EntreContos

Literatura que desafia.

Evaporando na nuvem (Placa-Mãe)

Fevereiro de 2015: Solicitação de amizade enviada.

– Recebi o seu convite. Desculpe-me, mas eu te conheço de onde?

– Dq mesmo, tbm sou escritor. Vc teve na Bienal do Livro, né?

– É, postei umas fotos. Tudo bem. Bem-vindo.

– Obg me add.

– ?

– Obrigado por me adicionar, desculpa aí estou no celular.

– Eu que peço, não estou acostumado com essas abreviações virtuais.

– Vou tentar evitar. Pagou para participar da Bienal e não vendeu nada?

– Só família e amigos.

– Típico de iniciantes.

– Você parece muito experiente. Vi que você escreveu um texto sobre aves migratórias no subterrâneo. Quando puder lerei.

– É antigo, muito bom mesmo. Sempre escrevi bem.

– Foi sua última postagem, em 2014.

– É que estou trabalhando em um romance complexo.

– E você, já leu algo meu?

– Ainda não, mas vi que você faz parte de um grupo de escritores amadores.

– Sei… Quando puder dá uma passada na minha página para conhecer o meu trabalho.

– Se eu tiver tp passo lá. Digo, tempo.

– Ok. Agradeço.

Maio 2015:

– Feliz Níver! Tudibão!

– Muito obrigado.

Setembro 2015:

– Feliz Aniversário!

– Valeu, cara. Tudibão!

Maio 2016:

– Feliz níver! Tudibão!

– Muito obrigado.

Maio 2017:

– Feliz níver, digo, aniversário. Embora você não mereça porque se esqueceu do meu em setembro último.

– Sinto muito. Aceite os parabéns atrasados, por favor.

– Não aceito não. Que tipo de amigo é vc? Saiba que por muito menos relações profundas são extintas.

– Desculpe-me, amigo, mas nós não temos uma relação profunda e nem rasa. Nem te conheço. Aceitei o teu convite por termos a mesma profissão.

– Fala assim porque tá ficando conhecido na rede e agora despreza os amigos antigos.

– Sou um ilustre desconhecido com menos de quinhentos leitores  inconstantes, pobres e distraídos.

– Viu? Tá me sacaneando porque eu só tenho oitenta leitores. Mais saiba que tenho aqui 422 exemplares prontos para serem vendidos. Quem vc pensa que é?

– Um escritor como você que tem um fã-clube de traças e cupins na estante. A vida é dura.

– E sem os amigos fica pior ainda. Você não comprou o meu livro, não curte os meus posts e nem se manifestou quando publiquei meu diário relatando o dramático calvário de minha luta contra  a dengue.

– Nossa. Que horror. Deu complicação?

– Não, e nem fiz exame. Tirei a foto da picada do mosquito, aquele de pijama listrado, no dedão do pé. Mas foram 3 dias dramáticos e você perdeu. Pois saiba que todos, exceto você, curtiram e foram solidários com carinhas chorosas. Custava um click de solidariedade?

– Peço desculpas, não sabia que isso significava tanto para você.

– Não significa absolutamente nada, viu? Me diga um bom motivo para eu não te deletar de meu seleto círculo de amizade?  

– Pensando bem, não vejo nenhum. Fique a vontade e me exclua.

– Olha aí! Você não liga pra mim. Não tá nem aí se eu vivo ou morro. Para que viver assim então?

– Também não é assim. Eu sou muito ocupado, tenho que fazer social e divulgar meu trabalho. Só sobra tempo para trabalhar e leituras rápidas. Mas se você me mandar o seu link prometo ler e comentar assim que puder.

– Você tem tempo para ficar pedindo receita contra ressaca,  respondendo enquete sobre desafio literário  e quem morre primeiro na sétima temporada de Game of Thrones. Até teste de qual bicho você seria – bem feito, eu vi, deu caramujo – e de qual personagem é sua alma gêmea. Não é a toa que o seu deu o Drácula, pois morra de inveja, o meu deu Thor, o do martelão. Agora para ler os coleguinhas não sobra 10 minutinhos.  Pensa que eu não sei? Sei de tudo. Tô de olho na tua bolinha verde,  sei que tá on line o dia todo.

– Já que você vigia a minha vida, então me fale de um conto, um poema meu que você tenha gostado. Não precisa nem ter gostado, que tenha lido. Duvido muito, pois não me lembro de você. Tu é só um tarado virtual carente, seu merda!

– Não mude de assunto. Estamos falando de minhas frustrações e não das suas.

– Olha só. Faz o que você quiser. Se você não me excluir eu é que vou te bloquear. Paciência tem limite.

– Então vai ser assim. Ok. O meu fim nas redes sociais será culpa sua. Estou me desconectando deste mundo insensível. Morrerei sem deixar nenhuma placa-mãe ou backup de minha vulgar existência. Começarei desligando o roteador. Ai, valei-me, meu Santo Expedito, dai-me forças!

– Que isso, cara, não tive a intensão de te magoar.

– De boas intensões a internet está cheia. E na minha lápide estará escrito: “Viveu e morreu como sinal aberto de wi-fi: evaporando na nuvem”.

– Calma, assim você me assusta. Você está sozinho? Tem família perto? Pode me dar seu número para eu te ligar? Como eu posso te ajudar?

– Eu só queria uma curtida. Ai, ai, ai.

– Pronto, pronto; já curti sua publicação de ontem sobre as borboletas.

– Não eram borboletas e sim mariposas. Você não leu nada. Só viu a ilustração de borboletas amarelas que coloquei de propósito para descobrir quem lê e quem não lê. E VOCÊ NÃO LEU!!! Ui, que vida besta. Não aguento mais.

– Mil desculpas, isso não vai acontecer novamente. Ignorância minha, sou leigo nessas coisas que voam. Por exemplo: mosca, vespa e abelha pra mim é tudo igual, inimigos perigosos em potencial. Preciso que alguém me ensine. Não é para isso que existem os amigos?

– Jura?

– Por tudo quanto me é mais sagrado no mundo virtual: minha paciência e empatia.

– É fácil diferenciar. Mosca é suja, abelha é limpa e vespa não é nada, só feia.

– Kkkk, entendi. Viu? Se não fosse você eu nunca saberia.

– Mentira. O que falei não tem nenhuma base científica e bastava dar uma busca no oráculo para saber tudo sobre moscas, abelhas e vespas. Odeio que mintam pra mim.

– Por que eu mentiria para você? A gente nem se conhece.

– É verdade. Então estamos bem?

– Ótimos. Vou fazer uma pesquisa sobre mariposas para ser digno de sua amizade.

– Promete?

– Claro! Somos amigos agora.

– Não preciso morrer hoje?

– Não! Não faça isso! Pelo amor de Deus não se desconecte. Eu estou aqui, vou manter a bolinha verde a noite toda acesa.

– Vê lá, hem?

– Pode confiar. Boa noite, amigo.

– Abração aí. Durma com os anjos e acorde comigo, quero dizer, como as minhas mariposas.

– Valeu!

(…)

– Ôi, você está aí? Estou vendo sua bolinha acesa. Fiz a pesquisa. Deve estar ocupado. Fiquei no vácuo. Tudo bem. Volto mais tarde.

(…)

– Voltei. Cadê você, amigão? Viu meu recado ontem?

(…)

– Você sumiu. Adorei seu artigo sobre as mariposas. Demorei um pouco para te retornar porque precisei de algumas madrugadas para entender bem as quarenta e cinco páginas técnicas. Você tem estilo. A melhor parte é a do acasalamento. Não é? Ôi? ÔÔÔi????

(…)

Ué? Não acredito que você me excluiu depois de tudo que passamos juntos.  Isso não se faz. Poxa vida, o que eu faço agora com tanta informação inútil sem você?

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1, Comédia Finalistas.