EntreContos

Detox Literário.

A Árvore que Divide o Mundo (Tolypeutes tricinctus)

O menino gostava do dia. Acordar cedo, lavar o rosto em água fria, — bruuuuu —, e então, de mãos dadas com o pai, sair para buscar o pão fresquinho na padaria. O menino gostava de pão. E de voltar para casa, um olho no pacote quente abraçado ao peito, o outro no chão, em busca de pequenos tesouros. Uma pedrinha aqui, uma moedinha acolá caída no meio fio. — Isso! — o menino falava assim. Era um “isso” para cada novo tesouro encontrado e, “oh-oh”, era o som que fazia ao perceber que amassara o pacote de pães inteirinho, ao se abaixar para pegar a moeda na calçada.

— Oh-oh.  

O menino gostava da noite. Sentar com a mãe depois da janta, ela, olho nas notícias, ele, na lição. — Ish, matemática. — O menino gostava de matemática. Mas adorava dizer “ish”, só para chamar a atenção para si e mostrar o quanto era bom naquilo de somar e multiplicar. — Issssooo! — Era assim que o menino falava. Era um “issssooo”, acompanhado de um levantar de braços, as mãos fechadas em comemoração, para cada nova questão solucionada. — Oh-oh. — Naquele momento, também lançava mão de seu “oh-oh”. O caderno fechado, já solucionada a lição, era hora de ir para a cama. Mas, não sem antes tomar o seu leite, quentinho… E com chocolate.

— Isso!

Costumava ser feliz aquele menino de “issos e oh-ohs”. Gostava de bola, e dos finais de semana, quando jogava contra o time dos mais velhos, no campinho daquele prédio onde agora passara a morar. O rosto suado, as bochechas pegando fogo, sentia forte a dor da bolada no estômago, segundos antes de agarrá-la firme com as duas mãos. — Ufffff… — Soltava o ar, baixinho, sem que nenhum dos mais velhos percebessem, pois não queria perder a sua posição. Gostava de ser o goleiro, e sentia-se orgulhoso, com o pai olhando lá de cima, da janela, na hora em que vinha o grito. — Gooolllll. — Para o seu time, claro, porque o goleiro adversário era ótimo em levar para casa era um belo de um frango.

— Oh-oh!

Não gostava de frango aquele menino feliz. Na casa da mãe, durante a semana, era vegetariano. Nesses dias, gostava de verde e de mato, como costumava desdenhar o pai. — Afff. — O menino repetia, pois achava graça em ver a mãe dizer assim, revirando os olhinhos toda vez que, lembrava que o pai chamava a salada de mato. Então, não contava a ela que, no final de semana comera churrasco, pois sabia que se zangaria e, assim, nesse instante, seria responsável por um desencadear barulhento de tudo aquilo de que, definitivamente, não gostava.

Não gostava de brigas ou de gritos, tampouco de viver assim, ping-pong para lá e para cá. Ora com sua coleção de tesouros, ora não. Ora, proibido de comer carne, outras vezes, com medo da anemia, se continuasse sem proteína. Ora azul, ora rosa. Por vezes seu gato, em outras o peixinho.

Nessas horas… — Ahhhh… — Sentia-se ao meio e, se pudesse, se dividiria, ele mesmo, em dois. Um pedaço de menino para cada lado. Pois, se é que havia uma coisa de que realmente não gostava, era de ver dividida a vida que, até aquele dia, acostumara-se a chamar de família.    

— Oh-oh!

— Ei, cuidado! Você não olha por onde anda?

Olhava, mas é claro que sim. Vivia a procura de seus tesouros por onde quer que andasse. Mas, naquela hora, não. Naquela hora, estava concentradíssimo em encontrar um modo de não mais ser o que era. Não queria mais ser um menino, mas sim, dois. Quatro divididos por dois, igual a dois. Dois divididos por dois, igual a um.

— Isso!

Mas e o três? Como seria o três, se igualmente dividido por dois? O menino, não sabia. Ainda.

— Oh-oh…  

— Por que se preocupa tanto? Você é o i.

Uma voz fininha chamava-o para fora de suas reflexões.

