EntreContos

Detox Literário.

O Buquê Jamais Recebido (Maria)

 

O bloqueio criativo levou Mercedes a viajar pelo interior do Rio Grande do Sul em busca de inspiração. Os dias na cidade grande com os cinzas estampados nas faces das pessoas e a eterna fumaça de cigarros e escapamentos sugavam sua energia. Logo ela, que veio ainda garota da Bahia para a capital de São Paulo, e que desbravou o monopólio das escolas de arte e conseguiu seu lugar ao sol, ganhando prêmios e renome dentre os artistas, mantendo seu carisma de menina matuta.

O relógio marcava 23h quando desceu na rodoviária e chamou um táxi para a casa que havia alugado pela internet, um grande chalé em meio a um jardim mal cuidado, com poucas cercas ao redor, dando o ar de liberdade que tanto procurava. Trocou duas ou três palavras com a vizinha com quem pegou as chaves e que fazia o intermédio entre a dona do imóvel e os clientes. Mercedes não era dada a muitas conversas, mais por timidez que por arrogância. Era cabocla de cabelos negros armados e soltos ao vento, feições fortes, assim como sua estrutura física, uma mulher de grande porte como dizem. A casa rústica, de madeira de lei, trazia a sensação de conforto que lhe rendeu um sono profundo e que há anos não tinha.

 

***

 

Mercedes acreditava que teria um dia de folga antes de dar início aos trabalhos: um conjunto de telas encomendado por um figurão do Rio de Janeiro, mas a manhã seguinte reservou-lhe uma grande surpresa: à luz do sol, o jardim ao redor da casa brilhava e revelava uma certa beleza, apesar de desgrenhado, deixando-a encantada. Observando pela janela principal da cozinha, enquanto passava um café no filtro de pano amarelado que encontrou num dos armários, não tirou os olhos de um grande arbusto cujas flores, de um azul suave e inebriante, desabrocharam em formato de enormes buquês arredondados. Uma imagem foi pintada em sua imaginação e Mercedes logo desfez as malas e montou seu cavalete à uma certa distância do arbusto, separando pincéis, tela, lápis e tintas sobre uma bancada improvisada.

Os poucos vizinhos que passavam pela rua podiam observá-la amarrando seu avental manchado de tinta, prendendo o cabelo com uma fita vermelha e sentando numa cadeira robusta de madeira. Mercedes fitou a planta e levou a ponta de um lápis à boca, buscando no inconsciente uma inspiração, e em seguida desenhou um traço na tela, um esboço para a paisagem que iria criar. Se aprovada ou não pelos críticos posteriormente, ela não queria saber. Não perderia a inspiração, a excitação de presenciar algo novo. Era assim: quando colocava algo na mente, não tinha quem a tirasse. Sempre mergulhou de cabeça em tudo o que chamava sua atenção, sem medos e pudores. Neste ponto, sua timidez e distância das outras pessoas lhe garantiam uma confiança a mais.

Com o esboço pronto, preencheu todo o fundo da pintura com um azul celeste no topo e um verde escuro na parte inferior, representando o céu e o tapete verde que via à sua frente. Tocou as cerdas do pincel numa mancha de tinta da paleta surrada e deu pequenas e delicadas batidas sobre a tela, criando aos poucos um volume às formas que se transformariam em flores mais tarde. Sua atenção foi desviada pela presença de um homem, parado próximo à calçada, que a observava com encanto. Percebendo que foi descoberto, ele tentou quebrar o silêncio constrangedor. “Boa noite! Vai ficar um quadro lindo, as hortênsias são maravilhosas nesse período do ano”. Mercedes contraiu os lábios e não conteve sua frustração, já que em sua mente criava uma criatura verde com buquês e sem nome, misteriosa e encantadora. “Ah, então esse é o nome dela: hortênsia. Foi amor à primeira vista, confesso. Sou apaixonada pelos tons azuis”, respondeu.

