EntreContos

Detox Literário.

A Aposta (Ana Carolina)

Certo dia, Nyan Anunaki vagava pela galáxia, mais para espantar o tédio de uma existência longeva do que para chegar a algum lugar específico, quando, próximo a uma das luas de TX-839, avistou um confrade nibiruriano, que conhecia de vista e de capacete espacial. Aproximou-se, impelido pela vontade de conversar pessoalmente com outro ser vivo, trazida pela solidão dos painéis de comando, telas frias de monitoramento e vozes, tão artificiais quanto distantes, dos dispositivos de comunicação. O ímpeto, entretanto, arrefeceu ao se lembrar dos boatos que escutara sobre aquele nibiruriano. Diziam, à boca pequena, que o sujeito em questão tinha o péssimo hábito de viver lançando sortes, propondo apostas das mais variadas, e também o costume ainda mais intragável de não se conformar com as derrotas. “Um mau perdedor filho de uma Y’en¨shjadr#kh@”, definiu um barman kleperiano (“Y’en¨shjadr#kh@” era uma palavra bastante específica do idioma kleperiano e Nyan se limitou a apenas imaginar o significado). Pensou em dar meia volta com a nave, fingindo não ter visto ninguém por ali, mas, do chão rochoso da pequena lua, o outro já acenava, com o entusiasmo dos que não sabem que se passam por tolos desagradáveis.

— Olá! – Nyan Anunaki cumprimentou. – Que multiverso pequeno, hein!

— Nak! Que coincidência! – o nibiruriano disse com a boca esquerda, enquanto a direita sorria sem parar. – Acabei de pousar e instalar meus equipamentos de observação, Nak. Quero dar uma boa olhada naquela belezura ali – ele apontou na direção do planeta TX-839. – Quer olhar primeiro, Nak, Nak?

— Bom, já estamos aqui mesmo… – disse Nyan, tentando disfarçar um súbito entusiasmo (observar planetas era um de seus passatempos prediletos).

O nibiruriano se afastou, cruzou os tentáculos e ficou sorrindo (agora com as duas bocas), deixando o equipamento à disposição. Enquanto Nyan aprumava o telescópio no rosto e ajustava o foco, ele continuou:

– Aposto cinco ÿkizóts que aqueles cetáceos já conseguiram sair do mar e estão dominando as porções de terra, Nak!

Ao escutar a palavra “aposto”, Nyan Anunaki não pôde deixar de pensar “putz, já vai começar…”, porém, o cenário apresentado pelas lentes deixou-o aterrorizado e absorveu sua atenção. “Não é possível…”, balbuciou, ao notar que as vastas extensões de TX-839, onde a vida brotava exuberante havia poucos milênios, agora estavam completamente estéreis.

— O que aconteceu, Nak, Nak?

— O planeta está… vazio – respondeu Nyan. – Por que será que os Grandes Arquitetos fazem isso? Constroem os mundos, dão chance à vida e depois deixam que algum evento aleatório acabe com tudo.

— Acho que os Grandes Arquitetos não se importam muito com isso, Nak – divagou o nibiruriano. – Talvez eles só tenham dado o empurrão inicial e deixado as coisas seguirem na inércia, Nak. Mas vamos até lá, para ver de perto o que aconteceu. O que acha, Nak?

— Vamos – concordou Nyan, pensativo. A teoria caótica, a ideia de aquele tipo de evento ter chance de ocorrer sem um planejamento maior, o incomodava.

— Aposto que a extinção foi causada por um vírus, Nak!

— Não, meu amigo. Foi um meteoro – Nyan falou com convicção, pois acabara de ver a cratera através do telescópio.

— Cinco ÿkizóts, Nak?

— Tá, cinco ÿkizóts! – Nyan não queria aceitar, mas aceitou. Constrangido por saber que de certa forma trapaceava (afinal, já sabia o motivo de antemão), mas revoltado com a indelicadeza do nibiruriano ao propor apostas em tão desagradável situação.

Caminharam pelo planeta e viram apenas exoesqueletos de insetos cremados e ossadas chamuscadas dos grandes anfíbios e cetáceos que por ali reinavam havia tão pouco tempo. Nem sinal das flores que atapetavam as montanhas e se abriam e brilhavam como diminutos quasares quando iluminadas pela luz da estrela azul, nem das frutas com casca espinhosa, nem de árvores, nem de relva, nem de água, nem de nada. TX-839 era agora apenas um deserto. Um enorme e silencioso deserto.

Chegando à cratera, Nyan Anunaki falou:

— Aqui estamos, caro confrade. Como pode ver, é bem recente. Para mim não resta dúvidas do que foi responsável por essa extinção em massa. Em outras palavras: você me deve cinco ÿkizóts.

— Nak! Não, Nak, Nak! – o nibiruriano ficou visivelmente incomodado e caminhava de um lado para outro, entrelaçando os tentáculos quase até fazer nó, tentando pensar em algo e, ao mesmo tempo, sentindo-se tolo por também não ter espiado no telescópio antes de vir. Num estalo, sacou a lupa microscópica e começou a analisar o solo. – Rá!!! Nak, Nak!!! – gritou, depois de um tempo, entusiasmado como se acabasse de encontrar a fórmula para reverter a entropia do universo. – Olha aqui, Nak: vírus! Vírus! Eu sabia!

— Sim, são vírus – Nyan confirmou, após olhar no microscópio. – Estão em estado mineral agora, aguardando por hospedeiros que provavelmente nunca virão. Talvez tenham sido trazidos pelo bólido, ou talvez estivessem aqui desde sempre. Ou, talvez… façam parte dos planos dos Grandes Arquitetos! Isso explicaria o propósito desse evento catastrófico – Nyan refletiu, seus cérebros frontais formulando teorias sobre qual poderia ser esse propósito, afinal. – Mas você viu os esqueletos carbonizados – ele voltou a falar, dirigindo-se ao nibiruriano –, e sabe que não foi uma virose que causou aquilo.

— Alguns podem ter morrido por causa do meteoro, Nak, Nak. Mas alguma espécie teria sobrevivido, disso eu tenho certeza. E nossa aposta foi sobre o causador da extinção, Nak.

— Tudo bem, chegamos a um impasse, então. Vamos dar o fora daqui, passar os trajes pela desinfecção e ninguém deve nada a ninguém, está bem assim? – Nyan propôs, sem ânimo para prosseguir.

— Vamos fazer outra aposta, Nak. O dobro ou nada.

Nyan respirou fundo, olhou ao redor, ponderou e concluiu que o melhor a fazer seria dizer “não, obrigado”, pegar a nave e se afastar daquele planeta morto e daquele nibiruriano chato o mais depressa possível. Mas… dez ÿkizóts eram dez ÿkizóts.

— E qual seria essa outra aposta? – perguntou.

— Nak! Assim que se fala! Você parece acreditar que os Arquitetos continuam, de alguma maneira invisível e silenciosa, conduzindo os rumos dos universos e imbuindo mesmo os mais efêmeros eventos com algum tipo de propósito, estou certo, Nak?

— Sim – Nyan assentiu – mas o que isso tem a ver com a aposta?

— Nak, Nak… neste mesmo quadrante da galáxia, a alguns anos-luz daqui, está TX-918, outro planeta contemplado com a dádiva da vida. Vida inteligente, Nak. Um tipo de primata ainda rudimentar, mas inteligente. Estive lá há cerca de cem anos e concluí que mais cedo ou mais tarde eles vão levar TX-918 ao colapso, Nak. Por isso, aposto que a evolução dessa espécie foi: ou um erro no planejamento, ou mera obra do acaso. Qualquer alternativa prova que suas crenças estão equivocadas, Nak.

— Duas extinções em massa no mesmo quadrante… a raridade da vida inteligente surgindo apenas para se destruir em seguida… – Nyan Anunaki refletiu. Diante do espaço infinito e da eternidade, era impossível determinar propósito ou falta de propósito apenas pelo destino de um planeta. Já presenciara a queda de civilizações e sabia que TX-918 era habitado por seres primitivos, mas, por algum motivo, sentiu que precisava dar um voto de confiança a eles, precisava se arriscar, precisava confirmar para si próprio a crença em um plano traçado por uma inteligência que jamais seria capaz de compreender. E também precisava tirar os sorrisinhos triunfantes da cara daquele palhaço nibiruriano. – Tudo bem – ele disse –, eu aceito sua aposta.

Partiram em direção a TX-918, o planeta que os nativos chamavam de Terra.

***

Alguns dias e dois buracos-de-minhoca depois, pousaram no satélite natural de TX-918, que singrava pelo espaço, inteiro, numa calmaria azul sem sinais de recentes explosões termonucleares. Esse primeiro vislumbre tirou parte da tensão acumulada nas nadadeiras dorsais de Nyan, mas ele só respirou aliviado após instalar os equipamentos de observação e constatar que, sim, os primatas inteligentes e as outras espécies de animais e vegetais ainda se espalhavam pelas porções de terra e pelos mares daquele simpático planeta rochoso.

— Eles não se destruíram – disse Nyan, recolhendo o telescópio. – Estão lá, vivos e bem. Vou passar o endereço blockchain pra você depositar os dez ÿkizó…

— Ainda não, Nak, Nak – o nibiruriano interrompeu. – Eu apostei que a evolução dessa raça foi um erro, não que já estariam destruídos. Vamos observá-los mais de perto e você haverá de concordar comigo, Nak – ele completou, ajustando o traje espacial para o modo camuflagem.

“Isso vai demorar…”, concluiu Nyan.

***

O encarregado chegou atabalhoado à sala do diretor e, ciente de sua incomoda condição de arauto de más notícias, começou a falar em tom de quem pede desculpas, como se fosse ele próprio o responsável pela tragédia que estava prestes a anunciar:

— S-Senhor… – ele gaguejou, sem conseguir encarar os olhos do homem gordo sentado atrás da mesa. – Mais u-um colaborador se… acidentou… s-senhor.

— Defina “se acidentou” – o homem gordo disse depois de um tempo, reclinando-se na cadeira enquanto girava uma caneta dourada entre os dedos.

— Um dos canos de escoamento dos grãos travou e… e o colaborador teve que entrar no tonel para desentupir, daí aca…

— Daí acabou soterrado na soja, é isso?

— Sim, isso mesmo, senhor…

— Puta que pariu… DE NOVO? – o diretor berrou, atirando a caneta na mesa. – Esses filhos da puta não tomam cuidado? Tá, mas e aí? Desentupiu a porra do cano pelo menos?

— Não, senhor.

— Já mandou outro lá?

— Não, s-senhor…

— Tá esperando o quê? Amarra uma corda na cintura de um desses pé-rapados e fala pra outro segurar até o cano desentupir. Fala que esse é o procedimento de segurança e se alguém contestar, manda embora. Para de ser mole com essa gente, já te falei isso e não vou falar de novo: encarregado frouxo não se cria nessa empresa – o diretor alertou com a satisfação de quem sabe que nasceu para liderar.

— Sim, senhor.

Saiu da sala, ávido para descontar as humilhações em seus subordinados.

***

— Mais um exemplo de como são as relações de poder nesse mundo, Nak – o nibiruriano falou, sem conseguir disfarçar a alegria por colher nova evidência a seu favor. – Enquanto poucos banqueteiam, muitos sobrevivem das migalhas, peças substituíveis numa engrenagem fria, Nak. Nós já vimos esses padrões em outros planetas e sabemos as probabilidades: a extinção é certa… nós só chegamos um pouco adiantados, Nak, Nak.

— Sem dúvidas não é um modelo de vida que estimula a continuidade da existência em escalas cósmicas – concordou Nyan. – Mas daí a concluir que as ações de alguns indivíduos da espécie seriam suficientes para provar o erro dos Arquitetos, já vai uma boa dose de exagero, meu amigo.

— Ou erraram, ou, como eu suponho, são omissos, Nak, Nak. Poder nós sabemos que eles têm ou ao menos tiveram em tempos primordiais, as fórmulas são inequívocas. Mas, se estiverem despertos e prestando atenção em suas criações, o que justificaria esse descaso? Por que não intervir num planeta miserável como esse, Nak?

— Guardadas as proporções – disse Nyan –, nós também temos poder para intervir, não temos? Estamos aqui, com olhos bem abertos, e, no entanto, também não vamos fazer nada para supostamente ajudá-los. Por quê?

— Porque violaríamos o Tratado Multiversal de Não-Interferência, Nak…

— Talvez os Arquitetos tenham um tipo de tratado desses também – Nyan arriscou um sorriso.

— Ahhhh, Nak, Nak, Nak!!! Você sempre os defende! Mas prossigamos em nossa visita, ainda haverá bastante tempo para mudanças de ideia, Nak.

