EntreContos

Literatura que desafia.

Brígida – Conto (Juliana Costasi)

Eu era pequena e serelepe. Minhas mãos, igualmente pequenas e pouco buliçosas. Eficientes, contudo, para destruir a Brígida.

Boneca de porcelana, com cabelo de verdade, olhos de mentira, ruiva, com maçãs no rosto, boquinha de lábios encarnados… sapatinho de veludo preto e… com aquelas faixas de boneca de modos na altura dos pés.

A roupa? Musseline azul de anjo, com rendinhas nas extremidades e uns detalhes de cetim em fita. Por baixo de toda aquela indumentária, Brígida era uma reles almofada de algodão áspero e assim foi fácil destruí-la.

Um dia, olhei para ela e senti um frenesi de brincar com sua fragilidade, que eu desconhecia, por sinal!

Mas quão pequenas eram minhas mãos e era pesada, a Brígida!… com aquele corpo de algodão e somente a cabeça, os pés e as mãos moldados na palidez da porcelana.
Depois daquele rápido descuido, lá estava ela: uma mula sem cabeça de membros amputados. Uma tragédia! O que dizer para a mamãe mediante o cenário do crime?…

Não, não se assemelhava mais àquela doce e delicada boneca de outrora!

Era apenas uma almofadinha vestida a rigor.

Não pude juntar os caquinhos… essa é uma tarefa dos adultos corrompidos.

Brígida não mais existia. Brígida era frágil… a bonequinha: herança da mamãe.

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10 comentários em “Brígida – Conto (Juliana Costasi)

  1. Ângelo Rosa de Lima
    9 de abril de 2017

    “Quando eu era pequena, não sabia lidar direito com meu corpo cibernético. Houve um momento onde chorei porque esmaguei uma boneca que eu gostava.” – Major, Ghost In The Shell: Stand Alone Complex episódio 3 aos 21 minutos. Estava assistindo e lembrei deste conto. Que por sinal, me assustou levemente na frase final: “herança da mamãe”. Pensei que ela tivesse morrido, mas uma releitura anulou essa possibilidade. Embora quem sabe o espaço pra essa interpretação o tornaria mais impactante, se esse fosse o objetivo.

    A autora escreve simultaneamente com profundidade e delicadeza, demonstrando fragilidade e inspiração. Gostei de “Entretanto, o NÓS não pode existir em um mundo impermeável”

    • Juliana Costasi
      11 de abril de 2017

      Rs… Obrigada por tuas considerações, Ângelo! Muito interessante a intertextualidade que fizeste! Agradeço. também, por prestigiar meu outro Conto “Aquela carta”! Deixa-me muito contente! Veja mais em: https://grafiasdemim.blogspot.com.br/

      Um abraço!

  2. marcilenecardoso2000
    7 de abril de 2017

    Muito triste, pobre da Brígida! Como uma mãe lida com situações como essa? Talvez a menina diga que foi acidente, né? O conto tem a premissa de um conto de terror, conta a estória de uma criança destruindo seu brinquedo intencionalmente. Geralmente as crianças só o fazem sem querer.Faltou um pouco mais de emoção, que teria se não fosse tão enxuto. Faltou ”realidade” em seu texto. Palavras impactantes. Num texto onde o narrador é também personagem, o autor peca às vezes por medo de colocar características demais nesse personagem. E é complicado mesmo. Porém, são essas mesmas características que dão veracidade ao que se conta.

    • Juliana Costasi
      7 de abril de 2017

      …Ainda mais quando a estória é verídica! Rs
      Obrigada pelas considerações!

  3. LARYSSA GUIMARÃES SERRA
    6 de abril de 2017

    A autora transmite uma sensação de nostalgia no leitor ao relembrar uma boneca da infancia, sua relação de amor e descuido inconsciente, que é natural naquela fase ,mas torna-se perpeceptivel somente agora na fase adulta.Ela fez a descrição das sensações que as crianças não conseguem traduzir. Gostei muito do texto, do estilo requintado, sarcástico, engraçado! Parabens pelo seu trabalho, gostaria que divulgasse mais.

    • Juliana Costasi
      7 de abril de 2017

      Querida,
      obrigada por apreciar este Conto que muito me sensibiliza também, pois foi sentido verdadeiramente na minha nostálgica infância!

      Continue acompanhando meus escritos!
      Beijos

  4. Rafael Luiz
    6 de abril de 2017

    Gostei bastante. A ambiguidade entre o amor pela boneca e a vontade de destruí-la é bem interessante! A variedade de palavras, adjetivos e trejeitos também se mostrou bastante objetiva e nada exaustiva. Muito bom.

    • Juliana Costasi
      7 de abril de 2017

      Obrigada pelas considerações, Rafael! Fico feliz que “Brígida” tenha causado em ti sensações intrigantes!
      Até mais!

  5. Eduardo Selga
    6 de abril de 2017

    O conto é bom, mas o enredo merece ser mais trabalhado, de modo a acentuar duas características muito sedutoras da protagonista: o cinismo, e a inveja que ela sentia pela boneca, cujo nome, contrariamente ao que ocorre ao brinquedo, sugere força, vivacidade. Aliás, isso também é outra característica muito boa: o confronto de polos opostos. Temos a filha e a mãe; o aspecto frágil numa boneca que carrega um nome tão forte; o falso convivendo com o verdadeiro (a boneca tem cabelos “de verdade”).

    A autora também faz um bom trabalho de construção frasal, muito importante para criar o clima pretendido. Em “era apenas uma almofadinha vestida a rigor”, por exemplo, fica explícito o cinismo da menina; em “depois daquele rápido descuido, lá estava ela: uma mula sem cabeça de membros amputados. Uma tragédia!”, além do mesmo cinismo, um humor negro.

    • Juliana Costasi
      7 de abril de 2017

      Querido,
      agradeço pelas considerações e conto sempre com elas para aprimorar minha escrita… minha forma de expressão! até mais!

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Publicado às 6 de abril de 2017 por em Contos Off-Desafio e marcado .