O homem aproximou-se mais da propriedade. “Então está com sorte, pois há uma outra variedade com as flores rosas. É nova aqui?”. Com a proximidade, Mercedes observou melhor o desconhecido, sua feição simples e seus cabelos curtos e muito escuros, a barba começando a nascer. E assim como a hortênsia, em sua descoberta pela manhã, o homem sem identidade também a deixou encantada. “Na verdade estou de passagem, tirei umas férias pra tentar finalizar um projeto de pintura. Gosta de arte?”, claro que não poderia deixar a peteca cair, queria ir além e descobrir a ligação entre as mãos grandes e grossas do rapaz, que aparentava não ter mais que 25 anos, e seu gosto por flores. Mercedes sempre foi uma observadora nata e, aguardando a resposta e ainda atenta, voltou a pincelar a tela. “Não sou um entendido no assunto, tenho que admitir, mas gosto de admirar. E por coincidência, também estou de passagem. Eu morava ali, na casa atrás desse jardim, mas há algum tempo que não via alguém hospedado e achei curioso você pintado. Mas tem algum problema em eu ficar por aqui?”

E foi num clima amigável de perguntas e respostas, cada um com medo de finalizar o assunto e trazer aquele silêncio constrangedor à tona, que o papo estendeu-se, passando de artesanato e quadros preferidos à novela das nove. Mercedes não percebeu o tempo passar e, quando deu por si, o sol estava a pino, dificultando a pintura. Comentou que guardaria seus materiais, continuaria no outro dia, e o estranho se prontificou a ajudá-la, carregando o cavalete para dentro da casa. Mercedes ofereceu um copo d’água e aproveitaram para admirar e tecer elogios a respeito da estrutura do chalé.

Assim como decidiu pintar a flor misteriosa pela manhã, desejou pintar o homem à sua frente, pincelar de novas experiências seu corpo jovem. Mas antes mesmo que pudesse iniciar um novo assunto, ele informou sem jeito que possuía um compromisso pelo fim da tarde. Percebendo a abertura noturna, ela abriu um sorriso maroto e o convidou para jantar.

Com o lusco-fusco no céus, a imagem da hortênsia lá fora se transformou numa aquarela vibrante. Mercedes não sabia se era efeito do pôr do sol, mas as flores ganharam um azul muito mais intenso que os que observou durante a manhã. Não sabia se o estranho voltaria, nem mesmo se fez certo em convidá-lo, mas só então deu por conta que não trocaram nomes nem números. Mas morava por perto. Era seu primeiro dia de férias e, por não acreditar em coincidências, considerou como um sinal do universo a fagulha de inspiração que a preencheu ao acordar e se deparar com a hortênsia, assim como o encontro aparentemente aleatório com o lindo rapaz de cabelos escuros e barba por fazer. Durante a trajetória de seus 40 anos, Mercedes se orgulhava de ser a mulher independente com que sonhara, sem amarras. Nunca esteve sozinha, entretanto, sempre de encontro marcado com outros desconhecidos que encontrava na internet. Geralmente mais novos, cujos nomes nunca conseguia decorar, deixando na memória apenas os bons momentos. Ao imaginar seus lábios grossos tocando o rosto do homem que acabara de sair da casa, ela sentiu um calor percorrer todo o corpo. E somente um banho quente e demorado poderia acalmá-la, pois tampouco era uma mulher de passar vontade.

 

***

 

Perto das 20h a campainha tocou. Mercedes, de batom carmim nos lábios, abriu a porta para o homem que trazia nas mãos duas garrafas de vinho. Sentando ao redor das mesas, ambos trocaram olhares e perceberam na vestimenta um do outro. Ela num vestido longo e justo, com um enorme decote valorizando seu busto. Ele de camisa floral com um botão aberto, deixando escapar um tufo de pelos do peito. “São dois vinhos paraguaios”, começou a comentar, olhando para a garrafa e, vez ou outra, subindo a visão para a mulher, “A propósito… gosta de seco?”. A frase atravessou Mercedes como uma flecha em chamas, chegou a sentir as maçãs do rosto corarem, tanto pela pergunta quanto pelo assunto, admitia que não entendia nada de vinhos. “Bom, vou admitir que sou leiga no assunto, mas assim na sua mão aparenta ser delicioso”.

Após algumas taças da bebida, Mercedes virou a cabeça e tocou a nuca com as mãos, num gesto de delicadeza e ao mesmo tempo para demonstrar um certo cansaço, quando a hortênsia entrou outra vez em seu campo de visão, mas cujas flores estavam ainda mais vibrantes. “Nossa, lembrei. Hoje de manhã aquelas flores não estavam tão azuis assim, talvez eu precise fazer uma nova camada na pintura amanhã. Aproveitando que é um conhecedor não só de vinhos, como também de flores…”, nesse momento sua fala foi interrompida pelo desconhecido: “E de mulheres também, não esqueça”, deixando seu rosto ainda mais corado, revelando uma timidez com gosto de quero mais. Ele tocou suas mãos com as pontas dos dedos e tentou retomar ao assunto principal. “A cor das flores da hortênsia varia conforme o solo, indo do azul intenso nos mais ácidos ao rosa claro nos mais alcalinos”, explicou encarando-a nos olhos. “Como gosta de azul, imagine que é um presente meu”.

Não demorou para que os dois, ao final de duas garrafas, subissem as escadas aos beijos e terminassem na cama. As mãos grandes e grossas dele, assim como Mercedes imaginara, a pegaram com força e firmeza, deixando-a imobilizada sobre a cama. Ela podia sentir um aroma amadeirado no ar, uma fragrância forte e intensa que penetrou suas narinas, deixando-a aérea. De súbito, ela conseguiu soltar-se do abraço apertado e, num só movimento, abriu a camisa floral e passou os dedos entre os pelos do peito do homem, enquanto tirava o próprio vestido. Primeiro as alças, depois puxando-o para baixo, unindo os seios rígidos no peitoral sem nome. O vinho impregnou suas respirações como um presente do antigo deus Dionísio, com beijos inflamados. E assim como o vinho seco, se conectaram com notas de chocolate amargo e frutas cítricas de suor.

Como a lança espiralada do saca-rolha que penetra a cortiça da garrafa, exigindo força para fincar tudo, Mercedes sentia cada curva da lança desconhecida. E ainda no clímax dionisíaco, similar ao ato de puxar a tampa de um espumante, liberaram o som agudo de felicidade, jorrando uma cascata de prazer. Ela, num orgasmo intenso, imaginou o próprio corpo caindo sobre uma pilha de penas e caiu em sono profundo.

 

***

 

Os primeiros raios de sol entraram pela janela que dormiu aberta, revelando uma cama bagunçada, lençóis metade em cima, metade para fora do colchão, travesseiros e almofadas jogadas pelo chão. Mercedes despertou lentamente e se viu sozinha no quarto. As lembranças da noite anterior invadiram sua mente e um leve arrependimento em ter exagerado no vinho fez com que mordesse o lábio. Não ficou surpresa pela ausência do homem, já estava acostumada a encontros rápidos. Não sentiu-se usada, como as amigas de bar gostavam de comentar quando algo semelhante ocorria com elas. Chateada, talvez, porque no fundo gostaria de acordar como dormiu: em êxtase sensual e ébrio. Percebeu um objeto estranho sobre o criado-mudo ao lado da cama e, ao analisá-lo com atenção, acreditou ser a metade de uma moeda. Ou um medalhão, pelo tamanho. “Flores azuis de presente… conta outra! O que vou fazer com isso?”. Vestiu uma calça de moletom e uma camiseta estampada, colocando o medalhão no bolso. Voltou a amarrar os cabelos e desceu as escadas, cantarolando e pensando no café forte que prepararia.

