EntreContos

Detox Literário.

Alomorfia (Guernica)

De dentro da grande cápsula giratória saiu o corpo de um homem. Nu, sob os olhares atentos dos chineses de jalecos brancos, tratou logo de sentar sobre a maca. Cortes perturbadores, em fase final de cicatrização, marcavam o corpo atlético. Seus olhos, antes perdidos, fixaram-se no prontuário digital que um dos cientistas portava. Depois de longos meses chegara a hora de se ver livre da internação e dos testes, por vezes, tão invasivos.

— É com satisfação que a equipe do projeto lhe concede alta, sr. Silva. — falou a mulher com sotaque pesado e sorriso artificial. — Espero que esteja ciente das dificuldades da adaptação…

— Estou ciente. — interrompeu-a, enquanto vestia a única roupa que sobrara da bagagem destruída.

— Pois bem. Nosso programa possui uma rede de voluntários que passaram pelo mesmo procedimento e que podem atuar como facilitadores. O seu ponto de apoio chama-se Nina Sousa. Segundo nosso sistema, ela é sua vizinha.

Aquele nome causou um impacto curioso sobre ele. Agora entendia porque achava que Nina tinha desaparecido. Por fim, ela sempre esteve lá. Renato Silva tentou disfarçar o suor das mãos. Sentiu uma breve náusea, que atribuiu às sensações inéditas que o novo corpo costurado impunha. Mas o incômodo que lhe acometera vinha daquele nome.

— As cicatrizes não são poucas… — disse outro chinês. — Caso queira, pode entrar para a fila do cirurgião plástico do projeto. Mas já vou adiantando que o tempo de espera é semelhante ao do falido SUS. A estética não é nossa prioridade com voluntários.

— Não incomodam. — mentiu, conferindo de soslaio o mosaico de cortes no antebraço esquerdo.

Além daquelas marcas, outra coisa o atormentava: a claridade excessiva do ambiente. Mas desse problema ele estaria liberto em poucos minutos. Mesmo após meses de reclusão, não havia se acostumado com a iluminação exagerada, com o grau exorbitante de higienização e com o olfato prejudicado.

— Coloque a mão sobre a tela.

Caminhando com cuidado até o prontuário, tocou com as digitais na superfície fria do vidro: liberado. Mais um objeto tecnológico da China, mais uma prova da exclusiva e incontestável posição que o país asiático exercia no mundo. Entre os milhares de programas implantados nos países periféricos, os chineses haviam escolhido o Brasil para aquela nova empreitada. Renato Silva, para os cientistas, era apenas o numeral binário 101.

— Lembre-se que terá acompanhamento profissional para garantir a adaptação necessária. Alguma dúvida, sr. Silva?

Ele hesitou.

— Onde é a saída?

——

 

Na parte externa do edifício, o caos do grande centro metropolitano brasileiro assustou-o. Uma nuvem sem fim, acinzentada, cobria o topo dos prédios envelhecidos. Veículos sem rodas que cortavam o céu noturno com suas luzes chamativas serviam à camada social economicamente superior: a maioria, estrangeiros. Parte dos carros convencionais, com rodas no chão, pilotados por uma inteligência artificial “made in china” obsoleta para países de primeiro mundo, aglomeravam-se em uma fila quilométrica em busca de passageiros de corridas mais baratas.

Renato entrou no primeiro veículo que lhe abriu a porta. Conectou o chip do punho no aparelho frontal do transporte e sentiu o carro dar partida. Levantou a sobrancelha ao ver o saldo positivo de créditos por ter sido voluntário do programa. À medida que o automóvel alcançava as ruas escuras do subúrbio, as pichações mostravam-se ainda mais agressivas. O desenho de um cão magro, no muro de uma escola, vomitando um celular ultrapassado, fez com que Renato se lembrasse de Téo. O seu cérebro artificialmente amplificado pulsou. A mesma sensação que experimentara minutos atrás ao ouvir o nome dela. Mas ele não devia pensar em Nina. Pelo menos era isso que falava para si mesmo.

