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Detox Literário.

Rubros Trajes da Tragédia – Conto (Karine Müller)

Ele morava numa cabana bem longe, pediu que fosse o mais longe possível da civilização. O caos estava do outro lado, não havia incômodo algum e menos ainda aquela poluição sonora.

Ao acordar pegava seus chás e ia observar as árvores, ouvindo o cantarolar das aves. Todos os dias algum animal dava o ar da graça em sua porta. Ele jamais se sentiu sozinho.

Certa vez ficou frustrado por ter de ir à cidade resolver umas pendências. Pegou carona na estrada e após horas de viagem chegou ao tão desagradável destino. Não sabendo lidar com o congestionamento e as filas de espera, tirou da mochila um livro grosso e gasto e passou a ler enquanto aguardava ser atendido.

Um perfume doce que o fez lembrar das orquídeas que havia plantado no último mês pairava no ar, de modo que toda a concentração se perdesse por aquela essência. Ele se pegou num breve devaneio, até que seus olhos deram de encontro à linda silhueta de cabelos dourados.

Apesar dos saltos gigantescos, ela possuía o andar leve e delicado, de quem não se preocupa se a chuva molharia seu vestido vermelho de cetim. Segurava em mãos um pequeno papel que parecia ter umas anotações, porque ela o lia e procurava informações pelas placas. Parecia perdida naquele local tão caótico.

Quando voltou para si, o rapaz andou até a moça, deixando para trás a fila que pegara. Buscou auxiliá-la e juntos encontraram o tal setor. A moça ficou muito agradecida, mas logo virou as costas para resolver seus problemas.

Ele não conseguia parar de olhá-la, ficou a encarando até a visão não alcançar mais.

E então se conformou. Viu que não era merecedor de tanta elegância e formosura.

No meio do dia já havia conseguido eliminar as questões burocráticas de cidadania. Ao sair do enorme prédio espelhado, ele tentava ignorar todas as pessoas que o observavam com olhar de desprezo e simplesmente voltar ao seu mundinho no meio do mato. Mas dessa vez estava mais difícil, ele andava sem rumo pelas calçadas de paralelepípedo, observava mais obras e sentia a poeira invadindo seus olhos. Enquanto se irritava com a metrópole, esfregando os olhos ardidos, novamente veio aquele perfume em suas narinas.

Paralisado, buscava enxergar o vermelho da vestimenta da mulher que vira mais cedo. Por sorte os olhos se recuperavam aos poucos e ele conseguiu vê-la caminhando em direção ao restaurante do outro lado da rua.

Sem pensar duas vezes, em um pico de impulso, correu para atravessar e ir de encontro. Não tinha hábito sequer de olhar para os lados na rua. Já há décadas não precisava temer ou sequer ter cuidado com carros, ou pessoas, ou avenidas, ou cruzamentos, ou velocidade, ou sinalização; ou acidentes de trânsito.

Ouviu-se uma freada brusca e o estrondo da batida.

O motorista do ônibus se desesperou, curiosos rodearam o corpo estirado ao chão, os passageiros se erguiam para tentar entender, mães tampavam os olhos de suas crianças, um homem ligou para a ambulância. Havia sangue pra toda parte.

A dama de vermelho agora estava na porta do restaurante, tirou os óculos escuros e tentava visualizar a cena, mas a multidão impedia. Ela logo desistiu, era só mais um acidente corriqueiro da cidade grande.

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6 comentários em “Rubros Trajes da Tragédia – Conto (Karine Müller)

  1. Gustavo Rubio
    28 de abril de 2017

    Hahahahahaha massa !!

  2. marcilenecardoso2000
    18 de abril de 2017

    Que triste…
    Tenho vontade de fazer isso também, morar isolada da civilização. Mas o conforto que ela oferece, como água encanada, chuveiro elétrico, é tão sedutores…

  3. Priscila Pereira
    13 de abril de 2017

    Oi Karine, seu texto, apesar de curto conta muita coisa, dá para se interessar pelos personagens, por suas vidas, e querer saber mais sobre a história deles. Gostei bastante. Parabéns!

  4. Cilas Medi
    12 de abril de 2017

    Gostei!

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Publicado às 12 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .