EntreContos

Literatura que desafia.

Formigas (Gustavo Araujo)

Ao entrar no galpão segurava uma trouxa com milho e batatas. Por sorte, conseguira surrupiar alguns pedaços de carne de porco também, enquanto as cozinheiras conversavam sobre a seca assolava a velha fazenda.

Encostou o portão lentamente, embora fosse difícil evitar os rangidos. Fechou a tramela atrás de si e deslizou os pés pelo chão batido, silenciosa como um gato, até chegar ao fundo, onde uma pilha de feno jazia desordenada. Assobiou uma nota qualquer, quase melodiosa. Um instante depois, um olhar furtivo e brilhante a atingiu demoradamente, desfazendo-se num sussurro.

“Sinhazinha…”, disse uma voz rouca, seguida de um aceno fugaz.

“Sim, Negrinho, sou eu. Trouxe seu almoço”, sussurrou de volta a menina, caminhando até ele.

“Deus a abençoe.”

Com o semblante refletindo o sol que se esgueirava pelas telhas, acentuando-lhe rugas de preocupação, o rapaz – pouco mais que um garoto, na verdade – se sentou, a perna esquerda esticada, exibindo um ferimento aberto. Ao receber a trouxa desfez o nó simples e mergulhou os dedos ávidos na comida.

“Muito obrigado, sinhá. Não fosse a senhora, acho que já teria morrido.”

A menina, ainda de pé, sorriu e disse:

“Vosmecê me protege. Eu o protejo. Não é assim que tudo funciona?”

“Foi a Virgem Maria que ensinou”, respondeu ele, limpando a boca com a manga da camisa rota e repleta de manchas escuras.

“Foi a Virgem Maria que ensinou”, repetiu a menina, fazendo o Sinal da Cruz, orgulhosa, mantendo o sorriso de fé.

***

Voltou ao casarão e dirigiu-se à biblioteca. Analisou a estante por um momento, qual observadora de pássaros, até encontrar o que desejava: “Lira dos Vinte Anos”, de Álvares de Azevedo. Puxou o livro pela lombada e examinou a capa. Pela fita que servia de marcação para leitura, abriu-o e, satisfeita, sentou-se, os olhos já deitados sobre as linhas.

Embora a poesia normalmente lhe tocasse a alma, tinha os pensamentos distantes. No Negrinho. De certa forma, não acreditava na boa sorte que tivera ao encontrá-lo. Imaginava a dor que ele deveria ter sentido por conta das formigas. Que suplício… E tudo porque perdera o pastoreio. Ninguém merecia um castigo como aquele só por ter caído no sono. Agora, ao menos, tudo estava bem. Cuidaria dele, com a graça de Deus e da Virgem Santíssima, pois era essa a sua tarefa.

Tentou retomar a leitura, mas a mente fugidia teimava em arrastá-la para o galpão. Estaria bem o Negrinho? Demoraria para se recuperar? Para onde iria depois de curado?

Mal percebeu quando ouviu seu pai cumprimentando alguém à porta da casa, alguém que rescendia a água-de-colônia barata. As palavras atingiram seus ouvidos como flechas. Mesmo sem querer, viu-se capturada pela conversa.

“Há um quilombo perdido depois da serra”, dizia seu pai.

“Isso é o que falam por aí, coronel”, respondeu a outra voz, com certo tom jocoso, típico de quem se considera imune a crendices. “Mas as suspeitas são de que eles estejam por esta região.”

“Meus negros jamais dariam abrigo a qualquer escravo em fuga.”

A menina reconheceu a entonação. A frase dita assim, de plano, firme, quase uma ordem, era reservada para os momentos em que o pai desejava recordar de quem era a autoridade.

“Os rastros apontam para cá, coronel, eu mesmo…”

“Vosmecê diga ao doutor Albuquerque que pode contar comigo. Já prendi negros fujões outras vezes. Não seria diferente agora.”

“Sei disso. O senhor tem o meu respeito.”

O som de botas martelando o piso de tábuas indicou que a conversa chegava ao fim.

“São quinze negros, todos de canela fina”, disse o homem que saía. “Têm tudo na fazenda, mas preferem viver na floresta, como bichos.”

“Nenhuma notícia dos capitães do mato?”

“Não confio em capitães do mato, coronel. São negros também.”

***

“Soube que alguns escravos fugiram da fazenda vizinha”, disse a menina, oferecendo uma maçã ao Negrinho.

“É uma pena.”

Conversavam ao final da tarde, quando o crepúsculo se derramava no céu com tonalidades amarelas.

