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Literatura que desafia.

História de um nome – Clássico (Stanislaw Ponte Preta)

No capítulo dos nomes difíceis têm acontecido coisas das mais pitorescas. Ou é um camarada chamado Mimoso, que tem físico de mastodonte, ou é um sujeito fraquinho e insignificante chamado Hércules. Os nomes difíceis, principalmente os nomes tirados de adjetivos condizentes com seus portadores, são raríssimos, e é por isso que minha avó a paterna – dizia:

— Gente honesta, se for homem deve ser José, se for mulher, deve ser Maria!

É verdade que Vovó não tinha nada contra os joões, paulos, mários, odetes e — vá lá — fidélis. A sua implicância era, sobretudo, com nomes inventados, comemorativos de um acontecimento qualquer, como era o caso, muito citado por ela, de uma tal Dona Holofotina, batizada no dia em que inauguraram a luz elétrica na rua em que a família morava.

Acrescente-se também que Vovó não mantinha relações com pessoas de nomes tirados metade da mãe e metade do pai. Jamais perdoou a um velho amigo seu — o “Seu” Wagner — porque se casara com uma senhora chamada Emília, muito respeitável, aliás, mas que tivera o mau-gosto de convencer o marido de batizar o primeiro filho com o nome leguminoso de Wagem — “wag” de Wagner e “em” de Emília. É verdade que a vagem comum, crua ou ensopada, será sempre com “v”, enquanto o filho de “Seu” Wagner herdara o “w” do pai. Mas isso não tinha nenhuma importância: a consoante não era um detalhe bastante forte para impedir o risinho gozador de todos aqueles que eram apresentados ao menino Wagem.

Mas deixemos de lado as birras de minha avó — velhinha que Deus tenha, em Sua santa glória — e passemos ao estranho caso da família Veiga, que morava pertinho de nossa casa, em tempos idos.

“Seu” Veiga, amante de boa leitura e cuja cachaça era colecionar livros, embora colecionasse também filhos, talvez com a mesma paixão, levou sua mania ao extremo de batizar os rebentos com nomes que tivessem relação com livros. Assim, o mais velho chamou-se Prefácio da Veiga; o segundo, Prólogo; o terceiro, Índice e, sucessivamente, foram nascendo o Tomo, o Capítulo e, por fim, Epílogo da Veiga, caçula do casal.

Lembro-me bem dos filhos de “Seu” Veiga, todos excelentes rapazes, principalmente o Capítulo, sujeito prendado na confecção de balões e papagaios. Até hoje (é verdade que não me tenho dedicado muito na busca) não encontrei ninguém que fizesse um papagaio tão bem quanto Capítulo. Nem balões. Tomo era um bom extrema-direita e Prefácio pegou o vício do pai – vivia comprando livros. Era, aliás, o filho querido de “Seu” Veiga, pai extremoso, que não admitia piadas. Não tinha o menor senso de humor. Certa vez ficou mesmo de relações estremecidas com meu pai, por causa de uma brincadeira. “Seu” Veiga ia passando pela nossa porta, levando a família para o banho de mar. Iam todos armados de barracas de praia, toalhas etc. Papai estava na janela e, ao saudá-lo, fez a graça:

— Vai levar a biblioteca para o banho? “Seu” Veiga ficou queimado durante muito tempo.

Dona Odete — por alcunha “A Estante” — mãe dos meninos, sofria o desgosto de ter tantos filhos homens e não ter uma menina “para me fazer companhia” – como costumava dizer. Acreditava, inclusive, que aquilo era castigo de Deus, por causa da idéia do marido de botar aqueles nomes nos garotos. Por isso, fez uma promessa: se ainda tivesse uma menina, havia de chamá-la Maria.

As esperanças já estavam quase perdidas. Epílogozinho já tinha oito anos, quando a vontade de Dona Odete tornou-se uma bela realidade, pesando cinco quilos e mamando uma enormidade. Os vizinhos comentaram que “Seu” Veiga não gostou, ainda que se conformasse, com a vinda de mais um herdeiro, só porque já lhe faltavam palavras relacionadas a livros para denominar a criança.

Só meses depois, na hora do batizado, o pai foi informado da antiga promessa. Ficou furioso com a mulher, esbravejou, bufou, mas — bom católico — acabou concordando em parte. E assim, em vez de receber somente o nome suave de Maria, a garotinha foi registrada, no livro da paróquia, após a cerimônia batismal, como Errata Maria da Veiga.

Estava cumprida a promessa de Dona Odete, estava de pé a mania de “Seu” Veiga.

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Texto extraído do livro “A casa demolida”, Editora do Autor — Rio de Janeiro, 1963, pág. 09.

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5 comentários em “História de um nome – Clássico (Stanislaw Ponte Preta)

  1. Fil Felix
    4 de agosto de 2017

    Que conto engraçado! Morri de rir logo com a Dona Holofotina, da inauguração da rede elétrica. E os nomes de livros? Achei genial. O conto traz aquela característica essencial às piadas, que é o fechamento, o lacinho ao final que dá maior consistência ao texto. A Errata Maria não apenas mantém a tradição, como anula a própria decisão da esposa, nesse jogo de palavras. E o interessante é que a leitura, além de leve, transcorre muito bem, o autor faz tudo parecer bem simples.

    Em matéria de gramática, algo legal (que deve ser reflexo da época) é o uso de aspas no “Seu”, algo que sempre fico em dúvida: usar aspas, em letra maiúscula ou minúscula? E ver no conto, de maneira tão natural, mostra que muitas vezes ficamos presos à certas tradições, enquanto poderíamos simplesmente fazer do jeito que desse a entender, como nesse caso. Sem grandes preocupações. Sem contar no regionalismo, que é maravilhoso.

  2. Eduardo Selga
    26 de julho de 2017

    A literatura brasileira, por inevitável, bebe nas águas da literatura clássica, em que o humor não é considerado de fato esteticamente elevado. O clássico é fundamentalmente dramático e trágico; depois, lá no fim da fila, vem o humorístico, em suas diversas matizes.

    Por mais que isso tenha se alterado, o preconceito contra o humor ainda é grande. Por causa disso, autores como Sérgio Porto -o nosso Stanislaw Ponte Preta-, nunca tiveram o devido reconhecimento. Presidem essa avaliação duas ideias: a suposta facilidade em construir textos com essa característica; a suposição de que a “boa literatura” cabe a gente séria (e aqui retidão de caráter se confunde com mau humor).

    Uma das características marcantes de Ponte Preta, em minha opinião, é o tom de “causo” que ele imprime em suas narrativas, o que reforça o preconceito contra ele, na medida em que a literatura não seria território para o coloquial. Outro elemento importante está no fato de que algumas de suas crônicas são fronteiriças em relação ao conto, fazendo deste gênero narrativo objeto mais palatável.

  3. Bia Machado
    25 de julho de 2017

    Isso tudo é uma delícia. Apenas. Sem mais.

  4. Fabio Baptista
    25 de julho de 2017

    Texto leve e divertido, humor de #qualidade.

    Estará no meu top 10!

    Boa sorte no desafio.

  5. Higor Benízio
    25 de julho de 2017

    Essa leveza é quase um milagre, fico bobo!

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Publicado às 25 de julho de 2017 por em Clássicos e marcado .