Seus olhos percorreram as ruas vazias e imundas. Plásticos espalhados pelas calçadas eram garimpados pelos catadores, dentre estes, filhos da América do Norte que vieram ao Brasil depois da grande guerra apologética. A coleta rendia míseros créditos no fim do dia. O plástico era a única fonte de renda para aqueles que apenas sobreviviam. Sobreviver e esquecer: retrocesso da existência humana perpetuada em pleno século vinte e dois.

Ao observar o estado daqueles seres, Renato, intuitivamente, começava a expandir a sua consciência sobre a humanidade. Iniciava um processo de reflexão, o qual o cérebro implantado nunca esteve habituado. Renato sabia que o tempo que passara dentro do laboratório não fora suficiente para que compreendesse, de fato, o seu lugar no mundo. Será que este lugar realmente existia?

Embora estivesse em uma situação menos precária que os moradores de rua, esquecer para ele não era possível. Pelo contrário, Renato era movido por lembranças do acidente fatal. Os gritos de dor e desespero, os latidos, depois, o silêncio. Os estilhaços, as rodas voltadas para cima, o rosto de Eva sem vida. Se ele tivesse a chance de pedir perdão por não ter conseguido salvá-los… Renato daria a vida por eles.

Quando o carro parou, viu que havia chegado ao seu destino. Olhou para o espaço vazio da cadeira do motorista, aquela ausência o abalou. Ele sentiu o desassossego aumentar quando avistou a porta de casa. Suja, marcada por palavras ofensivas. Seus vizinhos já sabiam de qual programa era voluntário. Por mais que a psicóloga do hospital tivesse minimamente o preparado para aquele momento, sentiu-se aliviado por ser tarde da noite e não ter que encarar os olhares recriminadores das pessoas. Caminhou até a entrada, colocou a digital no sensor, respirou devagar, ouviu o som da tranca destravando, secou a mão na calça jeans, empurrou a porta, recolheu-se.

Uma porção de sentimentos o tomou por inteiro. Ao olhar para o porta-retratos eletrônico em cima da mesinha da sala, recordou-se do dia que saíra na companhia de Eva e Téo para a viagem tão aguardada. Os dois pareciam crianças empolgadas em conhecerem o litoral e as monumentais ossadas das Baleias Encalhadas, mortas há décadas, após a catástrofe petrolífera na baía brasileira.

Ele pegou o objeto eletrônico e se jogou no sofá, alterando as imagens aleatoriamente. Recordava-se das vezes que olhara para as fotografias, mas não como agora. Tudo estava diferente. Mas algo permanecia. Os três juntos resistiam: um homem de barba, uma bela mulher, um vira-lata. Renato sentiu algo escorrer por sua face. Tocou a lágrima genuína com a ponta dos dedos. Ficou um tempo ali, paralisado, quando ouviu alguém se aproximar da porta. Empalideceu-se com a possibilidade de ser ela.

— Renato, eu te vi chegando. Sei que está aí.

Ao levantar-se do sofá num salto, derrubou o porta-retratos eletrônico. O som do vidro se quebrando atravessou o seu corpo como uma agulha injetando-lhe uma anestesia letal no laboratório chinês.

— O que foi isso? Abre a porta! Sou eu… — uma pausa. Nina.

A sombra por debaixo da entrada não ia se distanciar tão cedo. Renato sabia muito bem disso. Ele aproximou-se, cauteloso, e deixou com que sua facilitadora adentrasse no cubículo onde morava.

— Você não mudou mesmo com a transição… — falou ele, após fechar a porta atrás de si. — Continua a criatura mais teimosa do mundo.

— E você nunca vai deixar de ser atrapalhado… — disse ao entrar, olhando o objeto quebrado no chão e entregando a Renato um embrulho. — Não vai derrubar o seu jantar, heim? Sente-se, eu cuido da bagunça.

Renato riu pela primeira vez, retribuindo o sorriso contagiante que ela oferecia.

— Enviei para seu e-gèrén alguns lugares que podem te dar emprego. — disse ao apontar para a tela digital do dispositivo instalado na parede, uma espécie de perfil pessoal universal. — Falei com o meu chefe também, pode ser que ele te aceite lá. Precisa arranjar algo logo antes que vá morar na rua como está acontecendo com muitos de nós. Os créditos não vão durar muito tempo.

— No que consiste as suas atribuições no trabalho?

— Você fala muito engraçado. Enquanto instalavam seu cérebro colocaram algum programa da língua portuguesa do século passado na sua cabeça? — falou, começando a recolher os cacos do chão. — Muito da nossa forma de agir e falar é resultado da experiência anterior. Talvez seja pelo fato de Eva ter sido uma grande amante dos livros…

Nina ficou séria de repente, tentando desviar o olhar. Parecia arrependida por ter tocado naquele assunto. Mas Renato simplesmente não conseguia parar de fitar o castanho particular daqueles olhos.

— Como podemos lembrar de tantos detalhes, Nina?

— A memória não foi violada, simples assim. Faz parte do teste deles… O porquê? Desconheço. Somos cobaias, não voluntários. Falando em língua, você tem que aprender mandarim o mais rápido possível.

— Você já aprendeu?

— O quê? Tem apenas dois anos que estou neste corpo, Renato. Consegui juntar créditos para minha primeira web-aula há apenas três meses. Eu ganho uma merreca por trabalhar com a sucata radioativa que depositaram aqui, no lixão América. Mas você vai conseguir mais rápido que eu…

— Por que diz isso? — indagou surpreso, vendo-a terminar de ensacar o lixo. Ela parecia ser infinitamente mais autossuficiente que ele.

— Por que tenho muitos para sustentar. — um movimento involuntário revelou o corte cirúrgico no peito. — Eu resgato cães de rua, como um lar temporário, sabe? A vida dos cães está cada dia mais complicada por aqui…

Um silêncio sufocante imperou entre os dois. Renato a olhava com interesse, sentia-se um traidor por isso. Como poderia continuar nutrindo tudo aquilo por Nina? Cada vez que se olhasse no espelho iria se lembrar de Eva. Era impossível ver o seu atual corpo aproximando-se de outra mulher que não fosse Eva.

— Se te interessar, posso compartilhar o material do curso com você. — disse, embaraçada, colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha. — Bem, vou nessa. Só para constar: a primeira noite em casa é um pesadelo. Mas se eu sobrevivi, você também sobreviverá. Sabe onde me encontrar…

— Nina! — chamou-a, enquanto ela tomava o rumo da saída. — Como você conseguiu? Digo… Como consegue suportar tudo isso?

Ela sorriu de forma doce. O cérebro dele pulsou novamente.

— Você é mais forte do que pensa, Renato. Uma dica: não olhe tanto para o espelho. Até se acostumar… Leva um tempo.

Renato apenas acompanhou Nina sair pela porta sem dizer mais nenhuma palavra.

 

——

 

Ele não conseguira pregar os olhos um só minuto. Deitar na cama era um martírio. O sofá até que estava confortável, mas as pontadas na consciência eram mais insustentáveis que as molas soltas por detrás do estofado velho.

Ele nunca saberá dizer como reuniu coragem para bater na porta da casa da frente às três da manhã. Mas lá estava ele, o abominável vizinho Renato Silva, o novo excluído da sociedade, o número 101, suplicando ajuda ao único ser em quem confiava.

Após ouvir alguns latidos, avistou a bela silhueta feminina surgir diante dele.

— Eu sei que vai brigar comigo, sei que te acordei, sei que precisa levantar daqui a pouco, mas… Eu não consigo sozinho…

— Só entra, Renato. — disse com um tom de voz calmo e consciente, dando passagem ao vizinho.

— Eu não pensei que seria tão difícil… Tão difícil viver sem eles… Tão difícil ser um homem.

Renato fitou a imagem iluminada no plano de fundo do e-gèrén de Nina na parede menos descascada da sala. A imagem era antiga: Ana, uma mulher jovem de olhos castanhos, ao lado de sua cadela da raça beagle, Nina, recém-resgatada de um laboratório clandestino da cidade.

— Como conseguiu viver sem a Ana? Como consegue ser tão forte, Nina?

— Olha bem para mim, Renato… — ordenou, tomando o rosto dele entre as mãos. — Eu consigo viver porque sei que a Ana entrou neste projeto por mim… Ela jamais me colocaria em uma situação que não fosse para o meu bem. Então eu sou forte por ela, eu suporto humilhações e perseguições por ela, eu sou grata pelas lembranças que eu tenho dela, e eu vou até o fim para honrar este corpo que era dela. Faça o mesmo pela Eva… Dê o seu melhor para honrar o corpo do Téo.

Renato sentou na cadeira mais próxima, visivelmente abalado. Nina se colocou diante dele e acariciou a sua barba. Ele encostou seu rosto entre os seios dela, tocou a cicatriz com os lábios. Beijou pela primeira vez.

— Posso dormir aqui esta noite?

— Pode. Só não fique muito perto do Bob… — disse ela sorrindo, apontando para um dos cachorros. — Ele é ciumento, mas vai ter que se acostumar com você…

— Poderei dormir aqui mais vezes?

— Venha sempre que precisar, Renato… Infelizmente tenho essa mania de resgatar cachorros abandonados.

Ele riu. Mesmo em outro corpo, ele continuava completamente atraído por ela, ligado àquela beagle insubordinada da casa da frente. Mas não era apenas atração. O que ele sentia era afeto. O sentimento que tantos pensavam ser de exclusividade humana, Renato já sentia por Eva, por Téo, por Nina, desde quando era um cão vira-lata.

— Venha, vamos deitar antes que amanheça. — chamou-o, indicando o caminho com o dedo opositor.

Ele a seguiu até o quarto pequeno, o único da casa. A janela entreaberta dava a visão de fora, do céu estranho, nublado, poluído, acinzentado.

— Eu nunca havia reparado… Nem de madrugada o céu muda de cor? — perguntou ele, enquanto ela ajeitava o lençol da cama.

— Não, Renato. No hemisfério sul todos os dias são cinzas.

— Estranho… Ei! Não precisa arrumar aí para mim. Eu vou dormir aqui… — disse, dando as costas para o céu cinzento e deitando-se no chão, ao lado da cama, como fazia com seus amigos, vítimas do acidente trágico. Renato ergueu o olhar. Podia ver o rosto de Eva, sorrindo para ele. Os olhos de Téo, agora seus, fitando-o com carinho. — Pode deixar as luzes acesas?

— Está bem… — respondeu, afastando-se do interruptor e abrindo um aplicativo no dispositivo e-gèrén do quarto. — Ouvir música ajuda, Renato. Tem alguma preferência?

— Sim… Aquele som que Téo sempre colocava no volume máximo, lembra?

— Eu sei qual é… — afirmou, denunciando-se. — Foi a primeira coisa que fiz quando voltei no corpo da Ana. Perguntei à Eva o nome da banda que eles sempre ouviam… Foi aí que eu entendi porque você se chamava Renato.

Nina sorriu, escolheu o álbum da banda brasileira dos anos oitenta do século vinte no aplicativo e se deitou no chão, de frente para o velho conhecido.

— Nina, não precisa fazer isso…

— Eu não vou me deitar na cama com você dormindo aqui embaixo… — retrucou, ajeitando uma coberta sobre os dois.

— Acha que conseguiremos, Nina?

— O quê?

— Superar tudo isso.

— Claro que sim… Desde quando eu soube do acidente eu espero você chegar. Por você minhas forças multiplicaram-se inexplicavelmente. Uma vontade de lutar, de resistir… Sabe a sensação de que algo começou a mudar aqui? — apontou para a própria cabeça.

— Eu sei. Senti isso ao ouvir seu nome hoje… Um pulsar diferente…

Ela acariciou os cabelos dele num misto de afabilidade e desejo.

— Por você eu luto até o fim, Nina…

— Promete?

— Prometo.

— Eu não confio em promessas de homens…

— Que sorte a nossa então…

Nina riu outra vez. Ela sabia que não conseguiria dormir. Tudo era novo para eles, para os outros, para o mundo. Ficaram acordados, alternando entre silêncio, olhares e palavras soltas. Como um casal qualquer do subúrbio brasileiro, eles tentavam conhecer a si mesmos através do outro ao som de Tempo Perdido.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.