EntreContos

Detox Literário.

As Flores do Dia (Leon Ghar)

Quando o primeiro marido morreu, Eliza vestiu luto por achar apropriado. Fazia sentido honrar a memória do seu primeiro amor, daquele a quem havia jurado amor e fidelidade. Ou, talvez, as vestes escuras camuflassem algo bastante simples: culpa. As asas negras de um corvo agourento anunciando um “nunca mais” repetitivo e enfadonho.  

Eliza e Felipe eram muito jovens quando resolveram se unir. Tão jovens, que família e vizinhos viam naquela afobação em trocar alianças o prenúncio de um iminente naufrágio. No fim, todos se deram por vencidos. Afinal, aquele era somente mais um casal de apaixonados tecendo planos para viver uma aventura considerada por eles única e eterna.

Felipe, um rapaz de opiniões tênues e temperamento brando, possuía apenas duas ambições na vida: ter a sua própria floricultura e ser pai ainda jovem. Era tão fascinado pela ideia da paternidade que conseguia se imaginar voltando da lua de mel sob o bater de asas da cegonha.  

Mas a vida revelou ter outros planos e rabiscou as intenções de Felipe.  O destino aliou-se à contrariedade de Eliza, que se negava a antecipar uma missão para a qual não estava preparada.

Não foi preciso muito tempo para o jovem casal perceber que se a vida parecia ser às vezes um mar de rosas, tinha também os seus espinhos. O sonho da floricultura logo se realizou, mas trouxe consigo a urgência de Felipe em começar uma família. O que era um projeto de vida sem data de vencimento, tornou-se o motivo das brigas constantes. O conflito insinuou-se na rotina do casal, ganhando a cada dia volume de voz e de argumentos.

─ Não sei como você pode ser tão egoísta!

─ Temos todo o tempo do mundo, meu amor ─ Eliza tentou trazer argumentos racionais para a discussão. ─ Para que precipitar tudo? Primeiro, precisamos investir na floricultura. Não era esse o seu sonho? Flores, flores e mais flores?

─ Não deboche de mim, por favor! ─ Reagiu Felipe, sentindo-se traído e ultrajado pelo pouco caso da mulher. ─ Pensei que fossem os nossos sonhos. Não meus, mas nossos!

─ Só não entendo por que tanta pressa.  

─ Porque a vida é curta, Eliza. Curta demais!

─ Não acha que sou muito jovem para me ocupar com fraldas e mamadeiras? ─ perguntou como quem revela uma verdade há muito tempo resguardada.

Felipe cerrou os punhos, voltando as costas para a mulher.

─ Um dia você vai se arrepender! ─ Decretou antes de sair batendo a porta com toda a força, sem se importar com mais nada.

Eliza ignorou a saída teatral do marido, já pensando no que faria para mudar aquela situação. Capricharia no jantar e tudo se resolveria como sempre: fariam as pazes antes mesmo da sobremesa.

Estava concentrada elaborando o cardápio da reconciliação, quando escutou o barulho da freada e o alvoroço crescente de vozes. Correu para a rua a tempo de receber um último olhar de reprovação de Felipe antes de seus olhos se fecharem em silencioso adeus.

Durante o velório, Eliza repetia para si mesma que não tinha culpa de nada. Aquele terrível acidente fora resultado da precipitação de Felipe. A causa da tragédia havia sido sua pressa em chegar aonde nem sabia querer ficar.

─ Tão jovem, uma tristeza! ─ Foi a frase mais ouvida durante todo o cortejo fúnebre.

Ao atravessar a passos largos a viuvez, Eliza parecia encolher. A cada dia, sentia-se mais oprimida por remorsos que não tinha como ou com quem dividir. No entanto, quando se punha a refletir sobre as possibilidades perdidas, concluía que havia sido melhor assim. Se tivesse cedido à pressão de Felipe, àquela altura seria uma jovem viúva com o fardo de criar os filhos sozinha. Não seria justo e muito menos algo fácil de enfrentar.

Depois de seis meses de luto fechado, Eliza resolveu vender a floricultura.  Apesar de todos os seus esforços para manter o pequeno comércio aberto, teve de se render à impossibilidade de continuar com o negócio. Não lamentou a perda, pois aquela era afinal a paixão do falecido, não a dela. Além do mais, há tempos, o cheiro das flores a deixava enjoada como se delas recebesse uma acusação dia após dia.  