— Pense comigo, família tem sete letras… Três para cá, três para lá, e ali está você, um i, bem no meio de todo o mundo.

— Fam+í+lia.

O menino achou graça do que dizia aquela voz. De onde vinha? Olhou para um lado, para o outro, e nada. Não havia ninguém com ele ali, no campinho do futebol.

— Ninguém, exceto eu.

A bola. Estremeceu chutando-a em direção ao gol. Gostava de chutar bolas, gostava muito, apesar de ser goleiro, e de detestar frango.

— Ei, cuidado.

Aproximou-se. A bola falava com ele. — Ohhhh. — Deixou escapar, sem querer. Na hora do espanto sempre dizia “ohhhh”. E aquela era uma hora de puro espanto. Não entendia, talvez já estivesse anêmico, lembrava daquilo que o pai não cansava de repetir. E anêmico, devia ser algo realmente muito ruim, a julgar pela careta que este fazia ao dizê-lo.

— Acontece que eu não sou uma bola.

Aproximou-se ainda mais e… — Uau… — A bola não era bola, mas sim, outra coisa.

— Um tatu!

— Está enganado. — Aquele tatu tinha a voz realmente fininha. — Não sou um, mas, uma.

— Uma? — Aquele tatu, era menina. Tatu-fêmea, como logo descobriria.

— Está enganado número dois. Não sou uma menina, mas, sim, uma vovó.

Uma tatu-fêmea e bem velhinha, o menino aprendia depressa, mas, ainda mais uma vez, estava enganado. Esta não era uma tatu-fêmea bem velhinha. Não apenas uma, mas a. Esta era a tatu-fêmea bem velhinha, pois ela era a Vovó.  

— Você é minha avó?

— Mas é claro que não. — A Tatu ria com um estranho som de “rsrsrsrrsrs”.

— Oh-oh…

— Eu sou a sua filha.

Filha? O menino agora estava confuso, ou, quem sabe, talvez, confusa estivesse aquela tatu velhinha que, não só dizia ser sua filha, como afirmava, também, que fora ele mesmo, no futuro, quem a mandara procurá-lo ali, no campinho.

— Filha?

— No caminho eu explico, vamos. Você não tem tempo a perder.

— Tempo?

— Vai repetir tudo o que eu digo?

— Sim, não, quer dizer… Onde vamos?

— Encontrar a árvore que divide o mundo, onde mais?

Árvore? O menino continuava confuso, mas a seguiu. Correu atrás da tatu chamada Vovó, que dizia que ele, no futuro, também velhinho, com 30 anos, seria veterinário e a resgataria do caminhão de um homem muito mau.

— Isso!

O menino, agora, sentia-se herói. E um herói, ele sabia, tudo podia. Encontraria a tal árvore que dividia o mundo e descobriria um jeito de não mais ser um i no meio do mundo. Seguiria Vovó por onde quer que ela fosse, e, no fim da jornada, inventaria um modo de unir dia e noite, céu e terra, carnes e saladas, feriados e finais de semana, peixinhos e gatos. Bem, estes, talvez não… Mas o resto todo, sim. Tudo junto. Tudo um. E seria feliz, para sempre.

— Não vai dar.

— Oh, oh…

A jornada nem começara e a coisa já complicava. Que caminho tomar? Vovó não se lembrava. Ali, no campinho do prédio onde morava nos finais de semana, não havia árvore alguma. Apenas um gramado pequenino, para os cães fazerem xixi. Mas, Vovó não era um cachorro. E o menino, por mais que insistisse com a mãe, não tinha um cachorro de verdade, mas sim, e apenas, um cãozinho de pelúcia, além de seu peixe, o agitado Senhor Beta. No apartamento do pai, por outro lado, tinha um gato. Um bichano gordo e de olhos brilhantes. Mas os gatos, como todos sabem, nem sempre se dão bem com os cachorros.

— Nossa menino, você pensa demais, me desconcentra… Deixe-me ver… O caminho deve estar por aqui, em algum lugar.

— Mas onde?

— Essa pergunta é minha. Onde?

Não sabia por onde começar aquele caminho que, entendia onde terminaria, na árvore que dividia o mundo. Quem sabe se começassem pela garagem. O menino gostava da garagem. Era para lá que ele e seus amigos se dirigiam quando queriam viver uma aventura. Sim, no estacionamento do edifício havia cantos misteriosos, e escondidos dos olhos dos adultos, sempre atentos e prontos a proibir suas peripécias. Era lá, nesse esconderijo, que sua viagem com Vovó começaria.

Então, entraram no elevador. Quem os visse assim, desejaria um bom fim de tarde ao menino com sua bola embaixo do braço.

— Oh-oh! A garagem fica para baixo.

— Precisamos alcançar o céu. A árvore que divide o mundo é muito alta, e, se formos por baixo, se cavarmos…

— Mas não é isso que os tatus fazem?

— Se cavarmos, ficaremos presos no labirinto de raízes.

O menino gostava de labirintos. Comprava revistinhas com a mãe, no caminho de volta da escola. Adorava pegar a caneta, e passear pelos espaços, tentando encontrar uma saída, enquanto vivia incríveis histórias imaginadas.

— Ei, cuidado! Pisar em estrelas dói. Elas são pontiagudas…

— Estamos no céu?   

— Eu não sei. Foi você quem me deu o mapa.

— Ui.

— Eu avisei…

— Pisar em estrelas dói. — O menino repetia o que acabara de aprender com Vovó. Mas, aquilo não doía, na verdade, o toque das estrelas em seus pés causavam-lhe riso e cócegas. — Uaha-ha-ha-ha-ha — Era assim que fazia o menino quando ria.  

Olhou para baixo. — Uau! — Era mesmo muito alto. Dali, podia ver o mundo todo. A padaria, a fumaça saindo pela chaminé, sua casa com a mãe em dias de semana, bem mais próxima do apartamento do pai que imaginara, e, bem no meio do caminho entre elas, sua escola. Algumas árvores, nenhuma delas, porém, tão alta quanto deveria ser aquela pela qual procurava.

— Oh-oh.

Olhou para cima. — Uau… — O menino gostava daquilo, estrela, cometas, constelações cintilavam ao seu redor. A luz que via, aprendera na escola, vinha de um tempo distante. Muitas daquelas estrelas, naquele dia talvez, já nem mais existissem. No meio de tudo, bem no centro das galáxias, algo, no entanto, chamou a atenção de ambos. Duas imensas estrelas verdes acompanham cada um de seus movimentos. Para lá. Para cá. Piscando, vez por outra, preguiçosamente, e… — Miau. — Miau? Era esse o som de seu gato. Era assim que soava o Senhor Bichano, ao encontrar a lagartixa que caçava no vão da parede. — Miau. — O menino gostava muito do Senhor Bichano, mas ali, naquele momento…

— Oh-oh…

— Não, isso não é bom…

— Definitivamente, não.

— Seu mapa, Menino, está mesmo muito errado. Não estamos no céu, mas, dentro.

— Dentro?

— Da árvore. Viemos parar bem no centro dela.

— Ahhhhhhhh. — Era assim que soava o menino enquanto caía do céu, por dentro do tronco da árvore. O menino não gostava de cair. Mas a Tatu, talvez sim, pois o som que ela emitia ao gritar era exatamente o mesmo que fazia ao gargalhar. — Rsrsrsrsr.

E caíram. “Ahhhhs e rsrsrsr” ecoando juntos, bem no centro do oco daquele tronco monumental, até que, finalmente, “ploft”, caíram ambos em algo fofinho. O menino gostava de coisas fofinhas. Gatos, cachorros, mesmo os de pelúcia, nuvens, almofadas recheadas de bolinhas de isopor e algodões-doces, eram seus fofinhos preferidos.  

— Ei, cuidado! Podemos ficar perdidos para sempre no emaranhado de raízes.

— Estamos nas raízes?

— Eu já disse, é você o dono do mapa.

— Mapa?

— O do labirinto…

— Labirinto?

— Lá vem você com essa mania de repetir tudo que eu digo.

