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Detox Literário.

A Freira e o Perueiro da Periferia (Malaquias Seraim)

Do noticiário 

Filha de lavradores, nascida na pequena São Gabriel da Palha. A freira Luzia Benedita Fortes, 38, veio para São Paulo em 1985 para se dedicar à carreira religiosa. Conheceu Zé da Perua no começo do ano 2000. Ele, motorista de uma perua Kombi, fazia lotação na comunidade de Heliópolis. Ela passageira. Hoje, missionária na favela, também, de Heliópolis (zona sul de São Paulo). Estava desaparecida desde 21 de maio.

Mas anteontem, teve desfecho surpreendente: grávida de sete meses do conhecido perueiro da comunidade Heliópolis. Deu à luz em um hospital e abandonou o filho em uma igreja no centro da cidade. Tida como sequestrada, embora tenha sido ela, Irmã Benedita, quem simulou o próprio sequestro. 

A freira foi encontrada na estação Itaquera do metrô, zona leste de SP, por volta das 19h por dois investigadores do 95º DP, Cohab Heliópolis. Estava quase em pânico, segundo os policiais.

Eles chegaram até ela após terem sido informados por outras religiosas de que a irmã Benedita havia telefonado para a casa das religiosas, onde morava, às 18h30, dizendo que seria libertada pelos sequestradores nas proximidades da estação.

 

Mas a história é outra 

Sair com Luzia era o sonho de consumo de Zé da Perua. Ele insistia, ela negava. 

— Hoje não dá… Não posso!… Amanhã também não, vamos vê… Se eu puder!… Não sei… Não sei!… Quem sabe, talvez… 

Zé da Perua sabia. Ele conhecia aquele jeito maroto das mulheres, principalmente das suas passageiras da comunidade de Heliópolis. Ele não era trouxa nem nada. Só se joga pedra em fruta madura. Ele sacava muito bem esse tipo de mulher.  Diz que não quer, mas quer. “A gente só tem é que arrochar pelos lados. Ir com jeito que um dia a casa cai… E pimba!… Ripa na chulipa da gorduchinha! Porque se não dá, desce… É só ir com manha.” Pensava Zé com seus botões antes de se encontrar com a Luzia, no fim de tarde, quando ela tomava seu lotação. 

— E aí meu bem! Quando é que agente vai fazer uma amizade legal, pra valer? Você sabe né, cozinhar o galo n`água fria, molhar o biscoito. 

— Não fale assim comigo não, viu!… Já disse que não posso. Dou aula para as crianças da comunidade… 

— Eu sei fofura… I love you pra chuchu!… Benzinho. Mas bem que podemos ir a um baile no fim de semana… 

— Não, que horror! Não danço, nem sei, nem quero. 

— Tá bom, vá ensinar aos seus pirralhos quando terminar me encontre no ponto final do lotação que eu vou pensar numa coisa legal para a gente fazer no fim de semana.

Não foi. Era sempre assim, muita tentativa e pouco resultado. Porém, Luzia saia daquelas fortuitas conversas com Zé da Perua, queimando, ardendo às entranhas. As palavras de Zé eram como ferro em brasa a serpentear seus sentidos, despertando-lhe a libido há tanto adormecido. O suor lhe gelava as faces. Uma tremedeira e uns arrepios excitavam-lhe o corpo. A garganta apertava-lhe como alicates. O corpo excitado. À noite, na cama, era um tormento. Ela o tinha em todo o seu ser. E imaginava-o burilando todo seu corpo. Quando o via sendo mestre e músico a manipular, mais que a seu instrumento, mas o virtuoso da sua loucura. Embora soubesse que toda essa lascívia que a aflorava, aquele líquido quente que fluía de seu âmago só podia ser obra do satanás. Pois, ela muito bem sabia que aos olhos de Deus aquilo era artimanha do capiroto para desvirtuá-la dos votos e sua dedicada obediência à Santa Madre Igreja. Não! Sua alma não iria se macular. Porque assim ela o sabia, seu branco corpo alfenim, puro e alvo como pérola era o invólucro da irmã em Cristo. E para tanto, estava pronta para penitência celeste. Com os olhos marejados em lágrimas de submissão e sujeição, Luzia sentia em si o perdão de Cristo por seu arrependimento aos pensamentos imperfeitos e tresloucados.

 

Na delegacia, diante a acareação 

Na delegacia, que já apurava o desaparecimento da freira, Luzia tentou manter a versão do sequestro, dizendo que havia sido rendida por um homem na saída da igreja onde faz trabalhos comunitários, em Heliópolis. Mas, os investigadores encontraram, entre seus pertences, um exame de gravidez em seu nome e o resultado do teste do pezinho, habitualmente feito em recém nascidos. Foi, após, mostrar estas provas irrefutáveis que, chorando, segundo a polícia, Benedita decidiu, então, falar a verdade. Ela fora estuprada!

