EntreContos

Detox Literário.

Mark & Cynthia – Conto (Moises Soares)

“Eu não gostava muito dela mesmo, era cínica e pueril, que combinação terrível, não sei como pude me apaixonar por aquela vaca… que porra eu vou fazer agora? Ainda é cedo… engraçado que eu sempre me importei com ela… que se foda, uma vaca estúpida é isso que ela é, que sofra…”. Caminhava pelos arredores da … avenue, lembrou-se que havia um clube de blues não muito longe dali, “por onde anda aquele puto do Bill, é um bastardo estúpido, mas gosto dele… essa vadia não sai da minha cabeça… depois de amanhã vence meu aluguel, ainda mais essa! Aquela velha escrota, não vai sair de meu pé até eu pagar, vou fazê-la esperar…”. Adentrou o ambiente sombrio e esfumaçado. Tocava uma banda qualquer, uma música que não conhecia, foi andando até o bar, sentou-se, o barman deu boa noite e perguntou o que ia ser pra´quela noite.

– Uísque duplo, sem gelo – respondeu Mark.

Puxou um cinzeiro e acendeu um cigarro, o bar não estava tão cheio, havia uma loira, do seu lado esquerdo, fumando um cigarro e tomando o que parecia ser um Martini, mais ao longe, um negro, que parecia cansado, tomando uma cerveja e preocupado com seus próprios pensamentos. Nas mesas do bar o som das conversas o fizeram lembrar de Cynthia, tratou de esquecer, esvaziou seu copo de uísque e pediu outro.

Conhecera-a num bar como aquele, estava sentado no balcão e percebeu que alguém olhava pra ele, virou-se pra esquerda e ela o olhava com ar de galhofa e desejo dissimulado, com um tempo de relacionamento, no inconsciente de  Cynthia, surgiu algo, algo inaudito, despertar um sentimento de amor universal nele, através de provocações que o levasse ao ódio e fazer com que ele conseguisse enxergar o oposto. Ela tinha uma angústia latente, do tipo que move os seres humanos, provavelmente foi isso que atraiu Mark, ele a queria ajudar, e essa intenção só o atrapalhou. O relacionamento deles era estranho, como se os dois quisessem uma coisa um do outro e nunca conseguissem obter, até que ela cansou e resolveu terminar, desistiu dele, e lá estava Mark agora sem entender o ‘por quê’ de não a ter conseguido ajudar.

A banda começou a tocar “To Miss New Orleans.”, Mark elogiou o cara do sax, que fez um solo introdutório muito bem arranjado, o garçom ouviu, chegou mais perto e iniciou um dialogo:

– Você parece triste, cara. Que é que há?

– Uma menina terminou comigo há uns três dias. – Respondeu Mark.

– Por quê? – Perguntou o garçom.

– Sei lá, não disse. Disse que não sabia.

– Quem entende as mulheres? – Disse o garçom.

– Mulheres podem ser umas vadias.

– É o que dizem – Disse o garçom e foi atender ao chamado do negro.

A banda acaba a música e o solo inicial da seguinte anima Mark, ouve-se um “uhuuu!”, vindo de alguém que está em uma das mesas, e ele cantarolou junto com a banda:

Well gonna write a little letter, gonna mail it to my local D.J., It’s a rockin’ little record I want my jockey to play. – acena para o garçom para o chamar e pede – me traz uma bud, cara?

Tomou mais duas cervejas, pagou a conta e saiu para ir pra casa. Estava levemente bêbado, seus pensamentos estavam mais claros. Tinha que atravessar um parque pra chegar ao metrô. Foi andando com as mãos nos bolsos e pensando diversas coisas, estava com um ar mais divertido agora, estava se divertindo com os próprios pensamentos, passou por uma turma de jovens que tocava violão e cantavam, achou graça, não soube bem de quê. Ia passando, meio distraído, quando pareceu ouvir seu nome:

– Mark!  

Estava mesmo sendo chamado. Era Audrey, amiga de Cynthia, ele a olhou e o semblante de Mark ficou confuso por um instante, ela estava visivelmente triste, como alguém que tinha acabado de chorar, ele se aproximou, estendeu a mão para cumprimenta-la e sentou-se ao seu lado:

– Oi – Disse.

– Oi. – Respondeu Cyntia. – Audrey se matou – falou de chofre.

– Quê? – Perguntou sem entender ainda Mark.

– Vou ter que repetir? – Audrey estava nervosa.

“por essa eu não esperava… Se matou, como assim?…”, pensou Mark.

– não é que eu só… eu não acredito. –  E continuou a pensar: ”… irei me culpar por isso, mais tarde, eu sei…”

– Pois acredite, ninguém esperava, mas… – E não completou.

“… que droga, eu também não esperava, mas pelo visto… Será que ela deixou alguma carta?…”

– Ela deixou alguma carta?

– Deixou. – Disse Audrey. – “… O que será que havia na carta?…”

– Você leu?

– Li.

“… Será que falava algo sobre mim?…”

– Ela me menciona em algum momento? – Disse atabalhoadamente Mark e pensou: “ … Acho que não, por que mencionaria?…”

– Nem em uma linha. – Respondeu.

“… Acho que ainda assim ela me culpa, o que será que havia na carta?…”

– O que ela dizia na carta, você lembra? – Perguntou Mark.

– Dizia que estava cansada, cansada de tudo, que o mundo lhe parecia cinza e que estava cansada de estar só, mesmo acompanhada e que sentia que no mundo era como se ninguém notasse ninguém, que só havia um bando de egoístas preocupados com o próprio rabo… Dizia mais coisas, mas o que me lembro agora é isso.

“… ‘egoístas preocupados com o próprio rabo’ …É verdade, é foda isso!….”

– Me abraça. – disse Audrey com a voz chorosa. E ele a abraçou.

Ficaram em silencio, por alguns minutos, Audrey com lágrimas de tristeza e saudades caindo dos olhos e ele pensando…

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Informação

Publicado às 21 de maio de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .