EntreContos

Detox Literário.

A viúva de Cinzas – Conto (César Filho Santos)

Pelas vidraças do café podíamos perceber que estavam embaçadas por conta da forte chuva que fazia lá fora. Eu, Ofélia e Dorotéia éramos três senhoras viúvas que estavam na cidade –de nome ironicamente igual aos meus sentimentos, Cinzas- em um dia de finados, porque não poderíamos estar em outro, o que acontece é que desde a última maldita primavera meu velho tomara sua última taça de vinho, ele os amava, Ah Roger querido, era uma paixão de família. Havia até uma adega com vinhos dos mais toscos aos mais nobres. Respirei profundamente e voltei ao meu normal. Ofélia tomou seu último gole de chá-verde apressada e retirou do bolso a chave do carro, estava estacionado á um bom pedaço a pé do café. Apertamos bem nossos cascos, pois a chuva ainda engrossava.

Retirei da bolsa minha carteira de Marlboro – não podia andar sem uma velha companheira – e acendi um dos cigarros com o isqueiro que Roger sempre usava, era bege com detalhes de aço puro, era lindo.

Dorotéia voltou-se em minha direção e permaneceu calada, parecia que estava resfriada, pois tentava falar e não conseguia, porém permanecia pacífica. A minha paciência era pouca, para uma senhora transtornada em um dia de cinzas. Ofélia, oh Ofélia…. Continuava tossindo muito, ela não suportava fumaça de cigarro, mas as duas ainda estavam embriagadas, então eu quem tomei a direção àquele fim de tarde fatídico. Passamos um longo caminho de terra, a cidade já parecia dormir àquela hora…. Começamos a contar ocasiões engraçadas entre nós, lembro que riamos muito de todos nossos momentos juntas, as quedas de cavalo e até a última parada cardíaca de Dorotéia.

Éramos umas velhas loucas de pedra. Meu cigarro já estava chegando ao fim quando a fumaça que já empesteava todo o carro ocasionou um acesso de tosse em Ofélia que respirava com dificuldade. Tomamos um susto quando ela quase caiu do banco do carro, perdi rapidamente a direção, em instante, não lembro claramente, foi um choque. Ouvia lá de trás o grito de Dorotéia, igual ao que soltou em sua última parada cardíaca. Ficamos bem próximas do acostamento, ainda diante da neblina vi uma mulher de aparência jovem que permanecia parada, que loucura. Aproximei o carro para conferir se estava tudo bem com a moça, estava encharcada pela poça de lama no instante em que o carro quase a atropelou, lamentei o quase desastre e sem palavras a fitei esperando que falasse, seu olhar obstante me encarava e recitou nitidamente:

-“Tomara que você bata e morra. ”

Eu congelei meu corpo não respondia à vontade que tinha de xingar a desgraçada e lhe arrebentar a cara, incrivelmente me contive, não sei o motivo. Sabe, as cosias pareciam passar em minha mente lentamente; levei o carro mais á frente, e no momento em que parei respirei de forma a sentir um alívio, porém não tão aliviada estava.

Quando pensei bem, tomei a decisão do que fazer talvez eu me arrependesse e desejasse voltar no tempo. Acelerei o maldito carro sem pouco me importar, dane-se, passei por cima daquela germe e ouvia seus insuportáveis clamores enquanto recuperava-me de minha insanidade. Juro por Deus que meu coração parou por trinta segundos. Esmaeci e permaneci paralisada por segundos seguintes fitando o nevoeiro que encobria aos poucos o local.

Qual não foi a surpresa ao virar para trás em busca a verificar o estado de Ofélia e Dorotéia, eu as chamava sem resposta alguma, hesitei, delirei, me esperneei. Um apagão evadia minha cabeça, fiquei taxa as duas não respiravam, não sei que força tive, só há de ter vindo de Deus. Antecipei meu pranto; a loucura dominou minha alma por inteiro, no momento em que dei a ré no veiculo em que estava, o mesmo não suportou o devaneio e estilhaçou quando rolava pela ribanceira.

 

Ainda sinto remorso ao relembrar, neste dia de finados tudo voltou a me possuir, os fantasmas parecem me recordar, e vão de continuar até meu último dia de vida. Porém não me arrependo. Me culpo até pelo que fiz, sabe? Acabei com a vida de minhas amigas e tudo isso por quê? Por um descontrole?

Ao abrir os olhos percebo que não estou no Paraíso e nem no Inferno, é o que eu acho. Estou numa estrada e vejo um carro se aproximar, quase me atropelando. Olho para o vidro do carro e uma senhora me encara assustada. Aquela maldita senhora, eu…. Não merecia estar viva depois tudo que fez. No instante seguinte tudo que consigo dizer é.

-“Tomara que você bata e morra. ”

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3 comentários em “A viúva de Cinzas – Conto (César Filho Santos)

  1. Regina Lopes Maciel
    11 de janeiro de 2018

    Olá César
    Achei confuso o texto,há uma”piração” aí com o tempo, que pode ser até uma ideia bacana, mas está confuso. Também, como já falou o Fil, a linguagem escrita não está ajudando na leitura, acho que vale uma revisão do português.
    Abraços
    Regina

  2. Fil Felix
    7 de janeiro de 2018

    Boa tarde, César! Um conto que propõe várias interpretações. O início já deixa claro que há um tom mais caricato e onírico, ao colocar três velhas em ação, num local e data e sensação iguais, que não seria apenas coincidência. Pelo final, que retoma a coisa do looping, deixa pro leitor imaginar o que está ocorrendo. Seria um inferno pessoal? Uma reencarnação? Uma piração? Ao meu ver, como num trecho onde diz que o carro não aguentou o “devaneio”, leva a entender que não seja apenas um sonho, mas um devaneio bastante sólido. A velha matou as companheiras, matou a moça no caminho, depois retomou como a moça xingando, que será morta e provavelmente voltará como outra coisa. Um lopping. Só achei o texto um pouco travado, não sei se por questões do idioma (me pareceu PT-PT), mas algumas frases ficaram estranhas e acabaram prejudicando um pouco.

  3. Pedro Luna
    6 de janeiro de 2018

    Então, acabei não entendo muito bem o conto. Ele parece lúcido no início mas após os eventos que acontecem no carro, comecei a considerar que era algum tipo de piração da viúva. Depois, ainda me surge uma cena sobrenatural que no final parece ser uma espécie de loop temporal. Haha. Achei divertido essas velhas mas a história sinceramente não sei se entendi. Ela se acidentou e matou as amigas e depois ficou vagando por ali?

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado às 5 de janeiro de 2018 por em Contos Off-Desafio e marcado .