EntreContos

Detox Literário.

The Black Pet (Falcão)

Atirei o pau no gato-to,

Mas o gato-to não morreu-reu-reu,

Dona Chica-ca adimirou-se-se

Do berro, do berro que o gato deu:

Miau!

 

Enquanto eu segurava o rabo daquele bicho, algo em mim vibrava. Uma sensação de calma me invadia. Conforme o animal fazia força para se libertar, mais eu apertava os dedos em êxtase. Naquele transe, não percebi minha mãe se aproximando rapidamente, de repente senti o peso de uma mão enérgica sobre o meu braço que segurava a criatura fazendo-me soltá-la imediatamente sob os berros de minha mãe que dizia: – Não puxe o rabo dele! Quantas vezes eu já te disse? Respondi com cara de choro enquanto ria por dentro: – Não estava puxando, só estava segurando!

Eu e mamãe vivíamos tranquilamente em uma pequena casa cercada por terrenos baldios um pouco afastada do barulho e da confusão da cidade. Minha mãe recebia uma pensão pela morte do meu pai e passava o dia inteiro em casa fazendo doces por encomenda para completar a renda da casa, mas, de um tempo pra cá, as encomendas estavam ficando cada vez mais raras. Eu ia à escola de ônibus, um dos raros veículos que passavam na rua deserta onde ficava nossa casa. Na escola, gostava de ver as outras crianças brincando de roda mas, nunca fui de me aproximar delas, apesar da minha mãe dizer que eu devia me aproximar mais dos outros garotos. Não gostava de crianças, não tinha irmão ou irmã, éramos apenas eu e minha mãe. Nos dias de folga era uma festa, nós dois brincávamos de várias coisas diferentes e comíamos pipoca o dia inteiro, mas com a presença daquele bicho algo foi mudando em nós.

Papai morreu pouco depois que eu nasci. Minha mãe me contava estórias sobre como ele era um homem prestativo e amoroso. Mas na escola alguns dos meus colegas riam de mim e me chamavam de “filho do doido”, “doidinho” e atiravam coisas em mim na hora do recreio. Mamãe nunca me contou como ele morreu, apenas dizia que depois de uma discussão no trabalho ele precisou ser levado para fazer um tratamento numa clínica de repouso e nunca mais voltou. Não lembro como era meu pai. Na verdade acho que nunca quis saber. Tinha minha mãe o tempo todo comigo, sempre disposta a me ajudar e isso era o bastante para mim. Hoje com 14 anos ainda lembro a canção de ninar que ela cantava quando eu não conseguia dormir. Acho que uma criança recém nascida sente quando a mãe está perto, eu não lembro bem, mas acho que a amava desde dentro do seu útero. Não imagino a vida sem minha mãe por perto. Nosso amor cresceu tanto que, às vezes, achava que éramos um só; um não vivia sem o outro. Lembro do dia em que eu brincava nos fundos da nossa casa e pisei sem querer num pedaço de vidro e minha mãe me levou ao hospital. Ela ficou na sala de espera enquanto o médico costurava o corte no meu pé. Mesmo um pouco tonto pelo efeito da anestesia eu conseguia ver a imagem dela rondando a minha cama. Nunca contei isso a ela, mas sei que era ela que, de alguma forma, continuava me protegendo bem de perto. Por isso, desde muito pequeno, eu jurei pra mim mesmo que sempre a protegeria de tudo de ruim que a ameaçasse.

Era uma tarde como qualquer outra quando tudo começou. Ao descer do ônibus da escola corri para casa para dar um abraço em mamãe como sempre fazia; qual não foi minha surpresa ao perceber que ela não estava em frente a porta a me esperar como sempre fizera. Bati na porta várias vezes e fiquei esperando por alguns minutos sentado na calçada rabiscando o chão sem desenhar coisa alguma. Quando finalmente ela abriu eu fui em sua direção, mas ela rapidamente virou-se e caminhou até a cozinha me chamando para ver uma novidade. Era um gato preto da cabeça aos pés, pelo liso e cara de quem caiu do caminhão da mudança. O bicho era bonito de se ver; tenho que admitir. Mas tinha um defeito: tinha um corte na ponta da língua, o que dava ao som do seu miado um tom esquisito, diferente de todos os outros gatos que eu já tinha visto até então.

