EntreContos

Literatura que desafia.

Mestre Tainha de Casa Forte (Rabelê)

“Peço licença aos gênios do cordel”

Para Alex e Rafael Matos,

os verdadeiros criadores de Tainha.

 

Pernambuco,

Ibimirim,

29 de abril de 1985

 

Professor César Bem-Velho,

 

Receio, por hora, que Tainha exista somente no imaginário nordestino.

Ilustro tal constatação com base nas pesquisas realizadas que, embora tenham propiciado grande acúmulo de causos folclóricos, não foram suficientes para me conduzir além da esfera da oralidade. Resumindo, continuo refém de fábulas, patacoadas, epopéias das carochinhas isentas de qualquer embasamento documental.

Prolegômenos à parte, vamos ao que interessa…

Os pescadores de Piúma confirmaram as narrativas que diziam que Tainha, antes de correr mundo afora, trabalhara nas jangadas do Porto da Saudade. Embora divergentes, as histórias locais convergem-se a uma única gênesis mítica: foi ali que a suposta odisséia tainhense principiou.

Estive também em Gemedera. E, depois de ler todos os cordéis acerca do tema, descobri que fora nesse povoado que Tainha sagrara-se capoeirista sob a tutela da mestra Querequequê-de-Iansã. A título de curiosidade, destaco a embolada que trouxe essa faceta do mito à luz da interpretação:

 

Mão no chão,

pé no vento.

Tainha espalhou alento,

debalou sina,

quebranto, bereketê.

Pois sua mestra-rainha,

foi Querequequê.

 

Sendo a finada mestra personalidade de renome naqueles ermos, achei por bem comparecer ao seu barracão no intuito de vistoriar quaisquer documentos capazes de fornecer alguma pista historiográfica. Revirei tudo, professor, mas findei não encontrando nada. Combalido pela ausência de provas, enveredei novamente na senda da oralidade e entrevistei três de seus alunos que ainda encontravam-se vivos: Charutinho, Doze-Homens e Moleza.

Prezarei aqui pela brevidade, pois obtive desses decanos as mais absurdas informações. O tal Charutinho enfatizara as supostas acrobacias de Tainha enquanto que Doze-Homens, meneando a cabeça e pitando seu cachimbo, limitava-se em aquiescer àquelas exorbitâncias. E Moleza, um negro aparentado de palmeira, ao contar-me que Tainha difundira a técnica – peço licença pelo palavreado – “meia-lua de cuzada“, ficou irritadíssimo com os meus porquês de tal feito não ter sido registrado no Dicionário de Capoeira do renomado Mestre Cobrinha de Apipucos. O gigantão gritou desagravos e Doze-Homens, soltando fumaça de trem maluco pelo cachimbo, teve que segurá-lo antes que a tal cuzada fosse despachada em mim.

É, professor, são eventos como esse que ilustram o nosso ingrato ofício. Parafraseando o filósofo Almir Corrupião: “De que serve a oralidade quando não conseguimos precisar a verita da mendarium?”.

Subscrevo-me aqui dizendo que estarei em Recife por conta do XII Seminário Folclorista. Espero que lá eu possa ser nutrido com menos fados e mais comprovações embasadas em critérios científicos.

 

Sinceramente,

 

Aritana Cascudinho.

 

***

 

Pernambuco,

Recife,

10 de maio de 1985

 

Professor César Bem-Velho,

 

O seminário contou com valiosíssimos apontamentos e destaco aqui as declarações do folclorista Santana Aroeira e as do filólogo Ordep Fomini.

Dito isso, começo do começo e início do inicio com as contribuições de Aroeira que, a saber, são duas…

A primeira concerne ao epíteto utilizado por Tainha. O folclorista achou o nome “Mestre Tainha de Casa Forte” nos registros policiais da década de 30 e estabeleceu, acertadamente, a ponte capaz de ligar esse indivíduo ao nosso mítico personagem graças a uma descrição feita por um oficial da época que diz:

 

Mestre Tainha de Casa Forte, capoeirista oriundo de Gemedera, detido por prática ilegal de capoeiragem“.

 

Com o reforço da tinta, destaco:

 

(…) capoeirista oriundo de Gemedera…“.

 

Ai está, professor!

Ai está o que tanto faltou nesses dois anos de pesquisa: comprovação historiográfica.

A segunda é a leitura pormenorizada de todos os feitos da lenda reunidos no artigo intitulado Brūmārum Tainha. A relação é imensa e por isso transcrevo-a aqui numa linguagem corrida, acrescentando algumas coisas que passaram longe dos olhos de Aroeira. De acordo com o Brūmārum, Mestre Tainha de Casa Forte foi: puxador de xáreu, tocou nos forrós de Jaboatão, virou em todos os santos, contrariou o destino torto dos ciganos, fendeu chifre de touro melado na tapa, atirou tarrafa em mais de um açude, aprendeu mistérios de um cacique de pele colorida, navegou seios de donzelas, nunca fugiu de remandiola, semeou lábios, colheu beijos na boca, enamorou-se de mulher de zona, dedilhou baiana nos folguedos de Salvador, era mentira bem contada que acabou virando sete mil sete verdades, travou peleja em muito mangue, foi homem até debaixo de outro homem, comeu chumbo e cuspiu bala de parabelo, decifrou os segredos entalhados na Pedra do Ingá, fez promessa de vagabundo, singrou nos ares, refrescou-se nos bares, aprendeu com rapariga muita língua de outros mares, na tocaia do amor ganhou no começo e no fim foi devedor, deitou-se com Kerpimanha num Quarup de lua-clara, deflorou a madrugada, lavou a culpa como se fosse cristão, leu saudade quando escreviam solidão, perdeu-se na vida, achou-se na morte, não deixou herança para seu ninguém e caiu no oco do mundo.

Agora, caso as revelações acima não tenham lhe deixado de boca aberta, prepare o queixo para o que vem a seguir…

O filólogo Ordep Fomini encontrou no acervo do cordelista Vevé Capiba o diário do especialista polonês em oralidade nordestina Bartz Szhunpauzer. Em uma das páginas do achado, uma crônica nominada Ellerni fiŝkapti en lando ec sanktulo Cucaniensis foi localizada. Escrita em esperanto, ela narra o encerramento da aventura do herói Fiŝkapti e seu companheiro Rivero Trinkaĵon na busca de uma terra mítica chamada Cucaniensis.

E o que isso tem a ver com o nosso Mestre Tainha?

Fomini explica…

A tradução do esperanto Fiŝkapti para nossa língua refere-se ao grupo particular de peixes pertencentes à família dos mugilídeos: ou seja, a tainha. Já Cucaniensis, que nada mais é que o equivalente francês Cockaigne – nome atribuído ao paraíso terrestre do universo da Baixa Idade Média –, desdobrou-se no nordeste brasileiro como Cocanha e, mais tarde, pela pena de Manuel Camilo dos Santos, em São Saruê.

A tradução do título une, numa mesma sela, Fiŝkapti e Mestre Tainha de Casa Forte:

 

Ellerni fiŝkapti en lando ec sanktulo Cucaniensis /

Mestre Tainha na Terra de São Saruê

 

E não é tudo…

Lembra-se de Trinkâjon?

Fomini também o passou pelo escrutínio da tradução e, para dar mais corpo ao embasamento, valeu-se do antigo repente de Arrigo Cariri – o famoso cantador de coco que embalou as polcas de Capibaribe.

 

Tainha feemeiro,

amigou-se de órfão ribeirinho

e não teve na vida um outro companheiro.

Era o dito maninho

homem de peleja e muito caminho.

Bravura de suçuarana e touro tinhoso.

Parceiro de copo, bozó e zona.

Diga-me quem é que carrega nome de rio glorioso:

Paraguaçu Dosona.

 

Depois fez as devidas aproximações lingüísticas: Rivero, em esperanto, significa “rio de águas prateadas” talqualmente o termo tupi-português “paraguaçu”. E Trinkâjon, referindo-se ao ato de “sorver em grandes doses“, aproximava-se de forma perfeita à palavra “dosona“.

Voilà!

Paraguaçu Dosona é Rivero Trinkaĵon!

Rivero Trinkaĵon é Paraguaçu Dosona!

Findado o mistério, Fomini se despediu do seminário anunciando que a crônica “Mestre Tainha e a Terra de São Saruê” estava em processo de tradução e que em breve seria revelada ao público.

Finalizo essa extensa carta dizendo que retornarei ao Rio de Janeiro daqui algumas semanas e, munido com mais embasamentos, creio que poderemos finalmente marcar uma reunião com o Departamento de História da UFRJ para apresentarmos os resultados de nossa pesquisa.

 

Afetuosamente,

 

Aritana Cascudinho.

 

PS: Peço prudência de sua parte, mesmo sabendo que é o mais prudente dos homens. Comentar qualquer coisa entre os professores do departamento, sem os respaldos científicos que estão comigo, poderia fragilizar o argumento de tudo o que construímos até aqui.

 

***

 

Rio de Janeiro,

Copacabana,  

24 de maio de 1985

 

Cascudinho,

 

Antecipo profundas desculpas e esclareço que não tive a mais remota intenção de comprometer nossa pesquisa. Você sabe, mais do que ninguém, o quanto lutei para que Tainha tivesse todo o respaldo acadêmico possível.

Enfim, conto-lhe o triste ocorrido…

Eu havia terminado de ministrar a última aula.

Então, fui até o bar do Mamadeira e, sentando-me à mesinha mais discreta, ao coro dos instrumentos que o trio de Quintinha da Sanfona ensaiava sobre o palco, tomei umas em nome de Tainha e a nossa pesquisa.  

