EntreContos

Detox Literário.

A Lenda de Aylana (Mãe Natureza)

A Floresta dos Sonhos era uma simples floresta com um nome mais caprichado, dado pelos habitantes do vilarejo Aurora. Era comum que alguns se embrenhassem no matagal a fim de procurar mantimentos ou caçar animais. Porém, um medo epidêmico pairou sobre as Terras dos Oito Clãs quando humanos e bruxos entraram em guerra. O ambiente tornou-se tão hostil ao ponto do simples ato de ir até a floresta se tornou uma ação quase suicida.

Como um contraponto à atmosfera ameaçadora que se instalava, Aylana surgiu naquela Floresta, numa noite chuvosa. O farfalhar das árvores anunciava para os animais e criaturas mágicas da região a chegada da mais nova Bruxa da Luz, aquela responsável por carregar a benção da deusa Lux.

A Floresta assumiu a incumbência de criar a bruxa. As corujas e raposas guardavam a garota tais como seus filhotes, prontas para atacar ao menor sinal de perigo. A névoa constante servia como um véu, camuflando e transformando o bosque num lugar muito mais poderoso do que realmente era, numa tentativa de afastar quaisquer pessoas que ousassem atentar contra a vida da garota.

Enquanto a criança se desenvolvia, as árvores murmurinhavam histórias tão antigas quanto elas, ensinando Aylana à cerca de seu destino e como os homens funcionavam. Incentivavam também a garota a usar os seus poderes. Até os treze anos, a bruxinha já possuía um controle impressionante para as bruxas da sua idade sobre os elementos da natureza, além de ter uma habilidade exímia em poções e curas. Também não era raro encontrá-la impressionando os animais com suas peripécias mágicas ou conjurando espécies de flores de inúmeras cores, cheiros e texturas.

Aos dezesseis anos, finalmente chegou a hora de Aylana ter contato com o exterior. A ansiedade causada pelo momento inundava o peito da jovem. O simples fato de conhecer os tais humanos das histórias causava dois sentimentos conflitantes; preocupação e curiosidade. Mesmo assim, a jovem bruxa caminhava apressadamente em direção ao vilarejo. Sentia que seria ali o rebento de sua jornada.

A bruxa se surpreendeu com o que viu. A vila sofria com os efeitos da Guerra. Muitos homens foram convocados para o Exército da Aliança. Famílias eram despedaçadas todos os dias, seja com a chegada da noticia da morte de um parente, seja com mais uma convocação.    

Escondida debaixo de um capuz, ela apiedava-se da miséria angustiante que assolava a região. Uma criança perdida estava sentada no soslaio de uma casa, segurando fracamente um galho frágil, seco e retorcido. Parecia tão fraca que não conseguiria nem mesmo quebrar aquela madeira. A jovem bruxa se aproximou do menino.

Gentilmente, tomou da criança o galho. Concentrou-se um pouco até sentir um breve calor na palma da sua mão direita. A sensação foi brevemente substituída pela textura firme de uma maçã. Apertou, constatando a suculência da fruta. Então, ergueu os olhos nos do menino. Estupefato, olhava para o rosto da bruxa, tentando entender como ela tinha feito aquilo. Aylana esboçou um sorriso faceiro, para então, erguer o dedo indicador, pedindo discrição. Encantado, o menino assentiu agradecido, guardando o segredo para si.

Mesmo sendo jovem, Aylana chamou a atenção dos bruxos que viviam na Colina Salem. Seus talentos para curar eram muito importantes, principalmente levando-se em conta a guerra pela qual passavam. A jovem foi contratada para trabalhar como curandeira da vila.

Ainda vivia na Floresta. Entendia que era um lugar mais seguro do que a própria Colina. Era uma bruxa tão discreta. Nenhum humano conseguiria encontrá-la com facilidade, devido às inúmeras proteções implantadas por sua Deusa-Mãe.

Numa tarde fria e nublada, Aylana misturava os ingredientes para uma poção de cura mais eficaz. Seu foco estava totalmente voltado para o aspecto do liquido verde-musgo. Se não fosse pela movimentação estranha de algumas raposas, a bruxa não teria notado o jovem que havia acabado de desmaiar no regato.

Estava gravemente ferido, além de muito fraco. Boa parte de suas vestes jaziam fumegadas. O alforje que carregava alguns suprimentos do forasteiro caiu arrebentado. Algumas peças de carne eram disputadas pelas raposas. A pele pálida contrastava em inúmeros pontos espalhados pelo seu corpo com a carne viva e vermelha. Bolinhas de pus começavam a se formar na coxa direita.

A bruxa colocou a cabeça do jovem em seu colo. Com um toque carinhoso na testa, o feitiço colocou o debilitado num sono profundo.

– Aylana, você sabe que esses ferimentos…

– Foram provocados por uma bruxa? Sim, mamãe.  

– Ele poderia ser um caçador, minha filha. Você ainda vai salvar a vida dele? – O cochicho da Floresta causou nela dúvida.

Aylana olhou para o rosto do jovem. Nada indicava que era um caçador de bruxas. Podia sentir a dor, a angústia e a desesperança que dominavam o corpo inerte.

– Eu não consigo não salvá-lo. Sendo um caçador ou não. – Ela respondeu numa mistura de culpa e revolta.

Mesmo com a reprovação da Floresta, a jovem bruxa se empenhou em curar o forasteiro. Aquela era a primeira vez que Aylana transgredia um pedido de sua mãe.

Por cinco dias, a jovem despendeu o máximo de sua atenção ao estranho. Sua vida inteira, ela havia se preparado para aquele momento. Mal podia esconder o sorriso de satisfação ao ver que suas poções funcionavam perfeitamente. Sem contar os emplastros, os quais ajudavam a acelerar o processo de regeneração da pele.

O despertar do forasteiro foi suave. Sentia dor em cada parte de seu corpo. Demorou a abrir os olhos, incerto do que encontraria ali. Ouvia o correr do vento pelas copas das árvores, além do canto enigmático das corujas. Naquele aparente ar de calmaria, tão distinto da violência que presenciou em toda sua vida, Ivo procurava por qualquer sinal de pessoa ao redor dele.

Saiu da cabana improvisada com dificuldade, ainda tentando se acostumar com as limitações do corpo. O riacho, sua última memória antes de desmaiar, continuava cortando calmamente a floresta. Porém dessa vez, uma jovem com a idade próxima da sua, jazia sentada às margens, cuidando do que parecia ser um peixe assado em cima de uma fogueira.

Aproximou-se devagar, tentando esconder o receio que sentia da desconhecida. Ela não parecia oferecer perigo. Seria um pecado divino alguém tão belo ser perigoso. Sob o brilho do luar, a pele da jovem brilhava. Exibia um sorriso bondoso como a da Virgem Maria. A cor de seu cabelo lembrava o céu noturno um pouco antes do amanhecer.

– Pode ficar tranquilo. Não vou lhe fazer mal. – Ivo limitou-se a assentir. – Sabe, não faria muito sentido salvar a sua vida se eu quisesse o seu mal, não acha?

Depois de alguns dias a mais recebendo os cuidados de Aylana, Ivo retornou para sua casa vazia. Entretanto, ele tinha a sensação que havia perdido algo na Floresta. Cada vez que voltava dos encontros com Aylana, aumentava o forte sentimento em relação à jovem. Jamais suspeitou do fato de ninguém no Vilarejo conhecer a mulher de cabelos crepúsculo. Ou dela morar sozinha, num bosque conhecido por conter animais extremamente ferozes. Também para quê desconfiar? Ela sempre dizia que a Floresta era o lugar mais seguro da Terra dos Oito Clãs.

Os encontros dos dois causavam em Aylana uma sensação de culpa doce-amarga. Ouvia todos os dias o quão errado era um amor entre um bruxo e um humano. E as histórias da Guerra justificavam esse sentimento antagônico em relação aos seres não-mágicos. Ainda assim, a jovem não conseguia afastar o fogo que acendia em seu peito toda vez na qual Ivo relava em sua pele. Ela já sabia como era ineficaz tentar disfarçar o sorriso quando o comerciante contava alguma história boba sobre uma venda ou ocultar o rubor provocado por algum elogio singelo proferido à bruxa.

Aylana se preocupava cegamente por Ivo. Temia pela vida do amado. Era um simples comerciante, tentando fazer sua vida indo e vindo pelas estradas perigosas. O clima de catarse social elevava a tensão de todos. Bastava esbarrar no grupo errado, num dia de má sorte, que sua vida correria um grave perigo.

A bruxa nem pensou duas vezes. Conjurou o Feitiço da Benção sobre o amado. Dormiu com a consciência limpa dos sonhos trágicos os quais assolavam sua cabeça. Jamais carregaria outra vez a vida de Ivo em suas mãos.

– Ayla, vou precisar fazer uma viagem longa. Achei o tecido que um cliente quer e o sujeito me prometeu muito dinheiro. – O comerciante disse, tentando manter a neutralidade ao máximo em sua expressão.

Mesmo com o feitiço protetor, o mau pressentimento pairava sobre ela. Aylana tirou do pescoço um colar que ganhou de seu companheiro. Entregou a ele, dizendo:

– Caso você se meta em confusão, basta cochichar meu nome para essa pedra. Vou aparecer o mais rápido possível.

***

Quando soube do ataque, Aylana correu para atender os feridos. Mesmo com o ataque de quase quatrocentos homens, a Colina Salem havia sobrevivido. Não havia vencedores naquele massacre.

Enquanto a bruxa se preocupava em salvar o máximo de bruxos possíveis, os lideres da Vila se juntaram para encontrar o culpado pela invasão. Não foi uma tarefa difícil. Os inimigos que não conseguiram retornar foram levados às masmorras. Resistiram à tortura por quase uma hora.

– O arqueiro Ivo tem um relacionamento com uma de vocês. Ela confiou demais nele.

O julgamento de Aylana foi o último grande ato da Colina Salem antes da diáspora. Durante a decisão dos chefes, a jovem bruxa se sentia a maior derrotada de toda a história. Em seu coração, todo aquele bom sentimento que aquecia o seu coração havia se tornado em cinzas.

– Você está banida do convívio do nosso povo. Viverá como a pária que mostrou ser.

***

No inicio, o exílio pareceu-lhe como uma punição leve. Entenderia se a condenassem à morte. Porém, o isolamento marcou a bruxa com o passar dos anos. Suas tentativas de se misturar ao Vilarejo Aurora mostravam-se infrutíferas. Teria ficado louca se não tivesse largado o lado mais perigoso daquela guerra.

Abandonou a Floresta. Lembrava demais o caçador o qual a traiu. Fixou residência nas Veredas dos Indesejáveis. Ali não havia julgamentos, todos tinham um passado e não precisavam ser lembrados disso. Cada um vivia com suas dores, tentando não provocar mais feridas.

Aylana, vez ou outra, dava espaço para o seu talento. Não sofria preconceito ou recebia olhares de canto. Mesmo que para poucos, ainda cumpria seu papel como filha da Deusa Lux. Usava seus dons para o bem, assim como suas mães desejavam.

Tinha tudo para ser um dia tranquilo, quando a bruxa percebeu o chamado da pedra sem brilho. Sorriu diante da traquinagem do destino; seja homem, bruxo, elfo ou sátiro, sempre acaba tendo que arcar as contas.

***

Enquanto Aylana caminhava nas ruas do mundo que odiava seu povo, sentia a expectativa causada pela vinda do momento que tanto fugiu.  Mais uma vez, o destino de Ivo estava em suas mãos.

Não tinha muito o quê fazer em relação ao quadro de saúde do caçador. Pelos boatos que ouviu, a doença havia sido fruto de uma maldição muito poderosa. Sofreria a dor de todos aqueles que foram feridos por suas armas. Nada que a medicina humana ou bruxa poderiam fazer para reverter isso.

Bateu na porta da residência dos Levesque. Ao passar pelo portal, a bruxa sentiu os descendentes do caçador a observavam com bastante cuidado, já sabendo da periculosidade de Aylana. Dos quatro filhos de Ivo, a mais nova era a que exibia mais claramente o medo.

A esposa chegou logo depois. Sua preocupação com o estado do marido era muito maior que a presença do nemêsis do caçador.

– Ele está aqui no quarto principal. Por favor, me acompanhe.

Aylana se assustou ao entrar no cômodo. O cheiro de carne podre parecia impregnado em todo o recinto. Ivo a encarava, como se tentasse decifrar o enigma escondido por trás da expressão da bruxa. O caçador entenderia qualquer que fosse o sentimento escondido atrás daquela dureza indecifrável.

A bruxa puxou de sua bolsa dois frascos. Enquanto media as doses para ministrá-las ao moribundo, Aylana começou a explicar como seria o procedimento:

– Eu tenho aqui duas poções; a do Sono Eterno e a da Ilusão. A primeira poção coloca a pessoa em coma, enquanto a segunda permite a uma bruxa manipular o sonho da pessoa da forma que bem entende. Depois que surtirem efeito no Ivo, ele jamais despertará do sono. Morrerá em paz, sem sentir dor e imerso num sonho.

– O que garante que não fará mal ao meu pai? – O mais velho se pronunciou, pousando a mão instintivamente na besta que carregava ao lado do corpo.

– Eu confio… – Ivo se pronunciou pela primeira vez em dias. Sua voz fraca denunciava que, aos poucos, a maldição devastou sua alma e seu corpo. O caçador deixava para a bruxa decidir o seu destino final.

Aylana saiu do quarto para que todos se despedissem. Do lado de fora, mentalizava a ilusão na qual Ivo viveria. Evitava, com todas as forças, dar vazão à sensação constante de vingança que vivia em seu peito desde a traição do caçador. Não fazia parte dela.

Mais ou menos uma hora depois, a bruxa retornou ao cômodo. Enquanto os familiares rezavam, Aylana colocava a mistura na boca do caçador.  

 Antes de dormir Ivo olhou arrependido uma última vez para a bruxa. Aylana possuía a aparência de uma mulher na flor da sua idade, mais ou menos, na mesma época que ele partiu, deixando a dócil bruxa sozinha na Floresta. O tempo não a castigou como fazia com os humanos. Ainda não conseguia decifrar os olhos lilás dela. O respirar fundo trouxe consigo sua maior dor; o fim de sua existência se daria pelas mãos da mulher que mais amou na vida.

***

O peito subia e descia com dificuldades. Cada golfada de ar aproximava Ivo do desfecho.

Sempre pensou que se desesperaria em seus momentos finais. Choraria diante da incerteza, apelaria a Deus por clemência e temeria. Contudo, tal convicção transformou-se em apenas mais um erro de inúmeros equívocos. Sorriu diante de sua humanidade.

Provavelmente, Aylana era a última ligação com aquele mundo. Ergueu os olhos para a esposa. Sentia a mão quente de sua companheira, tentava gravar o toque dela em sua memória final. As rugas e o cabelo grisalho a tornavam mais bela do que no dia o qual a conheceu. Ela havia sido a pessoa mais importante de sua vida.

A última sensação que experimentou foi o companheirismo, traduzido pelo carinhoso beijo de Aylana em sua testa.

Partiu com a certeza de que viveria em sua esposa e filhos.

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Informação

Publicado em 17 de fevereiro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 1, Série B.