Lavando o filtro de pano e ainda despertando, viu o jardim lá fora e pensou no quadro que começou no dia anterior. Como se uma chave girasse em sua mente, ideias e projetos invadiram seu consciente, sentiu-se revigorada. Enquanto entornava o café, decidiu que terminaria a pintura naquele mesmo dia e que a chamaria de O buquê prometido. Poderia dar sequência até mesmo à uma série figurativa, retratando tudo o que despertaria sua atenção durante as férias. Sentia aquela sensação de inúmeras possibilidades pela frente. Desdobrou novamente o cavalete no quintal, separando os pincéis e tintas. Devido ao tom mais escuro das flores, Mercedes vasculhou seu estojo de tinta, procurando qual delas combinaria mais, pensando com qual outra cor misturaria pra chegar no tom ideal. Flashes da noite anterior invadiram sua mente, deixando escapar um sorriso no canto da boca.

Fitou a hortênsia uma vez mais e reparou num ponto marrom sobre a base da planta. Ela mudou o olhar para a tela, procurando ver se havia desenhado esse mesmo ponto, achando estranho quando não o encontrou. Aquilo não estava ali antes. O ponto refletia uma luz conforme o sol iluminava, chamando sua atenção. Mercedes tentou continuar pintando, mas o reflexo a desconcentrava. Um tanto irritada, pois não queria perder a sensação de calmaria que a preencheu recentemente, caminhou rumo à ex-criatura verde de buquês floridos.

Parou em frente à hortênsia e reparou que tratava-se de outra metade de um medalhão. Retirou do bolso o que encontrou ao acordar e comparou os dois. Havia uma chance de serem partes do mesmo objeto e, assim, abaixou-se e os juntou, percebendo que de fato eram. Tentou puxar a outra metade do chão, mas estava atada à corrente que, por algum motivo, ficou presa sob a terra. Puxou com mais força, mas não conseguiu mover. Juntando os dois pedaços, viu que formava o nome Paulo no verso. Seria o nome do estranho? Será que esta era sua última brincadeira? Deixando pistas pela residência? Mercedes não gostava de rodeios ou, desculpe o trocadilho, de floreios. Num ímpeto, revirou a terra para desprender a corrente e um calafrio percorreu sua espinha ao ver o que surgia embaixo. Afastando mais a terra seca, revelou o rosto de um homem sob a hortênsia, cujo pescoço ainda trazia a corrente com a metade do medalhão. Não distinguiu com clareza, mas percebeu se tratar do desconhecido que a tocou horas antes, assim como soube que o corpo jazia ali há dias, pelo estado da pele. O susto, e o grito, vieram em seguida.

 

***

 

A polícia encontrou Mercedes em estado de choque, com sua mente tentando racionalizar toda a situação. Os policiais informaram que Paulo havia desaparecido por volta de uma semana, mas que ninguém fez um boletim. Era um rapaz solitário, sem família, inteligente e reservado. Mercedes sequer cogitou comentar sobre o ocorrido durante a noite, sua mente viajava entre encontrar um sentido para o que aconteceu e o possível assassinato, talvez mais um que permaneceria sem solução. Em questão de minutos a residência foi tomada de policiais, peritos e curiosos. Em meio ao caos que se instalou, ela pensou em guardar o cavalete e seus materiais quando, do outro lado da rua, viu o desconhecido que a dominou: Paulo, cujo corpo repousava sob as flores. Ele acenou para ela, abrindo um sorriso tenro e aconchegante, quase como um agradecimento. Ela forçou a vista, pois não acreditou na própria visão, mas aos poucos a imagem desapareceu. Olhou uma última vez na metade do medalhão nas mãos e sua mente voltou à pintura, ao título que escolhera. Não chamaria mais de O buquê prometido.

Chamarei agora de… O buquê jamais recebido”.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.