A jovem viúva decidiu retomar um antigo projeto, sua real vocação: a culinária. Não tardou a encontrar uma boa colocação em um dos renomados restaurantes da região. Abandonou o luto e experimentou sorrir novamente. Assim, a vida retomou o seu curso natural.  

O trabalho preenchia os dias e a mantinha tão ocupada que, ao final do dia, Eliza estava exausta demais para se lamentar. A dor e a saudade, sempre acompanhadas pela insistente culpa, foram se tornando mais brandas e suportáveis. Somente aquela sombra, o arrependimento de não ter tido filhos, a alcançava e, de vez em quando, a encurralava em uma esquina de pensamentos.  

Quando conheceu Henrique, sentiu que era hora de se arriscar novamente. Não quis esperar pelo momento certo, pois havia aprendido que nada era garantido. Absolutamente nada. Abraçou então a oportunidade oferecida pela vida e se casou com o promissor advogado. Desta vez, sem promessas no altar, apenas a certeza do que realmente desejava: um filho ou talvez dois. E sem demora, antes que o destino cobrasse o seu preço pela espera.

Meses depois do casamento, Eliza pariu um belo menino, o qual foi batizado com o nome do avô, João. Depois, veio Mariana, a sua menininha. E, por fim, após um intervalo mínimo entre uma gravidez e outra, chegava Douglas, o caçulinha de cabelos dourados.

Logo após o nascimento do seu primogênito, Eliza começou a receber flores, que eram entregues misteriosamente em sua casa ou no restaurante onde trabalhava. Não vinham da parte do novo companheiro, nem mesmo de algum fã de sua culinária, mas de um anônimo com gosto bastante peculiar para gentilezas.

As primeiras flores a chegar foram lírios brancos com estranhas estrias vermelhas que lembravam sangue. Henrique, o marido, debochou do presente recebido.

─ Parece que o seu fã andou visitando cemitérios…

─ De qualquer forma, foi uma delicadeza, e delicadezas devem ser bem recebidas ─ disse, minutos antes de jogar as flores no lixo.

A estranha gentileza repetiu-se nos meses seguintes, mas em dias diferentes. Durante anos, a entrega das flores acontecia como se o galanteador misterioso escolhesse a esmo as datas em um calendário desatualizado.

As flores, a princípio, eram de pétalas claras, mas todas sem exceção traziam alguma mácula. Fosse um pouco de terra, folhas pisadas ou algum estranho odor nauseabundo. Eliza começou a achar que talvez Henrique tivesse razão ao dizer o seu fã surrupiava túmulos alheios em noites ociosas.

O tempo passou rápido e, entre panelas e fraldas, Eliza conseguiu dar conta da sua nova vida. Até que tudo mudou de repente.

Em uma tarde de setembro, o pequeno Douglas adoeceu, apresentando uma febre estranha, sem diagnóstico definido. Os médicos não sabiam dizer que doença era aquela, uma virose forte, talvez. O menino ardia e delirava como se aprendesse de repente a recitar versos em uma língua desconhecida. Pedia com insistência que a mãe não o deixasse sozinho.

─ Não deixa aquele moço mau entrar aqui, mamãe.

Depois de garantir ao pequeno que não havia ninguém debaixo da cama e nem dentro do armário, Eliza esperou que Douglas pegasse no sono, cantando baixinho uma canção de ninar. Nas últimas notas, sentiu-se levemente tonta e enjoada com um forte cheiro de flores que parecia invadir o quarto.

Por um breve instante, pensou estar tendo uma alucinação olfativa, afinal não havia flores ali, muito menos na quantidade que pudesse produzir aquele odor opressivo.

─ Mamãe, é pra você.

Mariana trazia nas mãos miúdas um buquê de cravinhos vermelhos, parte deles murchos e despetalados.

─ Quem te deu isso, filhinha?

─ Um homem, que também me deu uma balinha, olha.

Eliza arrancou a bala da mão de Mariana e a fez prometer não aceitar mais nada de estranhos. Entre lágrimas e soluços, a garotinha saiu correndo, apavorada com a reação da mãe.

Naquela mesma noite, Mariana também adoeceu. A mesma febre e os mesmos olhos fundos de quem experimentou o medo mais terrível da infância. Com duas crianças de cama, Eliza pediu licença no trabalho e delegou sua função na orquestração da cozinha ao subchefe. Primeiro vinha a família, depois a carreira, pensou. Não pôde deixar de se lembrar das palavras do falecido marido.