Eu senti que precisava proteger minha mãe daquela criatura. Lembrei de algumas estórias que um colega da escola contava a mim e a alguns garotos da minha sala quando faltava energia na escola e aqueles alunos “diferentes” se juntavam no pátio para contar estórias de assombração. Ele dizia que os gatos tinham sete vidas e que alguns povos antigos acreditavam que os gatos carregavam espíritos malignos dentro si, por isso matavam os gatos e queimavam seus corpos para terem certeza de sua morte; outros enterravam os corpos desses animais a sete palmos de profundidade para que não voltassem à vida novamente. Assim, tive mais coragem para proteger minha mãe.  

Uma manhã dessas, levantei da cama mais cedo para ir à escola e fui dar um beijo em mamãe, mas no quarto não havia ninguém. Tentei a porta da frente, estava trancada. Corri para os fundos da casa e com o coração disparado vi aquele maldito gato se enroscando nas pernas da minha mãe. Passei o resto do dia com aquela visão medonha me atormentando o juízo. Tive um pesadelo estranho àquela noite. Sonhei que via minha mãe com a garganta cortada olhando para o teto, envolta numa coberta de seda e deitado ao pé da cama estava o gato. No sonho, corri atrás dele com toda a fúria que um garoto de 14 anos pode imprimir contra alguém. Depois de uma perseguição implacável ao animal asqueroso, dei a volta e parei em frente à porta de entrada da casa. Olhando para dentro, não ouvi nenhum ruído que denunciasse a presença do bicho. Imóvel, senti apenas a presença da mobília a me observar silenciosamente lá de dentro: o sofá, os móveis envelhecidos, a tv, o ventilador de teto; guardiões de um palácio em ruinas.

Durante o dia seguinte não pensei mais no pesadelo, sabia que não poderia ser verdade aquela visão, pois mamãe dizia que era alérgica a seda e jamais compraria tal tecido novamente; adquirira tal enfermidade no tempo em que meu pai era vivo. Ele comprou vários lençóis de seda e fez questão que ela forrasse a cama com eles todos as noites. Não sei porque ela queimou todos os lençóis depois que ele morreu, ela dizia que se sentia sufocada quando se enrolava com eles. Mas dentro do meu guarda-roupas havia uma pequena sacola de papel empoeirada com um lençol grosso de seda dentro esquecida lá todos esses anos. Minha curiosidade de menino, certa vez, me levou a mexer em todos os móveis da casa à procura de “tesouros” escondidos pelo local e eu encontrei essa lembrança do meu pai.

Em um domingo irritantemente ensolarado, depois de almoçar e passar a tarde brincando nos fundo de casa com minhas tralhas, procurei minha mãe pela casa e a encontrei na sala de estar com o animal ao seus pés. Disse boa tarde e fui para o meu quarto. Não aguentava mais ver aquela cena. Aquele bicho fedorento agarrado às pernas dela o tempo todo. Fui dormir bastante contrariado, nem sequer tomei banho. Mas logo em seguida me vi acordado. Levantei da cama e a casa estava diferente, pareceria mergulhada num silêncio mais profundo; caminhei até a porta, saí pé ante pé buscando ver minha mãe na sala, mas sem aquele gato horrível perto dela. Não avistei ninguém, fui até a rua. Já era noite comecei a chamar minha mãe baixinho para não atrair a atenção do bicho, caminhei pela rua escura dizendo o nome dela. De repente, vi o que pareciam dois olhos luminosos e ouvi um miado naquela direção. Corri pra cima dele furioso, porém algo estranho aconteceu: aqueles dois olhos miúdos começaram a crescer conforme eu me aproximava do bicho. O coração disparou quando percebi que eram os faróis de um carro que vinha em minha direção. A buzina ressoou alto e pude ouvir o motorista gritar como um louco. Suado, acordei e percebi que era mais um pesadelo, era minha mãe ao lado da cama quem chamava meu nome.

Os meses se arrastavam com a velocidade de um bicho-preguiça. Sete vidas! Não parava de pensar nisso. Passei dias imaginando como pegar aquela criatura. Fiz várias armadilhas e escondi no quintal para mamãe não encontrar, coloquei algumas vezes, mas ele sempre escapava. Nas vezes que fiquei escondido observando-o vi que ele simplesmente olhava para elas e passava ao lado sem tocar na isca. Depois de tentar de todas as formas matar aquele maldito animal, eu finalmente resolvi tomar uma atitude mais radical. Era domingo. Fui à cozinha enquanto mamãe estava distraída e peguei a maior faca que consegui encontrar. Esperei mamãe ir dormir e chamar o animal para dentro do quarto. Quando percebi que já estava bem tarde da noite me levantei, peguei o lençol de seda que estava no meu guarda-roupas e fui em direção ao quarto dela. Estava suando muito, só acendi a luz do meu quarto, deixei a do corredor apagada para não chamar a tenção de mamãe. Como sempre, a porta estava aberta. Nunca havia prestado atenção naquela porta; por que ela parecia maior e muito mais pesada agora? Abri-a com o máximo de cuidado para não espantar o animal. Entrei no quarto. A luz que vinha da rua iluminava um pouco o ambiente, eu caminhei vagarosa e silenciosamente em direção à cama e procurei pelo chão tentando avistar o bicho, nada. Pensei aliviado que talvez ele tivesse ido embora de nossa casa e de nossas vidas. Dei meia volta e caminhei vibrante em direção à porta para deixar o quarto; já pensava que teria, depois de vários meses sem dormir direito, uma noite tranquila de sono. Ao colocar a mão na maçaneta da porta ouvi, vindo da cama da minha mãe, aquele som horrendo e inconfundível: miau!

O meu sangue ferveu nesse instante, virei-me, olhei para cima da cama e lá estava ele com aqueles olhos brilhando. O bicho estava deitado ao lado direito de minha mãe, justo no lugar onde tantas vezes me deitei nas noites mais felizes da minha vida. Corri em direção ao animal com a faca na mão e, num ímpeto de fúria, não pensei mais em nada, joguei o lençol em cima da criatura para que ele não me arranhasse e pulei sobre a cama desferindo vários golpes na direção dele; sabia que tinha que acertar pelo menos sete vezes para que ele morresse de verdade e nos deixasse em paz para sempre. Quando parei de ataca-lo ouvi alguns gemidos e percebi um vulto correndo em direção à porta, saltei da cama e fui no encalço da sombra que deixara o quarto. Tomado de fúria, saí do quarto, acendi a luz do corredor e vi um rastro de sangue pelo chão em direção a uma janela aberta na sala de estar. Depois de vasculhar toda a casa à procura daquele animal infernal lembrei-me que estava quase no horário de pegar o ônibus e ir à escola. Desisti, então, de procurar o bicho; provavelmente ele teria fugido para nunca mais voltar. Percebi naquele momento que teria minha mãe de volta todinha só pra mim. Ao começar a procurar minhas coisas da escola notei que ainda segurava a faca coberta de sangue. O sangue escorrera pelo meu braço molhando minha camisa. Fique muito alegre ao ver o sangue, pois era um sinal que eu havia acertado em cheio aquela criatura maldito gato. Não quis acordar a mamãe, pois sabia que ela iria me dar uma bronca daquelas por causa da bagunça em que eu deixei a casa. Me arrumei em silêncio, peguei o ônibus e fui satisfeito à escola.

 

Atirei o pau no gato-to,

Mas o gato-to não morreu-reu-reu…

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C3.