EntreContos

Detox Literário.

O Abismo Além do Infinito (Fabio Baptista)

Essa é a história sobre como eu salvei o mundo.

Cerca de seis meses atrás, Letícia chegou tarde do trabalho em uma quinta-feira qualquer. Naquele dia eu já havia: enviado currículos para as vagas novas do site de empregos, reenviado para as velhas, ligado para confirmar resultados de entrevistas que acabaram no “qualquer coisa a gente entra em contato”, passado no mercado, buscado nossa filha na escolinha, feito janta, lavado a louça, dado banho e colocado Mariana para dormir. Letícia chegou dois minutos depois de eu sentar no sofá e ligar o Xbox. Ela estava com uma animação incomum no semblante, mas essa animação desapareceu ao ver o controle na minha mão.

— Já colocou a Mari pra dormir? – perguntou, após me dar um selinho insosso, com um “ficou jogando videogame o dia inteiro?” nas entrelinhas.

— Ela não tá aguentando mais te esperar. Chegando tarde todo dia, pô – protestei, deixando transparecer mais ciúme do que deveria. – Correria do projeto ainda? – emendei logo em seguida, para disfarçar.

— Meu, mesma coisa. O Edson promete as coisas pra diretoria sem me consultar, depois fica cobrando prazo. Vai acabar me deixando doida – Letícia respondeu, desvencilhando-se dos saltos. – Mas, vida… tenho duas novidades! – A animação, inesperada e bem-vinda, retornava a seu semblante. – Tem janta?

— Opa! Tô quase me inscrevendo no Masterchef! Ou começando a mandar currículo pros restaurantes – brinquei, com um triste fundo de verdade nessa segunda parte. – Vai lá, toma um banho enquanto eu esquento o macarrão. Fiz o carbonara que você gosta. A Mariana não curtiu muito, falou que prefere “aquele molho vermelho com pedacinho de carne mesmo”.

Demos risada e um beijo de língua.

Bendito carbonara.

***

Durante o jantar, Letícia contou as tais novidades, com a empolgação com que costumava falar antes da rotina nos sugar a vitalidade. A primeira boa nova era: em reconhecimento aos seus esforços no projeto, ela receberia um aumento substancial. Eu deveria ter ficado alegre. Sei que deveria ter ficado alegre. No entanto, não consegui deixar de sentir uma inveja tola, uma ponta de frustração, de me sentir rebaixado de certa forma. Por um lado eu respirava aliviado, pois com o novo salário ela poderia manter a casa sem diminuirmos muito nosso padrão de vida, mas, por outro lado – um outro lado maior e que falava mais alto –, não gostava da ideia de perder o posto de provedor e de vê-la cada vez mais independente. Sobretudo, dos recônditos da alma onde se escondem nossas verdades mais secretas, vinha o temor de que Letícia acabasse se cansando da condição de “sustentar marido desempregado” e fosse atrás de coisa melhor.

Sei que não deveria ter pensado essas coisas, mas pensei. E por mais que tenha me forçado a um sorriso, medos e desgostos transpareceram no semblante.

— Que foi, vida? Parece que não gostou da notícia.

— Não, amor… eu… desculpe… – nem tentei disfarçar o que era evidente. Então busquei me redimir com uma meia verdade: – Eu fico alegre por você, claro que sim. Mas esse assunto de emprego me faz lembrar que já estou há meses parado. E quase ninguém chama pra entrevista e quase não aparece mais vaga e quando aparece pedem um monte de coisa… enfim, é isso…

— Fica assim não, vida – Letícia sorriu e acariciou minha mão. – Deus faz as coisas na hora certa, você vai ver. Quando menos esperar, você vai atender o telefone e ouvir: “Olá, senhor Ricardo! Somos de uma empresinha pequena chamada… Microsoft… vimos o seu currículo e gostaríamos de saber se tem interesse em ser nosso diretor comercial na América Latina”.

— Se isso acontecer eu faço charme e respondo que vou pensar no caso e qualquer coisa eu ligo, ou aceito de uma vez? – Nós demos uma gargalhada gostosa e eu me senti envergonhado pelos pensamentos que acabara de ter. Abastecendo as taças de vinho, perguntei: – E a outra novidade, qual é?

— Então… tem uma menina lá no trabalho que vive falando de coisas místicas tipo tarô, aura, chacras, energias e tal. Eu nunca dei muita bola, mas daí esses dias ela comentou sobre “projeção astral”. Meu, achei muito massa!

— Do que se trata? – perguntei, meio desconfiado.

— É tipo como se o espírito saísse do corpo enquanto a gente dorme e você conseguisse ver tudo o que se passa e voar pra outros lugares e tal.

— E você acreditou nisso?

— Ai, vida, como você é bobo! E se for verdade? Parece legal…

— Tá, mas e aí?

— E aí que sábado vai ter uma palestra com um especialista nesse assunto. Totalmente grátis. E a gente vai!

— Ah, então a gente vai?

— Ai, vamos, vida, para de ser chato! Se a gente ver que é picaretagem, saímos de fininho, prometo. Vamos, vamos, vamos… por favor…

Eu não tinha o menor interesse. E, também, um estranho calafrio havia percorrido minha espinha. Mas Letícia estava com olhos joviais e um domingo ensolarado no sorriso. Nessas ocasiões, por mais que eu tentasse resistir, acabaria cedendo e faria de bom grado qualquer coisa que ela me pedisse.

— Tá bom, vamos ver como é essa projeção astral. Quem sabe no mundo espiritual eu não arrume um empre…

— Do que vocês estão falando, hein, mamãe? – Mariana nos surpreendeu, parada à soleira da cozinha segurando o urso de pelúcia preferido.

— Ai, filha, vem cá, dá um beijo na mamãe. Parece que faz um ano que eu não te vejo acordada. – Letícia a puxou para o colo. – Estávamos falando sobre um lugar aonde vamos no sábado.

— Que lugar? Eu vou também?

— É tipo uma escola. Quer ir pra escola sábado?

— Não…

— Então fica na casa da vovó um pouco?

— Ela vai fazer brigadeiro? – Em meio a um bocejo, Mariana fez suas exigências.

— Vai! E vai deixar você raspar a panela! – Letícia garantiu.

— Huuum… então eu fico.

***

O local da palestra era um galpão amplo, com cadeiras plásticas espalhadas com boa distância umas das outras no espaço reservado à plateia. Nas paredes havia banners com ilustrações de yoga e também quadros enormes, onde deuses azuis mal desenhados transmitiam sensações de paz e elevação espiritual. Numa bancada modesta à frente da plateia, o palestrante, um sujeito gordo e simpático chamado “Professor Borges”, falou, por quatro horas quase ininterruptas, sobre chacras, leis do plano espiritual, pedras preciosas canalizadoras de energia, anjos, guias e, claro, projeção astral. Tudo ali tinha um enorme potencial para ser enfadonho de revirar os olhos, mas o tal professor, devo admitir, possuía uma excelente didática e sabia contar boas piadas. Mesmo achando uma grande bobagem, acabei rindo em vários momentos e a hora passou depressa.

— E aí, o que tá achando? – Letícia me perguntou no intervalo para o almoço.

— O cara é engraçado e parece acreditar no que diz – ponderei. – Mas pra mim é um tremendo charlatão.

— Ai, vida, como você é bobo! – ela sorriu. – Ele não cobrou nada, como pode ser charlatão?

— Inocente você, né, amor? – foi minha vez de rir. – Pode apostar que depois do almoço ele vai vir com alguma historinha de que para se aprofundar no assunto tem que fazer um curso completo. Isso se não quiser vender alguma quinquilharia também. Já vou avisando que não quero aqueles quadros de elefante dentro de casa de jeito nenhum.

Depois de mais algumas risadas, duas cervejas e um filé à parmegiana, voltamos para a segunda parte da palestra. Professor Borges se atrasou quase vinte minutos no retorno e, após desculpas pouco convincentes alegando problemas com a chave do carro, falou:

— Então, gente, nossa primeira parte foi bem teórica, mas agora a gente vai pra prática e vocês vão ouvir bem pouquinho a minha voz. Lembrando que tudo que a gente viu foi o básico do básico, tá? “É perigoso, professor Borges?”, não, não é perigoso! “Alguma entidade pode cortar o fio de prata que liga meu corpo ao espírito durante a projeção?”, não, não pode! Para quem gostou do assunto, fica o convite para fazer o curso completo, a primeira turma começa semana que vem e tá com um precinho super em conta, tá bom? Ah, deixa eu contar um segredinho pra vocês: daqui seis meses vai ter um alinhamento estelar-planetário rarissíssimo e sabe de onde eu vou ver? Sentadinho lá nos anéis de Saturno! Quem fizer o curso, ó… grandes chances de conseguir também, tá?

Nesse momento, olhei para Letícia com cara de “olha o golpe”. Indiferente às minhas suspeitas, professor Borges prosseguiu com o falatório:

— Tá, mas agora chega de conversa! Vamos fazer um exercício bem leve, só pra ter uma ideia. Hoje vai ser muito difícil alguém conseguir fazer a projeção, precisa das técnicas do curso, tá? Peguem ali o colchonete e vão se ajeitando. Ah… quem quiser, pode comprar essa ametista que a gente tá vendendo aqui. A ametista é uma pedra violeta super bonita, olha só. Ela expande o chacra coronário e facilita a projeção. Mas não é obrigatório, tá, gente?

Letícia se levantou e, por um momento, pensei que iria embora, vencida pela óbvia comprovação dos meus argumentos acerca do charlatanismo. Mas, para minha perplexidade, ela foi até o professor e voltou trazendo duas pedras envoltas em panos brancos.

— Quanto pagou nisso?

— Trezentos…

— Trezentos reais em duas pedras, Letícia?

— Em cada… – ela respondeu, com cara de menina travessa.

Restou-me pegar um colchonete e, por insistência de minha querida esposa, usar a bendita ametista. A pedra precisava ficar no topo da cabeça e o pano, amarrado ao redor do queixo como os personagens com dor de dente nos desenhos animados, servia para fixá-la. Não demorei a dormir. E depois da realidade se perder em meio às brumas do reino onírico, eventos tétricos começaram a ocorrer.

***

No início, o torpor impreciso do adormecimento. Em seguida, a sensação de despertar. Ao abrir os olhos, no entanto, para minha completa incredulidade, notei que flutuava alguns metros acima do meu corpo e estava ligado a ele por um cordão de energia luminosa saindo da nuca. Após observar minhas mãos fantasmagóricas, olhei em volta e vi todos os outros participantes em seus colchonetes, dormindo ou tentando dormir. Só então olhei para o corpo de Letícia e percebi que dele saía um “fio de prata” que ia em direção ao teto e o atravessava. A sensação era bem similar a de um sonho consciente, do tipo em que controlamos os eventos e todas as coisas nos parecem possíveis. Com esse sentimento de onipotência, segui o cordão energético de Letícia.

Atravessei o teto e depois as nuvens, e continuei a voar, numa sensação de liberdade indescritível. Não demorei a concluir que, nessa condição, a velocidade de deslocamento não respeita a lógica da física, mas sim a dos sonhos. Dessa forma, num piscar de olhos eu estava atravessando a órbita da Terra e, em seguida, da Lua e de Júpiter, enquanto me questionava se aquilo era real ou não. E, se não fosse real, de onde meu cérebro teria tirado tantos detalhes? Maravilhado com a viagem, eu vi galáxias, luas, asteroides, nebulosas, quasares e uma miríade de outros objetos vagando pelo espaço. Foi então que, à uma realidade de distância, avistei algo pavoroso e me dei conta de que havia ido longe demais.