“O homem que conversou com meu pai disse que eles talvez estejam por aqui.”

“A sinhá pode ficar tranquila. Se eu vir alguém suspeito, aviso.”

Mordeu o fruto e cerrou os olhos, como se o sumo o revigorasse. A perna continuava machucada, a ferida vermelha se prolongando do joelho ao tornozelo.

“Tive sorte em conhecê-la, sinhazinha”, disse o Negrinho, exibindo os dentes muito brancos.

“Eu é que tive sorte em encontrá-lo aqui.”

“Graças à senhora, estou me recuperando.”

“Às vezes me sinto culpada por não levá-lo para o casarão. Lá vosmecê poderia se curar mais rápido. Meu pai conhece um médico…”

“Seu pai parece ser um homem muito bom.”

“É, sim… Não nos falta nada. Tenho certeza de que ele entenderia a situação se fôssemos até lá. Vosmecê estaria novo em folha em poucos dias.”

“Acredite em mim, sinhá. Devo ficar por aqui. É um tipo de provação.”

“Mas minha mãe… Ela é tão devota quanto eu! É certo que cuidaria de vosmecê, Negrinho. Que bênção seria tê-lo entre nós.”

“Para mim seria uma bênção também. Mas posso ser confundido com um escravo.”

“Ora, que bobagem… Qualquer um pode ver que vosmecê não é um escravo.”

O Negrinho assentiu, mordendo novamente a maçã.

“Eu queria muito ir, sinhá. Mas a Virgem soprou no meu ouvido que devo ficar aqui até me recuperar.”

A menina assentiu. Por um lado, desejava levar o Negrinho para casa, onde poderia ajudá-lo de verdade, onde poderia tratar de seus ferimentos, alimentá-lo adequadamente. Mas por outro lado, gostava da ideia de tê-lo como segredo, como um tesouro escondido. Seu anjo da guarda pessoal.

***

“Carolina, onde está a minha Bíblia?”

Não houve resposta. A mulher repetiu a pergunta.

“Carolina?”

A menina veio apressada.

“Desculpe, mamãe. Eu não ouvi direito.”

“A Bíblia, Carolina. Onde está?”

Bateu o indicador no queixo, como se pensasse profundamente.

“Não sei… Achei que a senhora a tivesse levado para o quarto.”

A mulher a encarou longamente. Tinha olhos de ferro. O cabelo amarrado num coque sobre a cabeça deixando escapar fios rebeldes junto às orelhas. O vestido cinza com mangas compridas, elegante demais para o clima quente da fazenda, realçava a figura de quem estava acostumada a ser obedecida.

“Carolina, conheço vosmecê muito bem. O que está acontecendo?”

A menina mordeu o lábio inferior e ergueu as sobrancelhas.

“Minha filha, eu vi quando vosmecê pegou a Bíblia ontem à tarde. O que fez com ela? Pode me contar. Prometo não dizer nada a seu pai.”

A mãe tinha o olhar cândido agora, quase verdadeiro. Deveria contar-lhe sobre o Negrinho? Que leu para ele um trecho dos Salmos? Ela entenderia. Claro que entenderia. Era devota. Se havia alguém no mundo capaz de compreender a bênção que se espalhara sobre a fazenda com a chegada do Negrinho, esse alguém era ela. Sim, a mãe precisava saber. Deveria saber.

“E então, minha filha? Por que me olha assim?”

O Negrinho… Ele pediu segredo. A Virgem pediu, na verdade. Foi o que ele disse. Se alguém mais soubesse, ela ficaria triste. Talvez lhe virasse o rosto. Pior, talvez o Negrinho fosse embora. Não, não queria que isso acontecesse. O Negrinho era bom. Quase um santo.

“Mamãe, prometo que vou procurar. Prometo…”

***

Entrou no galpão logo cedo, ritualística. Trazia guisado de frango, sobras da noite anterior. Caminhou lentamente em direção ao fundo.

“Negrinho…”, sussurrou.

Não houve resposta.

“Negrinho…”, repetiu, examinando o monte de feno adiante.

Novamente, o silêncio.

Súbito, um odor enjoativo de água-de-colônia a envolveu. Alertada, olhou para trás, surpreendida por um homem grande, de aspecto sujo, atirando-se em sua direção. Seu grito foi sufocado por mãos ossudas, repletas de calos.

“Ajudando os negros, menina?”, indagou o homem, agora sobre ela, o odor de bebida se misturando ao perfume barato.

Seus olhos se abriram em desespero. Queria negar, dizer que não, que não sabia do que ele estava falando. Foi quando viu o Negrinho amarrado em um canto, sentado, as mãos entrelaçadas nas pernas. Imóvel e amordaçado, mas desperto, os olhos arregalados.

“Sabe o que eu penso sobre quem ajuda negros fujões?”, perguntou o sujeito, remexendo as anáguas do vestido que ela usava, camada a camada.

O horror aprofundou-se ainda mais. A mão tapando-lhe a boca, o fedor de bebida, os dedos imundos que abriam caminho por entre suas roupas e pernas. E o Negrinho… Pobre Negrinho… Queria gritar, pedir ajuda, mas o homem era tão pesado, tão asqueroso. Debateu-se, forçando braços, pernas, tentando desesperadamente escapar.

“Arre que esta égua é braba!”, disse o sujeito, rindo.

Mordeu-lhe a mão. Um segundo bastou. Gritou pedindo ajuda. Um baque seco na cabeça a fez desmaiar.

***

“O que esse negro fez com vosmecê, Carolina?”

A menina olhou ao redor, a visão ainda embaciada, a cabeça doída. Por fim, enxergou o Negrinho ainda amarrado, as costas no chão, a expressão assustada. Ao lado, o homem que a atacara, aprumado como um cavaleiro. Por fim, virou-se para o pai, que continuava:

“Diga, minha filha, o que ele fez, o que…”

“Não foi ele, papai. Não foi o Negrinho…”, respondeu ela, engasgando com o choro. Apontou para o homem em pé e disse: “Foi ele quem fez…”

O pai arqueou as sobrancelhas.

“Filha, este homem a salvou do negro… Graças a ele o pior não aconteceu. Devemos agradecer…”

“Não pai! Ele me atacou. O Negrinho estava preso!”

“O choque deve ter sido muito grande”, interveio a mãe, os braços cruzados sob o busto.

“Mamãe, não… A senhora não acredita? Esse homem pulou em cima de mim, ele…”

“Minha filha…”, disse a mulher, reservando à menina um olhar de condescendência. “Sei que deve ter sido difícil, mas este homem salvou a sua vida. É um herói!”

“Não, mamãe, veja, é o Negrinho, o Negrinho do Pastoreio…”

A mãe e o pai trocaram um olhar seguido de um sorriso discreto, rápido o suficiente para que se entendessem.

“Carolina, vamos para casa…”, ordenou a mãe.

“Não, eu não quero ir…” respondeu a menina, as lágrimas descendo pelo rosto. “Ninguém entende…”

“Deixe que os adultos cuidem disso”, arrematou o pai. No canto, o homem que rescendia a colônia barata tinha o rosto endurecido, a mão apoiada no punho da espada embainhada.

“O que vai acontecer com o Negrinho, papai? Por favor, não façam mal a ele…”

***

Quando Francisco Mendonça Sodré acordou na manhã seguinte tinha consigo a sensação de dever cumprido. A honra de sua filha fora salva, o castigo devidamente aplicado. Ainda precisava se desculpar com o doutor Albuquerque, mas ele haveria de compreender. Em breve, pediria à esposa que conversasse com Carolina. A menina precisaria de bons conselhos.

“Negrinho do Pastoreio”, dissera ela. Sim, por que não? Amarrá-lo a um poste, próximo a um formigueiro. Besuntá-lo com melado e esperar que as formigas fizessem sua parte durante a madrugada. Amordaçá-lo, naturalmente, para evitar os gritos. Sim, um fim adequado para um crime tão horrendo. Pobre Carolina.

Abriu a porta do quarto da menina, encontrando a cama vazia, à exceção da imagem da Virgem sobre o travesseiro. Provavelmente a filha não dormira direito devido ao trauma, refugiando-se na biblioteca. Desceu até lá, esperando encontrá-la sentada na poltrona com um livro entre as mãos. Queria confortá-la, dizer que o pior havia passado, que esquecesse o episódio. Tampouco estava lá, porém. Mesmo na cozinha não a encontrou. As cozinheiras não a viram. Talvez estivesse no balanço, então, sob a mangueira, nos fundos. Não…

Preocupado, percorreu o pátio, foi até mesmo à senzala, mas ninguém a vira. Onde está Carolina? Correu ao galpão, foi até o fundo, revirando o feno e outros víveres. Nenhum sinal. Voltou a casa. Chamou por ela. A esposa acordou, preocupada. Procuraram juntos, sem sucesso. A mulher segurava a imagem da Virgem, porque era nos momentos de maior angústia que se recorria à Santa.

Balançou a cabeça, a conclusão inevitável o atingindo. Caminhou até o poste onde deixara o negro. Também ele havia desaparecido. As cordas lambuzadas de melado jaziam no chão, as formigas ainda se refestelando. Ao lado havia uma faca. Rastros se desenhavam na poeira, desaparecendo à frente.

“Carolina!” gritou, mesmo sabendo que não seria ouvido.

Anúncios

42 comentários em “Formigas (Gustavo Araujo)

  1. Vitor De Lerbo
    31 de março de 2017

    História triste e pesada. O estilo narrativo combina com a trama, em que a esperança e a bondade só vencem no final.
    Boa sorte!

  2. Wender Lemes
    31 de março de 2017

    Olá! Para organizar melhor, dividirei minha avaliação em três partes: a técnica, o apelo e o conjunto da obra.

    Técnica: uma história muito bem contada, explorando a lenda de um jeito razoavelmente comum.
    Na verdade, a lenda foi, de certo modo, racionalizada, transformada em algo possível na nossa realidade. No lugar de ser salvo por uma intervenção da Virgem Maria, o Negrinho foi ajudado por uma menina comum. Isso não isenta o conto de uma abordagem religiosa, mas essa abordagem é restrita ao psicológico dos personagens, não se materializa. Em questões de ortografia, só notei a falta de um “que” no primeiro parágrafo e de uma crase em “Voltou a casa”, quase no final. A revisão está em dia.

    Apelo: devo admitir que, embora a técnica seja muito boa, não me senti movido pelo conto. Este é o lado subjetivo da leitura, mas creio que o feedback também lhe seja interessante. As reações de Carolina e do Negrinho frente às tragédias que aconteciam me passaram um tom otimista demais para ser convincente.
    Conjunto: considero este um texto de qualidade, uma construção bem feita que poderia explorar mais o lado psicológico dos personagens, pois isso ajudaria a fortalecer a empatia com o leitor. Foi minha primeira leitura no atual desafio – e foi um belo começo.

    Parabéns e boa sorte.

  3. Anderson Henrique
    31 de março de 2017

    Ótimo conto. A narrativa toda bem recortada, ritmo impecável, bons diálogos. Belo arremate também. Peguei um deslize de digitação, mas bobagem. Fora isso, tudo no lugar certo. É um forte concorrente, sem dúvida. Parabéns.

  4. rsollberg
    31 de março de 2017

    Fala, João!
    Que coincidência comecei ler a trilogia das formigas de Bernard Werber essa semana! Mas vamos ao conto…
    Conto muito bem escrito, é perceptível a competência do autor, até mesmo nos diálogos, que até aqui tem sido o calcanhar de aquiles dos contos. A história é completa, com inicio, meio e fim, tudo muito bem explorado dentro do limite. Os personagens principais possuem boa voz e, de certa forma, forma bem desenvolvidos. Fora isso, temos ação, tensão e emoção, Bela trinca!
    O final que caminhava para o triste, teve uma reviravolta. Funcionou? Sim, claro. Mas confesso que pela pegada do conto teria gostado mais de desfecho mais pra baixo, no estilo “pijama listrado” “fita branca”
    Sem dúvida um ótimo conto.
    PArabéns

  5. Priscila Pereira
    31 de março de 2017

    Olá João, eu gostei bastante do seu conto, muito bem escrito, muito bem pensado e bem executado. Ficou muito verossímel, muito fluido, li depressa, querendo saber o que acontecia depois… Muito bom, parabéns!!

  6. mitou
    31 de março de 2017

    o conto é bem estruturado , ele conta de uma outra visão a história do negrinho do pastoreiro, através da menina Carolina, esse foi o principal ponto do conto , que mais arrecadou pontos na criatividade na minha opinião, e quanto à estrutura não tem muito o que reclamar, parabéns

  7. Fabio Baptista
    31 de março de 2017

    Achei o conto meio genérico, estilão novela das 6, para o bem e para o mal.

    Gostei da ambientação e da abordagem religiosa – mesmo após uma segunda leitura, não consegui ter certeza se o Negrinho era devoto mesmo ou se estava manipulando Carolina de certa forma (estou mais inclinado a acreditar nessa segunda hipótese). Confesso que não conheço muito bem a lenda original, talvez isso me ajudasse a entender. Na parte boa desse clima de novela, destaco o momento em que Carolina quase conta para a mãe sobre o Negrinho… deu aquela sensação gostosa de querer falar alto com o personagem (tipo minha vó costuma fazer em frente à TV): “não conta pra ela, não! Isso vai dar merda, Carolina!!!” kkkkk.

    No primeiro parágrafo tem um “que” faltando, depois disso o autor segue por caminhos seguros e está tudo ok na parte técnica.

    – Qualquer um pode ver que vosmecê não é um escravo
    >>> Não entendi muito bem porque não pensariam que ele era um escravo…

    – a bênção que se espalhara sobre a fazenda
    >>> outro ponto que ficou no ar… qual bênção?

    – É, sim… Não nos falta nada. Tenho certeza de que ele entenderia a situação se fôssemos até lá.
    >>> Pelo diálogo do pai na noite anterior, não fiquei com impressão que Carolina, por mais inocente que fosse, pudesse acreditar nisso.

    Abraço!

    NOTA: 8

  8. Antonio Stegues Batista
    30 de março de 2017

    O final ficou em aberto, mas tudo indica que a menina teve a ilusão de que o escravo fugido era o Negrinho do Pastoreio. Na inocência, liberta o tarado. A inclusão da lenda gaúcha nesse drama, ficou legal. Bem escrito, bom enredo.

  9. Pedro Luna
    30 de março de 2017

    Uma triste história, que traz muito da lenda do Negrinho, mas que insere novos elementos. A sinhazinha me soou um pouco clichê, quase enxerguei uma protagonista de novela global, filha de um barão, contra a escravidão, ajudando os necessitados. Enfim. A história não avança tanto, rendendo um suspense, pelo menos para mim, somente em algumas menções a virgem, pois achei que vinha algo bem sobrenatural na trama, mas não. O ponto alto é a reviravolta envolvendo o cidadão que procurava os escravos. Dá uma raiva nessa parte, principalmente por depois ele ser considerado um herói. Objetivo alcançado pelo escritor. Porém, o final me soou um pouco simples. Queria ter me afeiçoado mais ao negrinho, pois terminei o conto sem saber quem ele era (só o que se sabe é de sua bondade e azar).

  10. Marsal
    30 de março de 2017

    Olá, autor (a). Parabéns pelo seu conto. Vamos aos comentários:
    a) Adequação ao tema: sim, claro.
    b) Enredo: original. Um conto baseado na lenda do Negrinho do Pastoreio, mas com uma certa personalidade própria. O enredo e’ trágico e, de certa forma, chocante, mas muito bem tecido
    c) Estilo: gostei do estilo do autor. A escrita e’ clara e direta, mas não excessivamente simplista.
    d) Impressão geral: Um excelente conto, acredito que um dos melhores do desafio. Parabéns! Boa sorte no desafio!

  11. Cilas Medi
    29 de março de 2017

    Um conto excelente, não conseguindo parar para saber. Com suspense e um final correto e surpreendendo.

  12. catarinacunha2015
    29 de março de 2017

    Aspas me incomodam nos diálogos, prefiro travessão; o texto parece mais limpo. Bobagem de leitora, só opinião. A trama é lenta, mas bela e marca bem os mundos diferentes do Negrinho e da Sinhazinha. O final me surpreendeu, o que é agradavelmente raro.

  13. danielreis1973 (@danielreis1973)
    28 de março de 2017

    Um texto sensível, bem estruturado em atos, com um final um pouco previsível. Ainda assim, a leitura fluiu leve, demonstrando que o autor tem, além de domínio, paciência na edição e cuidado na escolha das palavras. Parabéns.

  14. Matheus Pacheco
    28 de março de 2017

    Que lindo conto, mostrando a inocência das crianças de mundos diferentes, ao Negrinho do Pastoreiro e Carolina, uma maneira diferente de recontar uma história triste como aquela, sem contar que foi dado a ele um castigo pior que o que tinha ouvido falar pelas lendas.
    Abração ao autor.

  15. jggouvea
    28 de março de 2017

    Eu gostei da narrativa, apesar de ela estar um tanto comprimida devido ao limite estreito de 2000 palavras. Particularmente me agradou a abordagem realista. Não há elementos sobrenaturais, apenas a crença no sobrenatural, que se manifesta de maneiras diversas.

    Não há muito que comentar porque o texto não possui defeitos gritantes, a não ser a história um tanto previsível — embora no começo não parecesse assim — mas isso é praticamente um requisito de um desafio baseado em tema.

    Vamos às notas:

    Média (aritmética) 9,13
    Introdução: 7,50
    Enredo: 8.5
    Personagens: 9,00
    Cenário: 10,00
    Forma/Linguagem: 10,00
    Coerência: 9,00

  16. Olisomar Pires
    28 de março de 2017

    Conto envolvente e bem escrito.

    Alguns deslizes no enredo não prejudicaram desenrolar do mesmo, muito bem escrito, tenso e agradável.

  17. G. S. Willy
    28 de março de 2017

    O conto é bem escrito, mostrando claramente o que está acontecendo, com bons diálogos, mesmo que as vozes pudessem ser um pouco mais caraterísticas. Negrinho do Pastoreio é uma lenda bem conhecida, fazendo talvez parte do nosso folclore, mesmo que sua origem não seja exatamente brasileira. Mas o que não ficou claro era se esse garoto era o mesmo das lendas ou se um escravo fugido qualquer, e se ele estava usando da ingenuidade da menina para que ela cuidasse dele e não o denunciasse. Acredito que seja a segunda opção, o que nesse caso, foge um pouco do tema do desafio. Mesmo assim, a história foi boa, o final instigante e condizente, ainda que o folclore tenha ficado em segundo plano, ou em plano algum…

  18. Bruna Francielle
    27 de março de 2017

    tema: pelo q eu li sobre a lenda do pastoreio, aqui não vi nem a lenda inserida na história, nem uma história sobre a lenda. A única coisa em comum que vi da lenda e o conto foi o personagem ser negro e uma menção a uma santa.

    pontos fortes: narrativa clara e compreensível, isso pode parecer o básico, mas existem contos que a gente lê e não entende nada, e é o mesmo que ler algo em chinês. Por isso,acho valorizável quando um conto é bem escrito. Tem bons diálogos e boas descrições.

    pontos fracos: Eu costumo colocar o fator ‘personalidade forte’ dos personagens nos “pontos fortes”, mas o que houve aqui foi um maniqueísmo racial, em que o personagem negro era 100% bonzinho, e o personagem ‘homem branco’ era 100% malvado, e a menina era 100% boazinha, mas só porque amava o negro, a desobediência aos pais, mentiras e tal são vistas como justificáveis por causa disso. Ai eu costumo preferir personagens que não sejam maniqueístas, e que tenham dois lados, não apenas um.
    Também não vi o porque do título.

  19. Rafael Luiz
    27 de março de 2017

    Enredo interessante e contagiante. Entrega a cereja do bolo muito cedo, mas a doçura da menina e a curiosidade de pra onde vai andar a história fazem prosseguir sem problemas. Enredo bom e fluido, mas final um pouco sem sal.

  20. Ricardo de Lohem
    26 de março de 2017

    Olá, como vai? Vamos ao conto! Boa adaptação da lenda do Negrinho do Pastoreio. A história tem muitas variantes, o autor aqui fez a sua mantendo as características gerais do conto: um escravo muito religioso, condenado a ser untado em mel para ser devorado por formigas. O final é original e misterioso, deixando muitas continuações possíveis para a imaginação do leitor. Bem desenvolvido, o conto está bem acima da média do presente desafio. Seu conto é muito bom, Parabéns! Desejo para você muito Boa Sorte!

  21. Elisa Ribeiro
    26 de março de 2017

    Gostei muito do seu conto. Enredo bom, narrativa envolvente. Sua personagem Carolina, entretanto, me pareceu um pouco incoerente. Achei-a velha demais para confundir um escravo com o negrinho do pastoreio mas também nova demais para se distrair lendo Alvares de Azevedo. O final de seu conto ficou bom, mas para o meu gosto preferia que tivesse sido narrado da perspectiva mais poética e inocente de Carolina, ou, de forma mais surpreendente, pelo do negro. Fica a sugestão. De qualquer forma, um conto excelente. Parabéns!

  22. Elias Paixão
    26 de março de 2017

    Em alguns comentários eu reclamei sobre lugares-comuns e a falta de ousadia dos autores. Neste conto, a história também não é de dar asas à imaginação, mas a introdução das personagens, a evolução do conflito e seu consequente desfecho inibem as críticas. Foi uma leitura agradável, emocionante e que certamente me fez torcer por personagens e odiar outros (é, o da água de colônia). E isso é uma competência rara nas muitas leituras que vejo por aí. Ótimo conto.

  23. Evelyn Postali
    24 de março de 2017

    Oi, João,
    Gostei dessa maneira de contar a lenda. De recontar, eu diria, porque a lenda, propriamente, é muito triste. Não é uma história que se goste de ler. Não só pela tristeza, mas pelo que ela aponta: o ser humano é a criatura mais cruel e desumana da face da terra. É o único capa de maltratar outras criaturas por prazer. Enfim… Gostei do uso das palavras, gostei do enredo. Está bem escrita. E foi contada de uma maneira muito sensível.

  24. Bia Machado
    24 de março de 2017

    Fluidez da narrativa: (4/4)
    Construção das personagens: (3/3)
    Adequação ao Tema: (1/1)
    Emoção: (1/1)
    Estética/revisão: (1/1)

    Não tem como eu fragmentar meu comentário. As notas máximas mostram exatamente isso: gostei demais do conto. Narrativa fluida, as personagens que me envolveram em suas características, cada uma a seu jeito, o tema totalmente adequado, estética e revisão de acordo e sobre a emoção, nem precisa falar. Muito bom! Para fechar as leituras da quinta-feira com chave de ouro. Parabéns!

  25. Miquéias Dell'Orti
    23 de março de 2017

    Oi,

    Ótima narrativa. A tensão criada com a violência do homem sobre a menina e culpa recaindo sobre o garoto ficou bem enveredada ao restante da trama.

    Achei o final inesperado, o que deu mais credibilidade ainda ao conto. Parabéns.

  26. Olá, João Neto,

    Tudo bem?

    Passei o desafio inteiro procurando por uma lenda que fosse do Sul do Brasil. A sua é a única. Estava em busca do Negrinho do Pastoreio e eis que aqui está, super bem representado.

    Sua narrativa me lembrou a estrutura de uma cena do livro do Gustavo Araújo, o Pretérito Imperfeito. Não sei o motivo, mas seu conto me remeteu ao livro. A estrutura dos pais da menina, a biblioteca, o balanço, o encontro com o Negrinho em um local misterioso da floresta, enfim.

    Um conto muito gostoso de se ler, com um formato direto e bem construído.

    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  27. Roselaine Hahn
    20 de março de 2017

    João, que belo conto! Viajei até a minha infância – e isso faz muito, muitoooo tempo -, pois cresci ouvindo a história do Negrinho do Pastoreio, muito contada aqui no Sul, imagino que vc. seja daqui também. Escrita fluída, concisa, a tensão aumentando, as cenas de ação muito bem descritas, diálogos bem construídos, e com a devida função no texto. Lembro, como se fosse hoje, da tristeza que senti quando li essa lenda, a dó do Negrinho, o mesmo sentimento que revivi agora com a sua prosa. Um dos principais objetivos de um texto é causar emoção e empatia no leitor, e vc. conseguiu isso. Parabéns. Top 10.

  28. Fátima Heluany AntunesNogueira
    19 de março de 2017

    O pseudônimo deve ser uma homenagem ao escritor João Simões Lopes Neto, considerado o maior autor regionalista do Rio Grande do Sul e a lenda do tema é uma de suas obras-primas.

    O Negrinho do Pastoreio é considerado, por aqueles que acreditam na lenda, como o protetor das pessoas que perdem algo. Na releitura, aqui, parece que ele que é sempre salvo pela menina protagonista: uma história da época da escravidão, melancólica, em tom de conto infantil. Ambiente e personagens e tempo estão bem construídos, com cenário e vocabulário carregados de sentimentos fortes, agradáveis ou não.

    Esse conto está muito bom gramaticalmente, sem deslizes técnicos ou estruturais para apontar. Leitura fluente e agradável, então parabéns pela participação! Abraços.

  29. felipe rodrigues
    19 de março de 2017

    Conto bem escrito, sem muitas delongas e todos os detalhes que apresenta são essenciais para a narrativa. A mistura da inocência da garota com o catolicismo – que nesse conto opera tanto pela solidariedade como pela hipocrisia adulta – foi o maior triunfo do autor, que ajeitou ainda bons diálogos e descrições no eixo desse conto tão competente.

  30. Neusa Maria Fontolan
    18 de março de 2017

    Gostoso de ler. Uma história simples sobre a lenda do Negrinho do pastoreio. Gostei do conto. Uma história, movida pela humanidade, de um amor inocente entre uma sinhazinha e um escravo. Parabéns.
    Destaque: “O horror aprofundou-se ainda mais. A mão tapando-lhe a boca, o fedor de bebida, os dedos imundos que abriam caminho por entre suas roupas e pernas. E o Negrinho… Pobre Negrinho… Queria gritar, pedir ajuda, mas o homem era tão pesado, tão asqueroso. Debateu-se, forçando braços, pernas, tentando desesperadamente escapar.”

