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Detox Literário.

Cida e a Televisão (Catarina Cunha)

Abrir um crediário é negócio complicado. Só por necessidade. A televisão, de imagem preta tremida e branca fora-de-foco, foi sendo invadida por um exército de fantasmas cinza e, assim, se anunciava o fim. Assistir novela das oito com fantasma é uma coisa,  mas os jogos da Copa é tortura! Já pensou ver os canarinhos cinza levantarem a taça preta? Uma TV nova seria um sonho, sonho que virou aflição quando, em plena final da Taça Guanabara, o Fogão ganhando de virada, a desgraçada foi fechando os olhinhos até ficar apenas uma linha triste de luz, último suspiro. Morreu de vez.

Foi coisa de urgência abrir o crediário complicado, mesmo escolhendo a televisão mais chinfrim da loja. Sorte a patroa ser gente boa na hora da precisão. Botou o nome lá,  mas exigiu que fosse coisa séria, tinha que pagar o carnê no dia certo e apresentar o comprovante à chefia. Se não, não tinha pagamento não. Estava certa ela, disse que tinha um nome a zelar. Eu estranhei, mas gente de posse tem até nome. Eu tenho uma TV a zelar. Patroa boa ela. Ficava meio tumultuado, mas eu, euzinha, paguei toda a televisão. Graças a Santa da minha patroa, a negada lá da comunidade ia ver a Copa do Mundo em cores e bem grande, como no cinema.

Quando a Televisão completou três meses de aniversário, o canal bom das novelas, o que agente mais vê nos domingos de jogos no Maracanã, foi ficando pálido, o som mirradinho, soltou um gritinho fino e apagou; em seguida, os outros canais também se calaram. Chamei o meu cunhado, rapaz jeitoso, pra ele dar uma olhada na antena da laje. Nada. Chamei a benzedeira, vai que é urucubaca? Nada. A patroa, deusa na terra, me vendo meio borocoxô, perguntou e eu falei:

-Ela morreu, a TV!

A patroa, sábia, contou da garantia, eu não tinha que pagar nada, era só chamar os técnicos.

O homem veio de uniforme azul, distinto, barbeado. Chegou com um papel grande, com meu nome em cima, com letras importantes. Tive que assinar, afinal era o meu nome e minha televisão. Mexe daqui, mexe dali. Tirou um monte de coisa e olhou, olhou, mexeu, mexeu, e eu ali, com pena da bichinha, toda depenada na frente de gente estranha. Fiquei mais aliviada quando ele botou a tampa e apertou o botão: Linda, cheia de vida e luz.

Para comemorar o feito, rolou uma feijoada na grande estreia do Brasil na Copa. A abertura tinha um gostinho doce de festa e logo contra aqueles gigantes vermelhos! O vizinho entrou com o torresmo, a terceira filha, ajuizada, com o arroz. O feijão, meu nego não deixa ninguém comprar no lugar dele, tem ciência. A couve, a patroa, alma imaculada, deixou incluir na feira. As carnes, a gente pega com seu Zé do Açougue que sempre vai nas nossas festas, enche os cornos e não paga nada. A cachaça e a cerveja nem precisa encomendar, alguém sempre leva.

A laje estava quente com o pagode rolando quando, chegada a hora de assistir a transmissão ao vivo, o caçula, menino ranhento, vindo fora do tempo, sem compostura, gritou: Cadê a Televisão? Sumiu, desapareceu no meio do festeio. Foi-se. Mas como se só tem gente da comunidade aqui? Procura daqui, procura dali, nada. O pagode parou e, todo mundo foi saindo de fininho procurar onde assistir o evento. Sobrou até feijão. Depois, o vazio encardido da parede da sala, o fio da extensão balançava sem nada a dizer. Depois da louça lavada, cacos e convidados varridos, ficou o vazio cansado. A Patroa, um amor de pessoa, não entende nada de televisão que some na comunidade: Falou de Polícia, Fada, Papai Noel, Justiça e Coragem. Vindo dela a gente entende.

Falando daqui e dali, fiquei sabendo que a minha televisão, por necessidade, poderia estar lá em cima, no alto do morro, entretendo os falcões, que não podiam abandonar o micro-ondas ligado. Tinham ordem de sair só quando o serviço estivesse terminado. Coisa de emergência, ficar sem ver o jogo, nem pensar.

Não vou admitir esse tipo indecência com a minha televisão de crediário pago como suor do meu rosto. É verdade. Vou tomar satisfação com a autoridade da área: um menino forte, bonito, mas que precisa ter ciência de que mãe da comunidade merece respeito. Onde já se viu tomar televisão de gente do bem na hora do jogo da seleção? Só dando uns sopapos nele pra ver se entra no prumo. O moleque mandou eu ir prá casa descansar, mas como eu não me aquietei, ele chamou os meganhas dele pra me calar.

Descansar é o caramba, eu quero a minha televisão! – Falei para a Patroa, linda, que o negócio estava difícil, sofri ameaça, saiu até no jornal que eu era meio doida querendo bater em meio mundo por causa de uma televisão que não se sabia nem se existia. Ela, mulher única, pensou, pensou, e achou melhor eu não trabalhar mais na casa dela, afinal, era perigoso, alguém poderia me achar lá e…Pah! Ela sempre pensou em mim, boa patroa. Ela me pagou todos os dias em que eu trabalhei e eu pensei: como eu tenho sorte. Tudo bem, eu não tenho trabalho,  mas tenho uma televisão. Não está aqui, mas é minha.

O meu caçula, o ranhento e feioso, me fez uma surpresa de encher os olhos: Apareceu no barraco com uma caixa tão grande que só dava para ver os cambitos dele por baixo. Disse que era presente. Abri a caixa e lá estava a televisão mais bonita do mundo, enorme, prateada, 29 polegadas, som estéreo e com um controle remoto cheio de botão. É verdade que ninguém, nem minha vó gagá, esperava nada daquele estrupício. Deus é pai e a ex-patroa é Santa. O meu caçula, feito numa noite úmida e bêbada, trouxe, como um príncipe encantado, a Copa do Mundo dos meus sonhos. Ele subiu na vida, agora é trabalhador. Tem ofício lá em cima, no micro-ondas. E nada nos faltará.

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9 comentários em “Cida e a Televisão (Catarina Cunha)

  1. Leo Jardim
    5 de junho de 2018

    Ótimo conto. Oq mais gostei foram as críticas implícitas no conto, um drama contado como comédia. Aquele jeito gostoso de falar sobre coisa séria, tipo Bichoman.

    Mais um conto “de fora pra dentro”, uma leitura do mundo real, especialidade da nossa Madame Cat. Parabéns!

  2. Pedro Luna (@P3droluna)
    5 de junho de 2018

    Belo texto. Divertido e com aqueles soquinhos no estômago distribuídos ao longo. A turma do micro-ondas daqui onde vivo sempre banca umas festanças na hora da copa, com direto a TV gigante.

  3. Gustavo Araujo
    1 de junho de 2018

    Ótimo conto, com aquele estilo típico de falar de coisas sérias mesmo fazendo graça. A realidade da Copa em um mundo que não pára. Excelente!

  4. Cilas Medi
    31 de maio de 2018

    Excelente. Sempre se arruma um jeito, habilidoso e coerente dentro da comunidade, de assistir aos jogos da seleção. Abraços.

  5. Juliana Calafange
    30 de maio de 2018

    Q delícia, Catarina. Dei risada, mas me emocionei tb. Pq vc pegou de forma muito bonita o tom da sua protagonista. A vida é uma merda, mas a patroa é uma santa e o q importa é o futebol. Ainda bem q vc não foi até o fim da copa, pq eu já tava imaginando aqui: depois de tudo Isso, tomar de 7 a 1 da Alemanha…

  6. Tamires de Carvalho
    30 de maio de 2018

    Simplesmente maravilhoso, adorei! Irônico na medida certe e bastante divertido. O final foi o que eu mais gostei. Parabéns!

  7. Fabio Baptista
    30 de maio de 2018

    Muito bom!

    Eu li com a voz mental da Cat! huahuahua

  8. Antonio Stegues Batista
    30 de maio de 2018

    Excelente! Como sempre, Catarina sarcástica. Imagino que o “micro ondas” é aquela fogueirinha feita com pneus.

  9. rubemcabral
    30 de maio de 2018

    Olá, Catarina.

    Bem divertido e irônico o conto! Bem carioca tbm, com todas as referências aos times, à cultura do morro (samba, feijão, festa), inclusive à moralidade dúbia (bandido mau x bandido bom), etc.

    Vi um “agente” onde deveria ser “a gente”, fora isso o texto tá muito bem escrito.

    Abraços!

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Informação

Publicado às 30 de maio de 2018 por em Copa do Mundo e marcado .