EntreContos

Detox Literário.

Amado Amante (Robertho Karlos)

 

Às vésperas de seu aniversário de meio século, Dona Nair tinha pouco o que comemorar. Do falecido marido, “Seu” Luís, herdara a casa e o barzinho, construído à frente do dito imóvel. Simples, mas com movimento suficiente para mantê-la. Um vidinha sem luxos, sem filhos e sem planos, a não ser pela rotina puxada de todos os dias: a casa e o bar.

Tudo então deu-se numa noite preguiçosa de terça-feira, quando começou a chover forte no Fonseca, em Niterói. O último cliente deixara o bar há quase uma hora. Ainda era cedo para fechar, mas certamente ninguém ainda viria com o tempo tão mau. Nair então abriu a gaveta onde estavam as chaves e acabou por sorrir: a revista de compras por catálogo, um velho exemplar da Hermes, escorregou do fundo escuro do móvel e entreabriu-se, justo na página do “Lucas”. Esse provavelmente não era o nome real do modelo, que não fora creditado (ela esmiuçara a revista com todo cuidado). Tal publicação era voltada ao público consumidor feminino e tinha quase só páginas de panelas, potes, maquiagem, lingerie, bijuterias e perfumes. Contudo, à época, havia também alguns produtos para homens. E os modelos, como costuma acontecer em publicações de preços populares, não eram exatamente profissionais. As moças e os poucos rapazes pareciam com qualquer pessoa comum, embora certamente não fosse esse o caso do belo jovem da página 47, que quase nu tentava convencer as consumidoras a adquirir um artigo da linha de cuecas “WAR!”, com estampa de camuflagem.

Ele não era especialmente musculoso ou alto, mas tinha um sorriso cativante, expressão de bom moço, olhos que inspiravam confiança e cumplicidade de melhor amigo. Lábios cheios, cabelos escuros e lisos caídos sobre a testa, num penteado de desleixo planejado, de selvageria delicada. Por tudo isso, nunca jogara fora a revista e a escondera, para sempre poder rever seu “namorado” que não envelheceria, que sorriria dentes brancos e perfeitos a partir da página 47, com a nudez para sempre censurada pela maldita e discreta cueca de padrão militar.

Foi, portanto, uma grande surpresa quando um último cliente entrou no bar, ensopado pela chuva que tudo inundava, aproximou-se e sorriu: era “Lucas”, sem dúvida alguma, era o rapaz, no auge de seus vinte e poucos anos.

— Boa noite! Desculpa, sei que tá tarde, mas a senhora ainda teria algo pra comer? Estou, literalmente, morrendo de fome! – ele disse.

De alguma forma, ele tinha a voz grave que ela fantasiara, embora os olhos cor de âmbar fossem mais parecidos com os do Toninho, o irmãozinho caçula e adorável de Nair, que morrera afogado aos dez anos. Tinha um bigodinho fino também, feito o do Neco, seu primeiro namorado, o único que ela gostou de verdade. As bonitas sobrancelhas espessas eram como as de seu querido pai.

— Claro, meu filho. Senta que eu vou buscar um prato – ela falou, e observou, com uma pontada de orgulho, que falara sem gaguejar.

O rapaz devorou a comida com avidez. Mastigava e fechava os olhos, como se provasse uma iguaria de um chef estrelado. Enfim, com expressão de enorme vergonha, chamou Nair e disse: — A comida estava deliciosa. A senhora me perdoe, eu devia ter avisado antes, mas eu perdi a carteira e não tenho como pagar agora…

Nair conhecia um espertalhão a quilômetros de distância, mas não era o caso, ela sentia nos ossos. De qualquer forma, estava grata por enfim conhecer o rapaz. “Como ele ainda permanecia tão jovem? Deveria ter minha idade!”, pensou.

A senhora deu um tapinha no ombro do moço e disse: 

— Não tem importância. Você paga outro dia, quando passar por aqui outra vez.

— Além de linda, senhora, é bondosa e excelente cozinheira! Voltarei, sim! – o sorriso parecia ter brilho próprio.

