EntreContos

Detox Literário.

Análise e Reconhecimento: Terra (Éffy)

O Pa garantiu que a nave era segura. Confere. E eu sei disso porque ouvi ele dizer aos outros encarregados, quando ainda estávamos no solo de Retiaviv. O problema foram as atenções de todos comigo. Creio que, de certa forma, eles se enganaram. E me perderam. 

Conheci aquele planeta numa situação ensolarada, e também fui esquecido do resto da tripulação abaixo daquela mesma claridade. Se eu fosse menor e sem experiência, diria que daria vazão ao meu desespero. Mas, no futuro, seria eu a líder de Qiroifàn, além do mais meu senso de equilíbrio era incrível. Apesar de eu ter me locomovido o suficiente em meio àquele solo peludo, ralo e verde, meus sentidos reconheciam com dificuldade o ar enevoado e roxo que me preenchia. Era um tipo de gás pesado, concordo, pois atravessavam minhas articulações internas com lentidão. Mas eu conseguiria sobreviver. 

Earita, meu sensor de análise e reconhecimento de regiões desconhecidas, estava atordoada com aquela atmosfera tão diferente e… abafada. Em meu busto, ouvia as vibrações do equipamento e tentativas falhas de recuperação e atualização de dados. 

Somente quando abaixei-me para tocar o solo, consegui ouvir: 

Análise e reconhecimento: espécie de planta briófita para os alienígenas desse… (falha) Terra. Chamada comumente (falha) grama. Espécime inofensivo… 

Era a falta dos meus satélites. Tão longe da capital Retiaviv, eu não compreendia como ainda estava sã. Desde que a nave seguiu viagem e mal me recordava, sem muitos sucessos, nenhuma informação espacial era detectada em meus sentidos. Como eles me esqueceram? O pouso na Terra era apenas provisório, umas duas horas turísticas para que nós conhecêssemos essa nova existência terrestre. Até eu precisava admitir: o serviço de turismo interespacial de Pa e Ma eram incríveis. Muitos Ratiavianos conheciam os planetas próximos. 

Mas eles precisavam de mais atenção. 

Por alguns segundos, observei o céu. Não poderia negar que era deslumbrante o modo como eu enxergava a estrela tão magistral e pequena (se eu comparasse às outras em que estive, claro) dentro naquela atmosfera azul límpida e da substância roxa ao redor. Havia não mais do que uma luz branca lá no alto, tão longe de quem já esteve tão perto. Pouca lúcida para o nível máximo que um Retiaviano poderia aguentar. 

— Você vai ficar cega. — ouvi uma voz passar ao meu lado. Não entendi aquelas palavras. Deveria ser a língua local? Conferi Earita. 

Em tradução: a alienígena lhe advertiu sobre os perigos de olhar diretamente para a Estrela Solar. Aparentemente, os seres deste planeta não suportam o nível de luminosidade ultravioleta em seus globos oculares…” 

Minhas coordenadas ainda estavam confusas, mas decidi continuar me locomovendo por aquele local tão distinto. Saí daquela imensidão verde e arbustiva até avistar algumas construções acizentadas e altas. O solo terroso empoeirado grudava em meus pés. Ao mesmo tempo, meus ouvidos captavam um barulho enérgico por inúmeras direções. Encontrei com uma outra espécie de concreto no chão, substituindo a tal grama e terra por um solo quente. 

— O que é isso? — saí o mais rápido daquele novo solo, seguindo entre as construções acizentadas. 

Análise e reconhecimento: asfalto. Os seres deste planeta utilizam dessa composição para a travessia de veículos, locomoção (falha) chamados comumente de carros, automóveis…” 

E fui atenta ao notar que aquela não era passagem para mim antes que alguma voz me alertasse. Cabines de variados estilos e cores atravessavam por ali, em velocidades lentas. Será que eles não se irritavam com aquela lentidão? Por um segundo lembrei-me de nossas naves. Segui em direção a alguns aliens locomovendo-se num solo de concreto ao lado da estrada. Logo, alguns esbarrões e murmúrios naquela língua local tão sublime e estranha. O céu era minha única referência… 

Maravilhas de Érina! 

Aqueles seres totalmente minúsculos voando em céu livre. O movimento de suas alças móveis de cima para baixo e vice-versa, causando um voo perfeito há uma distância nada segura. Minha Ma costumava dizer que nós, seres pensantes, não podíamos sequer ousar em voar àquela altura sem o maquinário correto. Seria doidice. 

Mas, curiosamente, aqueles seres voadores eram sem dúvida um tanto diferentes daqueles aliens próximos a mim. Suas faces possuíam dois globos oculares simétricos, uma montanha encurvada com dois furos ao centro e uma abertura em fenda larga abaixo de tudo isso. O topo de seus corpos era recheado de fios, eu poderia contar bilhões por cada um que passava ao meu lado, mas nenhum parava para que eu confirmasse essa certeza. Seus corpos, assim como os globos oculares, eram simétricos. Dois braços e duas pernas bem medidas. Alguns eram mais altos, outros mais magros, inúmeros com a cor bege e outros batalhões de cor marrom, mas sempre nessa faixa de cores. 

Ainda usavam pedaços de tecidos coloridos em todo o corpo, mas como não sentiam calor? Aquela estreita faixa de concreto por onde caminhava estava aglomerada de aliens semelhantes. Os sons eram diversos, e todos que esbarravam em mim diziam frases estranhas como “Sai daqui, mal-educado!”, “Passa por cima, porra!”, “Pede licença, né?”. Obviamente, eu não os compreendia e nem Earita era capaz de traduzir tantos sons. Meus perdões eram abafados por mais entonações esbaforidas por todos os lados. 

Minha mais clara lembrança foi quando adentrei um estabelecimento fechado sem nenhuma intenção. Em meio aos empurrões que eu sofria por tentar me locomover, encontrei uma espécie de muro transparente. Acredita que dentro dele haviam outros aliens semelhantes aos que eu via do lado de fora? A maioria encontrava-se sentada à beira de estruturas de madeira que iam até as cinturas e, pelo que pude observar, ingeriam alimentos diversos. O muro transparente em que me apoiava se movimentou e, por Érina, os sons ensurdecedores preencheram meus ouvidos dentro daquele novo ambiente pouco clareado. 

Minhas órbitas se ajustaram à luminosidade e recuperei os sentidos. Como antes, mais alienígenas esbarrarem em mim entoando algumas respostas que não identifiquei. Mas eu era uma atenção especial por alguma razão. 

— Cosplay legal. 

Virei-me a tempo de encontrar uma alien ao meu lado, me observando. Pelo que podia entender, parecia ser do sexo feminino igual a mim. A pele era do mesmo marrom semelhante aos aliens dali, e suas orbes escuras não passavam de duas linhas cortando o rosto. Sua voz era fina, além dos curiosos fios emaranhados negros e longos que começavam em cima da cabeça e caíam pelos ombros numa cascata negra e sublime. 

Pela minha inferência, aquela alien estava falando comigo. Eu precisava achar alguma maneira de me expressar. Quando Earita traduziu, não soube o que dizer. Meus sensos de comunicação estavam perdidos, minhas mãos inquietas. 

— Ah, você… é estrangeira…? Do you speak English? 

A alienígena questiona se Éffy é natural dessa sociedade ou de uma sociedade de cultura discrepante. O idioma dela (falha) é o português, utilizado em países como Portugal, Brasil (falha)…” 

— Por… tuguês. — entoei, tentando me enturmar. Por Érina, ela tinha que compreender! — Por… Portugal. 

— Sério? Que legal… você está perdida? Ou perdido? — começou uns sons alegres que identifiquei como risada. — Espera, desculpa, com essa sua roupa não sei se você é menino ou menina. 

Earita traduzia nosso diálogo em meu ouvido de modo rápido. 

— Menina. 

Alguns segundos em silêncio. — Eu sou a Alicia. Muito prazer. 

Ergueu aquilo que identifiquei como sua mão direita em um gesto aleatório. Pelo seu olhar de expectativa, supus que eu deveria fazer o mesmo e apenas imitei. A alien exibiu seus dentes em um sorriso pequeno e segurou minha mão. Balançou levemente e soltou. 