 Zé da Perua, como assim é por todos conhecido, acusado de estupro, apresentou-se ontem à polícia para acareação frente à vítima. Delegado diz que alegação de Zé contradiz às da vítima, Irmã Luzia. Disse ele que manteve relações sexuais, sim! Mas foi com o consentimento dela. Já a freira desmente, dizendo que foi coagida pelo dito cujo. E explica: quando ao tentar desembarcar da perua, no ponto final, na comunidade de Heliópolis, a maçaneta da porta estava travada impedindo-a de descer. Zé da Perua rebate, argumentando que se ela quisesse, de fato descer, teria descido, pois a porta da frente estava totalmente escancarada. Não desceu por que não quis. Eu apenas joguei uma conversa mole de lero-lero. Ela fraquejou, eu investi. Ela só choramingou… “Jesus, perdoai-o ele não sabe o que faz!…” Aí eu… Pimba na gorduchinha!… “Ochente! Eu bem sei esse jeitinho manhoso das mulheres… Confessou Zé. Após a audiência, irmã Luzia confessou à parte, que o choro que o Zé declarou ter ouvido dela, foi devido ao burilamento atrevido que ele, o Zé, lhe surrupiou enquanto ela estava distraída tentando escapar pelo teto solar… “Perdoa-me Deus meu!… Perdoa-me meu Deus!… Porque eu já não sei o que faço!…” Estas foram suas últimas súplicas. E que depois não se lembra de mais nada. Declarou para os repórteres presentes, o delegado Afrânio Peixoto.

 Para Zé da Perua, tudo balela. Que não houve sequestro nem estupro coisa nenhuma. Embora tenha confirmado as declarações da freira de que realmente era o pai da criança, mas negou saber se ela era freira, pois a Luzia tinha dito para ele que era estudante universitária e que dava cursos para crianças na igreja da comunidade. – na congregação de Benedita, o hábito é opcional. – E que todos os dias ela tomava sua lotação. E por muitas vezes ele havia percebido ela não tomar o lotação da frente, só para pegar a dele. E que ela sempre dava mole essa era a verdade! E, segundo os investigadores, Zé da Perua acrescentou: Aquele olhar lambido, aquele brilho embaçado nos olhos da Luzia era puro tesão. Por fim, certo dia, boquinha da noite num ato de meio doidura e desvario, ele não deixou Luzia descer da Kombi. E, num gesto insano, de pronto, na base do acuamento, raptou Irmã Luzia direto para detrás do muro do cemitério. Então, em bom tom e voz forte, porém demonstrando uma pequena centelha de paixão disse: 

— Olhe aqui Luzia, se decida!… Você me quer ou não me quer? Heim!… Vai me dá essa micharia, ou não vai? Heim!

Com essas palavras ásperas, porém carregadas de significados incompressíveis, para Luzia, foi à gota d’água que faltava para destruir todo o alicerce que até então houvera construído para que chegasse aos castelos dos reinos do céu. Embora o espírito seja armadura e carapaça da consciência casta, não há como negar aos encantos da orgia da carne em dia de festa. Então, enquanto seu corpo era-lhe surrupiado de suas posses, de suas vontades inconcebíveis, devido o burilamento atrevido de Zé da Perua, Luzia explodia em êxtase… Gritando palavras ora incompreensíveis, ora em devaneios alucinados. Você está violando minha santa castidade…suplicava a irmã.Mas a imaginação permitia que Zé lhe burilasse com mais e mais ousadia. Quando começou a sentir o afloramento do corpo, o líquido quente fluindo, gritou  quase inconsciente:

         — Perdoa-me Deus meu!… Perdoa-me meu Deus! Porque eu já não sei o que faço!… Perdoa esta que te profana… Recolhei os cacos desta que te traiu… Porque, jeito não tem mais, os tesos nervos me penetram às profundezas das entranhas… Só me resta expelir fora o sêmen que embriaga e me envenena… Perdoa-me, Oh Grande Deus!… Mas agora sou do mundo… — e gritou em plenos pulmões para o centro do universo: — Oh!… Que são esses encontros soturnos! Se não o manto do profano e o acalanto da luxúria?… Bálsamo para o espírito, consolo e regalo da triste carne!…  

E assim se sucedeu, no banco, entre o dianteiro e o traseiro, no banco do meio para ser mais fiel, Irmã Luzia foi fecundada.

 

Nove meses depois não deu outra

Foi encontrado ontem, Dia de Reis, na manjedoura do presépio de natal, representado no altar-mor da Igreja Santa Ifigênia, centro de São Paulo, bebê recém-nascido. A assistência de devotos comentava emocionada que a criança parecia o próprio cristinho, com os bracinhos abertos, como se crucificado fosse. Não há suspeitos de quem lá o deixou. Desconfia-se de um indivíduo reconhecido como perueiro que faz ponto ao lado da igreja. O qual foi visto entrando com um embrulho e saído sem ele. A criança foi levada para a Santa Casa de Misericórdia para possível adoção. Deu nos jornais e nas notícias radiofônicas.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.