EntreContos

Literatura que desafia.

Uma questão de mordida (Ruy Balboasa)

Esselentíssimo Doutor, Senhor, onipresente, ó Pai, todo poderoso, nascido da tormenta, primeiro do seu nome, rei do norte, Juiz de Direito – e esquerdo – Ceo & Manager Supremo da septuagésima vara Civil da Comarca da Capital, que fica um espetáculo de camisola preta, fala latim como ninguém e ainda possui um fulaninho para anunciar sua entrada,  detentor de todos os pronomes de tratamento e auxílios paletó, moradia, gravata, livros, educação, creche, etc.

 

Das partes:

 

Dona Esmeralda Arcoverde, brasileira pouco convicta, doida para morar em Miami, desquitada da época em que havia desquites, professora por diploma duvidoso expedido por instituição de pouca credibilidade, nascida em data propositalmente desconhecida, fruto de potente liquid paper, idosa (em filas de banco e assentos do metrô, mas especialmente jovem em seu perfil social), mãe de três filhotes fofinhos e escandalosos, vem mui-mui-mui respeitosamente, por meio de seu sobrinho e enfim advogado, após 7 anos de cursinho e remédios traja preta para memória, que fizeram brotar um novo cérebro ao lado do antigo prejudicado e imensas espinhas antissociais, que obviamente ajudaram na clausura acadêmica, ajuizar a presente ação de;

 

OBRIGAÇÃO DE FAZER

 

Em face do Condomínio Green Vilage Soft Place Verano Palace Stay, localizado em um bairro de clara influência estadunidense, formado por arquitetura imponente e ameaçadora que praticamente obriga os serviçais a usarem uniforme alvo, ora representado por seu Síndico, Jair Castelo-Cinza, Capitão de Corveta reformado em razão de hidrofobia adquirida por um passageiro episódio de raiva, condecorado pela incrível capacidade de afundar encouraçados no campeonato de Batalha Naval organizado pela Marinha de Minas Gerais, pelos fatos e direitos infra-abaixo-posterior-que-seguem-em seguida-logo após.    

 

Dos Fatos:

 

Os condôminos esperavam irritados e ansiosos sua vez. Dona Esmeralda, ao contrário, divertia-se como uma criança com bichos de pelúcia em uma piscina de bolas. O espetáculo surreal acontecia na melhor hora do dia para desespero do síndico. Tudo bem definido para não prejudicar a saúde dos filhotes. Os boatos, disseminados em velocidade estonteante pelos porteiros, diziam que tudo era em decorrência de uma mordida. E mesmo não se tratando de um possível apocalipse zumbi, o evento era tão bizarro e inacreditável quanto. Sim, apenas uma mordida contaminada por muita raiva.

 

Do Direito:

 

O advogado dissimulado caminhou vagarosamente de um lado para o outro na acanhada sala de audiências, tal qual havia visto em um seriado de televisão inglês. Olhou de modo reflexivo para o Juiz – que pacientemente observava toda a ação por trás de duas lentes grossas e conceitos turvos –  e sorriu de canto de boca, tentando parecer atilado. Em um gesto teatral, de fazer corar até os diretores das peças infantis repletas de girassóis cantantes e luas de voz esganiçadas, o defensor olhou para o horizonte e levantou seu braço direito como um filósofo de estátua.

 

– Alguém pode proibir? Certa vez li em algum lugar sobre todos serem iguais perante a lei.

– Provavelmente na Constituição Federal – o juiz falou, com a voz de fim de tarde – mas, o que isso tem a ver com o caso?

– Esse é o pilar central, Excelência!

– Pilar?

– A Pedra Fundamental!

– Pedra?

– O osso… de Dinossauro!

– Como isso pode ser o pilar central, a pedra fundamental, doutor? Estamos diante de uma questão condominial, onde uma senhora quer levar seus cachorros para nadar na piscina do prédio. No máximo esse tal de osso… – o magistrado completou, acompanhado de uma sonora gargalhada dos presentes.

 

O defensor alisou o bigode. que ainda não possuía, buscando não demonstrar qualquer reação que menosprezasse a claque do tribunal. Encarou seu interlocutor com um ar professoral, como um Mestre em biologia mirando uma ameba boba numa lâmina ensaboada. Limpou a garganta com pigarros aprendidos na aula de tópicos especiais em atos constrangedores, que precedia as lições de processo civil – ou hora do soninho, como ele gostava de chamar – e perguntou;

 

– Excelência, essa tal de Constituição Federal não é maior do que uma Convenção de Condomínio?

– Sim, mas não sei aonde o senhor quer chegar…?

– Quero chegar onde os cachorros querem chegar.

– E onde seria isso, Doutor?

– Na borda!

– Que borda?

– Na borda da piscina.

 

O juiz sacou os óculos liberando o imenso narigão que apontava para o chão, franziu o cenho, até porque era todo cenho, e devolveu a sentença para o advogado alongando todas as sílabas finais da palavra.

 

– Mas os cachorros não podem entrar na piscina, a convenção não permite.