— Boa sorte na viagem. — ela tinha expressões faciais engraçadas. Earita vibrava e traduzia tudo o que eu via, dizendo que ela estava mais assustada com meu jeito, além de estar em dúvida se saía de perto de mim ou não. 

A alienígena está considerando que Éffy seja deficiente mental ou tenha alguma deficiência auditiva. Segundo meus dados de análise, ela está com os batimentos acelerados e uma pressa para tentar se afastar de você. Sugiro que pare de encará-la”. Obedeci, sem muita cordialidade, mas entoei: 

— Eu sou Éffy. 

— Isso é apelido, não é? — questionou. 

Não soube responder, mas creio que fui convincente na movimentação facial. Ela apenas ergueu o canto da boca num gesto bonito. 

— Creio que deva estar perdida. 

— Sim. — meus sentidos se exaltaram ao notar que poderia finalmente expor meu desconhecimento terrestre. — Gostaria de saber onde estou, e quando vou poder voltar para casa. 

— Eu posso ajudar, se quiser. Mostro onde é o aeroporto… 

— Não precisa. Meu resgate está além de qualquer ajuda humana ou de qualquer esforço oferecido. 

A alien Alicia manteve as órbitas fixas em mim. Quase senti que tinha entoado algo de errado, mas ela apenas ergueu os canto da boca novamente. 

— Você é engraçada. Está cursando filosofia? 

— A única filosofia que tenho consciência é a de minha natureza. Quando nasci, fui levada ao ritual de minha apresentação ao mundo. Todos iguais à mim têm noção do quanto são descendentes de uma linhagem forte. Retiaviv não sobreviveria tanto tempo se não fosse por nós, seres pensantes. 

Novamente, a alien Alicia permaneceu sem dizer uma entonação sequer. Mantive a expressão facial fixa, tentando imitar aqueles outros aliens tão estranhos. Alicia fechou ainda mais os olhos, mas tive noção de que estava me encarando. 

— Acho que você está precisando de um ar fresco. 

Sem esperar que eu concordasse ou não, sem entender muito suas palavras, ela me guiou para fora do estabelecimento. Reencontrei-me com o céu azul entre as tantas construções cinzas ao redor. 

— Beba. 

Alicia me oferecia um cilindro transparente de um material peculiar. Era gelado, minhas mãos contrataram do quente ao frio tão rápido que e eu quase larguei aquele instrumento. 

“Análise e reconhecimento: garrafa plástica contendo água, substância química de moléculas formadas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Necessária à vida terrestre…” 

Devolvi a garrafa sem saber o que fazer, mas felizmente Alicia não debateu a respeito.  Estava preocupada observando seu pequeno aparelho metálico em mãos, como muitos outros aliens que passavam por nós. 

— Posso levar você ao aeroporto. Ou à delegacia, ser estiver perdida. Eles vão saber…  

— Não. — respondi. — Agradeço, mas meu resgate chegará em breve. Não há preocupação. Gostaria apenas de conhecer esse lugar. 

— Ah, por que não me disse logo? Posso mostrar os pontos turísticos à você. Vamos. 

Aqueles aliens não eram nada receptivos. Não lembravam em nada o planeta Qiroifàn, cuja habitação era o mais simpática possível. Esses terráqueos eram estranhos. Nem sequer miravam seus globos oculares em minha direção ou de Alicia, no que considerava um desrespeito, afinal eram visivelmente diferentes. A maioria se concentrava mais nos seus dispositivos metálicos em mãos. Será que não achavam curioso um ser inédito em sua atmosfera? Não cumprimentavam nem mesmo outra semelhante visivelmente meiga e simpática como Alicia. 

Lembro que em nosso passeio, como ela denominou, nos locomovemos entre várias construções semelhantes, além de pequenas florestas artificiais entre tanta imensidão de concreto. Havia também pedras decorativas esculpidas em pedestais que, segundo Alicia, eram homenagens à aliens importantes. 

— Se você soubesse o quanto de gente é homenageada no Brasil sem merecer, ficaríamos dias conversando. 

