EntreContos

Detox Literário.

Estantes (Eduardo Novena)

 

Há seis outonos venho aqui. Folheio o máximo de Hemingways, Balzacs e quantos outros cânones literatos mais sejam possíveis. Compro aqueles que o tempo afastou de meus dedos.

Sou péssimo leitor, confesso. Livros são para folhear. Meus olhos, vez ou outra, até são atraídos por algum trecho. Leio apesar, mas em geral folheio. Mentira!… Quase mentira. Leio epígrafes. Copiosamente, sou ótimo leitor de epígrafes, isso eu atesto. Sou fã de algumas dúzias e parte delas até me traduzem. Drummond, por exemplo, “Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”.

Preciso de mais estantes. Ao menos para eu tirar os livros da porta do meu quarto, às vezes sinto a necessidade de dormir com a porta fechada. Dia desses, encontrei a solução para os livros sobre a pia. Quebrou uma cadeira. Ela tinha os pés de alumínio. Fica a dica, nunca compre cadeiras com pés de alumínio, uma porcaria, vai esgaçando e esgaçando, até… Juntei os livros, quatro pilhas, bem juntinhas. Eram cerca de trinta e cinco livros cada monte. Coloquei uma almofadinha em cima deles, e!… Ótima cadeira nova. Consegui até lavar a louça estacionada na pia há semanas. Ainda tenho paredes vazias, estantes seriam ótimas.

Ela conheceu minha casa há seis anos. Os livros ainda não dormiam lá, por certo. Eu ainda não havia adquirido o hábito da leitur… o hábito de folhear os livros. Esse, digamos, hobbie, começou na semana sequente de ela ir embora. Os livros começaram aparecer por conta dela. Ela adorava George Orwell e foi a partir dela que descobri, não foram os Engenheiros do Hawaii responsáveis pela criação da frase, mas sim parafrasearam “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”. Ainda bem! Foi grande alívio saber, nunca achei muita graça no Humberto Gessinger. É inútil folhear encartes de CDs.

Odeio CDs, se procurar bem, talvez eu tenha uns cinco lá em casa. Esmagados por algum livro, certeza. Um deles, único que sei, é do John Lennon. Ele está no centro de uma pilha com aproximadamente cinquenta e oito livros. Pequena. Reside ao lado do botão desliga da tevê. Nunca mais ouvi. Não gosto de Lennon, prefiro McCartney. Escutei uma vez só. Lá. Há seis… Eu ganhei dela. Ouvimos juntos e cantamos Nobody Told Me. Fingíamos um estetoscópio. Na sala. No corpo do outro. Nos divertimos. Dançamos. Jogamos almofadas e ela espirrou um bocado. Olhamos um para o outro. Nos olhos. Odeio John Lennon.

Aqui na feira tem livros demais! Isso me endoidece um tanto. Tendas demais também, para endoidecer outro tanto. No ano um foi fácil, entrei de curioso, mais pela circulação de pessoas. Nunca fui um frequentador de eventos culturais, para me esconder um pouco daquele ambiente inóspito a mim, escolhi uma tenda qualquer, peguei um livro, olhei a capa, mais outro, ousei abrir, folheei e, puf! Lá estava. Numa epígrafe. Nunca tive sorte, compro rifas aos montes e nunca fui sorteado. E olha que se alguém me oferece já vou comprando. Nunca ganhei nada. Bingo, roda da fortuna, mas daquela vez fui sorteado.

Nos anos dois e três, eu ficava escolhendo a tenda. Parava na frente, olhava. Nunca conseguia decidir onde entraria, apontava, “mi-nha-mãe-man-dou-eu-es-co-lher…”, até perceber a perda de tempo com a indecisão e larguei mão dessa mania. Coisa odiosa é ter manias. Perda de tempo danada. Épocas atrás, tinha a mania de nunca pisar nas fugas do piso. TOC dizem, né?! Por sorte deixei disso, lá em casa mal consigo pisar no chão, quem dera encontrar espaços sem fuga.

Anos quatro, cinco e hoje, chego na feira e entro logo na primeira tenda. Folheio o máximo de livros quanto minhas habilidades combinadas de mãos e olhos tornam possíveis, e, parto à banca ao lado feito uma tacada de golfe do Woods. Ao final do expediente, volto tenda a tenda e compro o que não consegui folhear. Assim fico o dia inteiro, nos dois domingos do evento, os dias que eu não trabalho.

Tenho um emprego numa livraria. Completa seis anos no próximo inverno. Nunca tiro férias, sempre pego em dinheiro. Ela me disse que escolhia os livros em algumas livrarias também, não só em feiras. Nunca folheei sequer um livro de lá. Seria perda de tempo. Odeio perder tempo. Sou segurança. Olho quem entra e quem sai. A profissão é perfeita. Estou sempre de olhos atentos aos entrantes da loja, ninguém escapa ao meu olhar. Se entrar eu vejo. Qualquer um. Até mesmo ela.

Gosto muito de uma das vendedoras, senhorinha adorável. Sempre me incentiva conhecer os livros da loja. Conversamos antes do expediente, momento onde a senhorinha me influencia contando histórias, pensando, desta forma, me interessar à leitura. Sempre agradeço suas histórias hilárias, mas respondo amigavelmente que não tenho o hábito da leitura, ela ri balançando a cabeça, tem que começar lendo algo pequeno, sempre ouço. Serve epígrafes? Semana outra ela chegou com mais um livro e me entregou na mão, leia esse, aposto que vai gostar, presente meu. Eu peguei o livro, agradeci e disse para ela não gastar mais o dinheirinho dela me dando livros, pois se existe alguma coisa que eu não gosto, são os livros, odeio livros, tenho uma espécie de alergia deles. E fui me coçando inteiro ela só deu risada. Nunca tive coragem de dizer que a livraria é uma ninharia diante minha casa. Um harém de livros, todos folheados, do início ao fim, todos os livros que não consegui encontrar o que procurava, todos ali armazenados, no meu castelo de paredes semivazias e chão abarrotado. Amanhã compro estantes.

A senhorinha já me deu cinco livros. Todos de fantasia e aventura. Ela percebeu que das histórias que me conta, são as que mais me interessam. Do Jules Verne ela me deu “Volta Ao Mundo em 80 Dias” e “20.000 Léguas Submarinas”, “As Viagens de Gulliver” do Jonathan Swift, “Moby Dick” do Hermann Melville e esse último que ganhei é aquele livro que tem os personagens Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o escritor esqueci o nome, é um carinha doido que acordou tendo um sonho e começou a escrever freneticamente o livro, o nome, creio ser “O Médico e o Monstro” ou algo do gênero, nem olhei direito. Nunca folheei nenhum deles. Seria inútil. Perda de tempo. Coisodiosa perdê temp…

Percorri quase todas as tendas e ainda nada. Folheei cerca de mil oitocentos e quinze livros, ou mais, sei lá quantos, nunca conto. Orwell, folheei todos que encontrei, claro! Nesta tenda parece não ter nada, acho que vou pular. Aliás, só falta um par de horas e zaz! Encerram as atividades. A feira termina hoje e me aparenta da busca continuar no próximo ano. E na minha casa. Folhearei mais alguns alfarrábios nesse sebo e depois abraçar minha incessante compra de livros do ano, o tanto que eu possa, para me ocupar pelas semanas vindouras.

Pensando agora na minha cama feita de livros. Vai dar trabalho fazer prateleiras novas no quarto. Acho que não vou me preocupar com estantes, vou sim construir um rancho atrás de casa, depois coloco as estantes. Estantes em casa e no rancho.

Pensando n’outra cois’aqui, será que tiro férias esse ano? Tenho os olhos cansado de procurar por mulheres-ela. Quem sabe com sintomas de repouso visito feiras de livros em outras cidades, mais livrarias de cidades outras. Chego acreditar que aqui, na minha livraria, ela não vai aparecer. Creio até que ela deve ter uma porcentagem mínima de chance voltar a essa cidade. O mesmo percentual de eu ser sorteado na rifa. Preciso tirar férias. Embora, maquinando mais aqui. E se ela aparecesse na minha loja durante minhas férias? Odeio férias. E se nestes seis anos ela conheceu alguém mais legal do que eu? Um novo Lennon. Alguém que como eu, num domingo qualquer, por divina sorte, pegou o livro onde ela deixou seu recadinho? Algo que nunca quero ter é manias. Odeio manias. Tenho medo delas. Odeio a mania boba de ela anotar seu número em livros de maneira aleatória. Mania besta de passar vinte e quatro horas se divertindo com a pessoa que encontra o recado. Assim ela disse. Conhecer novas pessoas que gostam de literatura. Só gosta da maldita literatura quem não compra rifas. Nas crianças que vendem ninguém pensa.

Há seis anos tenho a odiosa mania de folhear livros. Eu que reprovei três vezes. Três vezes. Trê-ê-ês vezes por causa da mal-di-ta literatura. Nunca peguei sequer um livro. Um. Antes daquele bendito domingo nessa bendita feira de livros. Odeio os livros, odeio folhear livros e não aguento mais essa mania de folhear, folhear e folhear livros. Não aguento mais esses seis anos, eu não aguento mais pensar nela. Nem querer ela.

E se quer saber eu não preciso mais dela, não preciso mais do meu emprego de segurança numa livraria, não preciso mais ficar vindo aqui todos os meus outonos nos dois fucking domingos de feira, procurando por um recadinho que nunca vai existir. Nunca vai. Não preciso de mais porra nenhuma disso. Não preciso dela, não preciso do emprego, nem das feiras. Tudo o que preciso é um rancho. Um rancho e estantes. Muitas. Muitas estantes.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.