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Literatura que desafia.

O grilo filósofo – Conto (Thiago Lopes)

Pinóquio era uma criança, e a melhor definição de criança, dizia o Grilo-falante, é justamente ser irracional e ainda não ter introduzido as regras sociais – citando Piaget, mas adaptando suas ideias. Realmente, Pinóquio não tinha limites, tudo o que desejava ele queria, sem distinguir a possibilidade ou não de apossar-se do objeto. O Grilo lhe falava, sabendo estar fazendo o papel de superego: você precisa se transformar num menino, isto é, civilizar-se. Isso de ficar sempre com o nariz ereto não convém para os meninos que devem saber controlar o pipi, isto é, controlar o desejo sexual, guardando-o para os momentos propícios e aceitos – civilize-se, Pinóquio!

E o Pinóquio lhe dava uma bordoada, ou um tapa, ou uma paulada, e o Grilo ia parar na sarjeta da vida, jogando seus versos e ideias para o vento indiferente, como sucede mesmo com os filósofos. 

Seu Grilo chato, gritava Pinóquio, fica só fazendo esse barulho irritante na orelha dos outros! Ninguém quer saber das suas palavras idiotas. 

O Grilo tentou fazer o bonequinho aprender alguma coisa nessa merda. Tentou os filósofos, os moralistas, os políticos, a literatura e a história, mas o coisinha de madeira desprezava o conhecimento e só queria ir jogar futebol ou arribar as saias das meninas, ou jogar pedra na cabeça dos velhos, ou amarrar as patinhas das pombas para vê-las saltitar. 

O Grilo pensava consigo: fascistinha cara de pau. Mas como bom preceptor, tentava estimular o aluno, ressaltando seus pontos fortes e qualidades – era professor de licenciatura. 

O boneco não tava nem aí, corria sem roupa pela rua, roubava doces dos armazéns, metia rabo de burro nas senhoras, tirava as perucas alheias (ele mesmo tinha uma peruquinha) com uma vara de pescar, rindo a valer. Saia com más companhias, fumava maconha, roubava os cobertores dos mendigos, bebia bebida roubada e fumava sem medo de câncer. A vida é uma zoeira, ele falava. 

O grilo tinha até uma invejinha que ele não admitia pra si mesmo. 

Qual não foi a alegria do sábio-inseto em saber que o bostinha tinha sido enganado por gente mais rata do que ele! Ficou feliz em saber que Pinóquio tinha sido enganado no circo, no teatro, no museu, e que tinha sido engolido pela Baleia, a grande e metafórica Baleia! Foi engolido pela força irracional da natureza, está passando agora pela transformação, pelo período de transição, imerso no oceano do inconsciente coletivo, no abismo do inconsciente em forma de animal marinho. Leviatã, ele recitava, Leviatã, animal dos mares, temor dos homens, beleza do mundo líquido, cão arisco de Poseidon! Leviatã, encarnação das instituições!  A vida vai bater tanto nele, que ele vai se civilizar de todo modo.   

Até que chegou o dia em que Pinóquio finalmente aprendeu, aceitou as normas, tornou-se menino de verdade. E desde então está comportado, conformado, sempre quietinho e obediente, o nariz não fica mais duro e grande sem que ele esteja entre quatro paredes. Sobre a mentira? Nunca, melhor ser honesto sempre e assumir as responsabilidades. E nada de corrupção, isso só cola pros selvagens. 

Virou um boneco de ventríloquo, passa os dias sentado nos joelhos de alguém, cantando músicas infantis. 

E o grilo até hoje se sente culpado ao vê-lo.

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2 comentários em “O grilo filósofo – Conto (Thiago Lopes)

  1. Fil Felix
    4 de julho de 2017

    Sempre se comenta sobre o “mostrar e não contar” e este conto versa muito com isso. A impressão que tive foi de uma versão 1.0 do “Grilo Filósofo”. As situações não são mostradas a nós, mas sim contadas e de maneira resumida. Há muita informação que tenta brotar da história, e nisso o autor fez um trabalho muito bom, mas que são prejudicadas pela técnica adotada. Utilizar do Pinóquio como exemplo de uma criança perfeita, formada por desejos (sexuais ou não), e nisso vai tanto do Piaget quanto pra Freud, em como a criança tem o seu próprio mundo e modo de ver as coisas, sem travas (como o controle do nariz) é muito bom, contrastando com a ideia de civilização/ manipulação, se tornando um ventríloquo. Esse contraste é ótimo, mas toda a construção do texto ficou estranha.

    Essas referências (como do Piaget) são jogadas, sem um bom contexto. Quem não fez Pedagogia ou Licenciatura, não vai pegar a referência. Por outro lado, no parágrafo sobre a Baleia, todas as referências são postas e não deixa margem nenhuma pro leitor associar o animal à alguma coisa. Fica a impressão de um resumo, ou uma versão 1.0 do conto, que precisaria voltar e trabalhar melhor na construção das frases. Não no sentido de florear, mas colocar os pontos e as referências mais calmamente, dando espaço pro leitor degustar esse novo Pinóquio, sem escrever a moral da história. Uma outra questão, e agora é algo bem pessoal, palavras como “merda” acabam pulando e acho que não se encaixam.

  2. Givago Domingues Thimoti
    3 de julho de 2017

    Então, Thiago, eu não gostei muito do conto. A linguagem é muito boa e fluída. Não percebi erros gramaticais.
    A ideia de fazer uma releitura de uma história infantil foi muito corajosa, entretanto, incorreu em algumas incoerências, pelo menos, ao meu modo de ver. Não sei se esse grilo é filósofo mesmo. Acredito que ele seja muito mais um tutor ou um professor de etiquetas com um alto conhecimento do que filósofo. Digo isso porque sou um adorador de filosofia e não combina muito dos filósofos serem tão “controladores” e “disciplinadores”. É mais comum que os profissionais dessa área tentem incentivar o pensamento dos alunos.
    Claro que essa minha ideia surge de uma opinião minha. Não tome como regra e nem desanime. Repito: a linguagem é muito boa. Posso estar errado, mas acredito que você escreve por um tempo considerável.

    Boa sorte!

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Publicado às 3 de julho de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .