EntreContos

Detox Literário.

Lágrimas e Arroz (Rosário dos Santoz)

Uma gata deitada sob a sombra do canavial assistia aos franguinhos disputando qual deles comeria a lagartixa morta e ressacada que caíra da janela da cozinha. Passando por eles o vento vinha suave e fresco da várzea, aliviando o mormaço e levando consigo as pétalas brancas das laranjeiras no pomar, cercado de arapuás e beija flores que trabalhando juntos formavam um zumbido considerável. 

Competindo com este som, vinha crescente o gemido do eixo de um carro de boi que passava devagar, abarrotado com uma carga de feixes de arroz colhidos ali em baixo na várzea alagada. A boiada formada por seis pares puxava seu fardo passo a passo. Enquanto cada rês suportava o desconforto de sua canga e canzis ao mesmo tempo em que aguentavam chorosos os chutes e tapas na cara, além das agudas cutucadas no lombo, dadas com a vara de ferrão do carreiro que tentava comandá-los rumo ao seu sítio. 

Para trás deles ficavam as marcas finas das pesadas rodas de madeira, que protegidas por um aro de aço, trituravam junto às pedrinhas da estrada seca os grãos mais maduros que se soltavam das cascas e ficavam pelo caminho, jamais chegando ao terreirão mais próximo para serem despejados e batidos. 

Morro acima um tratorista preparava para uma nova plantação o solo por ele alugado do mandiocal recém-arrancado. Ele tinha planos de fazer um novo plantio da mesma raiz e estava terminado de cortar todos os tocos e ramos restantes na fileira em que passava quando por descuido, ao fazer a curva para retomar o trabalho na fileira ao lado, acabou passando perto demais da cerca. Com isso, sua roçadeira hidráulica acidentalmente cortou numa cacetada seca metade de um mourão, que apesar de coberto de líquens tinha ainda o cerne forte e avermelhado. 

No momento do impacto, a parte de cima do mourão voou pasto abaixo e várias lascas foram arremessadas para todo lado. Apesar disso, ninguém se feriu. Mesmo o tratorista escapou ileso, protegido pela chaparia grossa da ferramenta. E como se não fosse problema seu o dano que tinha feito à propriedade alheia, engatou a primeira marcha e continuou a roçar. 

O rapaz sequer desceu da máquina para pedir desculpas e ver se poderia arrumar a cerca. Apenas deixou para trás os arames farpados ainda balançando, e um cepo cortado de um lado e um tanto lascado de outro.

O que ficou ruim mesmo, além do estado da cerca era o humor de quem a tinha feito e viu do terreirão de sua casa, enquanto tirava o arroz do seu carro de boi, o descaso para com seu suor. Este no terreirão um era rapaz muito rústico, homem grande e bruto, criado na aspereza e dono de um vocabulário raso. Contudo, caprichoso nos trabalhos da roça. Entre eles levantar cercas e cultivar. Plantava de tudo e quase sempre tinha boa safra. Exceto de perdão. Por mais que fosse à igreja todos os domingos, isso ele não conseguia deixar crescer em seu coração. 

Não sendo de hoje que ele alimentava uma raiva profunda por aquele jovem que dirigia o trator. Não só por este ter dominado tal habilidade que sua cabeça dura e iletrada jamais tinha conseguido pegar o jeito. Mas foi por ter descoberto pelo dono da venda na cidade, que na noite do domingo passado aquele tratorista maldito não tirava os olhos de sua irmã mais nova enquanto esta dava voltas na praça acompanhada de suas amigas depois da missa. 

Aquele metido teve o descaramento de pôr os olhos na moça que só ele, o irmão, tinha o direito de tocar, como há anos fazia na sombra do bambuzal.

E ter visto aquilo lá no alto do morro, aquele desdém para com a cerca que ele tinha feito com esmero, foi a gota que fez o copo transbordar. Estava decidido. Ia dar um fim no sujeitinho na primeira oportunidade que se Deus quisesse ele haveria de ter. Faria tocaia à noite se até o sol baixar ainda ouvisse o motor do trator funcionando. Mas como não ouviu, resolveu chamar a irmã para passar a raiva e o tempo no bambuzal. Enquanto isso em sua moleira vinha e voltada o desejo de ter uma nova chance de mandar aquele maldito pro colo Do Capeta. 

Quando na semana seguinte ficou sabendo que precisavam de homens para capinar o arrozal do pai daquele tratorista, pegou seu cavalo e foi correndo, montado em pelo, tamanha a vontade de garantir uma chance perto daquele atrevido. 

Chegando ao terreiro da propriedade gritou para ver quem estava em casa e depois de muito chamar foi recebido pelo pai do rapaz que lhe abriu um grande sorriso quando soube que teria quem o substituísse na tarefa de amanhã. As suas costas, ele dizia, “já doíam muito com o peso de tantos janeiros e seria muito bom se seu filho tivesse ajuda pra capinar o restinho de um alqueire amanhã, pra dar tempo de tratar das vacas à tarde”. 

“Nenhum outro camarada conseguiu um tempo pra esse serviço porque todos eles já tinham aceitado trabalhar nos arrozais de outras pessoas” – explicou o velho. Então, tirando aquele visitante oportuno, candidato para a tarefa do dia seguinte, só tinha restado a ele e ao único filho pegar na enxada pra garantir a comida na mesa da família. 

Na manhã seguinte, os dois rapazes pisavam descalços lado a lado com a enxada no ombro e a água na altura das canelas. Eles tinham acabado de passar sobre ponte de tábuas e a mata ciliar em volta da plantação serviria perfeitamente para executar o intento que não lhe saía da cabeça nem na missa. 

Antes de começarem o serviço, após ambos tirarem o chapéu, benzeram o corpo fazendo o sinal da cruz. 

Recolocados os chapéus, no instante seguinte um desceu a lâmina no mato enquanto o outro preferiu batê-la nas costas do primeiro, para depois afoga-lo sem muita dificuldade entre os pés de arroz. 

O jovem Rafael, que há meses mais que olhava para a irmã de Luciano, descobriu por aquela moça um intenso amor, daqueles para durar até o fim da vida. Contudo, nada poderia ter lhe cortado mais o coração do que descobrir entre as confissões chorosas desta que o próprio irmão a segurava pelas tranças no mato enquanto a machucava e humilhava muito.

Foi por isso que, não vendo frutificar todas as vezes que rogou a Deus para que em seu coração habitasse o perdão, espalhou a notícia de que precisava de ajuda em seu arrozal, mesmo sabendo que todos que podiam lhe dar uma mão recusariam por já terem dado sua palavra a outros patrões. Todos menos Luciano que já tinha colhido sua várzea toda. E assim terminou por jogar o corpo do infeliz rio abaixo, membro a membro.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.