Aquele tempo foi o suficiente para meus sentidos inferiores arderem. Era a mesma sensação de desgaste, eu precisava de uma nave próxima. 

— Eu não quero mais me locomover. 

— Deixa de ser sedentária, garota. — seu tom era mais forte, imperativo. Não quis contra-argumentar. Então, sorriu. — Você tem razão, vamos sentar. 

O ar fresco percorria meus sentidos, alimentava meu desconforto e eu me sentia tão lúcida. Era uma corrente daquele ar roxo tão peculiar que, apesar de tao pesado, me agradava. Aliás, a visão de Alicia ao meu lado, tão próxima, era sublime. Paisagens naturais como aquela, enquanto ela apenas admirava a cena à nossa frente, eram belas. Incríveis. Aquela alien era deslumbrante. 

— Gostei deste local. — entoei, sem muito controle. Earita traduzia cada situação ao redor. Descobri alguns aliens à beira de um lago, outros correndo, outros se locomovendo em cima de barras de metal com duas rodas emborrachadas. Curioso. 

Alicia novamente sorriu. Por um instante, meus sentidos internos se ansiaram ao encontrar aquelas orbes escuras da alien. Ela se aproximava, deixando sua face simétrica à vista nítida e clara. Meus membros pareciam saltar numa centrífuga, aliados aos sentidos completamente desnorteados em falta de ordem. Simples e vulnerável. Eu a ansiava de todas as formas possíveis. A imitei, num gesto curto, mas, por grande azar de Érina, não chegamos a nos tocar. 

***

— Ma, o que aconteceu? — perguntei, ainda um pouco tonta. O ambiente claro e o cheiro de sempre me deixavam com a sensação familiar, ainda que mal enxergasse claramente. Uma face conhecida estava próxima, eu estava em leito.  

— Esquecemos você no planeta Terra, minha Éffy. Sugiro que continue repousada. Não se mova. Ingeriu demais aquela substância roxa horrorosa, um tal de Oxigênio. 

— Então… foi verdade. Vocês demoraram para voltar. 

— Seu Pa e eu logo notamos que você tinha ficado para trás. Avisamos os turistas, mas a velocidade de rotação da Terra é muito maior do que a nossa velocidade da nave. Creio que devam ter passado algumas horas… 

Minhas memórias voltavam em lapsos. Talvez eu tenha dormido a maior parte do tempo. 

— É um lugar estranho, minha Ma. 

— Por que diz isso? 

Poderia dizer várias situações, mas havia a falta de consideração que eu notava naqueles seres. Minha aparente e superficial visão era escassa, eu era apenas uma visitante sem causa. Porém, não esqueceria da beleza daquele local. 

— Existe muita beleza no planeta deles, mas parece que poucos realmente se importam. Muitos sequer me encaravam, compreende, Ma? 

— Compreendo. Pelo que pude observar, você tem razão. Earita registrou algumas imagens da sua experiência. Quem é aquela alien que tanto estava perto de você? 

— Alicia. — meus sentidos pareceram se expandir ao nome dela. 

— Ela não pareceu ignorar você. 

Ma sorriu, sem dizer nada. Eu sabia que ela queria supor algo provavelmente romântico vindo de mim. Foi quando pensei naquela alienígena com um resquício de incômodo… algo bom. Uma atração. Deveria ser a falta que ela fazia. 

Análise e reconhecimento: Éffy, seus sentidos internos demonstram alteração de sinais emocionais. Desconforto interno. 

— Concordo. Alicia realmente mexeu comigo, Earita. — novamente, um incômodo surgiu. Esse era ruim, apertava minhas entranhas e meus sentidos mais curiosos. Tão rápido e tão belo. Mirava o teto com um resquício de falta que aquela alien faria à mim. — Será que ela me aceitará? 

— Você mesma deveria perguntar a ela quando acordar, Éffy. — Ma respondeu. 

Não compreendi o que falavam. Quando minha visão voltou ao foco, acompanhei Ma se aproximar de outro leito próximo ao meu. 

Por Érina. 

Foi meu único pensamento, única reação possível. Ela estava ali, desacordada, repleta de tubos respiratórios com a aparência roxa de Oxigênio. Tão bela quanto antes.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.