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Literatura que desafia.

Sonhos ruins – Conto (P. Campanario)

Os pesadelos noturnos que me sacudiram a partir da adolescência vinham acompanhados de um grito forte. Ao irromperem sem prévia advertência na calmaria da noite, despertavam e sobressaltavam os residentes da pensão, minha morada à época, e em especial Elza, a proprietária do negócio. De acordo com os relatos dessas vítimas os brados eram longos e a potência crescente. Eu também despertava assustado, justamente quando meu rugido alcançava a máxima potência.  

No leque das possibilidades postas à disposição do imaginário humano, meus berros assemelhavam-se, para alguns, a um desesperado sendo chacinado, para outros a um energúmeno esganando alguém e todos diziam que sentiam medo ou se apavoravam, como no caso de Elza.

Devido à intensa carga emotiva e à elevada frequência, tais estridências atestavam a gravidade de um terrível trauma, cuja origem eu tinha ciência (ou pensava ter), mas decidira guardá-lo em segredo para não revelar a ninguém o que eu definia como uma mancha em minha miserável existência. Tentava esconder essa sombra crendo que assim fazendo minha vida pareceria normal para os outros e para mim mesmo. Mas às vezes eu duvidava de minha explicação, a qual poderia perfeitamente não  passar de uma simples racionalização.

Nas noites em que eu perturbava o sono dos pensionistas, eu, envergonhado, pedia desculpas a todos no  café da manhã, porém ninguém comentava nada e a coisa ficava por isso mesmo. Um dia concluí que talvez tivesse sido melhor revelar para os pensionistas o porquê desses repentes sonoros, pois um mal-intencionado residente montou uma picante explicação do fenômeno, humilhante para mim e aceita por quase todos como a mais pura  verdade. Com isso, meu trauma virou um segredo de polichinelo, só que falso. Ou verdadeiro? E, para arrematar, um engraçadinho elaborou um haicai desabonando-me:

 

Pedro disfarça

Com seus horríveis brados

Sua gana anal

 

Casei-me com Clara e os berros continuaram. Para minorar seus efeitos daninhos nos ouvidos, nos sonos e na psique de minha esposa, roguei a ela que me despertasse com seu delicado sibilar, de preferência e se possível no início da barulheira. A técnica funcionava, mas numa noite ela escutou passos dentro da casa e, sem saber qual atitude tomar, emitiu seu assovio peculiar e  a seguir sussurrou: “Querido, tem ladrão aqui!”

Eu, que dormia  profundamente, acordei e, ainda entorpecido, vi nitidamente o gatuno pela fresta da porta  entreaberta do quarto e levantei-me disposto a agarrá-lo. A esposa tentou dissuadir-me puxando-me pela camisa do pijama, mas eu segui em frente e ela soltou-me. Saí correndo atrás do intruso com urros, tratando de alcançá-lo. Clara e Rodolfo, o cão, seguiram-me. Destranquei a porta da sala num segundo e saí em direção ao portão de entrada. Ela e o cachorro pararam na porta observando-me.

Onde foi parar o meliante? Apesar de meu empenho para esganá-lo, ele conseguiu fugir. Parei no portão e vislumbrei sua imagem desvanecendo-se na rua até se confundir com a luz dos postes. Dei um berro na madrugada e retornei à casa com o rabo entre as pernas.

Ela já foi perguntando: “Como é que você viu o ladrão na escuridão de nosso quarto? Eu não o vi. E o seu berro aí no portão foi longo, como nos pesadelos. Você estava acordado?” Respondi com convicção: “Sim, claro que o vi! Ele fugiu pela porta da cozinha, só pode ser, e meu berro foi curto.” “Nada disso, foi longo e você acha que foi curto porque acordou só quando estava nas alturas.” Fomos até a cozinha e a porta estava trancada. As janelas estavam gradeadas. Tive de engolir os fatos: “Eu sei o que aconteceu, Pedro. Se a casa estava toda fechada, como é que o cachorro entrou? Ele estava aqui dentro. Você mandou ele pra fora ontem à noite?” “Não, e você?” “Se eu lhe fiz a pergunta, é óbvio que eu não o pus pra fora ontem. Então, meu caro, o barulho foi feito pelo cão e os passos eram dele, que ficara dentro da casa, por esquecimento nosso. E você viu e correu atrás de um espectro! Enfim, eu apenas confundi o som do cão com um possível ladrão e você transformou-o num pesadelo ambulante e berrante! Outra prova que você sonhava é a louca perseguição ao fantasma, pois nos sonhos, ruins ou bons,  somos resolutos. Se o invasor fosse gente de verdade, esse pesadelo teria provocado uma tragédia! Procure um psiquiatra!”

Quem tem medo de sangue e consegue encarar o sangue, perde o medo. Trauma se cura com trauma, pelo menos alguns. Para minha sorte, esse  pesadelo equivocado e ambulante, de tão marcante, acabou com o trauma que me perturbava desde a juventude, o mesmo acontecendo, por consequência, com os berros. Eu ainda continuei sem saber  qual das duas explicações tinha mais veracidade: o supostamente falso segredo de polichinelo ou a explicação (ou racionalização?) que eu sempre imputei aos meus pesadelos. Mas agora isso pouco importa.

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Um comentário em “Sonhos ruins – Conto (P. Campanario)

  1. marcilenecardoso2000
    20 de abril de 2017

    Premissa interessante, bem estruturado, mas faltou tempero. O conto nos remete a uma estória de terror, ou um suspense, mas ficou faltando ingredientes para qualquer um dos dois. Mais emoção dos personagens, mais sustos. A percepção de que tinha algo errado na perseguição ao ladrão por parte dos personagens tinha tudo para ser o ápice da trama, mas ficou muito leve, curta. Abraço.

E Então? O que achou?

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Publicado às 7 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .