EntreContos

Detox Literário.

“Peste e Cólera” – Patrick Deville – Resenha (Gustavo Araujo)

Você provavelmente já ouviu falar da Peste Negra, a epidemia que matou 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia durante o século XIV. Para se ter uma ideia melhor, esse número representa cerca de um quarto da população mundial da época. Em alguns países, como Portugal, quase metade da população sucumbiu ao flagelo.

Castigo de Deus? Para muitas pessoas a peste possuía essa aura sobrenatural porque sua origem e seu desenvolvimento eram desconhecidos. Somente em 1894 percebeu-se que sua causa era um microorganismo, um bacilo em forma de bastonete. O responsável pela descoberta foi um sujeito de quem a maioria das pessoas nunca ouviu falar, um homem chamado Alexandre Yersin.

Yersin foi uma pessoa notável. Deixou o cantão remoto em que nascera na Suíça e chegou a Paris, onde entrou na faculdade de medicina. Sua inteligência o levou a trabalhar com a equipe de Louis Pasteur, uma espécie de lenda viva na época, “o homem de sobrecasaca preta e do grande nome bíblico, dos olhos azuis, da gravata borboleta“, o homem que havia revolucionado a alimentação mundial — criando processos para permitir a conservação do leite –, e também a saúde, ao conceber a primeira vacina contra a raiva, inaugurando uma técnica que seria empregada no desenvolvimento de antídotos para outras infecções.

Pois bem, sob a atenção de Pasteur, Yersin, ainda um estudante, descobriu a toxina responsável pela difteria, façanha que abriu-lhe as portas para a fama e a fortuna. Mas não. Yersin não aceitou esse destino fácil e irrecusável para a maioria dos seres humanos. Ao contrário, formado médico, preferiu deixar o Instituto e o trabalho em Paris, fazendo-se ao mar, tornando-se médico em uma linha marítima que ligava as Filipinas à Indochina Francesa. Talvez buscasse aventura, ou simplesmente um sentido maior para a própria vida. Logo se lançaria ao território khmer, descendo o rio Mekong, no que é hoje o Vietnã, aos platôs, à selva, às montanhas.

Em 1893, um apelo do Instituto Pasteur o levou a Hong Kong, dizimada por uma epidemia de peste bubônica. Em meio às pilhas de cadáveres e involuntariamente preso a uma competição com cientistas japoneses, que então dominavam a ilha, Yersin, enfim, descobriu a causa da doença, identificando o bacilo a que, anos depois, outros especialistas denominariam Yersinia Pestis. Mais do que isso, associou, pela primeira vez, a doença à presença de ratos — ainda que somente depois de anos outro cientista, Louis Sismond, finalmente demonstrasse que o vetor do flagelo era, em verdade, a pulga que parasitava os roedores.

Após a descoberta do bacilo, Yersin voltou a Paris e chefiou a equipe que pôs fim à doença mais letal da história, ao criar uma vacina. E então regressou à Indochina, aos seus. Ajudou na construção de hospitais e no desenvolvimento da população. Fundou vilas e cidades, aprendeu arquitetura e engenharia. Aprendeu a desenvolver a borracha. Criou uma bebida chamada Kola-Canela, que abreviou para Ko-Ca, como fortificante (sim, você já ouviu falar dela). Construiu estradas, automóveis e aeroplanos. Levou educação aos pontos mais distantes da antiga colônia francesa. Morreu aos oitenta anos, quando a Alemanha havia subjugado a França no início da II Guerra.

Um homem notável, avesso à fama e à glória artificial. Um sujeito recluso por opção e por excelência.

O escritor francês Patrick Deville resolveu desafiar Yersin em tempos recentes, ao escrever “Peste e Cólera”. Não se trata de uma biografia, porém. Embora a vida do antigo cientista seja o fio condutor da narrativa, a obra se constitui muito mais em uma homenagem ou, talvez, num acerto de contas com o passado, já que mesmo na França Yersin é, hoje, ignorado.

Claro que a história pessoal do cientista é por si suficiente para sustentar qualquer livro sobre ele, mas Patrick Deville vai muito além do óbvio. A começar pela maneira de narrar. Ao contrário da maioria dos autores, Deville escreve no presente e com frases curtas. Isso pode soar um pouco complicado no início da leitura, mas em poucas páginas essa estranheza dá lugar a um arrebatamento, algo que, por definição, absorve o leitor — um mérito que precisa ser dividido com a tradutora da obra, Marília Scalzo.

Deville é dono de uma prosa mordaz, cheia de ironias, que não se rende a convenções ou ao politicamente correto. Tem o dom de não fazer concessões, de criticar e de rir de si mesmo, de parecer sarcástico. “Já tem cinco anos o novo século. O século canalha. Até então, tudo vai bem. Ele aproveita. É difícil imaginar que os torturadores e os carrascos foram crianças sorridentes.”

É interessante perceber, durante a leitura, como os fatos se desenrolam, como o raciocínio de Deville vai se construindo, falando sobre os acontecimentos relativos a Yersin, e como, sem qualquer aviso, ele nos atira uma opinião pessoal contundente, intrusiva até, que nos deixa com aquela sensação de ter sofrido um nocaute. O tal arrebatamento. “É bonita, a tal Mina. Imagina-se que seja virgem e coberta de renda branca até o pescoço, mas quem sabe se, toda noite, sob a saia preta, não atiça o próprio fogo com a ponta dos dedos.

Deville é ótimo na contextualização histórica, no resgate da realidade parisiense do fim do século passado. Mas não espere nada convencional. Descrições cansativas não são sua especialidade. Outro ponto positivo é a maneira como ele trata a rivalidade entre o francês Pasteur e o alemão Koch, que havia descoberto os microorganismos causadores da tuberculose e da cólera. Uma guerra pessoal de gênios e de vaidade, que refletia o estado de ânimos de seus países.

Deville também não sucumbe ao maravilhamento desmedido ao falar das opções de Yersin, dos motivos pelos quais o médico, ainda jovem, trocou uma vida de luxo e fama por uma existência incerta na Indochina. De fato, Deville não cai na armadilha fácil do romantismo exagerado que frequentemente se vê em obras do tipo “oh-ele-largou-tudo-e-foi-viver-a-vida-de-verdade” — Yersin é um  misantropo, isso é claro. De todo modo, Deville deixa, de maneira inteligente, lacunas para o leitor preencher, aludindo às indagações não só do próprio Yersin, mas de outros personagens cativantes da mesma época, como Pasteur, Rimbaud e Livingstone.

Mas talvez o grande mérito do livro seja a maneira como obriga os leitores a nos defrontarmos com nossas próprias limitações, com o conforto e a acomodação que até mesmo involuntariamente buscamos, o que, afinal, nos impede de avançar, de descobrir novos horizontes geográficos e também intelectuais. “A vida não vale a pena sem movimento”, dizia Rimbaud, uma lição que parece ter sido esquecida por nós.

O velho clichê de que “o conhecimento não tem fronteiras” nos assombra ao ler Peste e Cólera desde as primeiras páginas, fazendo surgir, ou ressurgir, a constatação inconveniente de que a vida comporta muitas possibilidades, algo que, na maioria das vezes, até de forma automática, preferimos ignorar, entregando-nos a uma existência modorrenta, perdendo tempo com futilidades e com discussões inúteis. “A vida é a farsa que todos devem representar“. Quem pensou em redes sociais ganha um pirulito.

A vida de Yersin é uma demonstração típica do querer-poder de qualquer ser humano. Do triunfo da dedicação sobre a indolência, da intensidade sobre a rotina. A maneira peculiar como Patrick Deville nos atira isso funciona como um soco no peito, quase um chamado, um despertar. Não é, nem de longe, um livro de autoajuda. Ao contrário, é um livro que incomoda, o que é muito melhor.

Yersin é um homem só. Sabe que nada de grandioso se faz na multidão. Detesta o grupo, sabe que a inteligência é inversamente proporcional ao número de membros que compõe. O gênio é sempre só. Um comitê pode alcançar a lucidez de um hamster. Um estádio, a perspicácia de um paramécio.”

Vivemos uma época de retorno à Idade Média. Pessoas contestam a eficácia de vacinas. Ressurge o criacionismo, a Terra plana. Talvez haja quem queira trazer de volta a teoria da geração espontânea, o que faria o velho Pasteur revirar-se no túmulo. Isso sem falar no número crescente de pessoas se apegam a dogmas religiosos para explicar o que não compreendem, para atribuir-se titulações acadêmicas sob justificativas bíblicas.

É imprescindível relembrar quem, há mais de um século, ajudou a tirar a humanidade da ignorância. Do contrário, corremos o risco de sucumbir às trevas novamente. Só que sem vacina.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 1 de fevereiro de 2019 por em Resenhas e marcado , , .