Na manhã seguinte, recebeu um ramalhete de miúdos miosótis, a flor conhecida como não-se-esqueças-de-mim. Eliza sentiu o coração apertar. Olhou para aquelas pequenas pétalas que apresentavam marcas como mordidas e soube de imediato. Algo muito ruim estava para acontecer.

O filho mais velho chegou do colégio com o olhar febril, vomitando sem tréguas. O pai fora buscá-lo na escola e, pela primeira vez, Eliza percebeu o medo se instalar na voz de Henrique.

─ Parece ser a mesma febre, Eliza…

A mãe conseguiu fazer as três crianças dormirem, depois de muitos cuidados e carinhos. Finalmente, a febre parecia ter cedido. Só então, arrastou-se para a cama, ciente de que precisava descansar para enfrentar a sua tripla jornada de enfermeira. Tudo o que desejava era ver os filhos saudáveis e alegres como antes, quando a vida parecia seguir em paz.   

Os pesadelos chegaram e se estenderam pela madrugada. Gritos invadiram os sonhos pelos corredores da semiconsciência. Depois, houve gemidos e ruídos abafados pela noite. Finalmente, já desperta, suando frio e com o coração acelerado, Eliza pensou em acordar Henrique, mas desistiu ao ver que ele roncava sem sobressalto algum.  

No escuro, atravessou o longo corredor que dava acesso ao quarto das crianças. Sentiu o frio percorrer sua espinha e quis voltar para a cama. Algo lhe dizia que aquele era um caminho sem volta, sem perdão. Abriu devagar a porta como se assim pudesse se proteger de qualquer susto.  

Sentiu o cheiro, o mesmo odor de flores já apodrecidas e então se lembrou de onde conhecia aquele aroma. Dos poucos velórios que havia frequentado em sua vida. O gotejar da cera das velas em torno de um caixão qualquer, o choro e as flores murchando.

Um dia, você vai se arrepender.

Tateou à procura do interruptor, rezando para se tornar cega no momento em que a luz inundasse o quarto. O silêncio era ensurdecedor, o preâmbulo do desconhecido.

Olhou para os filhos, deitados e com os rostos voltados para a parede. Estranhou os três estarem cobertos, com lençóis e mantas, como se sentissem muito frio a despeito dos primeiros ares da primavera.  Algo estava errado, muito errado. Algo não se encaixava naquele quadro de aparente inocência.

Eliza então se segurou no batente da porta e encostou-se na parede, temendo cair. Começou a soluçar como se isso pudesse impedir que a verdade afinal se aproximasse.

As crianças estavam em camas trocadas. Mariana na cama de Douglas, João na cama de Mariana e Douglas na cama do irmão mais velho. É apenas uma brincadeira entre irmãos ─ disse a si mesma, tentando respirar.

Por impulso, movida pela aflição e destempero, Eliza puxou a manta que cobria Mariana. O choque a fez cair de joelhos. A bela cabeça loira da filha unia-se a um corpo de menino, do seu pequeno Douglas. Ensandecida, puxou as outras cobertas, deixando os corpos dos filhos descobertos. Cabeças e corpos desconexos numa montagem macabra.

O cheiro de sangue misturava-se ao das flores mortas entre os seus bebês decapitados. Manchas rubras cobriam os pequenos corpos que não mais lhe preenchiam as mãos, nem os ouvidos com apelos infantis.

Não deixa o homem mau me pegar, mamãe.

Acordado com os gritos, Henrique chegou ao quarto e viu Eliza, totalmente desvairada, tentando devolver cada cabeça ao seu corpo.   

─ Vai ficar tudo bem, meus anjinhos. ─ Disse entre soluços, o olhar vidrado de quem não consegue mais enxergar coisa alguma. ─ Agora, durmam. Mamãe vai ficar aqui com vocês para sempre…. para sempre, eu prometo.

O pai, atingido por aquela cena grotesca, pôs-se a gritar enlouquecido por uma dor que percorria seu peito como uma serra elétrica. Não soube o que aconteceu. Nem antes, nem depois. O coração falhou em um golpe de misericórdia.

Quando o socorro chegou, o quadro já revelava nuances menos vibrantes, mas nem por isso menos macabras. Um dos policiais parou logo sob o batente da porta e, não conseguindo lidar com a cena encontrada, voltou correndo para fora da casa. Vomitou no capacho da entrada, onde um imenso buquê impedia a passagem. Flores de um tom violeta tão intenso que se confundiam com a escuridão.

O Tenente Mathias chutou o que mal via pela frente e se sentou nos degraus da escada. Cobriu o rosto com as mãos e chorou.

Lágrimas, as flores do dia.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.