EntreContos

Literatura que desafia.

A escuridão e o coaxar (Lolita)

O negrume das paredes
Crivado de sal do mar
Ensinava para as crianças
Os perigos de gritar

 

Mamãe, minha querida mãezinha, que me abandonou quando eu estava prestes a completar sete anos de idade. Segure a emoção, pois agora lhe contarei tudo o que aconteceu comigo durante os anos em que ficamos separadas. Entenda que tive trabalho para encontrar a senhora, então não tente fugir de novo do meu olhar. Se acomode em suas cordas e escute, quero falar.

I

A lembrança mais nítida que tenho da nossa antiga casa é a sujeira. Eu de calcinha, sentada no chão, olhando as manchas das paredes e ali enxergando os mais diferentes desenhos: um cão, flores, pirulitos e corações. Curioso, fantasiava com mofo o que as outras crianças imaginavam em nuvens. Sabe, nem me passava pela cabeça pedir para brincar na rua, tentava o máximo possível ser boazinha e não incomodar você. Só que, de vez em quando, não conseguia controlar o choro e isso lhe irritava, fazia a dor acontecer… A senhora era bonita demais, não era? Tão injusto, tanta beleza e potencial sendo desperdiçados com o fardo de uma criança feia. Pare de negar, entendo as razões que te levaram a me deixar com o Velho.

A manhã de dezessete de setembro de 1992. Uma data insignificante para as pessoas e tão especial para nós. Recordo que me arrumei com a melhor das roupas, o vestido amarelo reservado para as ocasiões especiais. Na mochila, a minha única boneca e um batom rosa, que tempos depois fui descobrir a serventia. Ah, mas como fiquei feliz durante aqueles preparativos, sendo a dona das suas atenções e sorrisos mesmo que por instantes. Você ainda sorri, mamãe? Sorri, sua vagabunda? Ria para mim, quero ver esses seus dentes se mostrando. Isso, assim, muito bom.

Continuando, talvez a senhora lembre que choveu durante boa parte do trajeto para a praia, o que tornava a estrada perigosa no avanço das curvas e buracos. Teria sido providencial um acidente, não concorda? Já imaginou, nós duas, eternamente unidas pelo abraço do fogo e ferragens. Pena que essa cena esvaneceu-se no campo das possibilidades, o Criador guardava outros planos para a nossa peça. Esse Deus sádico, que brinca com os homens para aliviar o tédio da sua onipotência. Não há como escapar dos temperamentais desígnios divinos, assim como era impossível transpor os limites do covil do Velho.

II

A “casa em luto” era a alcunha que vizinhança deu para aquela cabana coberta de piche. Depois das dunas, ocupando o centro de três pantanosos terrenos, cercada por altos pinheiros, pedras e montes de lixo. Na verdade, todo esse caos era planejado, tinha o propósito de encobrir, de possibilitar ao Velho concretizar as suas fantasias com tranquilidade. Ninguém se metia no meio da imundície por vontade própria, ele compreendia e se aproveitava disso.

Quatro quartos. Não havia sala ou um banheiro de verdade, mas ali existiam quatro alcovas. A senhora chegou a reparar nisso, se perguntar a razão? Você olhou para lugar no qual abandonou a sua filha? Não, capaz que notaria. A incandescente e jovem vagabunda só estava preocupada em despachar o pacote, virar os calcanhares e ir ser feliz. E os meus gritos foram a trilha sonora da sua libertação. Em desespero eu chorei, implorando que voltasse. Isso realmente divertiu o Velho, tanto que ele me deixou correr atrás da senhora, numa tentativa infantil de fuga. Quando caí no meio das pedras, ralando os joelhos e cotovelos, é que ele cansou da brincadeira. Já havia sido o suficiente. Então, aquele homem, que era muito maior e mais forte do que parecia, me carregou para dentro como se levasse nas mãos uma folha de papel. Era a hora das minhas boas-vindas.

Esqueci em qual dos cômodos foi a minha inauguração, contudo, ainda escuto nitidamente as ripas das paredes estalando. A escuridão havia tomado conta de tudo. Atordoada, ingenuamente acreditei que me tapar com o cobertor seria uma proteção eficaz. Eu era pequena e boba, não entendia o que estava acontecendo comigo, só queria a minha mãe. Mas não, você não estava lá. Havia unicamente a sombra dele no batente da porta, e ela pulou em mim como uma fera que está prestes a colocar os dentes na tenra presa da vez. “Quanto mais tu chorar, mais forte vou fazer”. E ele cumpriu, enfiando o punho nodoso na minha boca para abafar os berros. Doeu mãe, da primeira vez sempre dói. À medida que acabava, o que ia vertendo das minhas pernas deixou o monstro de bom humor. Sangrei durante horas, feridas que cicatrizaram sem hospital. Logo, outras chagas profundas se abririam em cima daquelas. Algo para me acostumar.

A Mulher compareceu nas manhãs seguintes para administrar o trabalho doméstico. Era quase tão velha e forte quanto o meu novo tutor, só que tinha uma aparência que transmitia a falsa ideia de bondade. Os pés de passos miúdos e a voz baixa tornavam-na discreta, o que a fazia útil em um ambiente que dependia do sigilo dos seus integrantes. A agressividade dela revelava-se no modo como esfregava o assoalho e na impassividade com a qual ouvia os meus choros. Depois, com a suavidade de um algodão embebido em álcool, professoralmente girava o seu dedo no ar e, sem dó, aquela fortaleza me lançava as acusações de ser má e injusta. O quanto era egoísta reclamar. Me entristecia de uma maneira, mãezinha, ao mesmo tempo que me ajudava a aceitar a natureza do suplício. O Velho sabia escolher bem os seus aliados.

III

Naquele inferno, os demônios transmutavam-se em sapos. Haviam milhares, em todos os cantos. Mamãe, a senhora já encarou um sapo? Me diz, já encarou? Pois eu já. Os olhos vazios e o permanente sorriso rasgado, tosco rascunho de rosto. A pele pedregulhosa balançando aos pulos na sua direção. A língua gelada e comprida, pronta para enlaçar um pescoço e estrangulá-lo. Confesso que tomar banho, ainda hoje, é agoniante devido a impressão de que eles continuam a me observar: na praia, a minha higiene era invariavelmente acompanhada por uma debochada plateia de anfíbios. E ai de mim se tentasse qualquer coisa contra os adorados animais do Velho. A integridade deles valia muito mais do que a minha.

Com o passar dos dias, o incessante girar dos ponteiros do relógio pendurou-me nos fios de um autocontrole que não sei como, na pequenez dos meus sete anos, desenvolvi. Possivelmente, a sobrevivência seja uma pedra no fundo do lago primitivo dos nossos genes. Assim, mergulhar para buscá-la era o que me fazia aguentar as sessões nas quais eu era forçada a reencenar os sonhos da mulher do pescador, os malditos sapos substituindo os inacessíveis polvos. Era o que me ditava o compasso para a dança manchada de batom. O Velho adorava aquilo. Dizia que eu era a sua musa e crescia em mim enquanto me obrigava a ritmar mais rápido. Cadência em tons de rosa, mãe. Tenho orgulho da complacência e da covardia calculada que me preservaram.

Por exemplo, se eu tivesse deixado a curiosidade aflorar e tentado descobrir o que havia efetivamente no sótão da cabana, um doloroso assassinato teria sido o meu prêmio. Desconheço quais coisas estranhas ali pairavam, mas eram profundas o suficiente para não serem mencionadas. Todavia, afirmo com a certeza que as interrogações em aberto nos deixam, eram frequentes na madrugada passos, gemidos e risadas acima da minha cabeça.

