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Detox Literário.

Os animais de Polifemo – Conto (Henrique Daniel)

Com as vistas turvas não só pela miopia, mas por uma membrana que recobria meus olhos, eu via tudo pixealizado, embaçado, como se as coisas estivessem muito próximas a ponto de tornar inexequível à ação de enxergar. Sentia-me como o gigante Polifemo com o olho perfurado pela estaca do valente guerreiro Ulisses. Sendo assim não conseguia coordenar meu rebanho de pensamentos, deixando-os soltos em folhas avulsas. Alguns fugiam, se perdiam na volta pra casa ou eram raptados por pessoas que se aproveitavam de minha insensibilidade.

Percebendo que estava sem nenhuma ovelha me senti traído pelos que diziam ser meus amigos mas que usurparam meu rebanho até extingui-lo. Decidi então guardar-me para uma longa hibernação. Rolei a pedra que tampava minha toca e fui para o fundo úmido e esquálido. Ali estava só, nas trevas, porém sem o medo que me cingira outrora na tenra infância.

Com a perca da visão tive a chance de abrir as portas da percepção e então notar as coisas como nunca antes. Enquanto estava ali submergido no Aquífero Guarani de mim mesmo, pude conhecer seres nunca fitados antes por olhares humanos. Alguns tinham a aparência assustadora e outros eram amigáveis, até entendiam meus devaneios.

Senti-me em casa como nunca havia sentido antes, até o dia em que um dos animais falando numa língua que só eu e ele conhecíamos disse-me que o mundo precisava conhecer a verdade sobre as espécies que se escondiam naquele recinto, essa era minha missão. Rolei a pedra que não era removida a algum tempo.

Enquanto estava ensimesmado perdi a noção de tempo, aliás, dentro do aquífero ele corria de modo diferente do que aqui fora. Assim que o primeiro raio solar penetrou a caverna senti um cheiro acre, diferente do que foi outrora o orvalho dos campos de pastagem, algo me dizia que aqueles que me atacaram com sua rapinagem estavam mortos a tempos, sobrevivi a varias guerras, conhecia o cheiro de morte.

Estava com a percepção aguçada e isso de algum modo fez sentir que minha barba havia esbranquiçado, o vento a esvoaçava, eu a senti tocar os meus joelhos. Lembrei-me da adolescência, quando quis ver minha barba crescer a ponto de poder usá-la como laço para o rebanho, mas de que me adiantava tê-la e não vê-la? Irônico?

Alguns segundos após abrir a toca ouvi o barulho de cascos que feriam o solo da caverna, como quando se liberta os animais para pastar. De súbito entendi que a existência dos seres agora não se limitava tão somente ao meu interior, haviam saído para tomar os lares vazios, criar forma e vida, pois a minha havia se esgotado.

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3 comentários em “Os animais de Polifemo – Conto (Henrique Daniel)

  1. Regina Lopes Maciel
    21 de setembro de 2017

    Olá Henrique,
    De uma forma geral seu conto está bem escrito. No entanto, senti falta da exploração deste mundo interno, destes seres nunca fitados antes. Sinto que daria mais consistência para o conto.
    Abraços, Regina

    • Henrique Daniel
      26 de setembro de 2017

      Muito obrigado por seu comentário Regina, fico feliz por sua sugestão, outras pessoas me disseram o mesmo, porém, o intuito do texto é deixar esses tais animais serem criados pelo leitor, essa sensação de inexplorado foi proposital.

      • Regina Lopes Maciel
        26 de setembro de 2017

        Henrique, vamos continuar conversando? Penso que muitos textos conseguem fazer com que o leitor crie uma possível história ou que, pelo menos, que ela fique rodando em sua cabeça (leia por ex, os contos da Lygia Fagundes Teles). Mas se você não apresenta este personagem e seu “drama”, de forma a emocionar/tocar o leitor, fazer com que ele brigue, discorde ou sofra a dor, etc, como querer que o leitor crie esta história? Você não escreveu mais do que 3 linhas sobre o personagem; não foi suficiente. Com a sua resposta anterior eu penso que, ao invés de me apresentar um conto, você me apresentou um exercício. E se outras pessoas comentaram a mesma coisa, talvez valha a pena rever sua intenção (o leitor não é preguiçoso, mas precisa ser estimulado).
        Abraços
        Regina

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Informação

Publicado às 13 de setembro de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .