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As Cem Melhores Crônicas Brasileiras – Resenha (Angelo Rodrigues)

Como todo livro-seleção, este não se diferencia de tantos: está submerso no gosto de quem seleciona. Isso não é ruim se for bom o selecionador. E Joaquim Ferreira dos Santos não erra a mão.

Dividido em períodos, alguns longos demais, pode-se inferir que no livro caberiam mais cronistas ou crônicas. Mesmo assim não erra a mão.

Um livro que nos deixa conhecer o que era pensado no Brasil, passados tantos anos (1850 até o ano de 2004).

Assim como escolheu o autor os cronistas e suas crônicas, escolho aqui dois caminhos para tratar essas crônicas. Uma delas é para ver como é volátil o homem e seu pensamento.

Se hoje podemos dizer que “isso é assim”, parece que amanhã estaremos fadados a dizer “isso não pode ser assim”, e para o mesmo evento. E não veremos nada de estranho em ser assim que o mundo funciona. É de natureza. Senão do mundo, certamente das pessoas.

Arte, racismo, sexualidade, gênero, cor, moda, doce, azedo, enfim, tudo que é humano é móvel, volátil, passageiro como nós o somos no tempo. Duro é ver isso, exatamente, no seu próprio tempo.

O que as crônicas nos dizem? Acredito que algo assim: Não olhe nada como definitivo. Absolutamente nada.

As crônicas são boas em tratar desses caminhos. Se por um lado deixam no seu tempo uma opinião do cronista, num tempo futuro permitem que se perceba em que direção a sociedade reescreveu suas escolhas. E não se espante se tudo virar de cabeça para baixo, ou para o lado, esquerda ou direita. Tudo é possível. Até o que nos diziam impossível.

Um cronista, contista, escritor, de modo geral, escreve para o seu tempo – ou deveria escrever para o seu tempo –, mas escreve, também, para ser observado lá do futuro, quando se olhará para o passado buscando saber das transformações sociais, culturais, enfim, das escolhas que fazemos no tempo. Um compromisso.

Bem, talvez haja um segredo nessas observações. Uma delas é: seja atemporal, assim como o mundano e amplo também é local.

O tempo rói, consome e destrói a tessitura de tudo e põe abaixo o que não é sólido o bastante. A realidade é uma construção social. Se muda a sociedade, muda também a realidade.

As crônicas dizem mais: Realidade? Sei não, tenho dúvidas.

Por dois motivos é um livro maravilhoso.

Tem o resgate de textos (crônicas ou contos, tanto faz) esquecidos.

Não deveriam ter sido esquecidos. 

Um primeiro motivo:

Houve um tempo em que escrever, de modo geral, era filosofar. O escritor era um cara que pensava, não apenas criava circunstâncias, tramas, universos, mas pensava, ou tentava pensar o mais profundamente que lhe fosse possível (acho que isso já pode ser chamado de filosofar). Esse é um ponto bastante visível nas crônicas selecionadas. Bem, até certo ponto.

O livro organizado por Joaquim Ferreira dos Santos nos deixa conhecer muitas pérolas acerca do que era pensado no passado (algumas bem esquisitas), o que era “normal”. Vejamos:

Machado de Assis: 

O Câmbio e as pombas:

“Vinha de dentro um fedor judaico de entontecer, mas a vista das libras restituía o equilíbrio ao cérebro, e fazia-me parar, mirar, cobiçar…”

Um texto como este faria com que Machado de Assim amargasse algumas boas arengas. Hoje, claro. No passado era uma voz corrente o preconceito contra os judeus. Ah, sim, contra os negros, os mulatos, os amarelos, os azuis ou rosa. Havia um gosto pela seleção. Este sim, aquele não, bem me quer, mal me quer, e o mundo seguia com muitos sofrendo e uns poucos fazendo sofrer. O ano era 1896, então tudo bem. As coisas funcionavam assim, diz a crônica.

Olavo Bilac: 

As cartomantes: “Há quem pense que, com o progredir da civilização, diminui o número dos supersticiosos. Completa ilusão. Nunca houve tantos supersticiosos e tantas superstições como agora. A civilização causa o naufrágio e a bancarrota das religiões, mas não aplaca esta sede de saber e esta ânsia de compreender que ainda não foram satisfeitas. Morrem e sucedem-se as religiões, mas não se altera o instinto religioso; reformam-se, mas a Superstição é eterna.”

Não há relato do ano, mas pertence ao século XIX.

Bilac tem uma boa sacado acerca do humano. Não lute contra aquilo que é essencialmente… humano. Se um dia foi a escuridão a assolar o homem, assolam-no agora os excessos da luz. Assombro é a palavra. E tudo diante do mundo. Exatamente do humano.

João do Rio:

De tão bom cronista que foi, João do Rio merecia o livro inteiro. Mas ficamos com a crônica A Queixa do Defunto:

“Esta rua foi calçada há perto de cinquenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora. Desta forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.

Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:

– Que diabo é isso? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado – como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?

Expliquei-lhe, mas não me quis entender e mandou que me fosse purificar um pouco no Inferno.

Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc.”

Não há a data do escrito. Pertence ao século XIX, talvez iniciozinho do XX. Diz dos mortos que vivem de novo e dos caldeirões enormes nas ruas que nunca morrem. Estão aí, por todas as ruas e avenidas do país, ressuscitados e felizes a infernizar a vida de todo mundo depois de um século.

Vinícius de Moraes:

Batizado na Penha:

“Conosco ia Leonor, uma pretinha de uns cinco anos, cria da casa de meus avós paternos. Leonor era como um brinquedo para nós da família. Pintávamos com ela e a adorávamos, pois era danada de bonitinha, com as trancinhas espetadas e os dentinhos muito brancos no rosto feliz. Para mim Leonor exercia uma função que considero básica e pela qual lhe pagava quatrocentos réis, dos grandes, de cada vez: coçar-me as costas e os pés.”

Não há data no escrito, mas é posterior a 1950, talvez logo. Vinícius também poderia amargar desacertos com este texto (a sua pretinha era um brinquedo).

Imaginei-o um senhor de negros com um deles, uma menina pretinha a lhe coçar os pés e as costas.

Era uma época em que se traziam negros e mulatos do interior dos estados brasileiros para servir nas casas dos brancos com algum dinheiro (às vezes nem tanto) para que trabalhassem diuturnamente em seus lares. A paga era viver numa cidade grande, normalmente sem educação, lazer, nada, era apenas a roupa e a comida.

Curiosamente ainda rolam essas pessoas aqui em Copacabana, onde velhas negras cuidam de velhas brancas a preço de roupa e comida, exiladas em seus apartamentos.

Começaram assim quando ambas, a negra e a branca, ainda eram crianças. E o mundo segue.

Marques Rebelo:

Página das páginas:

“A vitória do grande escritor consiste em nunca ter escrito. Promete uma novela, ora biográfica, ora fantástica, o herói ora sendo homem, ora sendo flor.”

Sem data do escrito. Pertence ao período posterior a 1950. Boa sacada de Rebelo.

Rubem Braga:

Os amantes:

”Que importa a uma grande cidade que haja apartamento fechado em algum de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho.”

Escrito em 1952.

Nelson Rodrigues:
Flor da obsessão: “E, aliás, que seria de mim, que seria de nós, se não fossem três ou quatro ideias fixas? Repito – não há santo, herói, gênio ou pulha sem ideias fixas. Só os imbecis não as têm.”

Bem, aqui temos Nelson sendo absolutamente Nelson Rodrigues: genial.

Haveria mais a entediá-los, se os citasse. Fico por aqui.

Um outro motivo pelo qual o livro é maravilhoso:

Como disse que um dos motivos de o livro ser bom era exatamente porque retratava, nas crônicas antigas, a vontade de pensar, de filosofar, de pensar mais profundamente. Isto é notório no livro, mas, de repente, abandonou-se essa ideia para se fixar…. na graça, no riso. 

Como o organizador entendeu que deveria segmentar os textos por décadas, ficou claro que a partir dos anos 1970/80 (isso, por óbvio, tem uma explicação), todos, ou quase todos os cronistas, abdicam de filosofar para se dedicar ao riso, a fazer uma graça, ou simplesmente contar uma história (parece que optam por se tornarem contistas e não cronistas).

Tudo é muito engraçado. O mundo é engraçado, e se não é, vamos torná-lo engraçado.

É interessante perceber que os cronistas fizeram um percurso aristotélico e optaram por se fixar no Livro II da Poética, na Comédia. 
Quem não é um cronista engraçado não é mais um cronista, é apenas um cara que escreve, talvez um chato.

É quando ganham espaço: José Carlos Oliveira, João Saldanha, Caetano Veloso, Millôr Fernandes, Luiz Fernando Veríssimo, Aldir Blanc. Estão lá também Clarice Lispector, Moacyr Scliar, Ligia Fagundes Telles. Não faltaram Danuza Leão, Tutty Vasques, Martha Medeiros.

Não estou a falar que são iguais ou diferentes, bons ou ruins, mas das escolhas que fizeram quando redigiram suas crônicas. Não é disso que falo, da qualidade, e sim das escolhas.

Falo de pensar o tempo e não apenas contar uma história. Pensar o tempo é crônica. Fazer assim seria escrever uma crônica.

Vale muito ler e conhecer o livro.

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Publicado às 14 de fevereiro de 2018 por em Resenhas e marcado , .