EntreContos

Detox Literário.

Ânsia (W. White)

Era terça feira quando meu irmão desembarcou do carona do meu carro e acenou para mim antes de entrar em casa. Eu estava ajustando o GPS com o endereço da Paola quando ouvi a porta de trás se abrir. Paralisei, involuntariamente meus ouvidos suprimiram todos os sons que não viessem daquela direção.

O tempo parecia ter se alongado e pude sentir o frio do lado de fora soprando na minha nuca, o cheiro mentolado do cigarro recém apagado e ouvi a respiração pesada de quem quer que estivesse entrando. Tudo isso para só então perceber o carro levemente cedendo com o peso do corpo que se acomodava logo atrás de mim.

Eu não consegui me mover. Instantaneamente lembrei de um estudo que havia lido semanas antes que falava sobre as pessoas que congelam quando sob pressão ou em situações de risco. Lembro que concluí que eu era um dos que morriam: que não pulava da frente do carro, que não corria do assaltante, que não reagia nunca. Foi assim que soube, eu morreria nesse dia.

– Podemos ir – disse a pessoa.

Absorto no meu desespero passivo não consegui identificar se o locutor era homem ou mulher. Entrei no modo automático e reagi como se nada de estranho houvesse, coloquei o celular no painel do carro, TEC, estalou a alavanca do pisca. Do banco de trás ouvi apenas o silêncio. Uma tempestade de perguntas se formou em mim, sinal vermelho, freei em seco.

– Me perdoe – disse ao passageiro, a resposta veio em suspiro.

O GPS marcava quarenta minutos para o fim da viagem, eu ainda tinha tempo para achar uma solução. Se Paola morasse em algum condomínio o plano seria mais fácil, poderia pedir socorro logo na entrada. Indaguei qual seria a intenção desse cara? Ir para minha casa e me assaltar? TEC, acionei o pisca e virei à esquerda. Não que ele fosse ter muito sucesso comigo, eu não servia para o que chamavam de empresário bem-sucedido, apesar do meu carro aparentar outro status com seu formato comprido e bancos de couro.

A noite somava-se ao escuro do carro e pelo retrovisor não se via nada no banco de trás. O silêncio começava a soar ameaçador. Comecei a comedir meus movimentos, TEC, esquerda. Decidi que qualquer mudança brusca poderia desencadear um desenrolar agressivo, eu havia assistido Mentes Criminosas por temporadas suficientes para saber disso. Eu não podia romper a quietude.

Sem que pudesse evitar já estava me imaginando amarrado na sala de casa, será que ele me torturaria? Rapidamente uma coletânea de cenas de tortura começaram a desfilar em minha mente. Será que ele quebraria meus dedos, arrancaria minhas unhas? Na minha cabeça unha por unha começou a ser arrancada, rapidamente eu já estava dissecando a ordem que aconteceria. Fechei a mão apertando os dedos contra a palma. Ele começaria introduzindo uma agulha sob a unha do mindinho, cada milímetro acompanhado de gritos de dor, eu sabia da minha covardia, choraria, imploraria. Com a agulha toda enfiada ele começaria a mexê-la de um lado para outro. Quando eu estivesse quase desmaiando de dor e súplicas, ele chegaria perto do meu ouvido e falaria qualquer coisa fedida, com cheiro de tabaco disfarçado de menta. O odor já me habitava, segurei o vômito.

Sentia-me o chofer da morte.

Será que ele me conhecia? Lembrei que meu destino era a casa de Paola, mas não queria pensar nela. TEC, o pisca estalou na minha têmpora esquerda. De canto de olho eu a vi levar uma paulada atrás dos joelhos e cair no chão, o baque me desesperava, mas eu estava imobilizado e o que me restava era assistir o homem a puxando pelos cabelos. Ela gritava. Fiquei ofegante, conhecia aquela sensação, eu beirava um ataque de pânico. O volante estava úmido sob as palmas, minhas mãos escorregavam por ele. O silêncio cada vez mais sufocante.

– Preciso falar alguma coisa – pensei – se não por mim, por Paola. Preciso achar coragem e negociar, numa dessas ele é um cara sensato, apenas um mercenário.

Mais uma busca pelo retrovisor, um par de olhos talvez, mas o fundo do carro era breu. Eu iria falar, eu precisava. Resolvi dar uma leve arranhada na garganta na esperança de quebrar a quietude vagarosamente. Nem ar saiu. Tentei novamente, nada. Um pigarro mudo foi o que eu produzi.

Meu corpo me sabotava. Vinte e quatro minutos para chegar. Se eu saísse da rota será que ele perceberia? TEC. A resposta não era segredo, se saísse da rota o GPS seria o meu carrasco apitando a rota recalculada. TEC. Um aperto arranhava o peito.

As luzes dos postes agora acrescentavam um tom dramático às minhas emoções, um relógio contando os segundos para o fim. Um barulho de couro contra couro quebrou o silêncio, o odor fétido do cigarro disfarçado dançou ao meu redor. Segurei o vômito na garganta:

– Hm… é… Eu não estou indo para casa, sabe.

Quando terminei de falar senti o cheiro azedo que havia saído da minha boca, o enjoo só aumentava. A ânsia me consumia enquanto rezava pela resposta que nunca veio. TEC. O pavor se apoderou de mim, se era para morrer, que morrêssemos os dois. Pisei no acelerador e resolvi fingir para mim mesmo que eu não ligava mais para minha vida.