Um labirinto. Embora ainda confuso, o menino, de algum modo, sabia o que fazer. Olhou para baixo, um emaranhado de fios se enroscando como macarrão em um imenso prato fundo. O menino gostava de macarrão. A Tatu não. Mas ambos estavam com fome. “Ronc”, era esse o som de seus estômagos, agora que lembravam que tinham fome. Ele pensava no delicioso macarrão de sua mãe. E Vovó, em ração, pois, embora fosse uma tatu-fêmea, acostumada a comer insetos na floresta, aprendera com o menino já velho de 30 anos, lá do futuro, que, para ela, era saudável e saboroso comer ração. “Ronc”.

O menino sabia que não seria fácil encontrar o final de um labirinto de macarrão. Cada um dos espaguetes enrolados no prato tem uma ponta, e, para cada uma delas, há outra, do lado oposto. Realmente, pensava demais aquele menino que gostava de macarrão. Mas, a Tatu, não. Ela esperava pacientemente, que seu pai menino chegasse a uma conclusão. Em meio ao molho, nadando, o menino pôde avistar o Senhor Beta. — Blu-blu-blu. — Faziam suas nadadeiras ao deslizar na água.

— Isso!

Tinha mesmo muitas ideias e sabia que, aquele não era um labirinto de macarrão, mas, de raízes. O menino gostava de ciências, assim, entendia que todas as raízes, cada uma delas, os levaria a um único lugar. O início do tronco da árvore. Mas não o da árvore que dividia o mundo, e sim, o daquela que dividia o aquário de seu peixinho.   

— Oh-oh…

Nadaram, nadaram… Era madrugada quando chegaram à superfície, respirando nas bolhas de ar produzidas pelo rastro do Senhor Beta. Noite de semana, era dia de ficar com a mãe. E foram recebidos, Menino e Tatu, pelo cachorro a abanar o rabo. Mesmo de pelúcia, aquele era um cachorro muito amigo.

— Ela não existe, não é?

— Quem?

— A imensa árvore que divide tudo.

— Ora, foi você quem me deu o mapa, menino. Mas agora, ele está todo molhado… Apagou.

Apagou. E acordou com a mãe apressando-o, era hora de ir para a aula.

— Mas cadê a Vovó?

A mãe achou graça daquela história de que ficaria velhinho, e, sendo veterinário, teria uma tatu chamada Vovó. Seu filho gostava muito de imaginar e jurava que, aquela, era sim uma história real. Ou não?

O menino já não sabia se vivera tudo o quanto contara a mãe. Os anos passavam depressa e logo acostumou-se ao vai e vem de ping-pong, para lá e para cá. Na verdade, agora, até gostava. Ali, amigos jogando futebol, lá, outros, brincando de encontrar tesouros, depois de salada mista, com o tempo, saindo juntos para o cinema, para festas. O menino gostava de ter amigos. E estava crescendo.

— Isso!

Com o tempo, aprendeu contas ainda mais difíceis do que as de dividir. Era possível descobrir a parte de uma parte, que, proporcionalmente, fazia a diferença no todo das coisas. O menino crescia e gostava de achar graça da aventura vivida quando pequeno, imaginada ou não, em busca da divisão da vida.

— Quem vive na água, jamais poderá morar na terra… — Um dia, ao lembrar de seu peixinho, chegou enfim à conclusão de que a árvore jamais existira.

— Oh-oh…

E começou, ele mesmo, já adulto, a fazer as próprias malas.

Gostava muito da namorada, o menino já grande. Mas, preferia viver dividido do que em guerra, brigando com ela o tempo todo. Desde pequeno, jamais gostara de gritos.

E foi então, ao olhar no fundo dos olhos de sua filha, uma tatu que resgatara do caminhão de um homem mau, uma velhinha que sabia amar do jeito como ama uma criança, que finalmente entendeu´- Jamais encontraria a árvore, aquele menino crescido, pois, era ele mesmo a própria árvore. Era ele, não o que dividia, mas sim, quem unia todos aqueles mundos, tocando com suas raízes, caules e folhas, o céu e a terra, o dia e a noite e, é claro, seu pai e sua mãe.

Afinal, ele era o i, letra sem a qual, a palavra família jamais estaria completa.

— Fam+í+lia.

E foi feliz.

Aquele menino árvore de 30 anos gostava muito de ser feliz.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.