O bar começou a encher. Saudei alguns conhecidos, professores e alunos que, como eu, cumpriam a rotina noturna de todas as sextas-feiras. Quando já me antecipava para ir embora – você sabe que não gosto de aglomerações – escutei Mamadeira dizer que haveria um sarau de repentes nos intervalos de cada música. Animei-me com aquilo, Cascudinho, pois vi ali a devida oportunidade de homenagear o Mestre de Casa Forte com alguns versinhos de minha autoria.

Assim, embalado nesse pensamento, rememorando fragmentos de ambas as missivas que me haviam sido encaminhadas, versei no primeiro refresco:

 

Tainha e Dosona

pelo mundão sem porteira.

Sinas e glórias.

Fodelança a vida inteira.

 

Fez-se um silêncio total.

Professores, alunos e todos os que conheciam meu feitio severão dentro das adjacências da universidade, me olharam com espanto devido àquele linguajar vulgar. Dissimulei como pude e juro que até tentei sair à francesa. Entretanto, um coro de vozes explodiu em clamores de mais e eu, ignorando todo o bom senso, emendei de carretilha:

 

Camará, camaradinho,

eu conto é trova boa.

História do maior herói nordestino.

Aquele que deitou cabelo pelo sertão e ainda riu à toa.

Abanquem-se os do sudeste, do leste, do norte,

para escutar as façanhas do cafuzo de Casa Forte.

 

Berros e mais berros ribombaram pelo bar.

Mamadeira – nordestino “até a tampa” como sempre afirmara –, quando ouviu sobre aquele desconhecido herói, baixou rodadas de cachaça em sua memória. O trio de Quintinha tentou encadear um xote, mas foi interrompido pelos pedidos esgoelados de novos repentes de minha autoria. Empoleirei-me nos ombros de uma garota que estava ao meu lado e, equilibrando-se por conta da embriaguez, emprosei:

 

Tainha e Dosona,

no oco do mundo.

Tainha é rei de ribalta e zona.

Dosona é maestro-vagamundo.

Um dá tesoura, cuzada, tapona.

O outro de rabo é cativo.

 

As pessoas que estavam nas mesas mais próximas repetiram os versos. A embolada encorpou, saçaricou nas bocas, preencheu o ar. Fui tomado por uma profunda felicidade diante de tamanha ovação. E, emocionado, propus um brinde final. Copos foram erguidos e, na força da lágrima e do gogó, saudei o Mestre de Casa Forte.

Foi aí que tudo descambou, Cascudinho…

Tudo ruiu no instante em que aquele repente cortou o espaço. E tomo a liberdade de escrevê-lo aqui para que você possa aquilatar o quão desaforadas foram as palavras:

 

De um improviso nunca corro,

pois correr não é comigo.

E digo e redigo,

para que fique na boca do povo:

Tainha é história de mentiroso.

Brisa de tanto tomar amansa-corno,

fuleragem nascida em cabeça de garoto.

 

Quando “fuleragem-nascida-em-cabeça-de-garoto” ressoou em meus ouvidos, uma ira cega tomou conta de mim. Cuspi a bebida na cara de todos os que acompanhavam o brinde e indaguei, aos urros, acerca de quem havia composto aquele desplante. Prontamente, espantados com aquela raiva súbita, me indicaram o responsável…

Recorda-se de Martinho Guiga? O professor de Historiografia Brasileira? Aquele que quase travou nossa primeira abordagem sobre Tainha anos atrás?

Pois bem, era ele!

Afastei as mesas e, esquecendo de minha idade avançada, parti para cima do canalha. A violência se fez dona do pedaço e até Mamadeira, ao ver que o nome do conterrâneo Tainha havia sido manchado, desceu a mão em todos os que estavam próximos. Cadeiras voaram, garrafas foram quebradas e até mesmo os alunos que tentaram me tirar de cima de Martinho levaram uns pescoções.

Tudo foi muito rápido e, para lhe ser franco, não lembro bem em qual momento a polícia interveio na situação. Só sei que quando dei por mim estava no 12ª DP de Copacabana com Mamadeira desacordado à minha direita e Quintinha da Sanfona à esquerda. Depois de algumas horas fomos liberados e eu retornei para casa.

Que vergonha ter de lhe contar esse infeliz incidente…

Que vergonha…

Sinto muito mesmo, Cascudinho…

Encerro dizendo que recebi, hoje de manhã, um telefonema do Departamento de História e fui convocado para prestar explicações. Lhe manterei informado sobre o meu destino e o destino de nossa pesquisa.

 

Envergonhadamente,

 

César Bem-Velho.

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Informação

Publicado em 5 de agosto de 2017 por em Comédia - Grupo 1, Comédia Finalistas.