EntreContos

Detox Literário.

Moleque Bamba – Conto (Givago Thimoti)

– Zeca, o seu avô vai cuidar de você, ouviu? Não quero saber mais de problema! Se comporte bem!

– OK, mamãe. Vou me comportar, prometo.

O olhar da dona Maria indicava que ela não acreditava no que acabei de falar. Vovô resolveu apoiar minha fala e disse:

– Filha, não se preocupa. Pode ir viajar sossegada. Zeca não vai aprontar. Eu te garanto.

Minha mãe assenti u, confiando no vovô Geraldo.

– No mais tardar, domingo, eu estou de volta.

– OK, filha. Fique o tempo que for preciso em Rio Bonito.

A última coisa que ela disse antes de cair na estrada foi:

– Ligo quando chegar na casa de Mimi. Tchau!

Observei minha mãe sair da garagem apertada da casa do vovô. Suspirei, pensando no que faria agora; poderia jogar bola com os garotos da rua, mas eles não eram tão legais quanto aos meus amigos lá do morro. Na verdade, toda vez que eu jogava com eles, dava confusão. E depois do que aprontei hoje, não podia vacilar. Mais uma, e minha mãe comia o meu couro.

O Sol começava a cair, mas o calor não dava trégua. Eu me joguei no sofá, tomado pela lombeira, enquanto vovô lia a seção de esportes do jornal.

– Zeca, viu o jogo do Flamengo na quarta-feira?

– Vi.

– Aquele Pepê joga muito. Camisa 10 clássico, joga de cabeça erguida, não foge dos zagueiros, chuta bem. A bola cola no pé dele. Deveria ser promovido logo aos profissionais.

– Melhor não. Do jeito que o time está jogando, é mais uma prata da casa queimada pela torcida.

– Besteira. Na minha época não tinha isso. Se o moleque é bom, ele entra, joga e pronto. É assim que se faz…

Me perdi no que vovô falava. Acho que era alguma reclamação sobre o técnico do time. Para ser sincero, eu até concordava com o meu avô, mas, não me importava muito no momento. A memória da bronca da minha mãe voltava sempre para os meus pensamentos.

– O que você aprontou, Zeca?

– Oi?

– Te perguntei o que você aprontou.

Mordi o lábio inferior, desejando que meu avô não tivesse perguntado aquilo. Raramente sentia vergonha dos meus atos, porém, nunca vi mamãe tão possessa. Sua voz tremia enquanto ela me dava a bronca, quase beirando uma histeria.

– Eu e uns amigos estávamos jogando futebol e apostamos uma Guaravita e um Biscoito Globo que ganharíamos de uns moleques meio barras-pesadas. Depois da goleada, tiramos sarra da cara deles e… Bom, eles não gostaram.

Pensei que meu avô iria me dar uma bronca, assim como a mamãe. Entretanto, ele chorou de rir, mostrando seus dentes amarelos e um tanto desalinhados.

– Moleque atrevido. Seu pai fazia a mesma coisa, Zeca. Quantas vezes bati nele por isso… Coisa de garoto. Só não faz mais isso, você preocupou muito sua mãe.

Assenti, um tanto envergonhado. Definitivamente, não era a primeira vez que aprontei. Os nossos vizinhos me chamavam de Zecapeta. Nunca me importei. Para ser sincero, eu até gostava do apelido. Era como se trouxesse algo para mim, algo diferente. Eu me sentia tão animado fazendo minhas artes.

Mamãe dizia que eu fazia papel de palhaço, sempre tentando arrancar os risos dos meus amigos. Detestava ouvir aquilo. Para mim, ela não entendia. Eu me divertia com eles. “Nossa missão é diversão” como dizia o Neca. Tinha dias que nos bastava jogar uma bola ou brincar de gude. Mas também tinha dias que queríamos pregar peças nos outros. Tudo pela nossa diversão.

Quando o relógio bateu 20h, pensei: “Bom, agora o vovô vai fazer a janta, ouvir um pouco do rádio e dormir”. Eu estava de férias e ia dormir somente à meia-noite, quando mamãe chegava do serviço. Imaginei que seria horrível esperar o meu sono chegar. Seria muito arriscado sair de casa, enquanto o vovô dormisse. E se ele acordasse e não me visse na cama? Pior, e se minha mãe aparecesse de surpresa? Mesmo imaginando que eu conseguisse escapar de fininho, quem iria passar tempo comigo? Os moleques dessa rua são muito certinhos, jamais se arriscariam.

Suspirei entediado e dei uma analisada na sala. Meu avô havia deixado o jornal na mesinha de centro, caso eu quisesse dar uma lida. A televisão mostrava a cena do casal principal da novela. Pela janela, entrava poeira, mosquito e nada de brisa.

Geralmente a casa do vovô não era silenciosa. A Via Dutra não ficava muito distante e o fluxo de caminhões era constante. Talvez fosse a primeira vez que eu escutava uma espécie de calma. Por um momento, acreditei que ele tinha ido dormir, esquecendo de fazer a janta.

Movido mais pelo egoísmo do que por qualquer outra coisa, levantei do sofá pela primeira vez em umas três horas e procurei ele. Meu avô estava no quarto, se encarando no espelho, completamente arrumado. As roupas dele eram simples e não deviam ter custado muito. Para ser sincero, deviam ser muito baratas, porém, ele esbanjava elegância.

– Vô, por que você está arrumado?

Seu Geraldo olhou para mim com um ar travesso, sorriso de canto de boca:

– Zeca, nós vamos sair. Chega de ficar no sofá. Parece um inválido.

Vovô usava uma calça branca, um tanto desgastada, e uma camisa de botão azul-escuro. Ele ostentava um ar irônico, despreocupado.

– Para onde vamos sair?

– Jantar, Zeca. Agora, vai se arrumar.

Enrolei para tomar banho, escolher uma roupa e até calçar os tênis. Na minha cabeça, imaginei qual era o plano do meu avô. Uma sopa com outros velhinhos? Missa?

Quando fiquei pronto, vovô já estava no carro, totalmente animado.

– Você vai adorar a surpresa.

Tentei esconder, mas eu estava atiçado pela curiosidade. Minha mente viajava nas possibilidades. E o vovô sentia isso, se divertindo com o efeito que causou em mim.

– Quando chegarmos ao terreiro, eu quero que você relaxe. Está tudo no nosso sangue. Vai sair naturalmente.

Estávamos em Madureira. Vovô dirigia seu Chevette preto com tranquilidade, entrando e virando pelas ruas como se mandasse no lugar. Era impressionante. Ele apoiava o pulso no volante, deixando a mão solta. Balançava a cabeça, cantando baixinho uma música que eu nunca tinha ouvido. Então, sorriu para mim.

Finalmente, paramos na frente de uma casa. Havia algo dentro que me chamava e me puxava. Não era assustador, nenhum pouco. Eu sentia aquela força dentro de mim, com um grande poder transformador.

– Zeca, não se esqueça; vai sair naturalmente.

Meu avô ignorou as regras e abriu a porta de ferro. Com a cabeça, fez um sinal para que eu entrasse. Ouvi as batucadas vindas do fundo do terreno me convidando para a nova religião.

Passamos por dentro da casa. Estava tudo escuro, não deu para ver como era. Se bem que, talvez estivesse claro, mas eu não queria enxergar. Dentro de mim, entendi que havia coisas melhores para serem admiradas.

Como eu estava certo.

As luzes, vindas das lâmpadas presas em cordas, causaram desconforto no meu olhar. Notei que elas estavam postas no alto, delimitando o quintal. Era como se eu entrasse num local especial e aquele brilho fosse a purificação em forma de energia.

O incômodo causado pela luz passou rápido. Eu estava numa festa, porém, nunca havia visto algo parecido. Aparentemente, tudo estava normal. As pessoas tomavam cerveja, conversavam, riam, brincavam, comiam. Mas tinha algo diferente no ar.

Era, sem sombra de dúvidas, a música.

– Zeca, aproveite sua primeira roda de samba. – Ao longe, ouvi a voz do meu avô.

Sim, era a minha primeira vez. Obviamente, já tinha escutado samba. Porém, não é sempre que você entende o chamado. Às vezes, você ignora ou não aceita. São casos e mais casos e tudo depende de mínimos detalhes. E, que meu santo me livre, nem sempre você recebe a mensagem.

Pois é, agora, deu tudo certo. Agora, eu me encontrei.

Vovô me apresentou para outras pessoas. A que eu mais me lembro foi a Mãe Naná. Ela tinha a pele preta enrugada, usava um vestido branco decorado por todo o pano. Seu rosto era bondoso e sereno.

– Bença, Mãe Naná. – A senhora esticou a mão direita e meu avô beijou.

– Geraldo, quanto tempo!

– Eu estive ocupado esses dias, Mãe. Perdoe-me!