– Trata-se de lógica; se todos somos iguais perante a lei, e se cachorros fazem parte de um todo, logo cachorros podem frequentar a piscina.

– Não, não podem! isso não tem lógica. Cachorros não são pessoas.

– Isso é racismo.

– Não, não é. Racismo vem de raça! – o magistrado gritou, perdendo a compostura e desalinhando os raros cabelos já em recuo.

– Ah, entendi. Isso é uma questão ainda mais baixa. Só porque os cachorros não são de raça.

– Não!

– Só porque os coitados não possuem pedigree. Não comem purina gold e nem biscroc. Só porque os coitados foram abandonados, não frequentaram uma boa escola, um bom clube, boas festas, Iphone. É isso?

 

O homem de toga engoliu uma grande porção de ar e soltou tudo de uma vez só pelos dois dutos de ventilação que a anatomia ordinária chamava de narinas. Caso fosse um desenho animado, seu rosto teria triplicado de tamanho e seus ouvidos teriam expelido fumaça cinza. Mas como era apenas um sujeito de carne e osso, o semblante só dobrou de volume.  

 

– É uma questão de espécie.

– Quer dizer que se fossem macacos ou iguanas, não teríamos problemas? – perguntou o advogado fingindo coçar o queixo de proporções absolutamente e inegavelmente normais.

– Macacos e iguanas também não poderiam entrar.

– Ora, ai teríamos que entrar na área de inventários.

– Que inventário?

– A herança!

– Que herança?

– A herança genética, que um tal de Darwin falou num livro de colégio.

– Você está misturando as coisas.

– Uma pergunta excelência: os primatas são nossos parentes, sim ou não?

– Acho que sim, ou não. Tivemos os mesmos ancestrais, eu acho – o dono do pedaço tentou raciocinar visivelmente confuso. Há tempos havia perdido a segurança e os risos dos puxa-sacos.

– Então quer dizer que só porque são parentes distantes não podem frequentar a piscina? – o advogado perguntou de forma retórica, fingindo indignação – então os primos do Síndico também não podem frequentar a piscina.

– Você está comparando pessoas aos macacos?

– Não, Excelência. Acho que isso é racismo!

– Meu deus! Mas, a senhora, sua cliente, não têm macacos e sim cachorros.

– Então vejo que é sim uma questão de preconceito de espécies. Macacos podem, iguanas podem, primos podem, mas cachorros… nem pensar.

– Eu não disse isso.

– Me diga apenas um motivo que justifique essa proibição?

– Doenças.

– Os bichos são fortes, não precisa se preocupar com eles.

– Quis dizer as pessoas.

– Exames médicos periódicos.

– E os cachorros?

– Médicos de cachorro.

– Veterinários ,você quis dizer?

– Que seja. Mas o sindicato não gosta muito dessa terminologia. Eles preferem ser chamados de médicos de cachorro – o advogado fez uma cara de reprovação e perguntou – outro motivo?

– Não sei nem porque estou respondendo isso. E os pelos!?– o juiz ponderou com fúria.

– Excelência quer proibir então todos os cabeludos de frequentarem a piscina? Teríamos uma piscina só de carecas depilados e os primos do síndico.

– Esquece os primos!

– Mas eles são os filhos do meu tio.

– Não os seus, me referi aos primos do síndico.

– Ora, são filhos do tio do Síndico. Você parece não estar prestando atenção, meritíssimo.

– Ok, ok. Vamos deixar os primos fora disto.

– Eles não vão gostar.

– Voltemos ao cerne da questão! – o juiz disse massageando a têmpora – E a questão da segurança?

– Salva-vidas de cães e boias caninas.

– A segurança das pessoas!

– Salva-vidas de gente e boias para humanos.

– Quem vai garantir que eles não vão atacar alguém?

– Os cães ou as pessoas? Fui contrato pelos cães! Não posso responder pelas pessoas.

– Quero saber dos cães?

– Eles estão bem, apesar de não estarem bronzeados.

– Não foi isso que perguntei, quero saber como você saber que eles não vão atacar alguém!?

– Isso é futurologia, quem me garante que o senhor, Excelência, não vai me atacar quando essa audiência acabar?

– Ninguém.

– Exato, ninguém. Meretríssimo!

 

Da Jurisprudência:

 

Os cães nunca me mordem. Só os humanos.

(Marilyn Monroe)

 

A Justiça é cega e não gosta de cão guia!

(Ruy Balboasa)

 

Do pedido: Impossível de ser negado

 

Data máxima vênia, nas horas de ira sempre falta “alguém”, ai, nobre colega, o “ninguém” assume o controle. Mas o que ninguém esperava no Condomínio é que Dona Esmeralda, agora com posse de uma sentença conseguida de forma inusitada por ocasião de uma mordida de primeira instância fosse sair mais cedo da piscina. Afinal, havia saído no diário oficial e no comunicado preso no elevador do prédio. O síndico combalido – fruto da primeira derrota de sua carreira beligerante de poucas estrelas – ainda em estado apoplético, apenas repetia em tom marcial; ~e o juiz nem latiu”!

 

SMJ.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 2, Comédia Finalistas.