EntreContos

Detox Literário.

Entre irmãos – De volta à Rua Morgue (Rufus Wilmot Griswold)

O Comissário de polícia Jean Baptiste apertou minha mão com o entusiasmo de quem agarra uma boia em pleno maelstrom. Os olhos suplicantes e dóceis típicos de um sujeito acostumado a ludibriar bandejas de prata e que luta diariamente por conservar a cabeça sobre o pescoço.  Afinal, somos conhecidos pela devoção ao croissant crocante e à guilhotina afiada, e não por acaso. Desde a revolução vivemos uma história de amor e ódio por decapitações espetaculosas e pescoços partidos. Por falar em “acaso”, essa é uma palavra que evito usar e quando o faço, trata-se exclusivamente por respeito às probabilidades e a incrível força do um por cento. Porém, a única coincidência que essa história poderia comportar, era o fato de que pela segunda vez em um ano estava de volta à Rua Morgue. 

Entrei no Solar dos Karaopoulos e logo retirei o lenço que cobria meu rosto. Paris era sempre escaldante no verão e seu majestoso esgoto fermentava podridão em suas mais diversas fragrâncias. A construção tinha resquícios da imponência aristocrática perdida em alguma depressão do século passado. Provavelmente quando os parisienses resolveram abandonar os calçados gregos pelos modernos modelos italianos. Dizer que sua arquitetura tinha algo de anacrônico seria de imensa redundância, sobretudo porque a cidade, em si, era um generoso complexo de misturas temporais. O preço proporcional por ser a capital do mundo. O casarão espartano apenas mais um lembrete da permissividade cosmopolita dos governadores franceses. 

No centro do grande salão, exatamente embaixo do soberbo chandelier que parecia escorrer do mofo do teto, ou escalar, dependendo da perspectiva, os três suspeitos da morte da octogenária Condessa Lydia Karaopoulos permaneciam sentados sob o olhar atento dos guardas. À direita, Dom Petros Karaopoulos, irmão da falecida, me olhava com falsa resignação, buscando demonstrar uma tranquilidade que sua bengala denunciava como inautêntica ao golpear repetidamente o assoalho acarpetado. O viúvo de meia idade era figura notória no submundo social dos cabarés. Fanfarrão de muitas histórias e inventor de segunda categoria, gabava-se da perna perdida na guerra, quando todos sabiam do verdadeiro acidente etílico com seu modelo defeituoso na fábrica de sapatos da família.  

À esquerda, Catarina Karaopoulos, irmã mais nova de Lygia e Petros, espremia com vigor as coxas magras para disfarçar o tremor de suas mãos. O olho esquerdo, possivelmente colocado às pressas, encarava o teto em um desconfortável estrabismo. Ainda descalça, era possível notar porque havia sido escolhida como o rosto da marca, ou melhor, os famigerados pés. O Santo Graal de qualquer degenerado podólatra ou bailarina invejosa. 

Ao centro, Abel Simenon em quase nada se parecia com o Quasimodo do livro de Vítor Hugo. Ao contrário do rosto bestial da criatura ficcional, Abel tinha uma face absolutamente simétrica. Olhos agateados, que pingavam sem parar. Nariz fino e bem desenhado. Queixo firme e testa chapada. Não fosse o protuberante calombo na nuca, coberto por um espesso capote negro, o mordomo poderia facilmente interpretar virtuosos galãs nos mais variados palcos da cidade. Inconsolável, sentado na ponta da cadeira, o sujeito balançava a cabeça de um lado para o outro.

Diante deste quadro estranho e desolador, o Comissário me apresentou, impostando a voz tal qual um cabaretier de circo itinerante. Mera formalidade, tendo em vista que, vez por outra, minha foto estampava as capas dos hebdomadários encimando adjetivos bastante elogiosos; C. Auguste Dupin, magnifico, fantástico, estupendo. Todos bregas, embora merecidos. Acenei de forma comedida para o trio, deixando que meu silêncio agisse como cavalos fechando o cerco em um tabuleiro com poucas peças. Ciciei no pé do ouvido de Jean Baptiste e pedi que me levasse até o local do ato assassínio. 

Para meu inteiro estranhamento, o quarto da Condessa Lygia Karaopoulos ficava no primeiro andar. Providência lógica, fui logo saber. Fruto de sua cada vez mais escassa mobilidade e receio legítimo dos degraus homicidas que residem em todas as escadas. Um faustoso umbral guardava as portas duplas que, segundo o Comissário, só podiam ser abertas pelo lado de fora. Artimanha fundamentada pelo sonambulismo recorrente da anfitriã e, de modo elementar, digno de nota. Ao adentrar no quarto, logo me veio à cabeça o drama dos autores em descrever detalhadamente os desertos. Não pude deixar de perceber que aquele cômodo seria o pesadelo dos dramaturgos mais talentosos. Nos fundos do aposento, distanciada por uns dez passos da entrada, uma cama de solteira jazia sozinha absorta pela penumbra. No canto direito, uma janela alta vazava a parede sem cor, sem quadros, sem marcas. No chão apenas um caco de vidro avermelhado brilhava refletindo a luz da lua, que timidamente abocanhava o negror do lugar. Inclinei um pouco o meu corpo e calculei mentalmente a altura; dois metros e meio de queda. Considerável, contudo, dificilmente fatal. E era basicamente isso, o quarto cela em toda sua austeridade. Nada mais. Exceto, é claro, pelo corpo da vitima tombado no colchão. 

Respirei fundo, limpei o suor que escorria da minha testa e pedi para que Jean Baptiste segurasse a lamparina próxima ao rosto da vitima. Sem muita demora, concluí que o ferimento mortal no pescoço tinha sido causado por uma mordedura. A jugular rompida, a pele despedaçada e a poça de sangue coagulado eram fortes indícios da hipótese. Contudo, o dente ainda cravado na carne da velha era a certeza que por excelência transformava teses em verdades. Eivado de zelo, coletei a evidência e constatei que se tratava de um exemplar de incisivo humano. Entreguei ao policial, ao passo que recuperei minha chama.  

– Um vampiro? – o Comissário me perguntou arqueando as grossas sobrancelhas. 

– Que não gosta de sangue e sofre de escorbuto? – devolvi sem paciência para crendices populares. 

Prestes a sair daquele dormitório com vocação para calabouço, identifiquei algumas gotas vermelhas, teoricamente de sangue, ao lado de uma das portas. Os primeiros esboços começavam a se desenhar em minha mente. Método dedutivo em todo o seu esplendor. Antes de voltar para o salão, travei conhecimento com Jean Baptiste e tomei ciência dos depoimentos preliminares dos suspeitos. Li os relatórios gravando todos os pormenores em meu cérebro. Ao menos uma dúvida estava elucidada. O maníaco estava sentado em uma daquelas três cadeiras. 

De volta ao salão, encarei demoradamente a trinca de personagens memoráveis. Eles permaneciam como havia os deixado, como se não tivesse me ausentado por mais do que alguns segundos. A realidade é que o tempo tinha a mania de se comportar de modo estranho com aqueles que carregavam culpa em seu coração. Para mim, restava claro que todos os três tinham motivações suficientes para findar a existência terrena de Lygia. Não era segredo que Dom Petros queria vender o casarão para quitar antigas dividas e começar outras novas. Por sua vez, Catarina ainda não havia se recuperado da demissão de garota propaganda dos Calçados Karaopoulos. O ressentimento era palpável. Não havia superado o fato de ser trocada por pés mais jovens, maiores e melhores bronzeados. Por fim, como todo mordomo corcunda que se preze, Abel Simenon possuía o estimulo original, evidentemente justificável, de se revoltar contra qualquer pessoa na terra, no céu e no inferno, e madame Karaopoulos habitava alternadamente essas três instâncias. 

A quietude que precedia minha argumentação já podia ser quebrada. O momento outrora suspenso, declinando lentamente como uma foice pendular. Em breve, muito breve, minha lógica afiadíssima e incontestável trespassaria o casulo mal construído do homicida. Não havia escapatória. Dali pra frente toda e qualquer impunidade passaria necessariamente por violência e ausência completa de astúcia. 

– Senhoras, Senhores, Comissário e demais Agentes da Lei. Antes de tudo, faz-se necessário estabelecer algumas premissas. Primeiramente, ao realizar a cronotanatognose…

– O que? – perguntou Jean Baptiste, interrompendo o raciocínio e despertando alguns tremores na coluna do corcunda. 

– Cronotanatognose, do grego, kronos que significa tempo, thanatos que corresponde à morte e gnosis que se traduz por conhecimento. Logo, em termos populares; a hora da morte.

– Vejo que o senhor tem boa fluência em grego – pontuou Catarina, com sua voz grave e arrastada. 

– Sim. E em mais oito idiomas. Pois bem, com base em minha análise sei que a Condessa morreu por volta de duas horas atrás. Sei também que ela morreu em virtude de uma severa hemorragia, consequência de uma mordida profunda e voraz. 

– Um animal! – Petros exclamou, batendo sua bengala com força no pé de madeira maciça.

– Sem dúvidas. Mas da nossa própria espécie – completei, sem deixar que a indignação fraudulenta do sujeito contaminasse outras pessoas – Tendo ciência da hora da morte, do local e da arma utilizada, só me falta clarear mais dois aspectos; agente e motivação.

– Quem e porquê? – Baptiste achou por bem observar para marcar sua posição de autoridade especialista.

– Com base nos relatos colhidos pelos inspetores consegui desenvolver a dinâmica dos fatos. Pois bem, a primeira a chegar à cena do crime foi a Sra. Catarina. Alega a nobre cidadã que estava em seu quarto no segundo andar quando ouviu uma briga. Ao que parece dois homens discutiam. Em seguida, ouviu o grito de sua irmã e por ultimo o som de vidraça se quebrando. Conta ainda que quando chegou ao local teve que girar as maçanetas, vez que as portas estavam fechadas, e que ao acudir a irmã conseguiu ouvir uma palavra sendo repetida. Que fique registrado que a palavra citada pela depoente era “outros”. 

– Correto – Catarina anuiu, coçando o olho que não era de vidro. 

– Ainda de acordo com os depoimentos, o segundo a surgir no quarto foi o Sr. Abel, que pouco acrescentou ao relato e que em linhas gerais corroborou com as versões apresentadas. Aqui, ressalto que é plenamente compreensível que tenha sido discreto em suas informações e que sua capacidade cognitiva tenha sido momentaneamente afetada pelo lamentável episódio – expliquei, enquanto o mordomo se agitava na cadeira ao passo que chacoalhava a mão dentro do bolso da calça. 

– Desculpe por não poder ajudar mais – o corcunda comentou abaixando os olhos ao mesmo em tempo que seu bócio tremia por baixo da roupa. 

– Por último, compreensivelmente, Dom Petros apresentou-se esbaforido no dormitório de sua irmã, afirmando que também havia ouvido a discussão, porém sem conseguir identificar os gêneros das vozes envolvidas no imbróglio. Outrossim, escutou o grito e o barulho da janela se partindo. Conta ainda que no momento em que chegou, Catarina acudia a moribunda Condessa Lygia e que o maldito corcunda, suas palavras, estava perto da janela. Por fim, confirma que ouviu a velha repetir duas vezes o seguinte vocábulo antes de falecer: “ortos”.  Assim sendo, temos um processo bastante homogêneo, excetuando a divergência dos verbetes “outros” e “ortos”, que me satisfaz, contudo, por sua confluência. 

– Confesso que estou um pouco decepcionado – o sujeito falou, erguendo-se com dificuldade e, em seguida, caminhando claudicante em minha direção – Parece-me que sua fama foi construída em cima de obviedades – ele apontou a bengala na direção de Jean Baptiste e ordenou – Agora, por favor, abandone sua preguiça burocrata e ponha seus homens para vasculhar os becos atrás do psicopata que fugiu por aquela janela. 

– Ninguém saiu ou entrou por aquela janela. Queiram me acompanhar, por obséquio – disse sardonicamente, fatigado pelo falso espetáculo do bufão.

Parti em passadas alongadas, capitaneando o sinistro séquito que me seguia desconfiado. Entramos no quarto quente e abafado com cheiro de morte. Acendi algumas velas, cobri o corpo frio com um cobertor que estava no chão e fechei o portão duplo atrás de mim, mas não sem antes colocar um policial prostrado ao lado de fora impedindo que alguém entrasse ou, eventualmente, saísse. Após certa dose de impropérios e protestos, todos se calaram exaustos e vencidos pela minha incorruptível passividade. 

– Olhem para o chão! Não há vestígios de vidro, exceto por esse pequeno pedaço completamente fora do contexto espacial – anunciei, abaixando-me para apanhar o diminuto caco afiado pintado por delicadas gotas rubras – Assim sendo, a janela foi quebrada de dentro para fora, ou seja, ninguém entrou por aqui. E esse pequeno triângulo cortante ensanguentado é a prova de que igualmente ninguém saiu pela janela. Em suma, o assassino já estava neste quarto. E, vejo que agora, está novamente aqui – concluí, coletando os assombros nos semblantes dos variegados presentes. 

– Isso é um ultraje! – Dom Petros vociferou por entre os lábios moles e encharcados. 

– Juro pelo santo sudário imaculado que a porta estava fechada quando cheguei. Não havia ninguém aqui, juro! – Catarina desesperou-se.

– Acredito que a porta estava fechada, porém, o quarto não estava vazio. Perceba o que aconteceu – estalei os dedos e entreguei meu terno para o Comissário – De início, é importante ressaltar que o crime não foi premeditado. Não há vivalma nesse mundo que planeje matar alguém com dentadas. Contudo, foi o que ocorreu. Desesperado, o assassino percebeu-se preso como um rato em sua própria e desastrada armadilha. Por um momento, cogitou escapar pela janela, quebrando-a por impulso, mas em virtude de sua condição física retrocedeu rapidamente. Em uma manobra atilada, colocou-se à esquerda da porta ao perceber que você, Sra. Catarina, seria a primeira a chegar. Como posso dizer isso sem parecer rude…

– Poupe-me de suas delicadezas e eufemismos, Senhor Dupin.

– Justíssimo. A verdade é que o criminoso aproveitou-se do fato da senhora ter o campo de visão reduzido, em virtude de sua condição de caolha, e se posicionou em um ponto cego, com o perdão do trocadilho. Em seguida, impediu que a porta se fechasse mais uma vez, saiu furtivamente e depois retornou para garantir o seu álibi. 

– Eu não matei minha irmã! – Dom Petros berrou, olhando para a janela quebrada. 

– Entretanto – ignorei o lamento do bon vivant parasitário e continuei – isso ainda não explica a discussão que vocês ouviram antes do grito mortal. Primeiro cogitei uma disputa entre o mordomo corcunda e o bonachão perneta, mas além de extremamente caricato, isso não explicaria a janela quebrada, tampouco os pingos de sangue perto da porta. A hipótese de um sujeito sofrendo de transtorno dissociativo de identidade passou pela minha cabeça, mas o verbete final repetido pela Condessa Lygia Karaopoulos trouxe luz para minhas trevas. 

Atravessei o quarto em um átimo, parei em frente ao irritado – e irritante! – Petros e, pelo bem da encenação, pedi que ele sorrisse. O sujeito intragável arrancou sua dentadura, revelando a gengiva mais lisa que tinha visto em toda minha vida, e assoprou seu hálito fétido de meio sono na minha cara. Por um momento pensei que fosse desmaiar, tal qual um boxer que recebe um direto no queixo, todavia, Jean Baptiste me escorou, colocando-me novamente na justa. Alternando movimentos bruscos e gentis para manter o suspense, andei lentamente até o mordomo e fiz a mesma solicitação. Com extrema dificuldade, Abel Simenon sorriu sem convicção, porém, iluminando a penumbra ali instalada, para desespero de sua corcunda convulsiva. Sem a menor sombra de dúvida, presenciei ali o mais belo sorriso da humanidade. Os dentes alvos e bem cortados acomodavam-se na boca como peças de piano bem ajustadas.

– Perfeito, chamaram um dentista para desvendar o crime – Catarina escorreu zombaria em suas notas mais graves.

– Dupin, encontrou um incisivo no pescoço da Condessa! – o comissário explicou, defendendo seus motivos com dentes e dentes. 

– Em meus mais recentes estudos fiz descobertas incríveis no ramo da parasitologia – preambulei, acostumado a ignorar toda sorte de chistes, enquanto andava pelo quarto – São organismos absolutamente fascinantes. Eles se associam ao hospedeiro drenando sorrateiramente os recursos em nome de seu exclusivo bem-estar. Até que um dia simplesmente descartam quem os sustentou a vida inteira. Mas não o fazem por crueldade ou maldade atávica. Não, de modo algum. Fazem porque assim é sua natureza. 

– Não admito ser tratado desta maneira em minha própria casa! – o irmão grego vociferou perdendo a compostura e despertando espasmos no corcunda. 

– Sem mais delongas, prenda o assassino Comissário – falei em óbvia provocação, transformando todos os presentes em estátua.

– Perdão, Dupin. É que não ficou muito claro, acho que me perdi na parte do parasita. Penso até que sei quem é o malfeitor, mas a fim de evitar confusão…

– Então digo melhor, prenda o irmão de Abel Simenon. 

Em denso silêncio sepulcral ninguém pareceu compreender ao certo o teor da minha incrível revelação. A bem da verdade, consegui até contemplar um esboço de riso no homem da lei. Não por outro efeito, me vi na obrigação de ser mais explicito. Por isso, andei na direção do falso corcunda e retirei seu capote. Após alguns segundos sem nada acontecer, ergui um pouco mais a lamparina e, do local onde ficava o bócio, um pescoço se ergueu lentamente. Estalando feito um par de articulações recém-despertadas, o irmão do mordomo emparelhou as cabeças e sorriu pra mim. Ao contrário de Abel, o assassino tinha o rosto completamente desproporcional. Olhos frios e esbugalhados, testa protuberante, nariz aquilino e um sorriso melancólico com um punhado de dentes frouxamente presos em uma gengiva purulenta. O verso do avesso.

Repentinamente o homicida retirou a mão do bolso, e pude perceber que ele carregava um caco de vidro afiado. Sem titubear, ele encostou o objeto afiado no pescoço do irmão e gargalhou em minha direção. 

– Se vocês derem mais um passo, eu mato esse desgraçado.

– Por favor, Comissário. Algeme o assassino – disse, ignorando a ameaça do individuo. 

– Mas, Dupin… Você ouviu o homem.

– Meu caro, Jean. Esse sujeito não vai fazer nada. Nada! Por duas simples razões. Primeiramente, porque ele não sabe ao certo quais seriam as consequências dessa degola no funcionamento de seu próprio corpo. Caso contrário, certamente já haveria de ter feito tal segregação. Não é como se ele não tivesse tido outras oportunidades, não é mesmo? Em segundo lugar, porque ele sabe muito bem que a única maneira de escapar da pena de morte reside justamente no fato dele estar atrelado de forma definitiva ao corpo, vivo, de um homem inocente. 

Vencido, o criminoso largou a arma e permitiu que o agente da lei colocasse as algemas. As duas cabeças, uma ao lado da outra, me encaravam sem piscar. Quatro olhos me cercando; culpa, resignação, raiva e impotência. Então, uma pergunta ecoou da garganta do facínora; 

– Como você descobriu? 

– Jean Baptiste, Senhora Catarina e Dom Petros, vocês devem estar se perguntando como desvendei esse assassinato, correto? – comentei, virando-me para os três, uma vez que jamais dialogaria com um réu confesso.  

– Claro! – anuiu o entusiasmado Comissário. 

– Pois bem, o que aconteceu foi o seguinte. O mordomo Abel Simenon por descuido, cansaço ou má sorte, ao levar um cobertor para sua patroa não calçou a porta e esta se fechou, trancando-o para dentro do aposento. Percebendo este ocorrido a Condessa certamente o desqualificou com xingamentos e/ou zombarias. No entanto, cansado dos constantes insultos e reprimendas, seu irmão incógnito resolveu dar um basta nessa situação comum aos corcundas, falsos ou não. Ocorre que percebendo as intenções assassinas de sua outra metade, Abel começou uma discussão e uma tímida luta corporal. Os dois caíram sobre a cama e a Condessa, enfim, conseguiu ver a totalidade de seu mordomo, usualmente coberto pelo capote. Como qualquer ser humano que se preze ao descobrir algo assombroso, ela gritou em puro horror e recebeu uma mordida rancorosa e censuradora. Atordoado, o assassino quis fugir pela janela, mas foi impedido pelo seu irmão e, em último efeito, pelas suas próprias dimensões corporais. Contudo, ao ser puxado de volta, agarrou com força um caco de vidro que havia ficado preso na madeira e o arrancou sem piedade, cortando levemente sua mão. Na posse dessa arma improvisada, tomou de refém sua parte menos privilegiada intelectualmente e… bem, o resto vocês já sabem. 

– Magnifico! Fantástico! Estupendo! Mas como você descobriu que ele eram eles?

– Simples, meu caro, Jean Baptsite. De inicio, percebi que todas as vezes que alguém falava algo um pouco mais espirituoso, o calombo do senhor Abel convulsionava de forma bastante insólita. Em seguida, estamos no verão mais impiedoso das últimas décadas e ninguém, mesmo um corcunda, usaria um capote deste tipo sem herméticos propósitos. E, por último, a Condessa Lygia não havia falado “outros”, tampouco “ortos”. Mas, sim, “Ôrtros”, que nada mais é senão o famoso cão bicéfalo da mitologia grega. Em um raciocínio lógico, abandonando os sensacionalismos e superstições, e aplicando meus conhecimentos médico-enciclopédicos e analítico-dedutivos, cheguei evidentemente aos famigerados gêmeos siameses. 

– Bravo, bravíssimo! Os jornalistas não vão acreditar.

– Depois do Orangotango, temos obrigação de acreditar em tudo, Jean. 

 

XXX

Roubando o epílogo do meu momento, um jovem guarda invadiu o casarão com o ímpeto de um mensageiro de maratona. Mal-ajambrado, possivelmente tisico e atacado por uma asma potente, o sujeito balbuciou entre as respirações inacabadas:

– Acabaram de encontrar um corpo no Rio Sena. A vítima é uma senhorita identificada como Marie Rogêt. O chefe exige a sua presença imediatamente, Comissário. 

– Claro – Jean Baptiste confirmou, enquanto colocava seu chapéu – Vamos, Dupin. Afinal, formamos uma ótima dupla. 

– Certamente – respondi de forma automática, lembrando-me das roupas molhadas que meu companheiro de morada, Edgar, havia esticado mais cedo no varal.

E Então? O que achou?

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Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Finalistas, FanFic - Grupo 2.