A única vez que ousei puxar o assunto foi com a Mulher, que estava lavando uma pilha de roupa no tanque de cimento. Nem consegui efetivamente perguntar o que queria, ela leu as vontades que brotaram no meu rosto e, pedagogicamente, me cortou:

— Jesus, eu não quero escutar o que tá na porta dessa tua boca grande. Sua metidinha, ali a poeira baila, tá certo? Tu quer te tornar poeira também?

Neguei e, assustada, corri para o meio dos pinus. O abraço salgado das folhas foi o que me acalmou. O absurdo ditava a regra no reino a ser tragado pelo mar…

IV

Os outros chegaram quando o sol brilhava longe do litoral e o inverno imperava na areia. Eram um menino e uma menina, parecidos entre si e com idades próximas da minha. Os dois em prantos e, não nego, a tristeza do par foi a minha felicidade. Agora eu teria iguais para brincar, sorrisos e recreações preencheriam os meus dias. Da cadeira de palha, a ordem inicial do Velho foi que eu os abraçasse carinhosamente e que repartisse minha cama com eles. Nós três dormiríamos juntos. Um quadro tão bonito que, na primeira noite, ele não fez nada com ninguém. Excitado, ficou observando a mistura dos três minúsculos torsos, se babando maravilhado com aquela inocência implorando para ser devastada.

A lascívia alimentada resultou em um convite inesperado: quando acordei, fui informada que iriamos tomar banho de mar. Ainda não havia sentido o sal das águas, mesmo estando tão próximo delas. Quase feliz, vesti um maio floreado e, nas nossas mãos, baldinhos disfarçavam a família que não éramos. Escapar? Fora de cogitação. As chances de sucesso beiravam a nulidade e, se falhasse, a reprimenda viria galopante. Logo, foi desse jeito, engessados em obediência, que comparecemos à orla.

O Velho acomodou-se na beira da praia, confiante e impassível. Simpático, moradores lhe acenavam. Cumprimentavam um idoso, irrepreensível cidadão de bem, acusá-lo só carimbaria o quanto eu seria mentirosa e interesseira. Me vendo vazia de alternativas, quando foquei a imensidão do oceano, corri na esperança de que Iemanjá me acolhesse. Imaginava ela com os teus traços, mãe. Só que, para ser recebida no fundo do mar, era necessário bravura. Como não era portadora de tal bem, a Rainha me rejeitou e, assim, concluí o passeio ilesa.

Voltamos com os irmãos mais vulneráveis, acreditando que o destino não tinha sido de todo ruim com eles. Paternalmente, o Velho nos aconselhou a usar o chuveiro da rua. A Mulher dedicava tantos cuidados ao chão, seria indelicado chateá-la sujando a casa com areia. Ele despiu a gente. Nos limpamos e fomos conduzidos ao dormitório principal. Por ser a sua preferida, aquele homem me acomodou em um banco vermelho encostado no canto da parede. Mandou eu não virar e me forçou a assistir ele fazendo aquilo com os meus novos amigos. Repetidas vezes. Tentando não sobrar para mim, me mantive inabalável aos gemidos, a perfeita estátua de gesso. Interiormente, imaginando que matava lentamente o nosso algoz e corria para a estrada.

Daquele dia em diante, a menina emudeceu. Parecia que a sua consciência tinha fugido e deixado a casca de carne para trás. O menino, ao contrário, era melhor que nós duas, mãe. Ele colocou-se contra o Velho, semelhante ao modo que um cavaleiro enfrenta dragões. A faca de cozinha foi a sua arma, em vez da garbosa espada que merecia. Pena, o seu pescoço quebrou-se com um só crack. Não havia o que chorar, somente acompanhamos o vento da noite e a pá de aço do Velho abrindo uma cova conjunta aos montes de lixo. No sótão, risadas. A mísera cruz e o luto foram negados ao pequeno herói.

V

Um looping de violação. Em vez de brincar de ciranda nos recreios escolares, sobrevivia como um bicho acuado que não suportava mais nada. Ações básicas como comer, me limpar e falar eram difíceis. E, apesar das rezas diárias, o dígito vizinho do calendário sempre dava as caras. Vinte e quatro horas sobrepunham-se umas às outras, o Velho orquestrando o tempo para que respirar fosse o mais lancinante possível. Cantando nas minhas orelhas, “você é a minha musa, beijam-se os passarinhos, o casal vai se amar”… Mãe, o mais excruciante tipo de eternidade é aquela na qual o defunto é obrigado a andar em uma estrada. Tropeça, implora para fundir-se ao chão quente, mas a caveira com a foice o cata e o empurra para a frente. E o desgraçado vai.

Era findar do entardecer quando o carro azul estacionou, soprando ventos de mudança. A máquina moderna surgiu como um chamativo borrão de céu, contrastando com a escuridão que insinuava-se no ar dos vaga-lumes. Dois homens arrumados saltaram do veículo. Foram recebidos com entusiasmo pelo Velho, que encenou todos os rapapés que a etiqueta destina aos endinheirados. Trato fino que não era absurdo da parte dele, afinal de contas, ele pressupunha que os visitantes pagariam polpudas quantias de dinheiro nas suas ovelhinhas prontas para o abate.

Um dos indivíduos era alto, jovem e bonito. Semelhante a esses galãs de seriado que, por soarem artificiais demais, abocanham papéis secundários. O segundo tinha uma aparência gorducha, mole como massa de pão crua. Bovino, acenava a cabeça em resposta às gesticulações do sócio. Era perceptível que não estava tão entusiasmado quanto o outro. A Mulher ficou conosco para além do horário, o que indicava o ineditismo da situação. Mais cedo, ela havia escovado os nossos cabelos e aproveitado para dar uns puxões de orelha na menina, lhe enervava crianças que não emitiam sons. Também nos segurou na peça dos jornais, para não atrapalharmos a acomodação dos estranhos na sala. As melhores cadeiras foram reservadas para eles, comida borbulhava no fogão, a ansiedade crescia, finalmente fomos chamadas.

Nunca me esqueci do conselho que recebi da Mulher, naqueles segundos que antecederam a nossa entrada:

— Metidinha, as mais alegres e acessíveis são as que se dão melhor. É a vida… Agora tu vai lá e vai agradar os moços ou eu mesma te quebro no pau.

E eu acatei o sugerido, mãe. Me agarrei nas expectativas do inédito, seduzindo como uma pirralha que amadureceu demais. Servi a bebida com passos rebolantes, dancei aos pulos e até perguntei para o Velho se ele queria que eu sentasse no colo dos convidados. Em muda oposição, a menina nada fez, apesar de eu tentar colocá-la também nos holofotes. Já era madrugada quando os adultos nos mandaram deitar. Permaneci insone, esforçando-me para escutar o que seria debatido. Ledo engano, os ruídos na sala ecoavam indistinguíveis. No sótão, um retumbante silêncio.

A bomba estourou de manhã: havíamos sido vendidas. O bonitão comprara a menina por ela ser linda e quietinha, ideal para quem não tinha paciência em ficar escutando bobagens juvenis. Eu tinha me tornado propriedade do Gordo, que se encantara com a minha alegria ensaiada. Os dois iriam nos buscar o mais rápido possível, investidores ansiosos para desfrutarem das suas  aquisições. A transação me deixou esfuziante, pelo fato de que me afastaria do Velho e o meu novo dono tinha me causado uma impressão de amabilidade. Todavia, minha companheira de tormento prosseguiu em seu torpor inabalável. Mas, mesmo ela não me respondendo, a fiz coadjuvante no monólogo sobre como seríamos felizes e sortudas a partir dali.

Não levamos malas. Ganharíamos enxovais novos, de acordo com as preferências de cada um dos nossos proprietários. Ainda assim, a Mulher nos arrumou como adultas prontas para um encontro e, mãe, me faz bem acreditar que ela estava mexida pela falta que eu lhe faria. Os meus pés tremiam de ansiedade quando o carro azul embelezou novamente aquele rude portão. A dupla nos trouxe ursos e chocolates, iguaria que tinha esquecido do sabor. Bom, a ocasião não combinava com abraços e despedidas. Entretanto, o Velho fez questão de, quando estávamos saindo, agarrar o meu braço, rosnar que me amava e que torcia que eu voltasse para visitá-lo. Assenti, minha consciência fervia com promessas de vingança.

Ao longo do caminho, entendi a sorte que tive de ter conquistado a preferência do Gordo. A beleza do outro rapaz borrava-se de sadismo. Prova disso é que ele foi beliscando a menina durante o trajeto inteiro, buliçoso por reclamações de dor. Um idiota, ela apenas franzia a testa e não emitia sons ou saía do lugar. O turbilhão dos acontecimentos nos separou no aeroporto, o inadequado casal migraria para um estado afastado. Sabe mãe, a menina foi tragada pelas nuvens e eu me arrependo por não ter me despedido dela com mais afeto. Recém-saída do cárcere, estava mais envolvida com as lojas, as luzes, os carros e a rua do que com alargar a minha coleção de separações e traumas. E, para ajudar, ela não falava e, afinal de contas, crianças erram fácil… Admito que, agora adulta, a procurei exaustivamente, sem sucesso algum. Atualmente, minha esperança é que a sua alma tenha encontrado paz ao lado do menino.

Voltando, quando me dei por conta, estava aproveitando uma nova etapa com o Gordo. Esse era um cara legal, realmente agradeço por ele ter entrado na minha vida. Me deu um teto acolhedor, me ensinou a ler e a escrever. Eu podia assistir televisão o quanto quisesse e, quando ficava doente, era tratada com remédios. Não era obrigada a ser participante de atos sujos e, em contrapartida, apenas duas exigências. Eu não podia falar uma palavra com ninguém sobre como me tornei a “sobrinha” dele. Se isso acontecesse, como ele me explicava docilmente, seria preso e eu voltaria para o Velho, pesadelo que mais temia nesse mundo. O segundo pedido era que, de vez em quando, eu dançasse para ele. Ele não botava um dedo em mim. Apenas escolhia uma música e sugeria que eu bailasse com a leveza do mundo. Gostava tanto que até um curso de ballet ele me patrocinou.

Assim eu passei mais de uma década, até o Gordo falecer e eu herdar o seu patrimônio. A senhora me botou fora e ele, tão rico e tão sozinho, fez de mim a sua família. Eu nunca falei sobre vingança enquanto convivíamos e, por respeito à sua memória, aguardei o término do funeral para concretizar os meus planos. Por que eu não deixei tudo para trás e fui ostentar nessa nova vida? Ah mamãe, verbalizar é fácil. Porém, quando os fantasmas do passado continuam a assombrar os teus pedaços, você fica presa com eles na escuridão e a única coisa que consegue raciocinar é como vai exorcizá-los. E não, não sou elevada o suficiente ao ponto do perdão.

Voltar a ver a “casa em luto” foi aterrador, nem a arma que pesava na minha bolsa aliviou o pavor. A sensação era a de que a minha garganta ia sendo entupida com pregos quanto mais eu me aproximava de lá. Graças à especulação imobiliária, a região estava largada, o que garantiu que aquele cenário tão íntimo se mantivesse como eu lembrava. Com a única diferença de que o Velho e a Mulher haviam desaparecido sem deixar vestígios, foi como se o inferno os tivesse tragado. Os vizinhos, que eram todos moradores recentes, não lembravam das tétricas figuras.

Saí dali decidida que compraria a cabana. A corretora quase beijou os meus pés, quando eu paguei em dinheiro vivo a imobiliária inteira comemorou. O passo seguinte foi caçar a senhora, molhando a mão de ótimos e inescrupulosos detetives. Você achou mesmo que aquele homem estava dando em cima de você? Se enxerga vagabunda, tu está velha. Ninguém mais te quer, a beleza acabou. No espelho tu vai encontrar só uma fruta murcha, corroída por vermes… Bom, deixando as animosidades de lado e concluindo, essa foi a minha história. Agora, mamãe, minha querida mãezinha, prepare-se: é a minha vez de te levar para viajar.

 

Epilogo:

As medicações que tomou lhe deixaram tonta. Tinha vagas lembranças de sentir falta de ar, como se tivesse passado horas em um lugar escuro e fechado. Entendeu que estava em um sótão, a poeira agrupava-se em estranhos formatos de galáxias. Queria gritar, mas não podia por estar amordaçada. Também não conseguia se movimentar, grossas cordas e um par de algemas a imobilizavam. Tentou enxergar na penumbra, sem sucesso. Até que, em um dos cantos, dois pontos luminosos surgiram e risadas começaram. A coisa, metade homem e metade sapo, arrastou-se em sua direção e, pela última vez na vida, ela sentiu ódio da filha que abandonara com o pai.

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39 comentários em “A escuridão e o coaxar (Lolita)

  1. Luiz Henrique
    20 de outubro de 2017

    Um conto audacioso pela temática exposta, nada convencional ao tema terror, tão cobrado, aqui nesse desafio, pelos tão ferrenhos críticos de plantão, mas que, ao mesmo tempo, expõe o que há de mais aterrorizante na mente humana: a sordidez perversa e covarde. Demonstrando e provando que o terror em sua exuberância existe nos seres vivos, não nos mortos. Um enredo dominado com maestria, até dando certa impressão de ter sido extraído da vida real, de tão impressionante sensibilidade no tratamento dos fatos. Uma escrita leve e suave como as águas de um rio plano.

  2. Evelyn Postali
    17 de outubro de 2017

    Caro(a) Autor(a),
    Bem… Contos com crianças normalmente me tiram do sério porque me causam um embrulho no estômago. Talvez tenha a ver com meus ímpetos de fazer justiça, fazendo aqueles que causam dor a todo o ser humano desprotegido parar de gastar oxigênio. Eu sei. Eu deveria me tratar. É certo. Mas a escrita é ótima, li, entre uma parada e outra. Não sei se o terror, aqui, é bem o terror que se pretendia ler no desafio, mas o ser humano pode ser bem melhor em promover o mal do que qualquer sobrenatural. Não vi erros de escrita. Tem ritmo, tudo encaixado em seu devido lugar. O final, meio rápido, mas talvez não precisasse ser diferente. Boa sorte no desafio.

  3. André Lima
    16 de outubro de 2017

    O conto é bom. A autora é claramente habilidosa e me prendeu em uma história com pouquíssimos diálogos.

    Até o epílogo, eu não conseguia classificar o conto como Terror, para mim, estava mais próximo ao drama com narrativas de uma vida muito sofrida. Até mesmo após o epílogo senti falta do medo, do calafrio, dos sentimentos que uma boa história de terror causa.

    Não me entenda mal, não digo que NECESSARIAMENTE deva ter elementos sobrenaturais, espíritos, monstros, magias etc. Mas na própria linguagem e na própria narrativa faltou aquelas descrições minuciosas, aquela apreensão, aquele TERROR.

    O conto é muito bom, mas não como um conto de terror.

    Obs.: o ponto forte da narrativa, ao meu ver, é a crescente do conto. Ele começa moroso, dando a impressão de que será entediante com os poucos diálogos, mas rapidamente evolui e nos deixa curiosos com o final. É um belo trabalho.

  4. werneck2017
    15 de outubro de 2017

    Olá, Lolita!

    Um conto impactante contado com maestria por uma escritora com embasamento literário competente. Um conto difícil de ler pela crueza da situação e das cenas de abuso sexual, pedofilia e exploração. Um conto que remete a reflexões profundas, ficcionais e não-ficcionais. Acredito que o sapo refere-se a monstros que habitam todos nós, quando nos negamos a ver as mazelas humanas que nos cercam e às vezes incorporamos sem nos dar conta. Seria a protagonista naquele hora final transformada em um sapo assassino?
    Alguns erros gramaticais ou de distração já foram salientados por colegas, então não perderei tempo em abordá-los. Chamo a atenção somente para o fato de que no início a protagonista diz:

    Você ainda sorri, mamãe? Sorri, sua vagabunda? Ria para mim, quero ver esses seus dentes se mostrando. Isso, assim, muito bom.

    Mas não estava a mãe amordaçada?

    Outro detalhe que não entendi foi: o dígito vizinho do calendário sempre dava as caras.

    O que pediria uma explicação, lamentando a minha incapacidade em entender.

    No mais, um conto perfeito. Parabéns!

    • Lolita
      15 de outubro de 2017

      Olá Werneck, obrigada por tantos elogios e não, eu não tenho todo esse embasamento não. Sobre as explicações solicitadas:

      1, Quando ela manda a mãe sorrir, pensei no sentido sádico do diálogo. Sim, ela estava amarrada e a mercê da filha, que a faz rir para humilhar a mulher. Não pensei nela com uma mordaça, até pelo fato da garota também desejar (em sua cabeça confusa) ouvir respostas da mãe.

      2, O dígito vizinho do calendário sempre dava as caras – a menina queria morrer, mas não tinha coragem. Ela queria que o mundo acabasse, ou algo assim. Mas o amanhã sempre surgia – o 23, 24 etc. Espero ter lhe esclarecido,

      Abraços e mais uma vez agradeço tão calorosas palavras

  5. Rose Hahn
    13 de outubro de 2017

    Lolita, um contaço! Hipnotizante a narrativa para o pior dos terrores. A introdução nos remete a algo lúdico, mas eis que o texto apresenta uma história, digamos, macabra. Considerei o ponto alto as conversas da menina com a mãe. Também a denominação de Velho e Mulher aos algozes da menina caiu muito bem, algo impessoal, distanciado dela, e bem representado no texto. Acho que os leitores, e eu me incluo, ficaram com gostinho de vingança em relação ao Velho, talvez o acerto de contas com ele cairia bem no texto, com muito terror, é claro. E a questão do sótão fiquei a ver navios, o que havia realmente lá? Acho que poderia ter sido explorado ou retirado da trama. No mais é isso, e parabéns pela escrita madura. Abçs.

  6. Lucas Maziero
    12 de outubro de 2017

    Um conto macabro e que inseriu, ao meu parecer (que é meio doido), uma indignação que se coaduna muito bem o terror. Ora, vejamos: a não se tratar de vilões (mas tem gente que gosta dos vilões), quem se sente impassível diante de uma cena de tortura com o pobre mocinho(a)? E também, no caso aqui, quem se sente tranquilo a ler cenas de abuso infantil sem fazer um paralelo com a realidade e não se chocar?

    O relato da menina que cresceu inquieta, e eu esperava a cada parágrafo o momento de ela crescer e se vingar. E o final ficou bom, mas não tanto como poderia, e explico: muito bem, a mulher acabou se dando bem na vida na parte financeira (deu ex machina), o que a possibilitou completar a vingança, oferecendo à mãe um tormento terrível. Agora, a gente esperava que o Velho sádico se desse mal também, e por que ele não foi encontrado? Poxa, se foi fácil encontrar a mãe, não o seria encontrar o Velho? Ficou meio que o crime é castigado, mas nem tanto, alguns escapam… Justo dele que ela deveria ter mais ódio, pois não foi só a ela que o abuso foi cometido, mas com outras crianças…

    Sem falar que seria preferível que o lugar onde havia o antro pedofílico do Velho fosse isolado. Mas havia vizinhança, e isso tirou um pouco da plausibilidade de que crimes eram cometidos ali e ninguém, mas ninguém??? os percebia? (outro deus ex machina).

    Já o relato angustiante e irônico da mulher-que-foi-abusada ficou bem construído, e o final achei bom, a figura do homem sapo combinou com o lugar tétrico e pantanoso.

    Parabéns!

  7. Evandro Furtado
    11 de outubro de 2017

    Há diferentes tipos de horror. Eu gosto, particularmente, daqueles que embrulham o estômago. Curioso que, normalmente, esses estão carregados de sangue, tripas e outras coisas que fazem a gente se arrepiar. Esse conto, mesmo com a ausência dessas coisas, em mais de uma vez, faz o estômago revirar. A repulsa aqui não é pela coisa, mas pela ideia. O abuso é descrito de tal forma, com tamanha competência, que transmite ao leitor essa repulsa. Há também um contraste muito interessante, construído a partir da narrativa, entre a inocência da infância e o desejo de vingança da idade adulta. Apenas uma coisa impede que eu dê a nota máxima: a forma como seu conto se conclui. O epílogo é desnecessário e acho que a melhor forma de fechar seria uma eventual frase de efeito final para a mãe ou para o velho – já que o autor demonstrou, ao longo do texto, uma incrível habilidade de juntar as palavras para criar esse impacto.

  8. Fheluany Nogueira
    9 de outubro de 2017

    Enredo e criatividade – ilustração, título, pseudônimo, assunto, linguagem, tudo em conexão perfeita. Nada é contado, a sugestão mostra a história. A forma de narrar vai construindo um mundo assustador. Não gostei que somente a mãe sofresse a vingança — talvez ela fosse outra vítima do Velho.

    Terror e emoção – terror da realidade, muitas vezes mais amedrontador que o sobrenatural. Vi o homem-sapo como uma metáfora para o monstro que a protagonista se tornara ao torturar a própria mãe e para o distanciamento emocional, a alteração do foco narrativo. Parabéns, trabalho de mestre.

    Escrita e revisão – Algumas posições de pronomes átonos, problemas de pontuação, tudo justificado pelo uso da primeira pessoa, exceto o “haver”, impessoal (“Haviam milhares”).

    Abraços.

  9. Luis Guilherme
    8 de outubro de 2017

    Boa noite, Lolita, tudo bem?

    Caramba, que texto denso! Devo dizer que não considerei realmente terror, mas sim drama, uma vez que não senti medo, mas uma pena constante da personagem.

    Porém, isso não tira a grandeza do conto. A linguagem é crua e forte, e você não procura aliviar a tensão e a dor causada no leitor. Tinha horas que eu preferia não entender o que tava lendo. O mais doloroso é saber que tais situações acontecem aos montes a cada segundo no mundo. Muito triste.

    A escrita é segura e gramaticalmente me parece impecável, muito bom. Achei apenas que perdeu um pouco o clímax que se formava, após a venda das garotas. Por outro lado, isso meio que preparou o terreno pro epílogo. A revelação de que o Velho era o pai da menina foi a cereja no bolo, arrepiante!

    Enfim, é um belíssimo conto, mas como já falei, acho que encaixaria melhor num desafio drama, já que não considerei tanto terror. Não que isso tire o brilho da obra.

    Parabéns e boa sorte!

    • Luis Guilherme
      8 de outubro de 2017

      Ah, o título e a imagem também ficaram muito bons.

  10. Fernando.
    8 de outubro de 2017

    puxa, que soco tremendo no estômago essa sua história, Lolita. Tudo muito forte, execrável e, o que é muito pior, bem plausível. Há velhos, lolitas e lolitos por aí, bem como mães e pais que os suprem. Terrível até onde vai a maldade humana. Gostei muito mesmo, eis que conseguiu me fazer sentir esse terror asqueroso. Acho que também esse tipo de horror faz parte do objetivo do desafio, apesar de que, pessoalmente, sinta dificuldades para curti-lo. O conto perde consistência, no meu modo de perceber e ler o enredo, quando você investe nesse “epílogo”. Senti que ele quebrou o ritmo e trouxe um homem sapo para encerrar a narrativa. Será que precisava? Acho que o resultado foi negativo. Pena. Um excelente conto. Você sabe criar suspense e me envolveu. Ah, por último uma dica, há alguns detalhes que precisam ser revistos na escrita.

  11. Ana Maria Monteiro
    7 de outubro de 2017

    Olá, Lolita. Li o seu conto já há dias e cheguei a manifestar-me sobre ele no grupo – como, aliás, quase todos nós. O facto de se tratar de um conto baseado em factos reais, ele vai além disso, uma vez que você declarou que a realidade em que se baseia é autobiográfica. Assim, tendo procurado lê-lo com o mesmo distanciamento, não fica tão simples dar opinião. Acho que você conseguiu transmitir muito bem todo o terror, poupando-nos a descrições horríveis. Está muito bem escrito. Você escreve muito bem. O meu entendimento do epílogo, esse sim, necessariamente fictício, é de que há um desdobramento na personagem central em que termina o conto “vingando-se” pelo abandono da mãe. A frase final “A coisa, metade homem e metade sapo, arrastou-se em sua direção e, pela última vez na vida, ela sentiu ódio da filha que abandonara com o pai.”, leva-me a pensar nessa mãe ausente como assassinada pela “coisa”, que seria o pai. Ainda que também pudesse imaginar serem os ruídos sótão, o queixume da própria mãe ali aprisionada o tempo todo, não sei. Sei que não li redenção nem libertação verdadeira.O conto termina aqui, mas a história perdura pulsando.
    Regressando à escrita: você escreve admiravelmente bem, domina o idioma, sabe usar as palavras, é uma escritora de mão cheia. Continue o excelente trabalho.
    Obrigada por participar. Desejo-lhe boa sorte no desafio.

  12. Angelo Rodrigues
    6 de outubro de 2017

    Cara Lolita,

    Ao terminar o texto tive o cuidado de correr aos comentários. Normalmente não faço isso para não sofrer influências – não seria justo com o contista. Mas tive a impressão de que não seria um conto apenas, mas algo mais.
    Encontrei, então, a sua explicação falando de uma catarse pessoal, a saber: “Esse texto foi uma forma que encontrei de lidar com os fantasmas do meu passado…”
    Nesse ponto me senti impossibilitado de continuar, não pelo que li, mas por saber que posso bulir desnecessariamente com a sua susceptibilidade.

    Boa sorte e obrigado por compartilhar seu conto.

    • Lolita
      6 de outubro de 2017

      Caro Angelo,

      Agradeço a sua empatia, coisa que aparece tão pouco nas pessoas atualmente. No entanto, aqui apresentei um conto. Se tiveres colocações sobre o meu texto, principalmente sugestões, serão muito bem vindas. Tenho certeza que serás respeitoso, algo que valorizo muito. Um abraço

      • Angelo Rodrigues
        10 de outubro de 2017

        Cara Lolita,
        atendendo a que eu dê minha opinião/sugestão acerca apenas do seu texto, vamos lá.
        Gostei muito do texto. Bem escrito, focado. Mantém a qualidade textual do princípio ao fim. O texto tem belíssimas passagens, que reporto:
        – “Esse Deus sádico, que brinca com os homens para aliviar o tédio da sua onipotência.”
        Nesse trecho, creio, ainda que muito bom, tornou-se impessoal – os homens -, quando deveria manter o foco narrativo com um “…que brinca com a gente para aliviar o tédio…”
        – “…a sobrevivência seja uma pedra no fundo do lago primitivo dos nossos genes.”
        Outras frases mais, lindas.
        Mas houve também frases-enigmas, tais como
        -“Assim, mergulhar para buscá-la era o que me fazia aguentar as sessões nas quais eu era forçada a reencenar os sonhos da mulher do pescador, os malditos sapos substituindo os inacessíveis polvos.” Que sonhos são esses. Óbvio que se pode depreender que algo ruim acontecia com a mulher do pescador, mas… como assim?
        – E por falar em enigma, fiquei imaginando que algo se revelasse a partir do sótão, dos sons do sótão, dos passos no sótão. Mas nada se revelou. É sabido que algo bom não acontecia por lá, mas nada foi dito acerca do que seria. De certa forma você mata essa charada no parágrafo:
        “Por exemplo, se eu tivesse deixado a curiosidade aflorar e tentado descobrir o que havia efetivamente no sótão da cabana, um doloroso assassinato teria sido o meu prêmio. Desconheço quais coisas estranhas ali pairavam, mas eram profundas o suficiente para não serem mencionadas. Todavia, afirmo com a certeza que as interrogações em aberto nos deixam, eram frequentes na madrugada passos, gemidos e risadas acima da minha cabeça.”
        Talvez a menina nunca tenha ficado sabendo o que se passava no sótão. Talvez o leitor devesse saber pela via da narrativa, talvez inventada, aprofundada como parte dos elementos da trama. O sótão, ao final, é um monstro que não se revela, nem pela narrativa.

        Uma coisa à qual dei muita atenção, foi como a narrativa trata a Mãe, revelando-a por diversos nomes que vão de senhora a mãe, mamãe, mãezinha, minha mãe, você, até vagabunda, criando um referencial afetivo confuso, talvez fazendo representar exatamente como a protagonista se sente em relação à mãe, solta/confusa acerca dos seus afetos. Acho que isso dá verossimilhança ao conto.

        Não sei se de propósito ou não, notei uma vagueza na condução dos verbos – talvez represente algum regionalismo, não sei -, mas, verifique, por exemplo, o uso do “tu está (não imperativo)/ tu estás, tu vai (não imperativo)/ tu vais, entendeu / entendeste. Acredito que nos diálogos mais relaxados isso seja cabível, talvez não nas narrativas.

        Por fim, o final. Não sei se entendi, mas, a partir de uma trama que me pareceu absolutamente telúrica, o conto tomou o rumo do fantástico, quando:
        “Até que, em um dos cantos, dois pontos luminosos surgiram e risadas começaram. A coisa, metade homem e metade sapo, arrastou-se em sua direção e, pela última vez na vida, ela sentiu ódio da filha que abandonara com o pai.”
        Assumindo que o texto expresse uma caráter absolutamente simbólico, creio que haver faltado elementos que expliquem o simbolismo.

        Boa sorte, Lolita, e obrigado por nos deixar conhecer seu conto.

  13. Nelson Freiria
    6 de outubro de 2017

    Tive o azar de um erro de conexão não enviar meu comentário da primeira vez que enviei, então estou refazendo de uma maneira mais resumida.

    Parece que o assunto mais frequente nesse desafio está relacionado as crianças :/

    O texto foi mto bem escrito, sem dúvida o autor tem um ótimo domínio da narrativa, sabendo encaixar elementos com precisão, o que deixou o texto ainda mais carregado ao imaginarmos uma criança em dada situação. Não é uma leitura fácil, mas a técnica do(a) autor(a) faz valer cada linha. Porém acho que dava para passar sem esse epílogo (que, aliás, está sem acento), apesar dele facilitar a introdução do “monstro”, coisa que seria bem mais complicado em primeira pessoa.

    Quanto a adequação ao tema, acredito que a carga dramática seja o próprio terror da história, diferente de outros contos que se valeram do humor.

  14. Paula Giannini
    5 de outubro de 2017

    Olá, Autor(a),

    Tudo bem?

    A vida real pode ser muito mais terrível que a ficção, que o terror do cinema ou mesmo da literatura. Agora mesmo, enquanto escrevo esta opinião, tenho a TV ligada e vejo a terrível matéria sobre um psicopata que ateou fogo a crianças em uma escola. Outro dia, soube de uma criança que era deixada em um presídio, a fim de ser “vendida” aos prisioneiros. Muito triste.

    Assim como, muito triste, é a situação que você criou em seu conto. Para mim, mais que sobre pedofilia, o que já é terrível, seu trabalho fala sobre a exploração do ser humano (no caso aqui, da mulher, da criança, de toda uma vida), assim, a menina deixada pela mãe com o velho, tem sua vida toda subtraída, ela é escravizada e tem todos os seus direitos roubados. Uma vida em sofrimento é uma vida desperdiçada e o(a) autor(a) nos fala de violência sexual, mas, mais que isso, de privação. Privação de amor, de infância, de dignidade, de afeto, de educação e até de comida. Quantas crianças se encontram nessa mesma situação nesse exato momento? Quantas?

    Nesse sentido, achei o texto pertinente e lúcido. Mas, o ponto alto do trabalho é a capacidade do(a) autor(a) em mostrar a crueza da vida, com arte. Alguns momentos, chegam a ser lúdicos, provando que na arte, o feio pode, de certa forma, ser belo, dando sentido, através da crueza do que é mostrado, para aquilo que há de mais essencial em nós, nossa humanidade.

    No final do texto, a inversão do ponto no ponto de vista narrativa, faz lembrar a câmera que se afasta em um filme antes do fade out. Uma bela técnica e que significa a narrativa como um todo, visto que é com a mãe que a filha fala. Mas, o que mais me chamou atenção nessa finalização foi a revelação da verdadeira identidade do velho abusador. O pai.

    Outro golpe de mestre do(a) autor(a) foi a inserção de uma voz narrativa dentro da própria voz narrativa em: “Ah, mas como fiquei feliz durante aqueles preparativos, sendo a dona das suas atenções e sorrisos mesmo que por instantes. Você ainda sorri, mamãe? Sorri, sua vagabunda? Ria para mim, quero ver esses seus dentes se mostrando. Isso, assim, muito bom.” No momento em que a fala se torna “Você ainda sorri, mamãe? Sorri, sua vagabunda? Ria para mim, quero ver esses seus dentes se mostrando. Isso, assim, muito bom.”, o autor antecipa o final, sem entregar o jogo, em uma técnica madura e muito bem utilizada. Nesse momento sabemos que o que vem pela frente será pesado e que a narradora, de fato, fala com outra pessoa que não o leitor. Muito bom.

    Parabéns.

    Desejo-lhe sorte no desafio.

    Beijos
    Paula Giannini

  15. Rafael Soler
    3 de outubro de 2017

    Um conto fácil e difícil de se ler. É fácil devido ao fato de ser muito bem escrito, com um ritmo perfeito, gramática impecável e um estilo narrativo muito agradável; e ao mesmo tempo é difícil pela temática horrível e pela forma tão realista de abordagem do tema escolhido.
    Se um conto desse desafio conseguiu me causar medo, foi esse, pois nele vemos um dos monstros mais horríveis do mundo: o ser humano.

    Considero que o único defeito da história seja o desfecho, que parece apressado. Não que isso tire o brilho da obra, mas acho que poderia ser desenrolado de uma forma melhor.

    No geral, um excelente trabalho!

    😀

  16. Antonio Stegues Batista
    3 de outubro de 2017

    ENREDO: Menina indesejada pela mãe é entregue a um desconhecido. Ela cresce jurando se vingar. Gostei bastante, mas foi uma pena ela não ter encontrado o Velho, anos depois para se vingar. Deveria ter descrito a personalidade da mãe e os motivos que a levaram dar a filha para alguém. Só porque não gostava dela? O motivo do ódio da menina deveria ser muito forte e não só esse, o abandono e as privações nas mãos do Velho. O final ficou legal, a descrição do monstro no sótão.

    PERSONAGENS: Todos são bem destacados, cada um diferente como deve ser tanto físico quanto mental e comportamental. Gostei de todos.

    ESCRITA: Muito boa, sem erros, bom vocabulário, frases e ideias que levam a descrição do ambiente e personagens. Só achei que a narração parece de alguém bem jovem, adolescente, e não um adulto, ou uma pessoa amadurecida pelas agruras, o sofrimento que passou. Acho que o tom confessional destoou do resto.

    TERROR: Achei mais um terror psicológico, aquele que sentimos imaginando estar na pele da personagem. A descrição do lugar, um lugar sinistro, também dá esse mal estar. Muito bom.

  17. Regina Ruth Rincon Caires
    3 de outubro de 2017

    Quando iniciei a leitura, a descrição das manchas de sujeira nas paredes, a citação pormenorizada das feições do sapo, meu pensamento foi direto para os recorrentes relatos de pessoas acometidas de depressão.
    Com que excelência o autor trata do horror do abuso sexual! Através da linguagem fluente, um grito fica preso na garganta do leitor. A narrativa, adensada pelos horrores, engrossa a voz do ódio. Que descrição perfeita, aflora o que há de mais horripilante nesta situação! Até mesmo quando aparece escrito “desígnios divinos” o leitor se encolhe.
    Algumas frases que me tocaram:
    “os meus gritos foram a trilha sonora da sua libertação.”
    “o incessante girar dos ponteiros do relógio pendurou-me aos fios de um autocontrole que, não sei como, na pequenez dos meus sete anos, desenvolvi.”
    “apesar das rezas diárias, o dígito vizinho do calendário sempre dava as caras.”
    Misericórdia! Que texto lindo e denso! Quando acabei a leitura, levei um tempo para me recompor. Mal-estar, náusea, amargura. Não é uma leitura prazerosa, não faz o meu gênero, mas é um primor de escrita. O leitor sente o mesmo asco que é narrado, o mesmo desconforto.
    Parabéns pela obra! Genial!
    Parabéns, Lolita! Texto campeão!

  18. Pedro Luna
    2 de outubro de 2017

    Gostei do conto, mas infelizmente não sei se está adequado ao tema, pelo menos a meu ver. Puxa pro drama mais que pelo terror. Também me pareceu, com o epílogo, que o próprio conto tem essa dificuldade de se definir, misturando um drama real a uma situação insólita (como se estivesse querendo mostrar o lado mais terror fantástico do texto), mas não havendo equilíbrio, já que o final destoa muito do restante.

    Enfim, tirando isso, merece elogios. Você conseguiu passar a agonia da situação sem nunca ser agressivamente direta. O leitor entender o que se passa com as crianças, fica incomodado, e isso funciona porque ele é obrigado a imaginar as cenas, já que as descrições, como já disse, não são tão diretas. Essa foi uma boa sacada.

    É bem escrito também. A leitura correu sem entraves. Um bom conto.

  19. Eduardo Selga
    2 de outubro de 2017

    Quando a linguagem é manipulada com habilidade, temos narrativas que conseguem entrar em nós. Podemos até não gostar da narrativa, mas ela reverbera por dentro durante certo tempo. Por quê? Porque são literariamente bem feitas, e nosso espírito, quando não alienado para esse campo a vida, é sensível à arte.

    A beleza da construção formal deste conto está a serviço de narrar uma situação abjeta, e esse processo é carregado de literariedade. Supondo que Lolita narrasse de maneira crua, muitos leitores possivelmente não chegariam ao fim do texto, porquanto seria uma dupla crueza: a situação e a linguagem. Mas o que a (o) autora (o) faz é um favor: permitir-nos chegar ao fim, por meio da linguagem.

    Há um tom fortemente sardônico na narradora-personagem em relação à sua mãe, que guarda uma imensidão de ódio reprimido durante os anos. A ponto de animalizar-se. No epílogo, quando lemos “A coisa, metade homem e metade sapo, arrastou-se em sua direção e, pela última vez na vida, ela sentiu ódio da filha que abandonara com o pai”, a expressão “homem” entendo fazer menção ao ser humano, não ao masculino. O que temos é a personagem metaforicamente animalizada, uma aberração, como certas entidades da mitologia grega compostas por metade de um bicho e metade de outro. A metade desumanizada é um sapo porque esse animal era o horror da protagonista quando criança, quando no inferno. Podemos observar a monstruosidade deformante que o bicho representa para ela no trecho “Os olhos vazios e o permanente sorriso rasgado, tosco rascunho de rosto”.

    Por outro lado, a “metade homem” também pode ser não uma referência à humanização de nossa espécie (no sentido de civilidade e bons sentimentos), e sim ao masculino mesmo. Nesse caso, também seria um sentido metafórico e, em minha opinião, muito forte: a protagonista teria interiorizado o masculino em sua versão pervertida, ou seja, a selvageria do macho. Se estou certo nesse caminho interpretativo, ela assimilou a monstruosidade do Velho, de que foi vítima, para vingar-se da mãe.

    Nesse sentido, é muito curiosa a mudança da pessoa narrativa. Até à quinta parte, a narrativa está em primeira pessoa, é a protagonista quem narra. No epílogo, temos a terceira pessoa. O motivo dessa opção da (o) autora(o) pode relacionar-se com o fato de que entre mãe e filha, cara a cara, há um enorme distanciamento, e este é melhor demonstrado pelo uso da terceira pessoa. É a frieza do distanciamento, algo necessário para que ela consiga fazer o pretende.

    Muitos elementos me chamam a atenção neste conto e em qualquer outro tão bem elaborado, mas na impossibilidade de falar de tudo quanto gostaria, observemos um detalhe importante: o casal de carrascos não têm identidade, são apenas o Velho e a Mulher. Claro, a tortura não tem cara, visto ser uma atitude basicamente covarde. Quem já sofreu tortura sabe disso. Quando se mostra é pela certeza da impunidade, o que é o mesmo de não dar as caras.

    A velha denominada Mulher por vezes se mostra como alter ego da mãe, e isso é particularmente forte no seguinte trecho, relativo ao sótão da cabana: “Jesus, eu não quero escutar o que tá na porta dessa tua boca grande. Sua metidinha, ali a poeira baila, tá certo? Tu quer te tornar poeira também?”. Se considerarmos que a mãe é aprisionada no sótão pela filha adulta, é como se a Velha, nesse trecho, antecipasse o epílogo. “A porta dessa tua boca” é a porta do sótão por onde, no desfecho, a filha entra animalizada.

    No excerto “[…] na praia, a minha higiene era invariavelmente acompanhada por uma debochada plateia de anfíbios”, ou há uma incoerência ou a construção não foi tão boa. É que não existem sapos em água salgada. Entretanto, é possível que o trecho signifique uma sensação que a protagonista tinha ao banhar-se na praia.

    Anteriormente falei da ironia, mas faltou-me falar de um detalhe. A Velha chama a protagonista de “Metidinha” por duas vezes. A palavra tanto significa “presunçosa” quanto o particípio passado de “meter”, verbo muito usado no Brasil para designar em termos chulos a relação sexual. Assim, “Metidinha” é bela ironia.

    Há dois casos de artigos definidos que foram comidos e ao menos um caso de omissão de virgula, mas nem vou citar por serem erros minúsculos diante da grandeza estética do texto.

    • Lolita
      2 de outubro de 2017

      Olá, gostaria de dizer que eu estava esperando ansiosamente o comentário do senhor. É uma honra ter o meu escrito sendo analisado por alguém com um olhar tão refinado. Só para esclarecer, o que não fiz com tanta eficiência no texto: quando eu uso praia, é no sentido de lugar que a protagonista entendia a sua infância. A casa ficava na praia, então os sapos lá a observavam. Como se “a praia” fosse o globo que abrangesse todo aquele universo, uma cidade litorânea que não vale se faz digna de ser nomeada por também fechar os olhos para o que o Velho fazia. Tanto que, na passagem do banho de mar, evitei utilizar o termo “praia”. Não sei se estou esclarecendo as coisas (admito o nervoso em responder ao senhor), mas gostaria mais uma vez de agradecer ao professor pelo comentário.

      • Eduardo Selga
        2 de outubro de 2017

        Olá, Lolita.

        Essa interpretação é sim possível. Eu não a enxergue, em função da visibilidade das outras duas e, como em todo caso de interpretação textual, por causa do desconhecido funcionamento do “eu interior” (por que a gente vê umas coisas no texto e outras não?). De toda a sorte, parabéns pelo trabalho.

  20. Edinaldo Garcia
    2 de outubro de 2017

    Escrita: Excelente. Profissional. Enredo intenso, quase não dá tempo para o leitor respirar.

    Terror: Confesso que não achei o conto dentro do gênero, talvez seja um problema meu. Ou talvez se fosse a mesma estória por outro ângulo… sei lá… Achei que estaria mais para o drama, apesar do sótão e do monstro no final, mas esses elementos ficaram tão pouco trabalhados e destoaram tanto. É um texto extremamente triste, revoltante, impactante dentro de uma narrativa tão crua e bem elaborada. Você é uma escritora de mão cheia. Eu confesso, todavia, que não estava pronto psicologicamente para ler algo assim. Me chocou imensamente. Graças a Deus que as cenas de estupro não foram detalhadas. Eu teria que continuar em outro dia. (E saber que isso realmente acontece). O mundo é podre!

    Nível de interesse durante a leitura: Perfeito. Estava eu querendo saber onde tudo isso iria dar, torcendo pelos protagonistas e desejando o mal aos algozes.

    Língua Portuguesa: Excelente.

    Veredito: Conto profissional, erudito.

  21. paulolus
    2 de outubro de 2017

    Está ai o terror abominante à vida ao ser. Um conto pungente. Um texto rebuscado, inteligente. Acrescentando-se um requinte de erudição literária. Quanto à temática, desnecessário acrescentar quaisquer outros sentimentos de repúdio a tal comportamento, aparentemente inumanos. Que me desculpe os animais de verdade, pois estes não usam de tão perversa atrocidade. Uma gramática impecável, com exceção de que o “maio” precisa urgentemente de uma cobertura circunflexa, ks… ks… ks… No mais, temos aqui uma escritora, sem mais premissas. Está pronta! Parabéns, Lolita! Nota mil.

  22. Andre Brizola
    1 de outubro de 2017

    Salve, Lolita!

    É muito difícil ler seu conto. Não porque é ruim, ou mal escrito, mas porque é dolorido e transpira realidade. Terrível mesmo. É difícil tratar como ficção algo que sabemos acontecer diariamente. É como ler Olga e tentar ignorar que aquilo tudo que foi descrito aconteceu de fato. Não dá. A reação é imediata e a repulsa ao que é narrado pulula durante a leitura.
    Enfim, partindo desse princípio, o texto inteiro é tenso, e poderia ter terminado antes do epílogo, que foi a parte que me confundiu. Gostei da ideia da criatura em si, mas achei que ficou em dissonância com o restante do conto.

    É isso! Boa sorte no desafio!

  23. mariasantino1
    1 de outubro de 2017

    Boa noite, Autor(a)!

    Olha, te contar… Li seu conto algumas vezes e as impressões mudaram a cada leitura. A princípio achei o uso abusivo de alguns adjetivos irritantes até e também que essa forma de narrar como o algoz prestes a causar dano a vítima, sem brilho por soar teatral.
    Não entendi muito bem a sua intenção quanto ao uso do monstro final (que entendo ser algo modificado biologicamente lá no sótão), uma vez que o enredo em si é algo aterrador. Acho mesmo que o conto perde pontos com o epílogo. Gostei do fluxo narrativo, mas senti que o conto engrenou mesmo depois que as outras duas crianças chegaram. Daí você deu solidez a sua narrativa (mas confesso que perdi um pouco o interesse quando o homem gordo morreu, pelo ritmo ter mudado). Achei algumas construções frasais muito boas, tanto para formar um todo de sensação e informação, quanto para dar beleza ao texto >>>> Feridas que cicatrizaram sem hospital… Cadência em tons de rosa… A mísera cruz e o luto foram negados ao pequeno herói.
    Outras sentenças eu não absorvi o sentido e me pareceu estranhas >>>> …com a suavidade de um algodão embebido em álcool… E, apesar das rezas diárias, o dígito vizinho do calendário sempre dava as caras. (estranhas de fato).
    Quanto ao terror, acho que houve alguns bons momentos como a sombra do velho na janela na primeira noite da menina e a descrição dele se babando ao ver as crianças dormindo, porém, esses momentos acabaram se diluindo no comprimento do texto.
    Peguei algumas coisinhas que passaram batidas na revisão >>>> Você olhou para (O) lugar no qual abandonou a sua filha? … Ah (,) mamãe, verbalizar é fácil…. maio (maiô)… Se enxerga (,) vagabunda… Não, capaz que notaria (é uma gíria aqui?, um regionalismo? Não seria >>> Não acho capaz que você notasse)

    Bem, gostei do conto por ele não descrever o que não é necessário para se entender os abusos com as crianças(obrigada por isso), pela escrita, mas sinto que o texto poderia ser melhor trabalhado quanto ao enredo.

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  24. Pedro Teixeira
    1 de outubro de 2017

    Olá, Lolita. Um conto ótimo e…Devastador. A crueza do relato por vezes me lembrou “Pssica”, do Edyr Augusto, que trata de questões semelhantes. As construções são belas, perturbadoras, e geram uma atmosfera de desilusão e abandono. Descrições precisas e narrativa ágil, concisa. Não sei se a inserção do elemento sobrenatural era necessária, minha impressão é de que os trechos que se referem às coisas no sótão poderiam ser cortadas sem qualquer prejuízo ao conto. De qualquer maneira, um trabalho excelente e perturbador.

  25. angst447
    1 de outubro de 2017

    T (tema) – O conto está dentro do tema proposto pelo desafio. Terror daqueles de dar nó na cabeça e vontade de vomitar até a alma. Desafio cumprido.

    E (estilo) – Linguagem clara, habilidade em traduzir em palavras imagens terríveis, adequadas à narrativa elaborada.

    R (revisão) – Se houve erros, não percebi.

    R (ritmo) – A curiosidade (talvez mórbida) leva o leitor a não sentir o passar do tempo ao ler este conto. O texto possui fluidez suficiente para não dificultar a leitura. Ótimo ritmo.

    O (óbvio ou não) – O final com a aparição do sapo-homem foi a grande surpresa. O resto era mais ou menos previsível. O que saiu do óbvio foi a “sorte” da narradora em ter sido escolhida pelo homem menos pervertido. Também esperei que a vingança chegasse ao Velho e à Mulher, mas isso não aconteceu.

    R (restou) – a incerteza de poder dormir tranquilamente. Como mulher e mãe de uma menina, como poderia? Terror, puro terror. Restou também a certeza de que o(a) autor(a) sabe escrever como ninguém. Aquela sensação de que gostei e detestei. Sabe como é? Não?Descubra.

    Boa sorte!

    • angst447
      1 de outubro de 2017

      Encontrei um erro de revisão, ao reler o seu conto:
      Haviam milhares > Havia milhares
      O verbo HAVER quando empregado no sentido de EXISTIR, não tem plural.

  26. Fabio Baptista
    1 de outubro de 2017

    Autor, autor, autor… por quê esse epílogo, por quê?

    Técnica: perfeita. Caracterização magnífica de cenários e personagens. Narrativa clara e bem elaborada, eufemismos muito bem aplicados para descrever os abusos. O do batom foi sensacional.

    Trama: simples, mas extremamente eficaz para aterrorizar. E o mais terrível é saber que essa é a realidade de muitas crianças (tem um filme chamado meninas do sol, que trata desse assunto. Recomendo). Um Kill Bill mais realista. E bem mais triste.

    Só essa parte do sótão que não me agradou nada. O conto funcionaria muito bem sem o elemento sobrenatural. Acabou sendo aquele excesso que prejudica o todo.

    Mas, de todo modo, um conto excelente, escrito com maestria.

    Parabéns!

  27. Olisomar Pires
    1 de outubro de 2017

    Um texto sobre coisas tão abjetas, repugnantes e ofensivas que causa mais indignação que terror.

    Lamento não comentar ao modo usual.

    • Lolita
      1 de outubro de 2017

      Caro Olisomar, peço desculpas se lhe ofendi. Esse texto foi uma forma que encontrei de lidar com os fantasmas do meu passado, a pergunta sobre o que é terror e a oportunidade de falar e, finalmente, me escutarem foi tentadora. Não espero ganhar o desafio ou qualquer coisa do tipo, o texto é apenas um momento de catarse que eu me dei – vítimas querem ser escutadas, mas as pessoas não gostam de escutar as vítimas. Por fim, que bom que lhe indignou. Os envolvidos não demonstraram a mesma indignação. Abraços

      • Olisomar Pires
        1 de outubro de 2017

        Olá, o termo “ofensivas” que utilizei não se referia a mim, mas ofensa no sentido de agressão à criança, no sentido de violência.

        Fico indignado porque esses monstros estão espalhados por aí e no país surgiu uma onda de relativização desse crime hediondo, alguns até defendem esse comportamento em forma de uma suposta expressão “artística”.

        Sem querer polemizar, pois o espaço não é o adequado, apenas disse que não vejo terror ficcional no seu texto, o qual está muito bem escrito, por sinal.

        Seu texto não me causa medo ou angústia, mas ânsia assassina.

        Espero que seu talento para a literatura consiga ajudá-la (o) a superar qualquer trauma.

      • paulolus
        2 de outubro de 2017

        Que bela resposta, Lotita! Só essa sua indignação já valeu o título. Parabéns pelo conto e pela resposta!

    • Olisomar Pires
      11 de outubro de 2017

      Impacto sobre o eu-leitor: alto

      Narrativa/enredo: criança é entregue ao pior tipo de criminoso. É torturada e violada de todas as formas possíveis. Vinga-se da mãe que a “abandonou”.

      Escrita: muito boa. Sem erros aparentes.

      Construção: muito bem trabalhado o conto, algumas imagens em exagero, mas maioria bem colocadas.

      Entretanto, não considero que seja “terror” nos moldes que expectei para esse desafio, tampouco o senti, conforme já dito em outros comentários.

      Momento em que peço desculpas por minha primeira reação, deixei a emoção sobrepujar a razão.

      • Lolita
        11 de outubro de 2017

        Respeito muito o senhor e eu entendo a sua reação. Ainda bem que existem pessoas que se revoltam. Obrigada pelas colocações.

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Publicado em 30 de setembro de 2017 por em Terror.