Nas bordas do universo, entre sombras de estrelas escuras e carcaças de planetas mortos, depois do infinito, à margem do tempo e da compreensão humana, estava o derradeiro abismo, o pai de todos os infernos, de todos os buracos-negros e de tudo que é vil e maldito. Dali emanava o caos em seu estado mais bruto e também um som lamurioso de pífaros soprados por almas eternamente condenadas. Dentro do poço colossal de escuridão e maldade, de alguma forma eu sabia, ocultavam-se os segredos da existência. E o medo que senti naquele momento me levou a crer que eles não eram nada agradáveis. A esse medo, somou-se o mais brutal desespero, quando vi a alma de Letícia sendo atraída para o abismo, como um inseto atraído pela luz. Deveria ter ido até ela, mas o simples pensamento de me aproximar um passo que fosse da terrível escuridão fez minha alma congelar. Foi quando senti um tranco na nuca, como se alguém me puxasse pelo cabelo e comecei a, literalmente, ser tragado de volta para o corpo físico. Acordei desnorteado, buscando oxigênio como se tivesse acabado de escapar de um naufrágio. Quando me recuperei minimamente e consegui voltar a raciocinar, olhei para Letícia.

Ela convulsionava em silêncio ao meu lado.

— LETÍCIA!!! LETÍCIA!!! Acorda, amor, acorda…

Mas ela não acordou. Não naquele dia. Ficou em coma por quase setenta e duas horas, sem que os médicos tivessem a menor ideia do motivo. Na terça-feira de manhã ela abriu os olhos.

E nunca mais foi a mesma.

***

Letícia permaneceu em observação no hospital por mais dois dias e depois voltou para casa, onde, para desespero de seu chefe, ficou uma semana de licença médica. Dizia não se lembrar de nada e não ter vontade de nada. Só comia quando eu lhe dava de comer, só tomava banho quando eu a arrastava para o chuveiro e só se vestia quando eu lhe punha as roupas. Parecia acometida por uma tristeza profunda e irremediável, como se a experiência tivesse lhe absorvido toda a vitalidade e agora o simples fato de estar viva e respirar era encarado por ela como um fardo insuportável. Eu tinha medo de perguntar sobre o abismo, tinha medo de confirmar que aquilo foi verdade e não um sonho extraordinariamente real como preferia acreditar.

— E se Deus for mau? – ela sussurrou na cama, encostada na parede como gostava de ficar, na noite anterior ao fim da licença.

— Como assim, amor?

— E se tudo o que a gente faz ou deixa de fazer nesse mundo, se todas as coisas que a gente ama e odeia não fizerem a menor diferença, se a nossa vida, nossa morte e nosso destino estiverem nas mãos de um deus que só nos criou pra se divertir num momento de tédio e depois nos esqueceu aqui, abandonados à nossa própria sorte?

— Amor, do que você está falando?

— E se esse deus… e se esse deus quiser voltar?

A esse pensamento, eu estremeci. Letícia virou para o lado e só acordou quando o despertador do celular tocou na manhã seguinte. Considerei uma temeridade ela voltar ao trabalho daquele jeito e tentei convencê-la a ir ao médico, onde certamente conseguiria mais alguns dias de atestado, mas a isso Letícia mostrou-se irredutível. À noite, chegou em casa tão calada quanto saiu e me cumprimentou com um beijo de lábios frios. Fez o mesmo com Mariana e logo foi se deitar, sem comer nem escovar os dentes.

— A mamãe vai ficar bem, papai? – minha filha perguntou, agarrada ao urso.

— Vai sim, querida. Ela só está um pouco cansada – tentei soar o mais confiante possível, mas, no fundo, sabia que era mentira.

***

Seguimos assim por três meses. Letícia saía e voltava feito um zumbi. Passava pouco tempo acordada e, nesse tempo, enfurnava-se no celular e notebook. Por vezes pensei em acessar os dispositivos enquanto ela dormia, para descobrir se havia ali um amante e toda aquela frieza não passava de uma grande encenação. No entanto, mantive-me longe dos aparelhos, menos por dignidade e confiança do que por medo da verdade. O mesmo medo que me impediu de fazer novamente a projeção, para descobrir de uma vez o que havia no abismo além das estrelas escuras, onde pífaros amaldiçoados entoavam suas blasfêmias com a calma da eternidade. Uma desesperança cada vez maior avolumava-se no meu peito. Sentia-me dominado por uma tristeza avassaladora, como se o mundo ficasse mais cinza a cada anoitecer e todas as coisas se tornassem insossas e monótonas, com um cansaço interminável no corpo e um vazio infinito na alma.

Durante o dia, eu era atormentado pelo despropósito da realidade. À noite, pesadelos com criaturas ancestrais, de tamanho e perversidade indizíveis, tornaram-se recorrentes. Em meio a um desses pesadelos, despertei sentindo muito frio, coração disparado. Ao abrir os olhos e virar a cabeça, espantei-me ao ver Mariana em pé ao lado da minha cama, chorando e soluçando.

— Papai… p-papai… o homem de sombra falou pra te acordar…

— Que homem de sombra, filha? – ainda desorientado, sentei na cama e a abracei. Então percebi que não era o urso de pelúcia que ela segurava, mas um crucifixo. – Onde você arrumou isso?

— Foi… foi a v-vovó que me deu. E-ela falou pra mostrar isso se alguma coisa ruim viesse no meu quarto, mas… mas o homem de sombra veio e eu mostrei e… e ele deu risada.

— Filha, foi só um pesadelo. O papai vai te levar lá no seu quarto e mostrar que não tem homem de sombra nenhum…

— Ele não tá mais no meu quarto, papai… ele… ele tá ali, ó… – ela falou, apontando por cima do meu ombro.

Engoli seco, respirei fundo e me virei. O que vi então fez com que eu caísse sentado no chão ao tentar me afastar, tomado pelo mais irracional dos pavores. Não era o “homem de sombra”, mas Letícia – ela estava em pé sobre a cama, olhando para o canto da parede feito criança de castigo, com a cabeça abaixada e a camisola branca emanando palidez fantasmagórica. Naquele canto, havia uma escuridão gélida e insondável, como se ali estivessem concentradas todas as iniquidades dos homens.

— Amor – chamei, tentando recuperar a calma. – Letícia, deita na cama… – insisti. Mariana, agarrada à minha perna, chorava sem parar.

— Não sou Letícia – minha esposa, ou pelo menos o corpo de minha esposa, respondeu, com uma voz que não era dela. – Letícia estivera em Carcosa, contemplando os sóis gêmeos afundarem sob o lago e, agora que as sombras se alongam e os pecados do mundo desfilam em silêncio, ela toma o caminho das constelações mortas, rumo ao abismo.

— Q-Quem… quem é você? – perguntei, sem ter certeza se queria mesmo saber.

Sem mover o corpo, ela girou a cabeça lentamente na minha direção, cabelos encobrindo o rosto e um brilho tenebroso no olhar, como o de um tigre no escuro. Com dentes afiados aparecendo num sorriso infestado de malícia, ela disse:

— Satanás!

— LETÍCIA, PARA COM ISSO!!! – gritei, impelido pelo desespero.

— Jesus Cristo… Sidarta… Krishna… – ela continuou, dando a entender que não era uma resposta direta. – Seus deuses e demônios, suas desilusões e esperanças, sua danação e sua fé… são cantigas de criança para mim. Eu sou o nome sussurrado que serve ao grande sultão. O sacerdote morto aguarda sonhando. Quando a lua verter sangue, desperte-o!

— O quê?

— Papai, eu tô com medo da mamãe…

— Meu, o que vocês estão fazendo aí? – Letícia perguntou com sua voz normal, como se nada tivesse acontecido. – Vamos dormir, vamos? Vem, Mari… dá beijo aqui na mamãe e vai pro seu quarto que amanhã eu acordo cedo. Boa noite.

Virou para o lado e dormiu. Levei Mariana para o quarto dela e permaneci por lá durante aquela noite. No dia seguinte, Letícia estava conversando e sorrindo como fazia até antes da maldita palestra. O passar dos dias e das semanas tratou de acalmar minha mente – Letícia parecia definitivamente curada e toda a cena macabra que protagonizou de pé sobre a cama certamente poderia ser creditada a um raro episódio de sonambulismo, pensei. Num piscar de olhos, quase três meses se passaram. Então, numa quinta-feira qualquer, ela chegou tarde do trabalho, tão empolgada que nem fez cara feia para o controle do Xbox na minha mão, e falou:

— Vida, você não vai acreditar na novidade que eu tenho pra te contar!

***

— Ilhas Sabalana? Onde fica isso?

— Perto da Indonésia – ela respondeu, eufórica, como se a localização da Indonésia nos fosse familiar.

— Tudo pago? Teu chefe tá bonzinho, hein?

— Meu, é o mínimo que ele podia fazer, né? Putz, gosto muito do Edson, mas tava vendo a hora que ia acabar esganando ele – Letícia torceu um pescoço imaginário no ar. – Mas agora acabou o projeto e é só comemorar! Que foi, vida? Não parece muito animado…

— Não… é que… sei lá… fico meio assim de ir viajar e alguém me ligar pra entrevista – disfarcei com meias verdades. A verdade completa era que um inexplicável mau pressentimento me espumava no estômago.

— Ai, vida, não ligaram o ano inteiro, não é agora que vão ligar, né? – ela disse, revirando os olhos com desdém. – Putz, meu… desculpa, não devia ter falado isso – arrependeu-se, acariciando a minha mão e dando um sorriso doce. – Para de se preocupar um pouco, vida. Vamos só curtir. Você sustentou a casa quando eu tava desempregada, agora é a minha vez, não tem problema nenhum. Na riqueza e na pobreza, lembra?

— Até que a morte nos separe…

— Do que vocês estão falando aí, hein, mamãe?

— De um lugar bem legal que a gente vai, meu amor!

— Eu vou também, ou vou ficar na vovó?

— Você vai também, filha. Vamos nos divertir bastante por lá… né, papai?

— Vamos… vamos nos divertir bastante… – confirmei, forçando um sorriso e tentando convencer a mim mesmo daquelas palavras.

Uma semana, três conexões e uma travessia pelo Índico na balsa mais insegura do mundo depois, atracamos em Sabalana.

***

A ilha certamente era muito bonita… num dia de sol, quando as fotos de cartão-postal são tiradas. Na garoa que estava ali, porém, o mar ficou cinza, a areia enlameada e as folhas das árvores gotejavam melancolia num verde desesperançado. Chegamos à pousada, exauridos. Para minha surpresa, era um lugar grande e aconchegante, com todas as paredes, escadas e móveis talhados em madeira rústica de exímia qualidade. Enquanto Letícia fazia o preenchimento protocolar da ficha de check-in, fiquei escutando o dono da pousada – um baixinho de pele marrom-avermelhada e sorriso largo de dentes muito brancos –, nos dar as boas-vindas e falar, num portunhol tão carregado de sotaque que soava mais como aramaico, sobre as maravilhas do local. Ao lado dele estava uma mulher, que poderia ser tomada como sua irmã gêmea. Não dei muita atenção, em parte por não compreender perfeitamente o que diziam, mas, principalmente, porque logo acima deles havia uma espingarda e a cabeça empalhada de um crocodilo fugido do período Cretáceo.

— Jo mismo lo matar-lo – o homem disse, orgulhoso, notando meu olhar fixo.

— Aqui, nessa ilha… tem jacaré desse tamanho?

— No, no! Em Austrália! – ele gargalhou, as mãos fingindo atirar com a espingarda, com direito a efeitos sonoros. – Acá, en esta ilha, tienemos solomente passaritos…

Sim. Passarinhos que faziam um alarido dos diabos sob o forro e quase não me deixaram dormir. No dia seguinte, o sol deu as caras e trouxe com ele uma multidão de turistas para disputar conosco os pedaços de bolo no café-da-manhã. Eu sentia um mal-estar intermitente desde a balsa, mas Letícia e Mariana estavam felizes e isso me bastava.

— Caramba, de onde apareceu tanta gente? – comentei.

— Ontem parecia que tava vazio, né? Acho que tava todo mundo escondido por causa da chuva – disse Letícia, o rosto iluminado e alegre das mulheres ao viajar. – Meu, não aguento mais comer! Vamos dar uma volta?

— Eu preciso ir ao banheiro, não tô muito legal.

— Tá, vou até a praia com a Mari, encontra a gente lá depois. Passa repelente, hein?

Elas saíram e eu voltei ao quarto, suando frio. No caminho, notei que os demais hóspedes me encaravam de um jeito macabro e, de repente, me senti uma zebra convidada para uma convenção de leões. Acometido por vômito e diarreia, acabei demorando mais do que o previsto no banheiro e, ao sair, notei que Letícia havia esquecido o celular – ele tocava a marcha imperial sobre o criado mudo, com “Edson (Big Boss)” escrito no visor.

— Alô… Edson? – atendi.

— Oi, quem fala? A Letícia, por favor…

— É o Ricardo, marido dela.

— Opa, Ricardo. Beleza? Tô precisando falar com a Letícia, urgente. Tá uma correria danada aqui e ela sumiu sem dar notícia. Aconteceu alguma coisa?

— Sem dar notícia? – estranhei. – Nós estamos na viagem que vocês pagaram pra ela, pra comemorar a conclusão do projeto…

— Que viagem, cara? – Edson exasperou-se do outro lado da linha, como se eu fosse um de seus funcionários. – Projeto tá na fase mais crítica, não tem nada pra comemorar, não. Onde vocês estão?

— Edson, a ligação tá cortando, ela te retorna, já, já…

Às pressas, arrumei minha mochila, com uma muda de roupas, passaporte e cartão de crédito. Saí correndo, disposto a pegar Mariana e sumir daquele lugar o mais breve possível. Um calafrio me percorreu os ossos quando desci as escadas e notei que os outros hóspedes ainda estavam lá, sentados às mesas do café.

— Por que demorou tanto, vida? – Letícia perguntou, entrando pela porta da pousada naquele momento. Mariana não estava com ela.

— Cadê a Mari? O que tá acontecendo aqui, Letícia?

— Calma, vida. Logo você vai entender…

Nesse instante, as pessoas se levantaram e deram um passo em minha direção, me acuando. Pensei em correr na direção da minha esposa e derrubá-la, abrindo caminho para a porta, mas, antes que pudesse tomar qualquer ação, algo bateu com força na minha cabeça.

E o mundo apagou.

***

É hora de conhecer o sultão… uma voz sussurrou em meus ouvidos, enquanto minha alma vagava entre estrelas mortas. Novamente contemplei o abismo que nos aguarda além das bordas do universo. E novamente o abismo me contemplou de volta, convidando-me a mergulhar em seus segredos. Dessa vez, ignorei o medo e entrei na escuridão absoluta, guiado pelo som das flautas. Então, após o que pareceu uma eternidade flertando com a insanidade induzida pela canção lamuriosa, um novo universo me foi descortinado e, no centro desse universo, eu vi o grande sultão. Uma aberração amorfa de proporções impossíveis, uma criatura feita de pesadelos e caos com escamas limosas de onde brotavam tentáculos, olhos e bocas famintas, pulsando como um grande cérebro tramando maldades, respirando, sonhando, consciente de tudo e, por essa razão – indiferente a tudo. Ele me olhou com um de seus incontáveis olhos e, com uma de suas incontáveis bocas, me disse seu nome.

O nome que nenhum lábio humano ousaria pronunciar em voz alta.

É hora de despertar o sacerdote… fui puxado de volta para o corpo físico. Já era noite, a pousada estava vazia – haviam me largado ali, desmaiado no chão de madeira com uma ametista presa à cabeça. Desnorteado. Silvo ensurdecedor nos ouvidos. Pernas não obedecem. Braços formigam. Corpo fraqueja. Mariana… eu precisava encontrar Mariana. Após lavar o chão com vômito, consegui me colocar de pé e organizar minimamente os pensamentos. Peguei a espingarda sob a cabeça de crocodilo e, a passos trôpegos, saí correndo pela ilha.

Não demorei a escutar um cântico pavoroso ecoando, como se uma tribo primitiva estivesse por perto, praticando seus rituais profanos. Abrindo mão de qualquer cautela, fui em direção à origem da cantoria e o que presenciei, numa clareira atrás de uma breve elevação rochosa, congelou minhas vísceras e fez com que eu sentisse saudade do abismo. Ali estavam os hóspedes da pousada, totalmente nus, dançando ao redor de fogueiras, agredindo uns aos outros com mordidas, socos e pedradas. Os que agrediam davam risadas e os que eram agredidos riam também, como se possuídos por um espírito diabólico que lhes impelia a sentir prazer na dor. Pendurado em árvores, de cabeça para baixo, estava o casal dono da pousada. Mesmo na penumbra da noite, pude ver que haviam arrancado a pele de seus corpos e as pálpebras de seus olhos, porém continuavam vivos, gemendo em terrível agonia. Na cabeceira daquele espetáculo grotesco, estava Mariana, amarrada a uma pedra, chorando em desespero. Pouco abaixo dessa pedra, havia uma estátua disforme representando um tipo de demônio, que os adeptos do culto veneravam, ajoelhados. Só então reconheci Letícia. Ela segurava um punhal prateado e, com grande expectativa, observava a lua que, entre nuvens esparsas, ganhava tons avermelhados no céu. Desperte o sacerdote

— CHEGA DESSA LOUCURA! – gritei, ao constatar que não havia chance de uma abordagem furtiva. Os cânticos cessaram de imediato e, à exceção do crepitar das fogueiras e do choro de Mariana, a ilha foi tomada pelo silêncio. – Eu só quero minha filha… – falei, me dirigindo ao altar de pedras, apontando a arma para cada um que ousava se aproximar.

— Não seja ridículo, Ricardo. Nós estamos em quarenta… e você só tem duas balas – disse Letícia, debochada. Todos abriram sorrisos malignos e avançaram.

— Um passo a mais… e atiro na estátua! – blefei, engatilhando a arma para a imagem de pedra. Eles recuaram, me encarando com ódio.

— Vida – Letícia falou com voz suave –, você viu o sultão?

— Vi…

Silvo ensurdecedor. Corpo fraqueja. Desperte

— Ele quer que a gente acorde o sacerdote, vida. As estrelas estão alinhadas, a lua está sangrando, a hora chegou. O sangue inocente vai alimentar a estátua… não percebe que dádiva nossa filha recebeu? Morrer para cumprir a vontade do grande sultão do universo!

Pernas estremecem. Braços formigam. Eu vi o abismo. Eu vi o início e o fim de todas as coisas. E Deus não estava lá.

— Letícia, eu…

— Por favor, vida… – o que ela me pedia era a maior de todas as insanidades, mas… havia um domingo ensolarado em seu sorriso. Eu precisava… eu precisava cumprir a vontade do grande sultão.

— Papai, me solta, tô com muito medo!

— Tem que ser agora! – Letícia projetou-se com o punhal em direção ao peito de Mariana.

Desperte o sacer

— NÃO!!!

Duas balas.

A primeira explodiu a cabeça de Letícia. A segunda fez a estátua em pedaços.

Os adeptos do culto maldito viram fracassar a chance de trazer um de seus deuses de volta, teriam que esperar séculos por uma nova oportunidade. E não ficaram nada satisfeitos com isso. Seguraram meus braços e devoraram Mariana viva, bem na minha frente. Só pude chorar e desejar que acabasse logo. Mas não acabou. Em seguida, esfolaram minha pele, cobriram meu corpo com sal e me penduraram numa árvore, onde agonizei lentamente por dois dias, pensando, com o arrependimento trazido pela dor, do que afinal teria valido adiar o fim do mundo. A morte me trouxe alívio, mas foi um alívio momentâneo, pois agora minha alma está sendo levada ao abismo depois do infinito, onde o grande sultão me torturará pela eternidade.

Entre estrelas escuras e planetas mortos, eu ouço o som dos pífaros.

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45 comentários em “O Abismo Além do Infinito (Fabio Baptista)

  1. Fabio Baptista
    13 de novembro de 2017

    Agradeço a todos pelos comentários e avaliações!

    Sobre o final corrido: concordo totalmente. Era muita história para 5 mil palavras e alguma parte acabaria sendo prejudicada. Então optei por detalhar mais o começo, mesmo que não tivesse terror, com o objetivo de criar empatia pelos personagens. Imaginei que não iria adiantar trabalhar mais o final se, ao chegar ali, o leitor não se importasse com o destino de Ricardo, Letícia e Mariana.

    Sobre a falta de verossimilhança da projeção astral: eu fiz um curso (básico) de Projeção Astral no Instituto do Wagner Borges (citado pela Anorkinda) que é obviamente a inspiração para o Professor Borges. Nessa ocasião, eu estava com as mesmas dúvidas do personagem. Diferente dos nossos protagonistas, eu não consegui ir ao espaço longínquo (graças a Deus! hauhaua). Na verdade, não consegui nem ir à padaria, ou sequer cochilar. Mas saí de lá com a certeza de que o Wagner acredita no que diz e que deve haver, sim, algum tipo de experiência extracorporal, o que naturalmente o exime da pecha de “picareta”. Aproveito para esclarecer que não foi minha intenção menosprezar o trabalho de ninguém, como sugerido em um dos comentários. A cena foi descrita no ponto de vista de um personagem cético, sem muito tempo (benditas 5 mil palavras!) para refletir sobre o assunto depois de confirmar (de um modo não muito agradável) que a projeção era verdade.

    Mais uma vez, obrigado!

    Grande abraço!

  2. Renata Rothstein
    11 de novembro de 2017

    Ficção científica, viagem pelo provável universo paralelo, um extraordinário sem fim de possibilidades e teorias, apresentado de forma magistral pelo autor.
    Muito bem escrito, achei que as histórias poderiam ter uma ligação um pouco mais consistentes e claras, o que facilitaria a
    No entanto, não foi o caso, e a condução e clímax do conto mexeram bastante com a minha imaginação.
    Parabéns pela inteligência e baita criatividade.

  3. Rafael Penha
    10 de novembro de 2017

    Olá, autor,

    Sem dúvida, um dos melhores contos até agora. O clima de terror Lovecraftiano é intenso e saboroso.

    A narrativa é dinâmica e a forma da escrita é simples e gostosa de acompanhar. A cada frase queremos prosseguir e prosseguir.

    A construção dos personagens é excelente, trazendo sentimentos muito humanos e verossímeis. A ambientação é ótima e a linguagem dos personagens é corriqueira, nos dando a sensação de pessoas de verdade ali.

    A descrição e falta de descrição de muitas coisas apimenta de forma terrífica o terror e o horror e a presença de uma criança traz ainda mais tensão.

    O final é um pouco apressado, talvez o ultimo parágrafo carecesse de uma ou duas linhas a mais de descrição, mas ainda assim, é excelente.

    Fiquei tenso e maravilhado durante todo o decorrer do conto, o que é exatamente o objetivo,não é?

    Muito, muito bom!

  4. Anorkinda Neide
    10 de novembro de 2017

    Olá!
    Autor de responsa que sabe o que faz e conhece o mytho muito bem, sei lá se é assim q se escreve, mas pior seria se eu tentasse escrever Chthlhu. kkk eu avisei. Me matem, mas eu nao gosto de Lovecraft e toda esta seita em volta dele e a cada vez q me deparo com um texto em homenagem a esse Deus, mais o detesto.. rsrs
    Mas aqui, tenho q deixar registrado o seu eficiente trabalho, sua boa técnica para contar uma historia, vc está realmente de parabéns,
    o terror está ae bem conduzido com a seita, o abismo,, o sacrfício e tudo e tal.. MAS… como vc introduziu o casal a isto tudo? quiseste inovar, acredito eu, pq nao leio nada deste universo, entao eu acho q vc foi original ao trazer a viagem astral.
    Aí é q tá O ponto. Vc trouxe Wagner Borges caricaturado, fazendo um deboche ao seu trabalho, por si só isso me perde, mas q importancia tenho eu no seu universo? o problema é que é de um viés mesquinho ficar menosprezando o trabalho alheio, principalmente qd nada dele se conhece.
    como disse o Olisomar: ‘O sujeito e mulher que nunca fizeram uma viagem astral consciente conseguem de primeira e já vão para o espaço longínquo ?’ e ele fundamenta com ensinamentos de Lobsang Rampa q tb conheço muito bem.
    E conheço melhor as viagens astrais conscientes, pois as faço com frequência desde a infancia. Portanto vc falou do q desconhece.
    Mas tudo bem, é ficção, só não gostei da colocação de um conceito seu (autor) sobre as práticas esotéricas. Mas isso nao influenciaria na nota, caso eu as desse.
    Abração e boa sorte.

  5. Pedro Luna
    9 de novembro de 2017

    Pô, irmão, quando o terror começa a engrenar, você termina o conto? Infelizmente o final foi muito apressado, mas ainda sim o conto é bom. Esse lance de viagem astral me interessa. Uns anos atrás tive uma experiência em uma casa de praia quer considerei algo parecido com isso. Dormindo, de repente me vi voando pela casa e vendo as pessoas de cima. Foi bizarro.

    Então gostei disso. O conto ganha pontos porque ele tem várias surpresas. Não é aquele texto que você bate o martelo no início: pronto, esse é de casa do terror, esse é de pedofilia. Ele começa cotidiano, depois tem lances cósmicos, depois seita satânica. É um bom conto, boa leitura. Só senti falta de mais investimento em ambientação e clima sombrio. O cotidiano muito destacado, com direto a x-box, atrapalha um pouco. Depois, com a mudança de comportamento da mulher, o conto vai criando um tom mais cinza, o que melhorou.

    No geral, um bom trampo.

  6. Pedro Paulo
    9 de novembro de 2017

    Olá, entrecontista. Para este desafio me importa que o autor consiga escrever uma boa história enquanto em bom uso dos elementos de suspense e terror. Significa dizer que, para além de estar dentro do tema, o conto tem que ser escrito em amplo domínio da língua portuguesa e em uma boa condução da narrativa. Espero que o meu comentário sirva como uma crítica construtiva. Boa sorte!

    Terror cósmico! No máximo, acho que posso dizer que gosto bastante do conceito, embora só conheça as obras do Lovecraft e uma do Stephen King que trabalha a ideia. Aqui, o autor faz diferente do conto “Nós”, outro que também investe no terror dos cosmos. Em “Nós”, chegamos às monstruosidades do espaço por através de uma missão espacial, enquanto aqui somos levados de cenas cotidianas entre uma família feliz – algo que é bem estabelecido, a dinâmica inicial do casal servindo como contraponto ao que sucede depois do incidente – ao horror de uma entidade de milhares de anos.

    Portanto, a narrativa consegue fazer que nos importemos com os protagonistas, também sofrendo pelas suas perdas. No entanto, o conto toma um caminho bastante comum desse tipo de história: a esposa sendo possuída, uma cena reservada para ela falar coisas bizarras, claramente tomada pela entidade cósmica; o culto na Indonésia, com o ritual que demanda sacrifício. É tudo bastante típico de histórias como essa, em que a vida normal se choca com os absurdos do fanatismo violento.

    Eu fiquei um pouco chateado com o final, assassinando a filha e resolvendo a condenação eterna da personagem em um parágrafo rápido. De início, confesso que fiquei incomodado o jeito infeliz que as coisas acabaram, mas não tenho bem esse direito, pois é um fim que realmente encerra a história. Acho que a única coisa que posso falar sobre é que foi muito rápido. Claro, muito aconteceu ao personagem até a sua morte e condenação, mas acredito que o autor poderia ter escrito mais a respeito. Acabou ficando muito cru do modo que nos foi colocado.

  7. Daniel Reis
    7 de novembro de 2017

    Estimado colega de escrita: no começo do seu conto, lembrei da música “Vamos fazer um filme”, da Legião, com aquelas imagens clichê de felicidade do casal, etc. Mas aos poucos a trama vai se entortando e se transforma num pesadelo de possessão demoníaca e maldição, o que sem dúvida dá o aspecto de terror necessário para classifica-lo bem nesse desafio. A técnica é boa, ainda que os diálogos muitas vezes pareçam comuns. Eu realmente só não curti muito o final, que a meu ver procura “justificar”, ou melhor, “fazer o certo” mas acaba em condenação eterna. Isso sim, eu acho, poderia ser melhor alinhavado. Mas é só opinião, ok? Parabéns.

  8. Evandro Furtado
    7 de novembro de 2017

    Uou! Conto lovecraftiano da melhor qualidade. As descrições e não-descrições foram perfeitas para criar um cenário tormentoso. A forma como a história é construída também é genial. O autor apresenta os personagens primeiro, em suas vidas ordinárias, para criar a conexão com o leitor. Consegue. E quando o terror vem, ele é muito mais impactante. Em alguns momentos, talvez, houve uma pequena afobação para avançar a história – a parte em que a coisa se manifesta em Letícia pela primeira vez, por exemplo, na qual de uma hora pra outra ela volta ao normal e rapidamente a vida retorna, também, ao normal, sem maiores explicações – mas o que vem a seguir é tão bom que compensa. Também há uma violência exacerbada muito bem colocada no texto (Garth Ennis?) que contribui bastante para a atmosfera de horror. O que resta?

    Oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooutstanding!

  9. Edinaldo Garcia
    6 de novembro de 2017

    Escrita: Ótima. Simples, direta; com períodos bem construídos. O autor traz aquele tipo de escrita que não chama a atenção para si, mas deixa o enredo ser o principal foco da obra. Eu, particularmente, gosto infinitamente mais de textos assim àqueles que são feitos para mostrar que o autor sabe escrever rebuscado e não sabe contar um estória.
    E que enredo bom, hein, autor! Confesso que não sou um admirador de H. P. Lovecraft, mas você trouxe algo que me fez entrar na obra, soube ambientar tudo, até mesmo as viagens astrais e as jornadas pelo universo. Minha mente foi criando as imagens… que leitura gostosa!

    Terror: O terror demorou aparecer no conto, mas chegou, e quando isso aconteceu toda a ambientação feita ajudou a criar tensão. As subtramas funcionaram magnificamente, fazendo com que nos importemos com os personagens e criando um cenário cotidiano à narrativa que mais tarde brincaria com isso colocando em xeque os motivos da existência humana e natureza bondosa do Criador. Eu como cristão me incomodo com esse tipo de enredo, mas eu sei que é ficção e preciso analisar pelo universo autossustentável da obra. O fato de eu não conhecer muito Lovecraft, a não ser uma ou outra criatura famosa da cultura pop, fez com que eu não notasse nenhuma das possíveis referências que você colocou no seu texto.

    Nível de interesse durante a leitura: Fiquei imerso na leitura.

    Língua Portuguesa: É ótima. Não notei deslizes.

    Veredito: Conto excelente.

  10. Fil Felix
    6 de novembro de 2017

    Bom dia! Alguns pontos da história ficaram bem interessantes, como a viagem astral e a palestra, bastante críveis. A construção do conto também vem num constante, bem estruturado e narrado. Mas, talvez por ter lido alguns contos nessa temática na sequência, a história não me tocou tanto. Um grupo que entoa um canto, o sacrifício de uma criança, o ritual. No conto anterior, Deus Conosco, segue essa mesma linha. Entendo que são pontos bem clássicos das histórias de terror, e isso vai pro lado positivo pelo autor trabalhar algo mais icônico, mas também pro negativo por se tornar um lugar comum. Percebendo o quanto gostaram, talvez o problema tenha sido só comigo, questão mais de gosto. Então, por favore reconsiderar! Os diálogos do casal achei um tanto estranhos, com o uso do “meu” e “pô”, quebrando um pouco do clima, apesar da conversa em relação ao emprego terem soado bem realistas. Outra coisa clássica que vem no conto é o monstro a lá Lovecraft, recentemente li aquela coletânea em quadrinhos do Cthulhu, então me saturei um pouco de monstros cheios de tentáculos.

  11. Rose Hahn
    4 de novembro de 2017

    Lovecraft, a sua escrita é muito boa, sem dúvidas, o seu conto começou muito bonzinho, com coisas do cotidiano, mas que por si só, são um verdadeiro terror, fazer janta, lavar louça, dar banho nas crias…Quanto ao enredo achei um tanto capenga, a história da projeção astral que amaldiçoou o casal não me desceu redondo, a minha txurma esotérica ficaria de cabelo em pé lendo o seu conto, rsrs. Também achei que o excesso de diálogos do casal quebraram o quesito terror, muitas delongas no meio da narrativa. De qualquer forma, a parte propriamente do terror foi bem contada, envolvente, prendeu o leitor, ponto positivo. É isso, sorte no desafio, abçs.

  12. Gustavo Araujo
    2 de novembro de 2017

    Contaço! Muito bom! Me fez lembrar da vez em que fui a uma palestra sobre projeção astral kkk Na ocasião eu tava a fim de uma menina e ela me chamou para ir. Claro, lá fui eu haha, mas não deu nada certo. Nem com a projeção… Ainda bem!!! Então.. Gostei muito do conto. Já falei, né? Especificamente, gostei da construção da atmosfera familiar, do casal em si, das dúvidas do cara desempregado. Tudo muito verdadeiro. Tive um amigo nessa situação e eu podia ver os altos grilos que passavam na cabeça dele quando a esposa pagava as contas… E se pararmos para ver, na verdade isso não tem nada de mais… Mas, voltando ao conto, bacana a “viagem” também. Einstein disse que o universo é esférico, que se seguirmos sempre em frente, voltaremos ao ponto de partida – ou seja, não há abismo. Mas aqui, claro, toda a lógica é subvertida, de modo que, numa concepção medieval (no bom sentido), há um abismo para lá do fim. E, num arroubo de inspiração, você, caro autor, nos traz a notícia de que Deus não está lá… Mistério!!! Cara, e a cena da mãe ao pé da cama, girando o pescoço? Excelente! Gostei também da reviravolta, quando se percebe que esse lugar na Indonésia foi escolhido pela seita satânica para um ritual de sacrifício humano – a pobrezinha da Mariana… O fim, ah, o fim, achei um tanto corrido, como se você tivesse percebido que o limite havia chegado e, oh, vida, oh, azar, precisasse encerrar a história de qualquer jeito. Bom, uma vez livre das amarras do certame, sugiro a você que repense o arremate — não o conteúdo, mas a forma, talvez alongando um pouco mais. Mas é isso, parabéns pelo trabalho!

  13. iolandinhapinheiro
    2 de novembro de 2017

    Olá, autor.

    Cara, o seu conto foi o de maior fluidez que eu encontrei neste certame até aqui. Impressionada. A história pega a gente pela mão e sai passeando entre as galáxias até o abismo depois do infinito. E mesmo sendo o maior dos buracos negros, onde habita o pior dos monstros a gente quer se jogar ali, mergulhar e desvendar junto com o autor cada segredo da trama.

    Eu odeio contos cheios de diálogos mas vc escreve tão maciamente que me envolveu completamente na leitura do seu conto.

    Adorei a criatividade, e o personagem narrador.

    O conto não é isento de problemas:

    a) A filha do casal tem uma vocabulário muito além da idade para quem ainda precisa do pai para tomar banho;
    b) Há um trecho onde a menina diz que o homem sombra está na casa, e quando o pai dela vai ver, é a própria esposa, no entanto a menina chama a mãe de mãe, mais na frente. Ficou incoerente;
    c) O linguajar paulista ficou exageradamente presente, com tantos “meu” e “vida”;
    d) O casal vai para uma palestra espiritual e depois do coma a mulher vira o templo do diabo, a mais fervorosa adepta de satanás, disposta a sacrificar a própria filha para uma entidade. Achei forçado;
    e) Achei a solução muito corrida e fiquei com pena de ter terminado tão rápido. Esse conto e eu merecíamos ficar mais tempo juntos.

    Mesmo com todos estes problemas, as qualidades deste conto são inegáveis.

    Nem vou desejar sorte, imagino que o pódio já é realidade.

    Abraços.

    Iolanda

  14. angst447
    29 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio.

    E (estilo) – Linguagem apropriada ao enredo desenvolvido. Descrições cuidadosas, sem cair no exagero. Os personagens foram bem construídos e ganharam espaço aos poucos na história contada. Apesar da trama, no princípio, parecer rasa, o conto vai se agigantando. Enganou-me direitinho.

    R (revisão) – Se houve erros, não percebi.

    R (ritmo) – Ritmo muito bom, mantendo o suspense no ar, sem prejudicar a leitura. A narrativa flui sem entraves.

    O (óbvio ou não) – Nada óbvio para mim. O final surpreendeu-me, com a morte do protagonista e de sua filha (nada de poupar criancinhas, né?). O mundo foi salvo, mas o sujeito se deu muito mal.
    .
    R (restou) – A certeza de que o autor sabe muito bem o que estava fazendo e possui habilidade incrível com as palavras e imagens. E fiquei triste com a morte da menininha…sniff sniff.

    Boa sorte!

  15. José paulo
    28 de outubro de 2017

    Adorei esse conto. Leitura rápida, clima de mistério muito eficiente e pior, relatado como esquetes, que da um toque de realismo aterrorizante. Maravilhosa a cena surpreendente do telefone… ali o personagem viu que estava numa enrascada…e a cena forte da menina no quarto. Um otimo trabalho…com excelente conteúdo e com ar despretensioso. Parabens

  16. Lolita
    27 de outubro de 2017

    A história – Projeções astrais e a ausência de deus. Um ser maléfico sedento de sangue e caos.

    A escrita – O conto é excelente, porém apenas um detalhe que me incomodou: o “Vida” repetido inúmeras vezes. A morte da filha também foi muito rápida. Gostei da referência a Carcosa (vide O rei amarelo).

    A impressão – Um conto assustador. Parabéns e boa sorte no desafio.

  17. Luis Guilherme
    27 de outubro de 2017

    Caracaaa, que contaçoooo!

    Mas deixando a excitação de lado, vamos às formalidades:

    Olá, amigo, tudo bem?

    Como tenho dito, este desafio é especial pra mim, uma vez que amo o gênero. Por isso, tenho lido os contos com bastante expectativa. Dito isto, vamos ao seu:

    Pronto, passaram as formalidades, então já posso me exaltar de novo.. huauhahua

    Que contaço, cara! Super tenso, atmosfera carregada, escrita excelente, enredo bem tramado e fechado, tudo na medida.

    A escrita é divertida e tensa ao mesmo tempo. Tem uma pegada de humor meio irônico, não sei. Mas isso não atrapalha o clima nervoso do enredo, as duas coisas coexistem com perfeição.

    As situações fluem naturalmente, e acho que isso é o ponto forte do conto. Tanto os diálogos quanto os acontecimentos são totalmente naturais, parece que fui flutuando pelo conto.

    Enfim, excelente, o melhor até agora e o único nota 5. Parabénsss!

  18. Jorge Santos
    26 de outubro de 2017

    Olá Epson.
    Obrigado por ter salvo mundo. Gostei da forma como o texto foi conduzido. A tensão foi constante e prendeu o leitor até ao desfecho que tem tanto de inesperado como de brutal. Mas ninguém está aqui para happy endings.

  19. Vanessa Honorato
    26 de outubro de 2017

    “Essa é a história sobre como eu salvei o mundo” – ou quase, né? Acho que só retardou o fim, rsrsrs. A história é muito boa, li sem parar, uma viagem, literalmente. Só o final não me agradou muito, depois de tudo que ele fez, não entendi o porquê dele ter acabado justo no lugar do qual tanto fugiu. Se for uma espécie de ‘inferno’, ele não mereceu parar lá.

  20. Luiz Henrique
    25 de outubro de 2017

    O começo do conto, aparentemente denota uma ideia simples, no entanto logo em seguida a narrativa toma novos rumos, descam-bando para um enredo surpreendente, e de uma escrita que corre num ritmo constante e preponderante na feitura da história, levando a narrativa para um final extremamente inusitado. Entretanto verifiquei como uma falta à ausência do professor na continuidade da trama, visto que tudo começa com ele e não mais toma partido no enredo. Como disse a escrita é clara e limpa não percebendo falhas gramaticais. É um belíssimo trabalho literário.

  21. Leo Jardim
    25 de outubro de 2017

    # O Abismo Além do Infinito (Epson Lovecraft)

    Autor(a), desculpe-me por não ter tempo para formatar o comentário melhor. Em caso de dúvida, é só perguntar.

    📜 Trama (⭐⭐⭐▫▫):

    – gostei da história lovercraftiana
    – a sucessão de fatos e a forma descontraída de contar fez com que o texto corresse num fluxo rápido e contínuo e me fez ignorar algumas inverosimilhanças da trama
    – mas o fim, depois que ele usa as duas balas da espingarda, ficou muito corrido e, infelizmente, broxante
    – não o conteúdo das cenas em si, mas a forma como foi contado: a filha que ele lutou para salvar morreu em duas palavras e ele foi capturado também assim. Isso poderia ter acontecido, mas para funcionar deveria ser contado com mais detalhes, com o mesmo apelo que estava sendo usando antes, com carga dramática

    📝 Técnica (⭐⭐⭐▫▫):

    – uma narração crua, sem grandes trabalhos linguísticos, praticamente um relato verbal transcrito, mas que funcionou muito bem para prender a atenção e contar a história

    – Durante o jantar, Letícia contou as tais novidades *sem vírgula* com a empolgação

    💡 Criatividade (⭐⭐▫):

    – alguns bons elementos criativos apesar do tema comum

    🎯 Tema (⭐⭐):

    – o texto tem comédia, mas também tem terror

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐▫▫):

    – ganha pontos pelo ótimo desenvolvimento, mas perde pelo fim corrido

  22. Antonio Stegues Batista
    25 de outubro de 2017

    ENREDO: Pelo título, achei que fosse ficção científica, tipo Alien, o 8° passageiro, mas não. Viagem astral, ritual religioso para fazer um ser maléfico voltar à Terra e exterminar seus habitantes. Acho que,se fosse algo mais científico ficaria melhor. Creio que um ser tão poderoso não precisaria de rituais para fazer o que quer, mas como é ficção, tudo vale.

    PERSONAGENS: Achei Letícia uma chata com aquele vocabulário dela.

    ESCRITA: É boa, mas algumas ideias são bem fracas,a introdução foi longa e sem grandes revelações.

    TERROR Também fraco. Faltou uma melhor descrição das partes mais importantes, que é a possessão de Letícia e o ritual, aliás, o ritual foi bem fraco. Parece que o autor queria acabar logo, antes de passar do limite de palavras. Poderia ter diminuído as ações do início e focado mais nessa parte. Boa sorte.

  23. Evelyn Postali
    24 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Título lindíssimo! Eu quero esse título para mim. A trama é longa, mas tem diálogos e fica mais leve a leitura. Gostei da construção dos diálogos e da forma como você descreveu as ações. Está adequado ao tema. Não percebi erros muito graves que pudessem travar a leitura. Se há, não parei neles. Gostei dos personagens; de como construiu. Boa sorte no desafio.

  24. Ricardo Gnecco Falco
    24 de outubro de 2017

    Olá! Segue abaixo o resultado da Leitura Crítica feita por mim em seu texto, com o genuíno intuito de contribuir com sua caminhada neste árduo, porém prazeroso, mundo da escrita:

    GRAMÁTICA (1,5 pts) –> Sim, escrever é a arte de cortar palavras… E sem se esquecer de cuidar das que foram poupadas! Ou seja, uma boa e atenciosa revisão é FUNDAMENTAL em um texto — e não apenas para este quesito —, ainda mais em um trabalho que estará concorrendo com os de outros escritores… Aqui, vemos um conto muito bem escrito. Poucas coisas passaram despercebidas na revisão. Gramática também muito boa.

    CRIATIVIDADE (2 pts) –> Este é, sem a menor sombra de dúvida, o quesito MAIS IMPORTANTE de todos (e consequentemente possuidor do maior peso em sua nota final)… Um conto bem criativo, onde nem mesmo o nosso planeta, com seus bilhões de hectares, foram suficientes para essa história se passar. Claro que tudo acaba nos famosos “rituais satânicos”, que são o mais comum de todos os motes em histórias de terror, mas… Pelo fato de não se prender a isto, a história ganha em inovação. Parabéns.

    ADEQUAÇÃO ao tema “Terror” (0,5 pt) –> Como estamos em um Desafio TEMÁTICO, não tem como avaliar sua obra sem levar em consideração este “pequeno” detalhe, rs! Assim sendo, mesmo eu o tendo valorizado apenas com meio ponto, ao final do somatório isso poderá representar a presença (ou não) de seu trabalho lá no pódio. Aqui, o tema foi bem atendido. Chegamos a temer o que poderá acontecer ao protagonista (e que no final acaba mesmo acontecendo) e, terror dos terrores, até a criancinha é devorada viva.

    EMOÇÃO (1 pt) –> Beleza! Gramática (e revisão!), criatividade (enredo), adequação ao tema… Tudo isso é importante para um bom texto. Mas, mesmo se todos os demais quesitos estiverem brilhantemente executados, e o conto não mexer de alguma forma com o leitor, ou seja, não emocioná-lo, o trabalho não estará perfeito… Achei muito bom o início do conto que, sem sombra de dúvida, está bem melhor do que a parte final. Entretanto, incrível como um limite de 5.000 palavras ainda não foi suficiente para tirar desta história uma incômoda sensação de “correria”, principalmente na parte em que a esposa decide viajar com a família. Tudo passa de forma muito apressada e isso mina um pouco da força do conto que, aproximando-se do final, parece não dispor de espaço para desenvolver tudo que o autor imaginou de forma satisfatória. Talvez se o autor fixasse a narrativa mais no terror psicológico na parte final (como na parte da tentativa do protagonista de salvar sua filha), o conto não terminasse dessa forma aberta e filosófica que, no restante da história, não se fez tão presente. É um bom trabalho, principalmente pela boa pegada do autor, que escreve bem, mas que me deixou insatisfeito ao chegar ao desfecho da trama (talvez grandiosa demais) proposta.

    ENREDO –> Se você for bom em Matemática vai ter reparado que a soma dos valores totais dos quesitos previamente analisados (Gramática, Criatividade, Adequação ao Tema e Emoção) já atingiu o limite de pontos da nota máxima a ser atribuída aos trabalhos do presente Desafio (= 5,0), conforme as regras estipuladas pelo nosso Anfitrião… Portanto, como já levei em conta o Enredo da história ao avaliar a Criatividade da sua obra, este quesito aqui será utilizado apenas para demonstrar como eu, enquanto leitor, entendi o seu texto… Esposo desempregado é levado pela mulher a entrar em uma outra dimensão, na qual acabará — juntamente de sua família — perdendo a vida devido ao contato com entidade grandiosamente maligna e perversa que, mesmo ‘onipotente’, precisaria da ‘ajuda’ das personagens, em um ritual de sacrifício, para conseguir retornar ao mundo dos vivos e dominar o Planeta Terra.

    Parabéns e boa sorte no Desafio!
    Paz e Bem!

  25. Nelson Freiria
    23 de outubro de 2017

    “brinquei, com um triste fundo de verdade nessa segunda parte.”, isso foi tão sincero, que fiquei até triste.

    Acho que faltou um ou duas vírgulas, mas só acho. Não sou um grande interessado em coisas espirituais e etc, mas já li um pouquinho aqui e ali, o que me levou a precisar de suspensão de descrença para encarar uma viagem astral logo de cara. Porém maior do que essa, foi a que precisei quando li que Letícia pagou 300 reais em cada ametista apenas para auxiliar na viagem, sendo que ela nem era uma crente no negócio.

    O conto explora criaturas e terrores inenarráveis, o que me agrada bastante. Para trabalhar com elementos assim, acho é essencial saber lidar com o abstrato, com o conceitual, buscar boas palavras que se liguem a ideias perturbadoras e mexam com a imaginação do leitor. Acredito que o conto foi feliz nesse sentido, pois não exagerou ao usar dessas imagens, e antes disso conseguiu criar um ambiente familiar concreto, envolvendo o leitor, fazendo-o se preocupar com o futuro dos personagens.

    Ainda que tenha achado interessante esse contraste entre as duas partes do conto, acredito que a segunda poderia ter se beneficiado com um ritmo um pouco mais arrastado. Pelo menos em minha leitura, tudo foi mto rápido. O final tem um impacto legal, pois ele é bem desagradável, mas confesso que esperava mais detalhes, como gritos, olhares, sangue,… mas isso seria mta maldade com a criança, não?

    Ia dizer qualquer coisa sobre algum trecho me lembrar isso ou aquilo, mas já foi dito por outros comentaristas, hehe. Só adiciono alguns momentos me lembraram tanto de “a sombra de innsmouth” quanto partes do jogo “dark corners of the earth”.

    A arma na parede foi fácil de deduzir que seria uma Arma de Chekhov, pena que ela não nos deu mais conflitos. Quando o protagonista estoura a estátua, imagino que seja uma estátua pequena ou de algum material bem ruinzinho, mas isso não importa tanto, e sim que a estátua não me pareceu ser algo essencial pro ritual à primeira vista, talvez se tivesse ali um detalhe sobre ela, algo que a tornasse única, acredito que isso ressaltaria sua importância.

  26. Fheluany Nogueira
    22 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – Mantive-me curiosa do início ao fim. O conto instiga e leva o leitor numa viagem por uma projeção astral, juntamente com os protagonistas. Ambiente e personagens estão bem construídos e a escrita é extremamente envolvente. Há algumas falhas de continuidade, mas insignificantes para o conjunto.

    O assunto explorado traz certa complexidade, e exige a compreensão de certos conceitos, referências (mythos de Lovecraft) e implicações filosóficas (origem/fim do universo).

    Terror e emoção – O sacrifício da menina que ao ser evitado trouxe uma situação piorada; a salvação do mundo, mas a morte e o inferno para o herói constituíram um clímax aterrorizante.

    Escrita e revisão – A técnica narrativa é esmerada, fluente e com construções frasais admiráveis. É interessante notar dois tons narrativos distintos e marcantes, um para as narrativas e diálogos do cotidiano (mais coloquial) e outro para as visões na projeção corporal.

    Parabéns pelo excelente trabalho. Abraços.

  27. Andre Brizola
    22 de outubro de 2017

    Salve, Epson.

    Eu achei o conto muito, muito bom. De início fiquei um pouco incomodado com o sotaque paulistano tão escancarado. Sei que é exatamente assim, mas no texto eu estava achando tudo muito estereotipado. Mas isso até o aviso de que eventos tétricos passaram a acontecer. A partir desse momento o enredo engrena e o ritmo é perfeito para o clima que foi criado; todo o incômodo, inclusive, desaparece e acaba sendo esquecido mesmo, subjugado pela trama.
    O terror está todo aí, grandes antigos, viagem astral, sacrifício humano culto, satanás, horrores cósmicos, etc. São tantos elementos, e tão bem costurados, que fica difícil não gostar. Um trabalho excelente no que diz respeito à composição de cada elemento.
    Como único senão aponto a cena da conversa com a esposa possessa. Ela estava de pé, na cama, olhando para o canto e quando desperta a reação dela não é de surpresa com a sua própria atitude e sim com a do marido e filha. Poderia ser uma dissimulação? Poderia. Mas o marido compraria a situação assim tão fácil? O corte não deixa margens para explicação, mas achei que aquele pedaço poderia ter sido um pouco mais trabalhado.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  28. Fernando.
    22 de outubro de 2017

    Contos de terror possuem um objetivo bem claro: dar medo e esta narrativa me trouxe desconforto, foi realmente perturbadora. História muito bem contada, relato bem encadeado, um enredo, literalmente, apavorante. Do que senti falta? Sim, senti falta do professor, fiquei aguardando que ele, de repente, ressurgisse na trama. O tal professor gordinho, o Borges, se apagou totalmente. Terá ficado assistindo o alinhamento desde os anéis de saturno, conforme previra? O vocativo afetivo “vida” que no começo me pareceu bem repetitivo, ao final da história fez todo sentido para mim. Parabéns pela sua criatividade e competência.

  29. werneck2017
    22 de outubro de 2017

    Olá,

    Gostei muito do conto, narrado de forma fácil e fluente, que cativa o leitor logo nas primeiras linhas, sem contudo deixar de trazer pérolas como:

    onde pífaros amaldiçoados entoavam suas blasfêmias com a calma da eternidade

    com toques de um humor elegante e sempre bem posto ao longo da narrativa de tempos em tempos. As referências aos mythos, a precisão na construção dos personagens, a mudança de atitude de Letícia, tudo é bem exemplar e bem colocado numa sequência que começa leve e vai num crescendo de abominação até o desfecho final, surpreendente e inesperado.
    Magistral. Parabéns.

  30. Pedro Teixeira
    21 de outubro de 2017

    Talvez eu seja suspeito para falar, por ser um grande fã de Lovecraft, mas…Um conto muito, muito bom. Vai ser difícil algum texto do desafio me cativar tanto quanto este. Muito legal a forma como Carcosa foi inserida na trama. A descrição do cotidiano da família e os diálogos fazem com que a gente se envolva e torça pelos personagens, o que torna o final ainda mais impactante. Os mythos são tratados de forma magistral: a estratégia de não mencionar o nome dos velhos deuses foi certeira, porque para quem conhece esse universo ficaria redundante, e para quem não conhece seria informação demais.
    No que se refere aos diálogos, talvez na região do autor se fale assim, mas estranhei um pouco as gírias (nada que chegue a atrapalhar). E também notei mudanças na voz narrativa nas viagens astrais, em que ela adquire um tom mais clássico, mais semelhante à narrativa do Lovecraft. Eu gostei, mas parece ter quebrado um pouquinho o senso de unidade, como se aquela fosse a voz de outro personagem. No entanto, isso acaba se tornando um detalhe quase insignificante quando consideramos a alta qualidade da escrita, o enredo redondinho, os personagens muito bem desenvolvidos e as excelentes descrições.

  31. Paulo Luís
    19 de outubro de 2017

    O começo é de uma conversa meio que rasa, mas se desenvolvendo até que bem. Estranhei o fato do tal “professor Borges”, não ter mais nenhuma participação nos acontecimentos seguintes. Não haver nenhuma manifestação, uma investigação que fosse. Estava se tornando difícil a compreensão. Mas em seguida o enredo toma um rumo esplêndido. A escrita caminha numa evolução contínua, de admirável domínio. Temos aqui um conto longuíssimo, mas que passa como um flash, de tão dinâmico sua descrição. Não há problema com a gramática, mesmo se algum houve a qualidade da narrativa engoliu. Mas venhamos e convenhamos, haja invenção, haja ficção para agradar aos espíritos indômitos de tanta sede de pavores e de horrores. Pra mim é muito difícil engolir uma história como essa, dando-lhe um pingo de veracidade, mesmo que perfeitamente ciente de ser uma ficção. Serve o discurso, em forma literária, como uma grandiloquente enganação para saciar catarses, pouco maior que um Fla/Flu. Mas, entretanto, e acima de tudo, um trabalho magistral, tanto como invenção, quanto na realização. A nota não pode ser outra, senão a máxima.

  32. Lucas Maziero
    19 de outubro de 2017

    Lovecraft, que conto tétrico este!

    Várias sensações ocasionadas: expectativa pelo salvamento de Mariana, raiva pela loucura de Letícia e perturbação por tudo o que aconteceu, e pelo indizível abismo que espera, inexorável, com a calma da eternidade.

    O conto reflete um atilamento com a atualidade, as cenas do casal Ricardo e Letícia estão muito bem narradas e contextuais, permitindo assim uma identificação com os personagens: é a meta que todo escritor(a) aspira para as suas histórias.

    Ainda não li todos os contos, mas posso dizer que O abismo além o infinito figura entre os mais bem escritos e envolventes. A gramática e ortografia estão impecáveis, e o estilo claro e agradável.

    A expectativa foi construída de modo a nos chocar no final. Tivemos uma palhinha do que estava por vir com a cena da palestra do professor Borges. Bem ali começamos a desconfiar que Letícia foi seduzida pelo abismo, e mais do que nós Ricardo deveria ter ficado desconfiado. Aliás, ele ficou, mas não o bastante. Não chega a ser uma falha na trama, pois de outro modo, como eu já repisei em outros comentários, a continuidade dos acontecimentos não seria possível. Beleza, meses se passaram e Letícia pareceu voltar ao normal, até o dia da viagem a Sabalana. O cara não desconfiou de nada, e ainda levou a filha.

    Pontos pouco críveis: que a espingarda estivesse carregada e quando “algo bateu com força na minha cabeça.” Com isso ficou fácil demais, os fanáticos poderiam ter dado cabo de Ricardo nesse momento, mas assim os eventos posteriores não aconteceriam. Tem sempre que ter uma brecha (aceitável, como no caso) na trama para poder dar tudo certo, ou errado.

    O final ficou delirante, muito bom. Nada do que se esperava: o pai resgatar a filha e voltar para casa. Qual nada.

    Gostei deveras do conto, muito bem construído.

    Belas frases:

    “onde pífaros amaldiçoados entoavam suas blasfêmias com a calma da eternidade”
    “à uma realidade de distância” – seja o que quer que signifique!
    “uma escuridão gélida e insondável, como se ali estivessem concentradas todas as iniquidades dos homens”
    “domingo ensolarado em seu sorriso”
    “sentisse saudade do abismo” – ficou hilário, ao mesmo tempo em que demonstrou o maior horror para Ricardo: perder a filha.

    Parabéns!

  33. Rafael Soler
    19 de outubro de 2017

    Nossa, gostei demais desse texto, uma pena que tenha sido apenas um conto, acho que poderia muito bem ser expandido para um romance ou, pelo menos, para uma noveleta.
    Sou suspeito para comentar sobre terror cósmico, que é um dos tipos de história que eu mais gosto, mas esse conto é realmente muito bom. Desde a estruturação da trama, o ritmo, a gramática, os diálogos e tudo o mais. Adorei como misturou a mitologia lovecraftana com uma pegada de Robert W. Chambers.

    O único defeito, como já mencionei, é que é apressado demais. Gostaria muito de ler essa história expandida.

    Excelente trabalho, nos vemos em Carcosa!

    😀

  34. mariasantino1
    19 de outubro de 2017

    Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’naglfhtagn. 😀

    Climão Lovecraftiano, hã?

    Gostei demais do seu trabalho. Tem aquela pegada moderna, com o tempero dos mythos. Seu conto vai ter sim a minha nota máxima, mas acho que só a palestra não é suficiente. Melhor dizendo, acho que a mulher poderia estar mais ligada a isso é não convidar o marido de uma hora para outra. Veja bem, eu gostei horrores do seu conto, mas acredito que a ligação mística, o chamariz para o lance cósmico merecia mais.
    Fora isso não tenho nada a dizer. Diálogos naturais, muito boa escritra e terror cósmico como manda “o cara” sem ser igualzinho.
    Parabéns pelo texto.

    Abraço!

    • mariasantino1
      19 de outubro de 2017

      Quis dizer >>> a mulher poderia estar mais ligada a isso E não convidar o marido…
      Estou via celular.

  35. Fabio Baptista
    18 de outubro de 2017

    A parte técnica é muito boa. Acho que foi um dos contos com leitura mais fluida até agora, do tipo que faz o tempo passar rápido, prendendo a atenção a todo instante, intercalando muito bem as descrições com os diálogos (gostei bastante do “sotaque” kkkkkk). Não encontrei lapsos de revisão.

    A trama é interessante, traz assuntos curiosos como a projeção astral (tinha um amigo que dizia fazer isso, mas, segundo ele, não era uma experiência muito agradável), confins do universo, deuses antigos, etc. No começo, confesso que fiquei receoso que o conto fosse caminhar para algo do tipo “ficar desempregado é um terror” rsrs. Felizmente não era nada disso.

    Percebi referências óbvias aos mythos do Lovecraft: o sacerdote que espera sonhando certamente é Cthulhu. O deus do abismo muito provavelmente é Azatoth. Já o homem de sombra, não consegui identificar. Ele se identifica como “o nome sussurrado” e isso me lembrou Vecna, o deus Lich do RPG… mas acho que não é (e sinceramente espero que não seja), porque não tem absolutamente nada a ver huahuahuauha. Também notei uma referência ao Rei de Amarelo e aos filmes japoneses tipo O Chamado (essa cena ficou clichê, mas muito boa). Provavelmente tem outras que não me liguei.

    Não sei até que ponto foi uma boa ideia não revelar os nomes dos deuses e também não sei como exatamente o texto funcionaria para quem não conhece os textos do Lovecraft. A parte do culto no final pode parecer meio deslocada, por exemplo. Eu gostei bastante, embora prefira a pegada mais de terror espacial e as filosofias sobre a origem/fim do universo que apareceram ali na metade.

    Ótimo conto!

    Abraço!

  36. Ana Maria Monteiro
    18 de outubro de 2017

    Olá, Epson. Você presenteou-nos com um excelente conto, excelentemente contado. Ou seja, não anda nisto há três e nem deixa os créditos por mãos alheias. Sabe muito bem o que escreve e como fazê-lo. Conseguiu até,com muita arte, picotear todo o conto que é de terror, com pitadas de humor, sem que estes dois elementos entrassem em choque, antes contribuindo, cada um, para o aprimoramento e resultado final. Muito bom!
    Nesta parte até me ri (coisa que nunca me sucede a ler) com a força da imagem: “notei que os demais hóspedes me encaravam de um jeito macabro e, de repente, me senti uma zebra convidada para uma convenção de leões.”
    Mas existe esse fenómeno estranho que leva a que, quanto mais próximos estamos da perfeição, maior é o incómodo causado pela mosca e eu tropecei numa. Li e reli várias vezes o pedaço de texto onde ela está, mas não encontrei forma de lhe dar ali um sentido e então admito que seja a minha visão desfocada, mas aponto-a: quando a menina vai ao quarto dos pais, assustada, a meio da noite, ela fala num homem; logo de seguida o pai vira-se e constata que é a mulher. Até aqui ainda vai, eles podiam estar a ver coisas diferentes, mas momentos depois ela diz ” — Papai, eu tô com medo da mamãe…”, falta a parte em que a menina passa de ver o homem, para perceber que é a mãe. Como seria possível isso suceder sem qualquer manifestação? Não consegui perceber, achei que faltou a reação dela.
    A revisão está primorosa (uma pena aqueles “:” que passaramlogo no início), mas mesmo assim dei por dois pormenores, são eles: “à uma realidade de distância”, seria “a uma realidade…”, certo?; e “Se a gente ver que é picaretagem”, aqui não tenho a certeza absoluta, pois vocês conjugam os verbos sempre de forma diversa da nossa, mas parece-me que deveria ser “se a gente vir”, como digo, não tenho a certeza e, noutro conto, garanto que nem diria nada, mas, caso esteja certa, seria para mim imperdoável não lho dizer.
    Resumindo: estamos perante um excelente conto, muitíssimo bem conduzido (esqueci-me de referir a densidade quase palpável dada a ambos os protagonistas), escrito por um veterano e que atende perfeitamente ao tema. Não creio que se possa pedir mais.
    Parabéns e nem preciso desejar-lhe boa sorte, pois sei que vai ter um ótimo resultado.

  37. Paula Giannini
    18 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    Antes de falar de seu conto como um todo, gostaria de falar sobre uma cena específica, na qual reside, ao menos para mim, o ponto alto e o cerne de todo o trabalho. A cena da viagem astral e o abismo.

    Quando li, lembrei-me imediatamente do filme “Brainstorm” de 1983. No filme, cientistas inventam um equipamento capaz de gravar os sentimentos das pessoas e transmití-los a outros, no entanto, um dos cientistas acaba gravando a própria morte. Dessa forma, o receptor daqueles sentimentos com o tal equipamento, desavisadamente vive um experiência de quase morte na qual o personagem também se depara com um abismo. Não sei se o filme é considerado bom, mas sei que gostou e me marcou. Tanto que lembro dele até hoje.

    Voltando ao conto, a cena do abismo me surpreendeu com a descrição do insondável, do imponderável, do maior dos terrores que seria o confronto da criatura com o criador, com o início de tudo, talvez com o final. E eis que a personagem em um dos diálogos propõe. “— E se Deus for mau? — E se tudo o que a gente faz ou deixa de fazer nesse mundo, se todas as coisas que a gente ama e odeia não fizerem a menor diferença, se a nossa vida, nossa morte e nosso destino estiverem nas mãos de um deus que só nos criou pra se divertir num momento de tédio e depois nos esqueceu aqui, abandonados à nossa própria sorte?”. É ai que reside, ao menos para mim, toda a força, a beleza e o terror do conto.

    Por este motivo, talvez, não sei se até que ponto as peripécias com o culto e o sacrifício foram suficientes para mim (como leitora). Talvez a imagem do culto em um país exótico, me remetam um pouco ao arquétipo de Indiana Jones, e faça com que tudo soe um tanto quanto “histriônico”, sei lá. Talvez o interessante do texto esteja justamente nesse antagonismo entre o universo do imponderável e o cotidiano do ser humano, tentando se encaixar nesse algo maior que não consegue compreender.

    Gostaria, no entanto de dizer, que a cena do insondável mistério do universo foi tão forte para mim que me ganhou e vale por todo o conto.

    De resto, sua escrita é ótima e há outros momentos que demonstram sua ótima habilidade como escritor(a), como é o caso da passagem da devoração da criança e da imagem do pobre protagonista vagando rumo ao infinito.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  38. Marco Aurélio Saraiva
    17 de outubro de 2017

    ====TRAMA====

    É uma trama um tanto extensa para uma quantidade tão pequena de palavras. Esta história renderia um livro inteiro, para dizer a verdade.

    Gostei de como você usou os primeiros momentos da trama para criar a relação entre Letícia e Ricardo e introduzir pontos do roteiro que seriam usados posteriormente (o “big boss” edson, por exemplo, e o grande projeto no qual Letícia estava envolvida). É um conto de dois personagens, o que te deu bastante espaço para desenvolvê-los muito bem. Gosto como Ricardo é o narrador, ou seja, seus olhos são os olhos do leitor. Ele faz o contraponto aos absurdos, tenta achar razão na insanidade que presencia, e guia o leitor durante toda a leitura.

    A história é muito boa – uma verdadeira ode a Lovecraft – mas ela pede um espaço muito maior para ser contada. Do jeito que está, ficou corrida demais. As cenas principais estão aí, mas tudo parece um “resumão”. Para criar a tensão necessária em uma trama deste escalão, você precisa de algumas dezenas de milhares de palavras a mais. Entendo que contos curtos de terror precisam de espaços pequenos e situações mais simples para criar a tensão necessária no leitor.

    O desfecho foi bom. Assim como boa parte dos contos que li agora – e como é a moda dos contos / livros / filmes de terror – não há um final feliz. Isso não incomoda. Neste conto, porém, ficou aquela sensação de que “dava para fazer um final um pouco menos mórbido” (talvez por quê Ricardo é quem narra a história, o que dá a impressão, desde o início, que ele ainda está vivo. E também talvez por quê há uma criança envolvida, rs rs rs). Mas o que foi apresentado é tão bom quanto.

    ====TÉCNICA====

    Suas descrições são muito boas. Você narra de forma simples o que pede simplicidade, e mergulha em construções elaboradas quando o texto pede uma maior profundidade. Essas mudanças foram feitas muito bem na maior parte do conto, mas algumas vezes esse contraste era feito de forma muito abrupta, o que confunde um pouco a leitura. Parece que eu, como leitor, tenho que virar uma “chave” sempre que você muda o seu estilo de narrativa.

    Por exemplo, olhe esse parágrafo simples abaixo:

    “Restou-me pegar um colchonete e, por insistência de minha querida esposa, usar a bendita ametista. A pedra precisava ficar no topo da cabeça e o pano, amarrado ao redor do queixo como os personagens com dor de dente nos desenhos animados, servia para fixá-la. Não demorei a dormir.”

    É um parágrafo bem escrito, mas de simples leitura e até bem-humorado. Logo em seguida (no mesmo parágrafo), porém, você me dá esta frase:

    “E depois da realidade se perder em meio às brumas do reino onírico, eventos tétricos começaram a ocorrer.”

    Tive que “dar um passo pra trás”, respirar, virar a chave na minha cabeça e continuar lendo. Este pode ter sido justamente o efeito que você esperava criar no leitor – se foi, parabéns! Mas se não foi, seria interessante “aparar as pontas” destes trechos, rs rs.

    Seus diálogos são muito bons também. Há quem vai odiá-los, mas gosto quando o autor dá naturalidade às falas, adicionando regionalismos e manias coloquiais nas falas de cada personagem. Isso adiciona muito na personalidade deles.

    O texto precisa de um pouquinho de revisão. Avistei uns errinhos de pontuação e algumas palavras equivocadas (não vou listar aqui por quê este comentário já está ficando longo demais), mas na maior parte o conto está muito bem escrito, suas descrições foram bem construídas e os diálogos também. A única coisa que incomoda mesmo no conto inteiro, como citei acima, é o ritmo corrido demais, o que impede o leitor de criar a tensão e expectativas necessários em um conto de terror.

  39. Eduardo Selga
    16 de outubro de 2017

    No conto “Deus conosco” eu disse o seguinte: “Sacrifício ao Demônio e sonho: dois lugares-comuns que foram usados sem maiores fugas ao clichê. Se tivesse ocorrido um tratamento de algum modo inovador teria sido importante, pois se destacaria num universo de iguais”.

    É exatamente esse tratamento inovador dado ao clichê do sacrifício que temos nesse conto, com a devoração da criança que escapa à punhalada, e esfoladura de quem a salva num primeiro momento. Muitas vezes o clichê de gênero está presente, até como um modo de fazer “ancorar” o leitor no texto, lembrando-o de que se trata de tal ou qual gênero, mas é preciso, como aqui acontece, saber usá-lo.

    Destaca-se no conto, em minha opinião, o uso da linguagem. O coloquialismo usado não é, nesse caso, falta de repertório vocabular, e sim instrumento da mimesis, ou seja, o efeito de real. É um coloquialismo que está muito nos diálogos e quase nada na narração feita pelo protagonista. Há, inclusive, como ocorre em “Nossos próprios deuses”, mudança de características discursivas quando a narração ocupa espaço, em detrimento do diálogo. Este é mimético; aquela, ligeiramente poética em pontos específicos. Ressalto isso não como qualidade ou defeito, e sim como uma característica relevante, na medida em que há autores para os quais o personagem é uma extensão discursiva do narrador, ou seja, entre ambos não há diferentes marcas de “fala”.

    Num dos pontos mais poéticos do conto é possível lembrar-se do discurso do personagem Roy em Blade Runner, em que ele diz: “eu vi coisas que vocês não acreditariam. O ataque das naves em chamas no Cinturão de Orion. Eu vi o brilho de raios-C na escuridão perto do portão de Tannhauser. Todos aqueles momentos se perderão no tempo… como lágrimas na chuva… Hora de morrer”. No conto, o trecho que me remete ao filme é este: “Nas bordas do universo, entre sombras de estrelas escuras e carcaças de planetas mortos, depois do infinito, à margem do tempo e da compreensão humana, estava o derradeiro abismo, o pai de todos os infernos, de todos os buracos-negros e de tudo que é vil e maldito. Dali emanava o caos em seu estado mais bruto e também um som lamurioso de pífaros soprados por almas eternamente condenadas. Dentro do poço colossal de escuridão e maldade, de alguma forma eu sabia, ocultavam-se os segredos da existência”. Qual o ponto de contato? A desesperança e a morte num cenário cósmico.

    Outra referência intertextual remete a Paul Auster em “Noite do oráculo”, em que se lê: EU VI O FIM DE TODAS AS COISAS, Homem do Raio. Desci até as entranhas do inferno, e vi o fim. Você volta de uma viagem dessas e, por mais que continue no meio dos vivos, uma parte de você vai estar sempre morta”. No conto, temos “EU VI O INÍCIO E O FIM DE TODAS AS COISAS. E Deus não estava lá”.

    Um colega disse, ao analisar um dos contos, que um bom texto de terror precisa ter humor, a sua antítese. Aqui temos um momento assim: “[…] daqui seis meses vai ter um alinhamento estelar-planetário rarissíssimo e sabe de onde eu vou ver? Sentadinho lá nos anéis de Saturno!”. Ficou interessante nem tanto por quebrar a tensão, pois à altura havia pouca: mais por ser uma atitude inesperada de um guru, cujo discurso normalmente carrega autoridade concedida pelo misticismo e porque fica a dúvida: será ele o charlatão previsto pelo protagonista?

    De vez em quando eu falo das palavras com mesma terminação postas excessivamente próximas, mas que não cumprem nenhum efeito estético, pelo contrário: incomodam. Nesse conto há um caso de proximidade COM EFEITO ESTÉTICO: “[…] após o que pareceu uma eternidade flertando com a insanidade induzida pela canção lamuriosa […]”. Entre “eternIDADE” e “insanIDADE” há uma ponte semântica que é “flertando”. Essa palavra sugere aproximação, e durante um flerte ou namoro há certa similaridade entre os envolvidos. A aproximação e a similaridade são, na frase, o efeito de assonância.

    Possivelmente falha de revisão os DOIS PONTOS fora de lugar: “Naquele dia eu já havia: enviado currículos para as vagas […]”.

    Talvez pelo mesmo motivo foi grafado “rarissíssimo”.

  40. Regina Ruth Rincon Caires
    15 de outubro de 2017

    Um belo conto. Enredo bem costurado, interessante, narrativa fluente, o autor mostra muito domínio sobre a escrita. Narrativa bem cadenciada, prende a atenção do leitor. As descrições são perfeitas e a construção das personagens é primorosa. Gosto disso, falar sobre as suas aflições, sobre as inseguranças e aspirações (e que todos nós também sentimos) deixa o personagem mais vivo, mais próximo do leitor, parece que está do lado de cá, neste mundão de MEU DEUS.

    Não posso dizer que é uma leitura tranquila, que relaxa. Não. É leitura aflitiva, mas o conto é primoroso. Nem preciso dizer que a parte inicial do texto é muito mais leve, dá a impressão de que Letícia superou o transtorno, o leitor até torce por isso. Mas, o desfecho, com os “fiéis” do culto maldito devorando a menina Mariana AINDA VIVA, é apavorante.

    Existe terror, medo, sofrimento. O “vida” pode até ter salvado o mundo, mas a batalha foi violenta.

    Parabéns, Epson Lovecraft!

    Boa sorte no desafio!

  41. Olisomar Pires
    14 de outubro de 2017

    Impacto sobre o eu-leitor: baixo.

    narrativa/enredo: casal é envolvido por experiência mística e se desintegra.

    Escrita: razoável. Alguns erros de pontuação, nada muito grave para a leitura.

    Construção: A primeira ambientação é bastante colorida e simpática, o que não é empecilho num conto de terror, mas me parece que o tom aqui passou um pouco.

    Quando a segunda parte veio com o terror propriamente dito quase não o senti devido à exposição jovial anterior. Então fiquemos na segunda parte.

    A idéia do terror é boa: fim do mundo, deuses malévolos, escuridão e tal. Mas ficou bastante apressada.

    O sujeito e mulher que nunca fizeram uma viagem astral consciente conseguem de primeira e já vão para o espaço longínquo ?

    O auto-proclamado lama tibetano e escritor Lobsang Rampa ensinava que a viagem astral era um caminho de persistência e prática, sendo que as primeiras vezes raramente ultrapassavam o ambiente do quarto. Um ponto que não ajudou na suspensão da descrença. Ficou forçado para mim que li muito o autor citado.

    No mais, é isso: um texto divertido com um final bastante sangrento, mas meio sem sentido.

  42. Angelo Rodrigues
    14 de outubro de 2017

    Caro senhor Epson Lovecraft,

    achei demais a paródia HP- Hewlett Packard com Epson.
    Gostei muito do conto. Tem um ritmo bom, flui com naturalidade e tem muito bom humor através da narrativa, quebrando – e isso é ótimo – o ritmo esperado de um conto de terror. Por óbvio, antes de o terror acontecer, as pessoas não precisam viver como se o terror já tivesse acontecido. Elas têm vida normal, até…
    As personagens estão bem marcadas, a trama flui sem idas e vindas, é direta e limpa. Não encontrei nada na redação que me chamasse a atenção negativamente.
    A ideia-tema é boa e a condução leva efetivamente ao desfecho que teve. As imagens do universo, do pós-universo também são boas. Até a jocosidade em torno do tal Borges veio bem a calhar.
    As coisas estava nos seus lugares certos nas horas necessárias. Se era preciso uma espingarda para matar os monstros, lá estava ela sob o enorme jacaré, sem um “de repente vi uma espingarda”, e por aí foi. Bem legal
    Algumas coisas, muito poucas, talvez com o propósito de parecer mesmo um clichê, ficaram marcadas, como a cabeça girando por sobre o pescoço, algo como faria Linda Blair em O Exorcista; a assunção de vozes fantasmagóricas, e tal. Mas tudo bem.
    Aí vieram as gargalhadas. Hum. É o sexto texto em que encontro gargalhadas. Já estou ficando meio sem jeito com isso. Os monstros dão gargalhadas, os vivos também dão gargalhadas. Menos eu, que nunca dou gargalhada alguma. Estou achando que o problema é meu mesmo…

    Valeu, Lovecraft, obrigado por nos deixar conhecer seu conto.

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Publicado às 13 de outubro de 2017 por em Terror e marcado .