Um relâmpago seguido por um trovão deixou então o bairro, muito convenientemente, às escuras.

— Oh, minha nossa! Acho que você vai ter que esperar, meu filho! Quer uma toalha?

Ela fechou o bar, acendeu uma vela com as mãos trêmulas e foi seguida pelo moço. Quando chegaram à sala da casa, ele a abraçou – de um jeito tão terno, tão sincero – e a beijou. Primeiro no rosto, depois na testa, e depois nos lábios.

Nair ficou sem ação, tinha receio de um estupro, roubo ou coisa do tipo, mas estava ali com o seu “Lucas”, e ele a queria. Tinha vergonha de já não ter um corpo esbelto, do rapaz ter idade de ser seu filho… Porém, então, sem pensar mais porque às vezes pensar apenas faz com que desperdicemos a vida, ela o beijou também: com paixão. E Lucas correu os lábios por seu pescoço e sussurrou palavras em seu ouvido em algum idioma desconhecido. Algo tão belo e musical, cujo sentido ela não percebia mas que podia sentir. E Nair então se descobriu desejada e amada e compreendida em níveis muito profundos e, de alguma forma, acalentada e segura também. Toda sua tristeza, diluída, toda solidão, lavada como que pela chuva que desabava lá fora…

O jovem, que era muito mais forte que ela poderia supor, a levantou com facilidade em seus braços e, já na escuridão do quarto da mulher, envolveu-a.

E de alguma forma que ela mesma nunca pôde entender, lambia seu ouvido, dizia coisas lindas, e beijava seus seios, ao mesmo tempo, enquanto suas mãos a despiam e exploravam seu sexo como um profissional. 

Ele desceu a cabeça pela barriga da senhora, parou sobre uma cicatriz de cirurgia e a beijou longamente, adorando-a como quem se admira por um templo antigo. Continuando então o curso, roçou de leve o queixo meio barbudo em seu sexo e brincou com a língua dentro dela, como se esta tivesse vida própria. Nair então experimentou o primeiro orgasmo dois minutos depois, com culpa semelhante a de um homem com problemas de ejaculação precoce.

Continuaram por muitas horas. O pênis era excepcionalmente grande quando ela desejava mais força e pressão, ou menor e mais delicado quando ela já tivera o suficiente. Ele  não se cansava e adivinhava os desejos dela, explorando novas posições. Em alguns momentos Nair até pensou estar sendo penetrada por mais de um órgão simultaneamente, embora soubesse que tal coisa fosse impossível.

Oito outros orgasmos depois, por volta das duas da manhã, ele despediu-se. Falou que vivia longe, muito, mas muito longe dali. Que já a amava e a amaria para sempre, e que nunca a esqueceria. E cada palavra que o moço disse soou sincera, e suas lágrimas de despedida foram puras e sentidas.

A senhora depois chorou um pouco quando ele se foi. Um tanto de tristeza, embora em maior parte de alegria, pois experimentara o que eram paixão carnal e amor terno pela primeira vez na vida. “Amar , às vezes, é deixar partir”, ela lera certa vez em algum livro de autoajuda.

No mês seguinte, quando suas regras não chegaram, ela julgou que a menopausa que já andava se anunciando finalmente se instalara. Após mais três meses sem sangrar, ao engordar um tanto e ao sentir os primeiros movimentos na barriga, estava radiante, pois um suposto problema de útero infantil nunca a permitiu engravidar quando jovem. Quando os meninos gêmeos idênticos nasceram belos e saudáveis – uma mescla adorável do jovem e de Nair – batizou-os Lucas e Hermes.

Nair nunca perguntou ou soube o nome real do rapaz.

***

A detetive Carla Correia mal conseguiu disfarçar seu desagrado quando através das divisórias envidraçadas avistou o detetive-inspetor Roberto Monge, o “Leão”, caminhando em sua direção. O tipo era grande e espalhafatoso: no vestir e no ser. A cara larga e os maxilares proeminentes não faziam companhia nem um pouco harmônica àquela cabeleira castanho-avermelhada que lhe justificativa o apelido. Leão viera transferido de Campos há três meses, depois do retumbante fracasso no Caso dos Sete Pares – deveria ter as costas quentes – Carla pensou.

— A Seita! – Leão exclamou, colocando uma pasta cheia de papéis meio amassados sobre a mesa de Carla. — Os malditos estão de volta, e estão aqui, em Niterói.

A detetive suspirou. Fora designada a ajudá-lo no rescaldo do Caso dos Sete, mas isso era por demais penoso; o homem tinha ideias fixas e teorias estapafúrdias. E para piorar, de alguma forma estranha, era como uma recordação ruim, espécie de cópia imperfeita do pai da inspetora, um bicheiro que morrera nas mãos de milicianos quando ela fora adolescente. Rever o colega diariamente era reviver aquele passado de abusos que lhe custara anos de terapia.

A Seita? Aqui? Que evidências você tem?

— Tá de sacanagem comigo, minha linda? Sete pares de meninos gêmeos morreram em Campos no ano passado, em circunstâncias misteriosas. Suas mães, todas meio coroas, relataram que as gravidezes, a porra do plural é esse mesmo? Então, que foram resultado de uma noite de amor com um “homem dos sonhos”. Um negro atlético com dois metros de altura, um rapaz magro, louro e de cabelos compridos, um homem asiático com uma tatuagem de carpa no peito… Cada um era a fantasia perfeita dessas mulheres.

— A sua seita teria então pesquisado longamente os perfis de tais mulheres pra quê? Pra enviar seus bonitões e matar depois os meninos? E como conseguiram fazer com que elas engravidassem quase na menopausa? E de meninos gêmeos somente? Como?!

— Eu não tenho todas as respostas, Carlinha. Eu sei lá: vai ver usaram sêmen manipulado para gerar meninos gêmeos, talvez no meio do rala-e-rola as donas não notaram um seringão de porra. Dá pra se fazer isso? Pode ter satanismo, eugenia ou tudo isso junto no caldo, vai saber!  E sobre Niterói, falei com a Norma, uma ex-namorada que é enfermeira na Maternidade Santa Marta. Eu pedi pra ela me avisar de algo assim. Ela me contou que três mulheres de 47 a 52 anos foram mães recentemente por lá. As três tiveram meninos gêmeos idênticos! Podem existir outros casos na cidade, em hospitais públicos, pois a Santa Marta é particular.

— Minha nossa! Então temos que colocá-las sob proteção, só pra prevenir.

— Sim! E identificar todos os casos. Se sete não foi um número ao acaso em Campos, se houver menos mães que sete até agora, eles ainda podem estar na fase de engravidar as coroas…

— Isso se houver seita, se tudo isso não for um monte de coincidências bizarras, Leão.

— Meu amor, coincidência é quando eu cago em bolinhas feito cabrito por dois dias seguidos, tá ligada? Vamos, temos que entrevistar essas donas.

“Desrespeitoso e vulgar feito…” – Carla refletiu com amargura.

***

Sem dar satisfações a ninguém, Leão desapareceu por três dias e ressurgiu naquela manhã na delegacia como se nada houvesse ocorrido. Tinha a juba ensebada, como se não tomasse banho há dias, os olhos estavam injetados de pouco dormir.

— Carlinha, eu marquei uma bobeira, vacilei feio no caso em Campos. Acabei de chegar de lá – ele abriu um mapa sobre a mesa da colega. — Quando os casos aconteceram na cidade, era óbvio tentar associar as visitas dos sedutores às senhoras, para tentar identificar um padrão, caso houvesse um. Baseado então nos endereços delas, eu tracei um mapa, veja.

Umas três linhas próximas e regulares estavam ligadas a outras quatro, em direções quase aleatórias.

— Não enxergo nada de especial aí – Carla comentou.

