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Detox Literário.

“O Artilheiro” de Gustavo Araujo – Resenha (Fabio Baptista)

“Fio Maravilha, nós gostamos de você

Fio Maravilha, faz mais um pra gente ver”

 

“O Artilheiro” é o primeiro romance escrito por Gustavo Araujo. O livro ficou entre os finalistas do concorrido Prêmio Sesc (edição 2009) e, apesar de alguns pontos que considerei falhos, certamente revela um escritor muito acima da média.

A história se passa nos tempos da ditadura (assunto revisitado por Gustavo em seu segundo romance, “Pretérito Imperfeito”) e é contada de modo claro e objetivo, sem floreios, característica marcante na prosa do autor. A trama é simples e segue um fluxo bastante linear, quase como se fosse um conto de duzentas páginas (quem conhece a perícia do autor com os contos, sabe que isso é um elogio). Não enxergo a simplicidade/linearidade como defeito – sempre digo que antes uma história simples e bem contada (como é o caso aqui) do que uma história cheia de reviravoltas forçadas.

Nosso protagonista é Aurélio, o Lelo, filho de militar, garoto comum que brinca na rua com os amigos e sonha em ser jogador do seu time de coração, o Flamengo (ninguém é perfeito). Num dia qualquer, após uma disputa de embaixadinhas, a bola de Lelo cai no quintal de um escritório de engenharia e ele vai até lá buscá-la. Então, descobre que não eram bem engenheiros que estavam ali e que os planos traçados naquela casa não envolviam exatamente a construção de pontes, prédios e afins. Contar além desse plot já seria spoiler, mas posso adiantar que, mesmo um pouco previsível, há mistério suficiente em torno dessa casa e dos “engenheiros” para segurar a atenção até a última página.

Os pontos que não gostei: a idade dos garotos não me convenceu. Por muitas vezes, pareciam bem mais maduros do que os oito / nove anos descritos. Boa parte dessa impressão foi causada pelo ponto que menos me agradou na obra: os diálogos. Praticamente todos, adultos, velhos e crianças, falam da mesma forma. Sei que muitos leitores preferem diálogos mais formais e provavelmente esse não será um problema para a maioria, mas eu gosto de trejeitos específicos de fala, gírias e elementos que me ajudem a ouvir a “voz” dos personagens. E eu não senti isso com nenhum personagem aqui, com exceção talvez ao avô de Lelo. A amizade dos garotos também me pareceu um tanto genérica, sem muitos traços marcantes até perto do final, quando Lelo e Kike jogam futebol de botão e daí sim são convincentes como melhores amigos. Terminando o meu momento ranzinza, devo dizer que me incomodei em alguns pontos com os dados históricos informados pelo autor. Não é nada que atrapalhe a fluidez do texto, mas me deixou com a impressão de quando o escritor se empolga com a pesquisa realizada e acaba inserindo elementos que não se mesclam de forma orgânica à narrativa e principalmente aos (novamente eles) diálogos.

Deixei o que gostei por último para acabar a crítica de modo positivo, pois foi com esse sentimento que terminei a leitura. Gustavo é muito bom em criar situações nostálgicas e não que eu seja saudosista (até porque os saudosistas de hoje em dia não valem nada… os de antigamente sim eram bons!), mas tenho uma queda por esse tipo de ambientação. É impossível não se lembrar da própria infância em algum momento durante a leitura e flagrar-se com um sorriso bobo no rosto ao fazer isso. O desfecho da história tem um ritmo frenético, contrastando com a cadência empregada até então e gerando um sentimento gostoso de “puta que pariu, ele tá tentando me enganar, mas eu acho que já sei o que vai acontecer e tenho que terminar de ler isso hoje pra confirmar, dane-se o despertador amanhã!!!”. Destaque também para o título do livro, que aparenta obviedade, mas acaba se revelando uma grata surpresa.

Finalmente, para quem não sabe, o autor é conhecido pela habilidade de trazer lágrimas aos olhos dos leitores desavisados (e dos avisados também). Eu não me lembro de ter chorado em nenhum livro e não chorei nesse também, mas teve uma cena em particular que me pegou desprevenido. É algo que provavelmente soará bobo para 99% dos leitores, mas que para mim teve um impacto muito grande. Em determinado trecho, quando eu reclamava mentalmente sobre a uniformidade dos diálogos, vem o pai do Lelo e fala algo do tipo “então, Lelo… o que acha de irmos assistir ao jogo do Flamengo no Maracanã?”. Porra… isso reverberou lá no fundo da alma, pois me lembrei (da melhor maneira que podemos nos lembrar de alguma coisa: com o coração) do quanto eu ficava feliz quando meu pai me levava ao Morumbi. Não foi um golpe de sorte de uma frase jogada ao acaso – esse tipo de conexão emocional só ocorre quando estamos imersos na obra e essa imersão só é conquistada por autores talentosos. O capítulo seguinte, descrevendo o jogo, foi o meu preferido do livro – ali a linguagem dos personagens soou bastante natural e a ambientação foi perfeita. Aliás, quase perfeita… não era jogo do São Paulo.

O Artilheiro de Gustavo Araujo, leitura rápida e agradável. Literatura de qualidade.

Recomendo!

 

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Sobre Fabio Baptista

Um comentário em ““O Artilheiro” de Gustavo Araujo – Resenha (Fabio Baptista)

  1. iolandinhapinheiro
    17 de janeiro de 2018

    Show. Ótima e consciente resenha que, mesmo apontando alguns detalhes não absolutamente apreciados, faz com que a gente sinta vontade de ler e se deleitar também. Gosto quando quem comenta tem a coragem de expressar o que achou, e a competência de quem leu, compreendeu, e se aprofundou no livro. Parabéns, Fábio pela resenha. Parabéns, Gustavo pelo trabalho. =)

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Publicado às 17 de janeiro de 2018 por em Resenhas e marcado , .