***

Nas salas fechadas dos gabinetes de governo, presenciaram esquemas de desvios de verba contrastantes com os discursos de austeridade proferidos pelas mesmas pessoas diante de câmeras e microfones. Depois, como bons investigadores, foram ver de perto os estragos causados pela ganância e puderam contemplar a miséria em seu estado mais bruto. Da mesma forma, assistiram a generais e presidentes traçarem planos de guerra e, depois, teleportaram-se ao campo de batalha, onde crianças serviam de escudo aos adultos e todos atiravam e gritavam e matavam-se uns aos outros, encharcando a terra com sangue, gasolina e maldições. Constataram, bem de perto, o quanto os humanos podiam ser cruéis. Mas também constatarem, com igual proximidade, o quanto os humanos podiam ser corajosos e inspiradores. Assim, sem uma paridade exata, as atrocidades apresentadas pelo nibiruriano como prova cabal de sua tese, eram balanceadas pela observação de virtudes de nobreza e altruísmo.

Nyan Anunaki analisava muito e falava pouco. Em algumas ocasiões extremas, quase jogou a toalha ao contemplar eventos que levavam à conclusão de que aquela civilização estava irremediavelmente perdida. Assistindo ao debate dos candidatos a representante máximo de um determinado povo, por exemplo, Nyan teve o ímpeto de atirar os dez ÿkizóts, acionar o teleporte, abrir um buraco de minhoca em direção ao outro extremo da galáxia e nunca mais voltar. Mas conseguiu se controlar e esperar por um novo dia.

Num desses novos dias, de modo totalmente involuntário, ficou a um bóson de Higgs de vencer a aposta. No cronograma aleatório de desbravar as nuances gastronômicas de TX-918 (porque os turistas espaciais não podem viver só de buscar tragédias), acabaram experimentando uma maravilha chamada “sorvete de pistache”. Já na primeira colherada Nyan concluiu que obra de tamanha precisão e magnificência só poderia ser realizada por uma raça com lugar especial no coração dos Arquitetos, uma raça destinada não a colapsar à sombra de cogumelos atômicos, mas a reverter a entropia e salvar todas as estrelas do multiverso e seus planetas e suas incontáveis populações. Por um instante tão efêmero quanto a observação de um fóton, o nibiruriano chegou à mesma conclusão, mas se recompôs a tempo e argumentou que, apesar daquele pequeno milagre congelado não encontrar concorrentes nas três trilhões de galáxias mapeadas, ainda assim não estava disponível de forma igualitária a toda população de TX-918, o que, no final, apenas reforçava sua tese.

***

Com a proximidade do fim do período máximo de turismo interplanetário estipulado pela URSAL – (U)nião dos (R)epresentantes das (S)ociedades (A)migas da Via (L)áctea –,  Nyan deu sua cartada derradeira para vencer a aposta, mostrando ao nibiruriano uma situação que sintetizava suas impressões sinceras sobre TX-918.

— Ali está, caro confrade, a evidência de que esses seres não são um erro.

Num dos cantos de uma praça ladeada por capim e flores mal cuidadas, uma menina, de cara suja e vestes rasgadas, acariciava um cachorro e lhe dava de comer. Os alienígenas, modo camuflagem ativado, caminharam em direção a ela.

— Está falando dessa criança humana, Nak? – o nibiruriano questionou, intrigado. — Ela joga mais a favor dos meus argumentos, Nak, Nak.

— Sim, entendo seu raciocínio, meu amigo – disse Nyan. – As injustiças desse mundo reduziram a menina quase à condição de um ser irracional, agindo por instinto para sobreviver, sem perspectivas de melhora. Mas, observe um pouco melhor e veja ali um dom sagrado que nós mesmos já não temos. Ela é capaz de amar. Veja como trata a criatura peluda aninhada em seus braços. Em quantos quadrantes do universo ainda podemos encontrar seres inteligentes com essa capacidade? Nossas raças ganharam as estrelas, mas a que preço? Enquanto cérebros cresciam, corações atrofiavam. Vendo tão singela cena, não posso tirar conclusão outra que não seja: na capacidade de amar, que é a maior de todas as dádivas, os humanos estão milhões de anos-luz à nossa frente. E se isso é estar errado, então eu não quero estar certo.

— Nak, Nak… – o nibiruriano respirou fundo, como se ponderasse acerca de cada palavra. – Você quase desfibrilou meu coração atrofiado agora, mas… não vou abrir mão de dez ÿkizóts por causa de um discursinho piegas desse nem ferrando, Nak.

— Droga! – Nyan, pose de dramaturgo estelar desmoronando, viu que sua cartada não surtira efeito. – Então não temos mais a fazer aqui, meu caro. Todas as nossas ilações ficarão em xeque por tempo indeterminado e jamais sabere…

— Indeterminado, não, Nak, Nak – o nibiruriano interrompeu. – Meus equipamentos detectaram uma explosão de raios gama em rota de colisão com esse planeta, Nak. Eles conseguirão detectá-la daqui cinco anos. Ela chegará vinte e oito anos depois disso.

— Só isso? – disse Nyan, perplexo com a frieza com que a notícia lhe foi dada, conferindo a precisão inexorável do cálculo em seus próprios equipamentos. – A tecnologia que eles têm hoje é muito rudimentar para o tipo de fuga necessária.

— Se eles não forem um erro dos Arquitetos… certamente terão a tecnologia quando o cataclismo vier, Nak – disse o nibiruriano, imaginando sua conta dez ÿkizóts mais gorda dali a alguns anos. – Nos encontramos aqui pouco antes dos raios gama chegarem, Nak, Nak?

— Sim… – assentiu Nyan, muito mais preocupado com o futuro daquela civilização do que com a aposta. – Eu… ainda vou ficar um tempo aqui… para… comprar sorvete.

— Então, até breve, Nak! – o nibiruriano despediu-se, partindo rumo à nave.

— Até breve, seu filho de uma Y’en¨shjadr#kh@… – Nyan murmurou entredentes, pensando se deveria quebrar o tratado de não interferência para dar uma chance de salvação a TX-918. Não percebeu, porém, que, durante a conversa, a camuflagem do traje havia se perdido.

— Cê tá muito louco na droga, tio?

— Pelo Grande Arquiteto, não encosta em mim não, menina! – Nyan assustou-se e quase caiu deitado ao sentir a garota lhe cutucar as nadadeiras.

— Que fantasia maneira, hein! – a menina sorriu, simpatizando-se com aquele sujeito esquisito.

— É… fan-fantasia maneira! A-agora eu tenho que ir! Tchau! – Nyan despediu-se, correndo de modo estabanado até imiscuir-se às sombras das árvores que ladeavam a praça e, então, desaparecer.

— Ei, moço, não vai embora! Qual é o seu nome? – a menina perguntou em direção ao lugar onde Nyan deveria estar. – O meu é Ana Carolina…

***

 Nyan até queria ajudar, mas não teria coragem de violar o tratado. Em sua solidão cósmica, refletiria sobre isso, torcendo pelo melhor, mas esperando o pior.

Na Terra, pouco antes de dormir em sua cama de papelão, Ana Carolina viu uma estrela cadente saindo da Lua. Mas não fez nenhum pedido. Em sua corrente sanguínea, circulavam vírus que por muito tempo haviam cavalgado em um meteoro e agora, finalmente, encontrariam nos neurônios humanos o hospedeiro perfeito. Naquela noite, Ana Carolina sonhou com cachorros e golfinhos voadores e, também, com naves espaciais gigantescas, impulsionadas por motores que ela poderia construir usando números e cálculos que até então nem sabia da existência. Em seus sonhos, ela também conseguia reverter uma tal entropia.

Seja lá o que isso quisesse dizer.

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Sobre Fabio Baptista

10 comentários em “A Aposta (Ana Carolina)

  1. Alessandro Diniz
    20 de setembro de 2018

    Oi, Ana Carolina! Achi seu conto fantástico! Acho que ele tem um pouco de tudo que cativa a leitura. Tem emoção, suspense, reviravolta. É um texto limpo, domínio do português ótimo. Gosto muito de ciência e suas referências sobre física fizeram-me sentir em casa. Parabéns!

  2. Antonio Stegues Batista
    17 de setembro de 2018

    Achei uma história genial, bem pensada, uma boa ideia. O autor, fez excelentes conexões de tempos e eventos, criou personagens interessantes, linguagem (deles) criveis com o faz de conta. Ficou sensacional a parte que os dois aliens vão ao primeiro planeta e ficam contaminados com o vírus e depois chegam à Terra e a menina ( a tal hospedeira) toca um deles e é contaminada pelo tal vírus, que lhe dá super inteligencia. Acho que essa é a parte forte do enredo. A visita dos aliens à Terra foi por acaso ou planejada pelo Grande Arquiteto? Muito bom. Mas acredito que o tal vírus já está em nós desde os tempos primitivos e tudo que aconteceu e acontecerá, máquinas fantásticas e viagens espaciais, já estavam planejadas. Boa sorte.