— Sim. Porque quatro mulheres originalmente viviam em comunidades perigosas da cidade e haviam mudado por causa de guerras entre traficantes! Eu me baseei nos endereços correntes das mulheres, ao invés dos lugares onde viviam quando conceberam os bebês, entendeu? Comunidade da Santa Rosa, Santa Helena… Agora, olha o que acontece quando eu marco os pontos corretos!

Uma figura formou-se, um heptágono, bem claro no mapa.

— Puta que… – Carla balbuciou.

— Veja agora o mapa de Niterói. Veja os endereços das seis mulheres que descobri até agora: duas haviam se mudado pela mesma razão que em Campos: merda de cidade perigosa! Mas usando os endereços originais temos uma figura perfeita e que aponta para a próxima “zona de ataque”, reparou? Se levantarmos as senhoras com os perfis corretos e que vivam na zona em questão, podemos nos antecipar e capturar um dos membros da Seita. As datas, outro detalhe que me escapou, foram todas durante a lua cheia. Cuja fase começa depois de amanhã!

Ela controlou o asco que sentia pelo colega e o abraçou: — Parabéns! Você matou a charada!

***

Carla acordou com a boca seca e a cabeça a girar, estava em sua própria casa. Recordava-se de flashes da noite anterior. Ela e Leão fizeram tocaia junto à casa de certa Dona Mercedes, uma das três que atendiam ao perfil da “seita”. Às 21 horas, aproximadamente, um jovem ruivo, vestindo roupas antiquadas, tocou a campainha da casa. A lua brilhava cheia no céu. Leão, completamente descontrolado, disparou um taser antes de sequer abordar o suspeito. O ruivo caiu sobre a calçada, olhou para Leão com olhos assustados e gritou uma última vez: — É você!

As coisas ficaram confusas a partir dali, como se Carla houvesse sido drogada. O ruivo suspeito estava misteriosamente morto e não parecia o mesmo rapaz que estivera junto do portão da casa havia uns minutos: o corpo metamorfoseara em algo negro e brilhante como uma enguia. Leão recolhera o cadáver, o colocou no porta-malas do carro de Carla e conduziu até a casa dela.

“Chegamos à Terra por um acidente infeliz. Xoz, o morto, ele era o poeta-piloto-telepata, eu, o típico xenobiólogo-navegador-policial. Somos altamente capazes de adaptação e disfarce. Eu estava muito ferido e Xoz julgou que eu morreria, deixando-me para trás. Isso faz uns cinquenta anos.

Somos muito diferentes de vocês, não tínhamos esperanças de um resgate, então pensei (e ele pensou também): em reprodução, uma descendência. É muito complicado, contudo. Não funcionaria com fêmeas organicamente capazes, e as relações teriam que ser longas, para a reengenharia completa dos órgãos reprodutores. As crianças seriam clones nossos, em disfarce humano. Suspeitei dos casos dos gêmeos em Campos quando li num tablóide sobre senhoras dando a luz a meninos idênticos. 

Queria vingança. Não poderia permitir que ele se espalhasse depois do que ele fez. Matei os meninos (afinal, eram ele!), assumi essa identidade, para poder encontrá-lo. Balas não nos causam muito dano, mas fortes choques elétricos nos são fatais. Não esperava os heptágonos, a lua cheia: os poetas são completamente insanos!

Ele lia a mente das senhoras e criava um avatar de suas memórias mais doces. Afinal, era sua natureza gentil. Eu não tenho o mesmo talento. Você tem nojo e atração por mim, porque escolhi a aparência de seu pai abusador. Isso certamente não foi suficiente para seduzi-la. Sim, eu sei que você teve um mioma e retirou o útero. Foi por isso que a escolhi, é por isso que estamos juntos aqui.”

Carla correu até o banheiro e vomitou no sanitário. O gosto dele, o cheiro dele, a impregnava. Chorou, estava sozinha: Leão se fora, o corpo do poeta também não estava lá. Entretanto, ela já tinha certeza; não ficaria sozinha senão por mais nove meses. E o maldito alienígena a pagaria caro por isso!

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.