Eu queria ser bravo, disfarçava que era nobreza, acreditei na minha própria encenação. A avenida, uma pista. No fundo, encoberto por camadas de falsa coragem, eu queria apenas que alguém me salvasse. Podia ser um diálogo, uma resposta, até mesmo uma ameaça, mas o ocupante não me dava nada. Nem 97km/h foram suficientes para arrancar uma reação.

Foi aí que me dei conta: a tortura era essa. Uma gargalhada preencheu minha mente, eu havia descoberto, eu sabia! O silêncio era a tortura, fosse quem fosse aquele sádico, ele desfrutava do meu desespero. O ponteiro desceu, TEC, direita. Ele não tinha mais poder algum sobre mim, eu estava livre do aperto no estômago.

Regozijei-me em meu próprio silêncio, sim, agora eu tinha a minha quietude particular. Foi no auge da minha euforia que notei um formigamento no umbigo, uma dúvida da minha razão. Pude ver Paola empalada no canto da sala e a figura corpulenta agora vinha em minha direção.

Dei-me conta, se ele realmente quisesse me torturar com a ansiedade, teria me ameaçado, tec, teria deixado clara suas intenções, mas ele apenas espreitava em sua escuridão. Uma mentira, havia criado uma mentira que só eu via sentido. Como não criar? Treze minutos. A verdade que eu negava é que ele tinha o poder, tec, em seu pedestal ele apenas contemplava a minha covardia.

– Acabe logo com isso – choraminguei.

Senti um movimento moderado logo atrás de mim para então o fio gelado da faca se acomodar em minha garganta. Ele estava esperando eu ceder, ele queria provar a minha fraqueza. Ouvi um sussurro:

– Aonde você pensa que está indo?

Meu pescoço acolhia a faca e eu almejava o corte.

– Para casa da minha namorada – respondi derrotado.

A respiração do sujeito aumentou, tec. Essa foi minha confirmação, ele se excitava com aquilo. A faca me pressionou mais decidida. O mentolado quase esquecido sob o cheiro do cigarro apalpava o meu rosto. Foi quando ouvi, pela primeira vez, uma voz feminina:

– Pare. O. Carro. – disse pontuando o final de cada palavra – Agora! – gritou.

Tremi com a exaltação e senti um pequeno fio de sangue se formar em meu pescoço, tec. Parei o carro e houve um momento, uma hesitação onde nada aconteceu. Eu ansiava pela faca talhar seu caminho em meu pescoço, queria deixar meu corpo ceder. Então, a mulher abriu a porta e saiu. Pelo retrovisor lateral a vi correr. Fiquei confuso, ela estava indo embora? Como assim? Abri a porta e me levantei:

– Ei! Onde você vai? O que aconteceu? – gritei, perdido em minhas reações, mas ela só continuou correndo.

Voltei para o carro. Com as mãos tremendo sob o volante, tentei encontrar algum sentimento para expressar. Será que ela havia tido uma crise de consciência? O punhal com o qual ela havia me ameaçado estava caído no banco do passageiro, um desenho curioso percorria o cabo.

Encarando o traço foi que lembrei, eu já havia visto aquilo antes. Numa matéria em um jornal anos atrás, me arregalei, era o símbolo de uma seita:

– Eu deveria ter sido um sacrifício – percebi boquiaberto.

Tive um ataque de riso descontrolado. Não conseguia acreditar que ainda houvesse gente que fizesse esse tipo de coisa, nunca adivinharia. Um sacrifício, inacreditável! Gargalhei um pouco mais. Precisava contar para Paola. Pensei em ligar, mas não, eu queria vivenciar aquilo através das expressões dela. Liguei o carro, tec, antes que pudesse acelerar senti uma dor aguda no pescoço: o corte.

Acendi a luz e pelo espelho analisei o estrago, estranhamente já havia infeccionado.  Apalpei ao redor do machucado, saiu um pouco de pus, a carne parecia flácida e a ferida fedia. Quando tirei a mão uma parte de pele e carne vieram junto. Comecei a palpitar, será que o punhal era envenenado? O choro se alojou num nó na garganta.

No retrovisor vi as luzes de uma viatura piscando ao longe na rua, sai do carro e comecei a correr entre tropeços em direção ao carro de polícia que se aproximava. A ferida em meu pescoço começou a arder, todo aquele alvoroço aumentou o corte, o sangue engrossava enquanto corria, eu tentava em vão estancar o ferimento com as mãos.

Me aproximando da viatura comecei a sinalizar com uma das mãos enquanto a outra se mantinha no pescoço. Eles saíram do carro apontando as armas, caí de joelhos, tentei falar, mas já sentia o sangue invadindo a minha boca. Dois policiais vieram em meu socorro. Ao se aproximarem, para meu espanto, me jogaram contra o chão e me renderam.

Sem entender pensei em levantar o rosto, mas eles fizeram isso por mim. Como se eu estivesse sendo escolhido para abate me exibiram para alguém que estava ao lado da viatura:

– É ele?

– Sim – respondeu uma mulher, aquela mulher – é ele.

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Postagem Facebook, por Carla Kling

O dia em que eu não fui sequestrada

Para quem não soube pela TV, essa semana “quase” sofri um rapto num Uber. Eu estava acabada por causa da minha enxaqueca, então quando entrei no Uber eu logo fechei os olhos para evitar a qualquer claridade, até aí tudo bem. Quando fui dar uma conferida se já estávamos chegando eu percebi que o motorista havia me levado para um lugar completamente descon… ver mais.

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Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.