  3. Marco Aurélio Saraiva
    13 de setembro de 2018

    É um excelente conto, que faz o leitor pensar muito. Suas palavras criticam a base de muitos dos nossos conceitos de civilização e humanidade, enquanto ainda consegue ser divertido e intrigante. Seu estilo de escrita lembra um Guia do Mochileiro das Galáxias escrito de forma mais estruturada (isso é muito bom!).

    A maior crítica que vi no conto foi a critica a deus. A antiga questão “se deus existe, por que ele não impede as atrocidades de acontecerem?” é explorada aqui de forma criativa. Ao mesmo tempo, porém, você consegue deixar a questão em aberto, já que, no final, Ana Carolina poderia muito bem salvar a humanidade graças ao vírus que ela pegou de Nyan… o que, no final, pode muito bem ter sido a confirmação de que os planos dos Grandes Arquitetos são muito complexos para mentes mesmo tão avançadas quanto a de Nyan.

    Acho que a única parte ruim do conto foi o miolo um tanto panfletário. Suas críticas políticas e, em especial, à política brasileira, não foram nada sutis. Isso é um pouco amenizado pelo tom cômico do conto. Por exemplo, este é o segundo conto do desafio que eu leio que brinca com a URSAL, mas ao menos aqui o uso desse meme até que não impactou tanto na minha avaliação unicamente pelo fato do conto já ter um estilo cômico desde o início.

    Enfim, é um conto que agrada, te faz rir e te faz pensar, com um teor um tanto panfletário mas sem erros e muito bem escrito.

    Parabéns!

  4. Caio Freitas
    12 de setembro de 2018

    Olá Ana. Gosto muito quando o autor não entrega tudo, deixando para os leitores tirarem suas próprias conclusões (por exemplo se somos ou não um erro) e imaginar o que vem por aí (se o que o futuro reserva é bom ou não). Você conseguiu me deixar com essa sensação. Parabéns. Talvez o mais importante notar como a URSAL não se trata apenas da nova ordem mundial, mas da nova ordem galática. Obrigado pelo aviso e boa sorte no concurso.

  5. Wilson Barros
    11 de setembro de 2018

    O estilo é clássico, de Arthur Clarke, lembrei-me muito da “Missão de Salvamento”, com temática parecida, dos grandes contos de outrora. A história me pareceu muito boa,com ritmo, realmente eu estava curioso para saber o final. Os neologismos científicos, o formato dos seres, tudo ajudou no clima futurístico. A ideia encaixou muito bem, as apostas, os vírus, a “Missão de Salvamento”. As cenas foram bem elaboradas, o patrão exigente e a criança meiga. Foi com um enorme prazer que revi o tututututu-tutubarão, que tem um enorme coração. No meu tempo ele ria “nhac, nhac, nhac”, mas claro que com o passar dos séculos seu sotaque mudou. Conto muito divertido, parabéns.

  6. iolandinhapinheiro
    11 de setembro de 2018

    Olá, querido autor!

    Nossa! Adorei quase todo o seu texto! Eu ri me lembrando do Tutubarão cada vez que lia o nibiruriano falar “nak nak” no final das frases. Os diálogos são ótimos, os personagens são ultra cativantes, as conversas são muito humanas, a mistura de científico com coloquial ficou perfeita, li o seu conto sorrindo, feliz.

    Como nada nesta vida é perfeito (só Deus), achei a parte que enfatiza as relações sociais entre os seres humanas muito chatas, não por defeito do conto, ou de quem o escreveu, mas porque ando até as orelhas deste assunto em minha cabeça, e queria encontrar contos que não abordassem este tema. Não pense com isso que eu não seja uma pessoa preocupada com esta situação ou que não seja sensível às injustiças que tão evidentes e revoltantes no nosso mundo, apenas gostaria de não ter que lembrar disso enquanto lia o seu delicioso conto.

    O seu texto é muito fluído, sua trama é super interessante, seus personagens são maravilhosos, se houve erros de qualquer natureza eu nem percebi, suas descrições criaram ótimas cenas em minha cabeça e eu também torci para que a humanidade escapasse de todas as ameaças.

    Diante de tudo isso dou os meus parabéns e desejo muita sorte no desafio!

    Abraços da Iolandinha.

  7. Anderson Roberto do Rosario
    9 de setembro de 2018

    Um final em aberto, mas com a esperança de um futuro para a humanidade. Ao mesmo tempo uma análise filosófica sobre nossa espécie e sua ganância e poder de destruírem-se. Enfim, um conto gostoso de ler e com essa pegada filosófica, bem ponderada dos dois lados e bem conduzida através da aposta. Só acho que faltou sabermos mais sobre Nyan e sua relação com os terráqueos, até que o evento cataclísmico acontecesse. Parabéns e boa sorte no desafio.

  8. Priscila Pereira
    9 de setembro de 2018

    Olá Carol, ahhh que fofo o seu conto!! Amei!!
    Fiquei triste ao descobrir que faço parte da parcela menos favorecida que não tem acesso ao famoso sorvete de pistache, nunca provei, na minha cidade não tem isso não.. 😥
    Voltando ao seu conto… Achei muito interessante e bem escrito. Faz referência a eventos terráqueos e brasileiros sem soar panfletário ou partidário, muito bem!!!
    Um enredo divertido, mesmo assim faz pensar e de uma forma suave mostra que apesar de tudo a humanidade ainda tem esperança… Gosto disso! Bem, me ganhou inteiramente. Espero que esse conto seja de um de meus amigos, se não formos, tomara que possamos ser ainda.
    Parabéns e boa sorte!
    Até mais!

  9. Ricardo Gnecco Falco
    5 de setembro de 2018

    Olá Carol! Terminei agora de ler o seu conto e curti bastante a viagem! O começo da história é um pouco confuso, mas isso se deve mais aos neologismos e nomes próprios das personagens (alienígenas) do que ao enredo propriamente. Gostei da dinâmica, quase infantil, da narrativa (com relação à rotina das personagens, não ao vocabulário), que vai tratando de temas supostamente complexos de forma bem simplista, fornecendo um estranho conforto que, mais do que qualquer outra coisa, consegue aproximar o leitor daquilo que seria a rotina de seres extraterrenos, ‘superiores’ aos humanos. Não curti muito a tentativa de politizar a história (Ursal, eleições etc.), mas como a narrativa apenas circunda tal área (durante a visita da dupla de aliens), não chegou a conseguir estragar a obra e, com a ajuda de um sorvete de pistache, voltou ao seu eixo certeiro, temático. A descrição do relacionamento dos dois aliens apostadores (um confesso, o outro ainda enrustido) resultou em uma dinâmica que me fez lembrar de um filme com o Will Smith (e a ‘feiosa’ Margot Robbie), chamado “Golpe Duplo”; não que isso possua alguma ligação política… Mas, se estiver errado, então eu não quero estar certo. (rs!) Enfim, foi uma leitura gostosa e agradeço por você ter compartilhado a sua criação comigo (e com todos aqui)! Boa sorte no Desafio! Saudações,
    Paz e Bem!

  10. José Geraldo Gouvea (@jggouvea)
    2 de setembro de 2018

    Antes de começar a comentar, deixa eu dar uma gargalhada. Garota/o, eu vi o que você fez aí!

    Texto gostoso de ler, apesar de eu não ser favorável a usar sopas de letrinhas para dar nomes a personagens. A narrativa é interessante justamente porque começa nos causando estranhamento e vai, aos poucos, nos criando familiaridade.

    De início a gente odeia esses aliens, depois eles vão se aproximando da gente, ATÉ DEMAIS, né?

    Achei que o texto peca por uma pieguice inconsistente: se os aliens já não são capazes de amar, se já não têm sentimentos, como conseguem gostar de sorvete de pistache (como eu) e por que dão valor à atração da menina pelo cão? Seria mais legal se os sentimentos fossem algo que eles são forçados a reprimir ou se eles simplesmente os identificassem como maior marca civilizatória (posto que eles seriam a força capaz de reverter o egoísmo destruidor).

    Enfim, a história é boa, os personagens são em geral muito bons, mas essa inconsistência interna me incomodou. Talvez a/o autor/a não tenha ido por esse lado por amor de evitar a pieguice, mas não ficaria ruim se fosse bem dosado.

E Então? O que achou?

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Publicado em 1 de setembro de 2018 por em Alienígenas.