– Ora, essas coisas acontecem. Fico feliz de ter ver aqui. – A senhora abriu um sorriso, deixando claro que não era problema algum. Minha presença era ignorada até aquele momento. Mãe Naná, aparentemente, notou o erro e se voltou para mim, perguntando: – E quem é este garoto?

Antes que meu avô respondesse, me apresentei:

– Meu nome é Zeca. Sou neto do seu Geraldo.

Mãe Naná pareceu gostar de mim. Ela manteve o sorriso e, com a mão, encostou na minha bochecha como se encostasse em algo extremamente frágil.

– Seja bem-vindo, garoto. Come um pouco da feijoada e aproveite o samba.

Graças à feijoada, pude sentar e observar melhor. Mais ou menos no centro do quintal, a roda de samba estava formada. Era uma mistura completa. Homens de todas as idades cantavam e tocavam seus tantãs, cavacos, cuícas, tamborins, pandeiros, reco-recos. Apenas um deles usava um violão. No centro, mulheres e outros homens sambavam, prendendo minha atenção completamente.

Os movimentos eram tão naturais, pareciam que sambavam em vidas passadas.  

Não demorou muito, e eu caí no samba. No início, tentei imitar os movimentos. Imaginava os pés indo e voltando, enquanto o corpo se soltava ia de um lado para o outro. Uma vozinha dentro de mim dizia que eu sambava errado. Imediatamente, vovô surgia na minha consciência e rebatia: “Está no seu sangue!”

Um dos homens da roda anunciou o meu avô:

– Gegê da Portela, por favor, dá uma canja aí!

 Seu Geraldo sorriu diante da apresentação. Igual um rei, ele tomou seu lugar na roda, sentou-se perto de um dos moços que batiam no pandeiro e começou uma música:  

Numa estrada desta vida
Eu te conheci, oh flor
Vinhas tão desiludida
Mal sucedida por um falso amor

 

A voz do meu avô não era um primor técnico, entretanto, era o suficiente para encantar as pessoas e fazer com que elas, inclusive eu, acompanhassem a letra:

Agora

Uma enorme paixão me devora
A alegria partiu, foi embora
Não sei viver sem teu amor
Sozinho curto a minha dor.

Eventualmente, também entrei na roda. Não pensei em nada. Só senti a letra invadir os meus ouvidos e levar o meu corpo como um rio com correntezas levam as pedras, galhos e tudo o que estiver nele.

A confiança tomava conta de mim. Vovô nunca esteve tão certo. Sim, estava gravado no sangue, nos ossos, nos músculos, na memória, na alma. Uma moça morena olhou para mim e disse:

– Que moleque bamba!

Por mais que a música fosse triste, era fantástico ver as pessoas sambando e cantando com… Bom, com vida e harmonia. Algumas até trocavam uns beijos e caricias. Outros trocavam sorrisos desavergonhados. Uma mulher mesmo jogou os braços ao céu, abaixando a cabeça como se recebesse algo perfeito e tivesse que agradecer aos Deuses da Música.

Meu avô sorria, esbanjando brilho no olhar. Ele não era o único, definitivamente. Não tinha tristeza que vencesse a energia do lugar.

Por mais que as pessoas estivessem extremamente animadas quando meu avô cantava, talvez pela idade, ele pulava algumas músicas, cedendo espaço para os mais novos. Com um copo de cerveja, analisava, com os seus olhos castanhos, as pessoas da roda. Flagrei o velho Gegê conversando ao pé do ouvido com uma senhora de uma idade próxima. Ela ria muito e, depois de tanta insistência, jogou os braços em volta do pescoço dele, enquanto dançavam agarrados. Mamãe vivia dizendo que ele precisava de uma companheira.

Em algum ponto da noite, ele se aproximou de mim e disse, com alegria e humildade:

– Zeca, é isso que você está vendo. Sinceramente, esse é o único presente que posso te dar. Mas, sendo mais honesto contigo, esse é o único presente que quero te passar.

Não lembro de ter agradecido. Nem sei se era preciso. Vovô costumava adivinhar o quê eu pensava. Ou pelo menos era assim que eu sentia.

 

Fim da tempestade
O sol nascerá,
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar.

A sorrir
Eu pretendo levar a vida,
Pois chorando
Eu vi a mocidade perdida.

 

Era lindo de se ver. Era lindo de participar. Era a magia alegre dos bambas.

Anúncios

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Informação

Publicado às 2 de fevereiro de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .