dentadura, revelando a gengiva mais lisa que tinha visto em toda minha vida, e assoprou seu hálito fétido de meio sono na minha cara. Por um momento pensei que fosse desmaiar, tal qual um boxer que recebe um direto no queixo, todavia, Jean Baptiste me escorou, colocando-me novamente na justa. Alternando movimentos bruscos e gentis para manter o suspense, andei lentamente até o mordomo e fiz a mesma solicitação. Com extrema dificuldade, Abel Simenon sorriu sem convicção, porém, iluminando a penumbra ali instalada, para desespero de sua corcunda convulsiva. Sem a menor sombra de dúvida, presenciei ali o mais belo sorriso da humanidade. Os dentes alvos e bem cortados acomodavam-se na boca como peças de piano bem ajustadas.

– Perfeito, chamaram um dentista para desvendar o crime – Catarina escorreu zombaria em suas notas mais graves.

– Dupin, encontrou um incisivo no pescoço da Condessa! – o comissário explicou, defendendo seus motivos com dentes e dentes. 

– Em meus mais recentes estudos fiz descobertas incríveis no ramo da parasitologia – preambulei, acostumado a ignorar toda sorte de chistes, enquanto andava pelo quarto – São organismos absolutamente fascinantes. Eles se associam ao hospedeiro drenando sorrateiramente os recursos em nome de seu exclusivo bem-estar. Até que um dia simplesmente descartam quem os sustentou a vida inteira. Mas não o fazem por crueldade ou maldade atávica. Não, de modo algum. Fazem porque assim é sua natureza. 

– Não admito ser tratado desta maneira em minha própria casa! – o irmão grego vociferou perdendo a compostura e despertando espasmos no corcunda. 

– Sem mais delongas, prenda o assassino Comissário – falei em óbvia provocação, transformando todos os presentes em estátua.

– Perdão, Dupin. É que não ficou muito claro, acho que me perdi na parte do parasita. Penso até que sei quem é o malfeitor, mas a fim de evitar confusão…

– Então digo melhor, prenda o irmão de Abel Simenon. 

Em denso silêncio sepulcral ninguém pareceu compreender ao certo o teor da minha incrível revelação. A bem da verdade, consegui até contemplar um esboço de riso no homem da lei. Não por outro efeito, me vi na obrigação de ser mais explicito. Por isso, andei na direção do falso corcunda e retirei seu capote. Após alguns segundos sem nada acontecer, ergui um pouco mais a lamparina e, do local onde ficava o bócio, um pescoço se ergueu lentamente. Estalando feito um par de articulações recém-despertadas, o irmão do mordomo emparelhou as cabeças e sorriu pra mim. Ao contrário de Abel, o assassino tinha o rosto completamente desproporcional. Olhos frios e esbugalhados, testa protuberante, nariz aquilino e um sorriso melancólico com um punhado de dentes frouxamente presos em uma gengiva purulenta. O verso do avesso.

Repentinamente o homicida retirou a mão do bolso, e pude perceber que ele carregava um caco de vidro afiado. Sem titubear, ele encostou o objeto afiado no pescoço do irmão e gargalhou em minha direção. 

– Se vocês derem mais um passo, eu mato esse desgraçado.

– Por favor, Comissário. Algeme o assassino – disse, ignorando a ameaça do individuo. 

– Mas, Dupin… Você ouviu o homem.

– Meu caro, Jean. Esse sujeito não vai fazer nada. Nada! Por duas simples razões. Primeiramente, porque ele não sabe ao certo quais seriam as consequências dessa degola no funcionamento de seu próprio corpo. Caso contrário, certamente já haveria de ter feito tal segregação. Não é como se ele não tivesse tido outras oportunidades, não é mesmo? Em segundo lugar, porque ele sabe muito bem que a única maneira de escapar da pena de morte reside justamente no fato dele estar atrelado de forma definitiva ao corpo, vivo, de um homem inocente. 

Vencido, o criminoso largou a arma e permitiu que o agente da lei colocasse as algemas. As duas cabeças, uma ao lado da outra, me encaravam sem piscar. Quatro olhos me cercando; culpa, resignação, raiva e impotência. Então, uma pergunta ecoou da garganta do facínora; 

– Como você descobriu? 

– Jean Baptiste, Senhora Catarina e Dom Petros, vocês devem estar se perguntando como desvendei esse assassinato, correto? – comentei, virando-me para os três, uma vez que jamais dialogaria com um réu confesso.  

– Claro! – anuiu o entusiasmado Comissário. 

– Pois bem, o que aconteceu foi o seguinte. O mordomo Abel Simenon por descuido, cansaço ou má sorte, ao levar um cobertor para sua patroa não calçou a porta e esta se fechou, trancando-o para dentro do aposento. Percebendo este ocorrido a Condessa certamente o desqualificou com xingamentos e/ou zombarias. No entanto, cansado dos constantes insultos e reprimendas, seu irmão incógnito resolveu dar um basta nessa situação comum aos corcundas, falsos ou não. Ocorre que percebendo as intenções assassinas de sua outra metade, Abel começou uma discussão e uma tímida luta corporal. Os dois caíram sobre a cama e a Condessa, enfim, conseguiu ver a totalidade de seu mordomo, usualmente coberto pelo capote. Como qualquer ser humano que se preze ao descobrir algo assombroso, ela gritou em puro horror e recebeu uma mordida rancorosa e censuradora. Atordoado, o assassino quis fugir pela janela, mas foi impedido pelo seu irmão e, em último efeito, pelas suas próprias dimensões corporais. Contudo, ao ser puxado de volta, agarrou com força um caco de vidro que havia ficado preso na madeira e o arrancou sem piedade, cortando levemente sua mão. Na posse dessa arma improvisada, tomou de refém sua parte menos privilegiada intelectualmente e… bem, o resto vocês já sabem. 

– Magnifico! Fantástico! Estupendo! Mas como você descobriu que ele eram eles?

– Simples, meu caro, Jean Baptsite. De inicio, percebi que todas as vezes que alguém falava algo um pouco mais espirituoso, o calombo do senhor Abel convulsionava de forma bastante insólita. Em seguida, estamos no verão mais impiedoso das últimas décadas e ninguém, mesmo um corcunda, usaria um capote deste tipo sem herméticos propósitos. E, por último, a Condessa Lygia não havia falado “outros”, tampouco “ortos”. Mas, sim, “Ôrtros”, que nada mais é senão o famoso cão bicéfalo da mitologia grega. Em um raciocínio lógico, abandonando os sensacionalismos e superstições, e aplicando meus conhecimentos médico-enciclopédicos e analítico-dedutivos, cheguei evidentemente aos famigerados gêmeos siameses. 

– Bravo, bravíssimo! Os jornalistas não vão acreditar.

– Depois do Orangotango, temos obrigação de acreditar em tudo, Jean. 

 

XXX

Roubando o epílogo do meu momento, um jovem guarda invadiu o casarão com o ímpeto de um mensageiro de maratona. Mal-ajambrado, possivelmente tisico e atacado por uma asma potente, o sujeito balbuciou entre as respirações inacabadas:

– Acabaram de encontrar um corpo no Rio Sena. A vítima é uma senhorita identificada como Marie Rogêt. O chefe exige a sua presença imediatamente, Comissário. 

– Claro – Jean Baptiste confirmou, enquanto colocava seu chapéu – Vamos, Dupin. Afinal, formamos uma ótima dupla. 

– Certamente – respondi de forma automática, lembrando-me das roupas molhadas que meu companheiro de morada, Edgar, havia esticado mais cedo no varal.

22 comentários em “Entre irmãos – De volta à Rua Morgue (Rafael Sollberg)

  1. Marcio Caldas
    19 de setembro de 2020

    O conto relata mais um dia de trabalho do detetive criado por Edgar Allan Poe, que inspirou toda a sorte detetives de lá até hoje.

    A trama é interessante, com um final surpreendente. Mais uma vez, o autor presta homenagem a esses casos com soluções estapafúrdias (no bom sentido) como toda boa história de detetive merece.

    O arco narrativo é simples e rápido. O leitor fica ansioso pelo final, como uma boa trama de detetive pede. Bem escrito. Mas, apenas, mais uma boa história de detetives.

    Nota:4

  2. Andreas Chamorro
    19 de setembro de 2020

    Auguste Dupin e Jean Baptiste retornam à rua Morgue para desvendar mais um assassinato; Dupin, usando de seu raciocínio, descobre que a idosa fora morta pro irmão siamês de seu mordomo.

    Olá, Rufus! Excelente esse seu reconto de Poe, sensacional mesmo. Primeiro quero elogiar sua escrita: fluida, concatenada e com um ótimo ritmo. Por mais que você se apropriara da figura de Dupin e Baptiste, o enredo – principalmente o “mistério” – é totalmente original e bem pensado; fiquei com inveja da proeza de, em poucas páginas, construir personagens tão cativantes. Outro ponto altíssimo para mim fora seus diálogos. Você é engraçado sem forçar, as tiradinhas do Dupin foram ótimas, ri em vários momentos e olha que não costumo ler com livro! (A não ser quando leio Bolaño, aí não tem jeito). Gramaticalmente não encontrei nenhum erro, pelo contrário, fora muito apraz a leitura de um texto com um vocabulário muito bem usado. Poe estaria orgulhoso. Parabéns! De verdade!

  3. Fernanda Caleffi Barbetta
    18 de setembro de 2020

    Entre irmãos – De volta à Rua Morgue

    Resumo
    A Condessa Lydia Karaopoulo é morta com uma mordida no pescoço e o detetive Dupin, juntamente com o policial Jean Baptiste vão ao Solar dos Karaopoulos para desvendar o crime, confrontando os suspeitos. Ao final da investigação, Dupin revela que o assassino era o irmão do mordomo, um gêmeo siamês que dividia o corpo com ele.

    Comentário
    Que legal ter trazido ao certame um conto policial, e da melhor espécie, com o clássico Dupin. Gostei bastante da forma como contou a história, da linguagem utilizada. Bastante interessante e criativo o seu enredo, prendeu minha atenção do começo ao fim. Você conseguiu criar um novo mistério, um assassinato respeitando e remetendo aos originais. Interessante você ter escolhido colocar a narração na boca de Duplin, pois nos aproximou dele. Boas também as tiradas sarcásticas durante o texto. Parabéns.
    O desfecho foi bastante interessante, gostei do fato de ter feito um gancho com a obra de Poe que se seguiu aos assassinatos na rua Morgue e também foi boa a sacada de citar o nome do Edgar. Só não entendi muito bem os dois últimos parágrafos. Talvez tenha sido um presente aos mais fanáticos do que eu.
    Muito bem escrito, encontrei apenas um deslize que valha ser comentado: a (à) incrível.
    A frase “vez que as portas estavam fechadas” ficou estranha.

  4. Fabio Baptista
    17 de setembro de 2020

    RESUMO:
    O detetive Dupin vai investigar um assassinato na família Karaopoulos.
    Após analisar a cena do crime, descobre que o culpado era o mordomo ou, na verdade, o gêmeo siamês do mordomo.

    COMENTÁRIO:
    Um texto muito bem escrito, com uma profusão de frases inteligentes e muito bem pensadas.
    Na parte técnica só vi um “porquê” errado e algumas pontuações nos diálogos, coisa que quase não merece nota diante da beleza do texto. Teria, talvez, alongado algumas frases, para variar um pouco o ritmo, principalmente no começo. Exemplo:

    – A construção tinha resquícios da imponência aristocrática perdida em alguma depressão do século passado. Provavelmente quando os parisienses resolveram abandonar os calçados gregos pelos modernos modelos italianos.
    >>> aqui uma vírgula cairia melhor do que o ponto (no meu gosto), sobretudo devido ao contexto da frase, rodeada por outras frases curtas.

    Sobre a história, apesar do curto espaço para apresentar personagens e o mistério em si, acredito que o(a) autor(a) conseguiu um bom efeito, focando na sagacidade e deduções de Dupin.

    Ótima leitura.

    NOTA: 5

  5. angst447
    15 de setembro de 2020

    RESUMO

    Dupin e o comissário de polícia Jean Baptiste investigam um crime ocorrido no Solar dos Karaopoulos. Há três suspeitos da morte da octogenária Condessa Lydia Karaopoulos = Dom Petros, Catarina e mordomo Abel Simenon. O assassinato se dá em virtude de uma severa hemorragia, consequência ferimento mortal no pescoço causado por uma mordedura. Dupin descobre que o mordomo tem um irmão gêmeo. Os dois são literalmente inseparáveis, gêmeos siameses. No final, Dupin faz referência ao seu companheiro de morada, Edgar. Seria o Poe?

    AVALIAÇÃO

    FanFic do conto de Edgar Allan Poe – Assassinatos na Rua Morgue.
    O ritmo do conto é bom e a leitura flui sem entraves. O tom empregado revela toques de humor e ironia. Achei o final surpreendente e um pouco nonsense, mas valeu.
    Narrativa bem elaborada e personagens construídos com quase perfeição. O(A) autor(a) sabe lidar com as palavras e as imagens.
    Existem algumas falhas de revisão, mas nada grave.

    Boa sorte nesta reta final e que Dupin te proteja do gêmeo do mal.

  6. Fheluany Nogueira
    14 de setembro de 2020

    O conto é baseado na investigação da morte da Condessa Lydia Karaopoulos, no seu quarto, no solar da família. Dupin é convidado pelo comissário de polícia, e através de observações minuciosas descobre o assassino entre três suspeitos: o irmão e irmã da vítima e o Abel Simenon. Este escondia um irmão siamês como um bócio debaixo de espesso capote, o autor da mordida que matou a condessa.

    O narrador é o detetive e através de sua descrição, o leitor acompanha o desenvolvimento do seu detalhado raciocínio analítico. A linguagem e a estrutura do texto lembram bem ‘Os assassinatos da Rua Morgue’ de Edgar Allan Poe. O relato traz boa dose de suspense, e pitadas de humor, sobretudo pela causa da morte.

    Chamam a atenção a apresentação do cenário e do crime e a narração da maneira como foi feita. O enredo emperra um tantinho na discussão entre suspeitos e detetive, mas a trama é crível e fecha bem, dando uma consistência ao todo.

    A técnica é boa. Muito boa, na verdade. Sem erros, bem escrita e fluida, um título dúbio que leva a crer que um dos irmãos da vítima era o assassino. Enfim, o resultado final agrada!

    Parabéns pelo trabalho. Um abraço.

  7. Rubem Cabral
    14 de setembro de 2020

    Olá, Rufus.

    Resumo da história: Jean Baptiste e Dupin investigam a morte misteriosa da Condessa Lydia Karaopoulos. São suspeitos o mordomo, o viúvo e a irmã mais nova da condessa. Todos os três teriam razões diferentes para abreviar a vida da condessa, mas a dupla de investigadores observam as evidências: vidros quebrados do lado de dentro do quarto, um dente incisivo no pescoço da condessa, a roupa inapropriada do mordomo num dia tão quente, etc. Descobre-se então que o mordomo na verdade escondia seu irmão simamês sob o disfarce de ser corcunda, e que o gêmeo fora o responsável pelo assassinato. As últimas palavras da condessa entregavam que o autor fora “ôrtros”, o cão bicéfalo da mitologia.

    Análise do conto:

    a. criatividade. 5/5 – achei criativo o uso do detetive mais famoso de Edgar Allan Poe, assim como o cenário paririsense. Alguns easter eggs, feito a referência ao maelstrom, ao orangotango, foram divertidas.
    b. personagens. 4/5 – estão bem desenvolvidos.
    c. escrita. 4/5 – está bastante bem escrito.
    d. adequação ao tema – 5/5 – é uma fanfic de obras de Edgar Allan Poe.
    e. enredo. 4/5 – é bastante bom e criativo, embora eu tenha achado que um gêmeo siamês tenha sido um pouco fora da curva.

    Boa sorte no desafio e abraços.

  8. Karen Salazar Cardoso
    12 de setembro de 2020

    Um detetive se ve em frente a um caso de assassinato onde a moribunda teve a jugular destroçada por dentes humanos. usando sua capacidade de dedução e seus conhecimentos ele desvenda o caso e aponta o assassino revelando para todos algo escondido há anos, uma segunda cabeça!

    Achei a narrativa muito bem montada, com toques de suspense no ponto certo. o plot bem desenvolvido e a resolução muito boa, uma surpresa genial! o uso de palavras mais rebuscadas dá ainda mais envolvimento em relação ao tempo em que se passa a história, dando mais profundidade ao personagem e a própria história. a narrativa e plot me lembraram muito contos da agatha christie ou conan doyle.

  9. Leo Jardim
    11 de setembro de 2020

    🗒 Resumo: mais um caso resolvido pelo extremamente lógico (e um pouco mais irônico que o normal), C. Auguste Dupin: uma idosa condessa assassinada pelo irmão siamês do mordomo.

    📜 Trama (⭐⭐⭐⭐⭐): cara, preciso confessar que temi que você não conseguiria escrever um conto usando Dupin com tão poucas palavras. Afinal, nosso querido Poe não costuma economizá-las. Digo isso para concluir (e você já deve ter notado pela quantidade de estrelas) que você conseguiu! Essa história tem tudo o que eu esperaria de uma trama com esse personagem: aristocracia, cenas grotescas de assassinato, descrições dos ambientes e suspeitos bastante estranhos e realistas. E com uma conclusão louca e totalmente satisfatória, deixando ela fechadinha. Parabéns!

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐⭐): essa é a prova de que os erros que anoto raramente afetam a nota desse quesito. Encontrei alguns de pontuação nesse texto, mas não afetaram a grande qualidade da prosa apresentada. Um texto que contém uma grande frase elaborada a cada duas. Destilando ironia e boas referências, me levando ao Google em algumas delas, confesso. Mas o mais importante: sem atrapalhar a história. Ou seja, uma técnica invejável.

    ▪ – Sem dúvidas. Mas da nossa própria espécie – completei, sem deixar que a indignação fraudulenta do sujeito contaminasse outras pessoas *ponto* – Tendo ciência da hora da morte, do local e da arma utilizada, só me falta clarear mais dois aspectos; agente e motivação.

    ▪ Dupin *sem vírgula* encontrou um incisivo no pescoço da Condessa

    🎯 Tema (⭐⭐): fanfic de “Os Assassinatos da Rua Morgue”, de Edgar Alan Poe.

    💡 Criatividade (⭐⭐⭐): não há como não considerar esse texto criativo, dentro da premissa de fanfic. Utilizando um personagem já existente, mas com uma trama muito bem desenvolvida e uma resolução inesperada.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐⭐▫): acho que já ficou bem claro que gostei muito do texto e as muitas estrelas demonstram isso. Aqui eu removi apenas uma (que não afetará a nota final) porque todo o mérito do texto (que são muitos) já foram bem avaliados nos quesitos acima e reservo as cinco estrelas de impacto para os textos que me fazem chorar ou gargalhar e esse, apesar de quase perfeito, não me arrancaram essas emoções. Fica porém, o registro da inveja boa que senti ao ler. E mais uma vez, meus parabéns.

  10. Fernando Amâncio (@fernandoamancio)
    10 de setembro de 2020

    Auguste Dupin e o comissário Jean Baptiste voltam à Rua Morgue para desvendar um assassinato. A senhora Lydia Karaopoulos, octagenária, foi assassinada à dentadas e há três suspeitos: seu irmão, sua irmã mais nova e o mordomo. Examinando a cena do crime e o contexto familiar, Dupin conclui que um dos três é o assassino, pois quem matou a mulher teve acesso ao quarto de dentro da casa. E, em um exercício de muita inteligência, ele descobre que o assassino, na realidade, é um “elemento oculto”.

    Rufus, li E. A. Poe há algum tempo e o texto que inspira a FanFic, por motivo de força maior, acabei deixando inconcluso. Isso, evidentemente, não vai atrapalhar minha análise. Seu texto é muito bem construído, prende a atenção do leitor do início ao fim, como deve fazer um bom mistério. A construção das frases é muito inteligente, dá para perceber que estamos diante de um escritor experiente. Há uma boa dose de clichês aí, dos suspeitos ao autor do crime. Mas sinto que isso também faz parte do gênero e uma FanFic deve incorporar essas características. Parabéns pelo texto e sucesso no desafio.

  11. Fernando Dias Cyrino
    10 de setembro de 2020

    Elementar, caro Rufus. Você me traz um conto interessante aqui para o desafio. A história, bem detalhada, e a consequente resolução, pelo detetive inteligente e atento a todos os detalhes, do assassinato de uma velha condessa na Paris da Belle Époque. Um conto onde você busca trabalhar com os chavões da literatura policial. E o principal deles é o de que o mordomo, mais do que suspeito, se torna culpado pela morte da condessa, Lydia/Lygia, sua patroa. E o assassino, o mordomo era nada mais nada menos do que – aqui o ponto alto da resolução do crime – siameses. A corcunda do primeiro era a cabeça do segundo! Bem, daqui já se depreende que criatividade é o que não falta na sua história. O relato está bem construído, repito, buscando reforçar aquele estilo rebuscado dos detetives de antanho (entrei no clima). Você usa bem o idioma, a narrativa está bem concatenada e seu vocabulário é muito rico. Parabéns pelo seu conto. Apesar de não ser afeito à literatura policial, apreciei por demais a sua história.

  12. Ana Maria Monteiro
    9 de setembro de 2020

    O conto, inspirado em Edgar Allan Poe e “Os Crimes da Rua Morgue” narra uma brilhante reconstituição do cenário de um crime e respetivo assassino, através das deduções e conhecimentos de Dupin, o mesmo detetive criado por Edgar Allan Poe nesse seu conto. A solução encontrada e todo o imbróglio imaginado pelo autor, demonstram imaginação e sentido de humor.

    Olá, Rufus. Bem, eu caí de paraquedas neste desafio onde, até ao momento e com exceção de um conto, apenas me deparei com personagens que desconheço de séries e filmes que não vi e agora com Edgar Allan Poe, de quem li um único conto de que não gostei nada e nunca mais lhe peguei. Mas isso não interessa nada, pois o seu conto tem um fio narrativo interessante e perfeitamente completo, construído sobre o arquétipo de detetive espertalhão e convencido a que tantos autores nos habituaram e que foi um clássico da literatura policial da primeira metade de século XX. Você demonstra um excelente domínio da língua e um sentido de humor mordaz e refinado, que me encantou. Notei apenas a falta de alguns acentos agudos, de resto está perfeito. Obrigada por participar e boa sorte no desafio.

  13. jowilton
    7 de setembro de 2020

    O conto narra uma história detetivesca onde o famoso investigador August Dupin soluciona o assassinado da octagenária condessa Lygia Karaopolos.

    O conto é muito bom! A narrativa tem muita qualidade e erudição, marca crucial em histórias de Edgar Allan Poe. O autor mostra conhecimento e tarimba na escrita. Apesar da fanfic ser de Poe, o humor usado é tipicamente inglês, a lá Dickens. O final é surpreendente e fecha com chave de ouro o texto que tem um perneta, uma caolha e um corcunda, que na verdade é um gêmeo xifópago. Um show de horrores, um show de conto. Boa sorte no desafio.

  14. Thiago Amaral
    7 de setembro de 2020

    O detetive Dupin é chamado para identificar o assassino de uma mulher morta a dentadas. Ele soluciona o caso ao perceber que o culpado é o irmão siamês do mordomo que se fazia passar por corcunda.

    O conto está muito divertido e bem-humorado. Existe um uso bastante diverso de ideias e palavras durante todos os parágrafos, sendo cada momento de leitura uma surpresa. Nunca torna a leitura “calma”, muito menos maçante.

    O personagem Dupin é bastante engraçado também, e você atribuiu uma característica distinta para cada personagem se destacar na mente do leitor. Bem bolado, funcionou aqui.

    Tem alguns errinhos de revisão, mas não estraga a experiência.

  15. Marco Aurélio Saraiva
    5 de setembro de 2020

    C. Auguste Dupin é chamado pela polícia para desvendar o mistério por trás do misterioso assassinato da velha senhora Karaopoulos. Após investigar a cena, as palavras finais da vítima e os suspeitos, deduziu que o assassino era, na verdade, o irmão siamês do mordomo, que fingia ser sua corcunda.

    É um conto incrível. Um mistério bem construído, um detetive muito bem emulado, uma solução inesperada, quase cômica, mas que é bem justificada e não deixa nada a desejar. Casado a uma escrita primorosa, esse é um dos melhores contos do desafio, com certeza. Seu uso de palavras às vezes, para mim, vai um pouco além do “pomposo” ou “formal”, mas não ligo. Você conseguiu emular uma escrita de época com seus termos complexos e ao mesmo tempo emprestar uma personalidade intelectual a Dupin, já que ele mesmo é o narrador.

    Não tenho muito a declarar senão que esse foi um conto que gostei de ler do início ao fim, que me manteve desperto e interessado, cuja leitura é muito boa e que com certeza ganhará nota máxima =)

  16. Gustavo Araujo
    4 de setembro de 2020

    Resumo: Auguste Dupin chega mais uma vez à rua Morgue para investigar um assassinato. O defunto da vez é a condessa Karapoulos e, a princípio, há três suspeitos. Por método indutivo-investigativo, Dupin remonta os fatos em sua mente e, voilà, descobre que o autor do crime é o mordomo, ou quase, uma entidade, um apêndice que se disfarça de corcunda.

    Impressões: excelente conto. Uma trama muito bem montada, que instiga a leitura. Linha a linha, parágrafo a parágrafo, tudo se encaixa, elevando a expectativa do leitor. Confesso que a todo tempo fiquei com aquela sensação de leitor idiota que não consegue ver as pistas que se mostrarão óbvias lá no fim. Talvez essa minha frase não tenha ficado muito boa, mas o que quero dizer é que me senti refém da inteligência que permeia a história e que não, não consegui antever quem era o assassino da pobre condessa. Creio que na verdade não havia esse tipo de jogo entre mim, leitor, e você, autor da história, até porque imagino que ninguém conseguiria adivinhar que o assassino era a corcunda do mordomo, uma entidade com vida própria, mais ou menos como o arqui-inimigo do Schwarzenegger no Total Recall. Mas, já estou viajando.

    Gosto de histórias de mistérios, embora seja leitor pouco assíduo desse tipo de literatura. Tenho uma memória afetiva, contudo, que me faz gostar de tramas assim porque um dos meus livros-favoritos-de-todo-os-tempos é “O Mistério do Cinco Estrelas”, do Marcos Rey, o primeiro que me fez deixar de jogar futebol num sábado à tarde porque eu não queria parar de ler. Já estou viajando de novo, kkk Então, voltando, sua história, caro autor, para além de uma evidente homenagem a Poe, me fez lembrar muito do excelente e recente filme “Entre Facas e Segredos”, em que um detetive muito esperto resolve um crime super complicado com base em observações sagazes. Seu conto vai pela mesma vibe, com um protagonista seguro de si, o que se denota pela maneira de falar, que transmite confiança e que permite ao leitor compreender a trama sem se sentir enganado.

    Bacana também a escolha do pseudônimo, nada menos do que o nêmesis do velho Edgar. Boa sacada.

    Valeu pela história. Parabéns e boa sorte no desafio.

    Nota: 5,0

  17. Bianca Cidreira Cammarota
    2 de setembro de 2020

    O conto disserta sobre o assassinato da idosa Condessa Karopouols, encontrada em seu quarto com a garganta lacerada. O Detetive Dupin e o Inspetor Jean pôs a analisar os fatos para encontrar o assassino entre os três suspeitos: os irmãos da falecida, Dom Petrus e Catarina, e o mordomo Abel Simon.
    Em uma análise meticulosa, com astúcia e inteligência, o Detetive Dupin descobre que o assassino é o irmão de Abel Simon. Abel e seu irmão dividem o mesmo corpo, embora cada um tenha uma cabeça. A cabeça do irmão até então desconhecido ficava escondido embaixo do capote do mordomo, sendo que todos pensavam que aquele volume encoberto de suas costas era uma corcunda.

    Conto muito,muito, muito bom dentro do estilo a que se propõe. Eu não conhecia o Detetive Dupin de Edgar Poe (tive que pesquisar para identificar a referência). A linguagem adequada para o século 19, detalhista, em primeira pessoa, irônica e dinâmica, típica (creio) da personalidade do Detetive, colocou velocidade no conto, arrancou de mim alguns sorrisos pela sua altivez e propôs um final surpreendente!
    Conto escrito com cuidado, carinho e dedicação! Muito bom!!! Adorei!!!!

  18. antoniosbatista
    31 de agosto de 2020

    Resumo de Entre Irmãos, de Volta a Rua Morgue- acompanhado pelo chefe de polícia de Paris, detetive investiga um assassinato na Rua Morgue. Quatro suspeitos são interrogados e com análise dos eventos e evidencias, o detetive descobre que o mordomo é o assassino e que a corcunda dele é uma outra cabeça, o verdadeiro assassino.

    Comentário- Auguste Dupin, é um dos personagens da história original de Edgar Alan Poe em, Os Assassinatos da Rua Morgue, onde o assassino é um macaco. O conto tem poucas referências do original, mas isso não invalida o tema. O Título, o personagem, o clássico “crime do quarto fechado” e um leve toque de terror, gênero que Poe aborda em seus contos, além da narração em primeira pessoa. Há uma menção a ele no final do conto. O argumento não é ruim, tampouco a trama das análises do detetive. Ficou bacana, parece o Sherlock Holmes e lembra também o detetive Hercule Poirot, de Agatha Christie. A narrativa em tom de ironia em certos momentos, ficou num nível regular, sem exagero. Boa sorte

  19. Maria Edneuda Oliveira Pinto ; Claraliz Almadova
    28 de agosto de 2020

    Excelente conto. Apresenta linguagem metafórica , apurada e trabalhada na descrição dos personagens, das coisas e dos ambientes. Um conto inovador que faz referencia ao monstro de duas cabeças, com enredo simpls, sem muita complexidade , mas um conto curto e objetivo que faz um contexto com outras histórias e outros espaços, partindo o cenário, de Paris. A princípio, o autor suscita no leitor , o desejo da descoberta, porém , criando neste ultimo pinceladas fracas de desconfianças enter os irmão da vítima, visto que o título nos insinua a eles a culpa. Mas tudo se tratava de uma estratégia artística do autor. Adorei o conto, muito bem escrito. Parabéns ao Rufus. Aliás, bem inusitado também esse codnome. N a minha avaliação , a nota é 5. 0

  20. pedropaulosd
    28 de agosto de 2020

    RESUMO: Quem matou Lydia Karaopoulos?

    COMENTÁRIO: Ótimo conto! Não li os contos de Poe (apesar de que, por sorte, tenho acesso e este conto me incentivou a lê-los), mas desde o início da leitura se fixa um suspense em torno de quem matou a Condessa. Os suspeitos estão lá, todos têm suas causas e um detetive extremamente astucioso entra em cena. Quando adentramos o quarto do assassinato, a descrição é minuciosa e se sabe que cada elemento apresentado é para ser visualizado como um potencial indício, mas, é claro, ao ter tido esse cuidado, o autor nos diferenciou de seu personagem, pois não podemos ver como ele. Está ali, diante de nós, podemos nos deter e tentar encaixar as peças por nós mesmos, mas bom, a resposta também se encontra nas linhas seguintes e basta ler. É a opção mais fácil, principalmente com uma escrita cuidadosa, a primeira pessoa consolidando a habilidade narrativa e perceptiva tanto do personagem como do autor do conto. Com tudo isso, o conto nos leva até o final sem nenhum problema, presos a cada linha, o clímax pouco a pouco aumentando o seu volume… até a descoberta. Uma descoberta do tipo que faz pensar que “sim, estava tudo lá” ao mesmo tempo em que se diz “não, isso não é possível”. O choque inicial até me blindou de perceber o que realmente estava acontecendo, mas logo visualizei a cena horrorosa e, assim como os presentes, ansiei pela explicação bem dada pelo detetive. A habilidade de fazer de cada linha uma promessa é verdadeiramente admirável. Parabéns. Há pouco para criticar. Notei uma vírgula mal colocada e um porquê que no certo seria “por quê”, além de que a parceria entre um indivíduo genial e outro aparentemente medíocre é um clichê que talvez venha da obra original e poderia ter sido alterado, mas que, inegavelmente, funcionou muito bem aqui. Portanto, o conto não perde seu mérito em qualquer critério pelo qual seja avaliado.

  21. Giselle F. Bohn
    26 de agosto de 2020

    Um novo assassinato na Rua Morgue é investigado e elucidado por C. Auguste Dupin, o investigador criado por Edgard Allan Poe.
    O que dizer deste conto? Perfeito do começo ao fim, uma verdadeira obra-prima!
    O único erro que percebi foi, uma vez que entendi que o autor se referia aos pés da moça, a expressão “melhores bronzeados”, que deveria ser “melhor bronzeados” ou ainda “mais bem bronzeados”.
    Mas o texto é absolutamente genial! Se o autor não tem ainda uma carreira sólida nesse gênero, deveria!
    Parabéns, grande trabalho! Acho que temos um campeão! 😉

    Meus parabéns ao autor, realmente genial!

  22. Anderson Do Prado Silva
    25 de agosto de 2020

    Resumo:

    Detetive perspicaz desvenda a morte de uma velha.

    Avaliação:

    (Autor, não leia o presente comentário como crítica literária, pois se trata apenas de uma justificativa para a nota que irei atribuir ao texto.)

    O autor possui pleno domínio da língua e das técnicas de narração; é um escritor “pronto”. Fiquei muito impressionado!

    O texto está muito bem revisado!

    Receberá nota alta!

    No contexto do desafio, não me ficou claro de qual ficção (“fic”) o autor seria fã (“fan”), de modo a justificar sua “fanfic”. Deficiência minha. Tenho pouca cultura.

    A primeira terça parte do conto é um pouco cansativa: parágrafos longos e descritivos. A ação demora a se desenvolver.

    Depois que a ação começa, o conto se torna bastante dialogado e veloz.

    Como não identifiquei a que a obra o conto remetia, tive que encará-lo como um texto isolado. Ao fazê-lo, gostei muito do enredo. A investigação e a revelação do criminoso ficaram muito legais.

    Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado às 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Finalistas, FanFic - Grupo 2 e marcado .