  31. M. A. Thompson
    18 de março de 2017

    Olá “João Neto”. Parabéns pelo seu conto. Sua narrativa me cativou bastante e foi uma das poucas que li por prazer, não como obrigação do desafio. Sucesso.

  32. marcilenecardoso2000
    17 de março de 2017

    Ah, não! Ficou um gostinho de quero mais! Gostei de tudo, da ambientação, dos personagens, do enredo. Mais uma vez alguém fez algo errado e jogou a culpa em outra pessoa, normal no ser humano… Alguns erros gramaticais e de ortografia, frase faltando palavra.

  33. Rubem Cabral
    13 de março de 2017

    Olá, João Neto.

    Gostei da releitura do mito do Negrinho do Pastoreio. Interessante que ficou em aberto ao final, se o menino era realmente o Negrinho ou um escravo que fugiu.

    O conto pede uma leve revisão, feito o “que” faltante ainda no primeiro parágrafo. Algumas coisinhas também me incomodaram: “maçã” no Brasil, naquela época? Improvável! A mãe tratando a menina com o formal “vosmecê”, idem. O caçador de escravos violentando a filha do fazendeiro? De novo, achei pouco provável.

    Nota: 7.

  34. Anorkinda Neide
    12 de março de 2017

    Ai, que bom… eu m final feliz.. coisa boa!! Obrigada obrigada obrigada
    Texto muito bom. Parabens
    Não estou participando este mês, mas to deixando meus parabens qd o texto me pega. 🙂
    Abração

  35. angst447
    11 de março de 2017

    Um conto que prende a atenção do começo ao fim. O tema proposto pelo desafio foi abordado – figura do Negrinho do Pastoreio.
    O autor criou uma narrativa a partir da lenda conhecida e realizou isso com muita habilidade. Impossível não ficar curiosa quanto ao destino de Carolina e seu novo amigo. Funcionou muito bem comigo o clima de suspense.
    Ritmo muito bom, confortável, agilizado pelos diálogos.
    Só encontrei um lapso de revisão, mas bem sem importância:
    conversavam sobre a seca assolava > …sobre a seca QUE assolava
    Trabalho muito bom! Parabéns!

  36. Fernando Cyrino
    11 de março de 2017

    Essa questão da primeira impressão é fogo. Sentir a falta de um “que” no primeiro parágrafo me fez imaginar que não seria um conto legal. Mas você faz uma criação bem interessante da continuidade da história do Neguinho. Talvez eu tenha sentido falta de um pouco mais de criatividade nesse recontar. Acho que você ficou bastante preso à segurança do que se deve esperar de uma lenda desse tipo. Mas de toda forma meus parabéns.

  37. Iolandinha Pinheiro
    11 de março de 2017

    Olá, João Neto, primeiro eu queria parabenizá-lo pela sua qualidade de escrita, e por dar uma nova versão ao muito conhecido conto do Negrinho do Pastoreio. A trama tem fluidez, os personagens são carismáticos, convincentes, mas encontrei alguns problemas que atrapalharam a minha imersão na história. Por exemplo, todos sabem que O Negrinho do Pastoreio é uma lenda gaúcha, então ficou estranho que houvesse seca e calor na fazenda, claro, isso depende da estação, mas, a mim pareceu estar lendo a descrição do clima de uma fazenda do Nordeste. Outra coisa, tem uma fala do Negrinho, onde ele afirma que não quer ser confundido com um escravo, mas o Negrinho é um escravo. O texto não deixa claro se o menino é um escravo da própria fazenda, ou se é um dos quinze que escaparam da fazenda vizinha. Outro problema foi a conversa entre a mãe e a filha sobre o paradeiro da Bíblia, se a menina tinha acesso livre à biblioteca da fazenda, por que a mãe ficaria tão cheia de suspeitas por causa de uma Bíblia? A menina não tinha Bíblia? Tinha que tirar, furtivamente, a Bíblia da mãe para ler? E não bastava apenas da menina responder que havia pegado a Bíblia e que iria devolver e pronto? A garota fala para o Negrinho que seus pais são bons, gentis e caridosos, no entanto eles se comportam de forma oposta ao que a menina pensa, mas isso pode ser apenas um recurso do autor para mostrar que a menina não é muito esperta, embora não haja muito sentido prático em inserir isso na narrativa. Na cena da tentativa de estupro, o homem está quase consumando quando a menina grita, então ele (?) dá uma pancada na cabeça dela, não a estupra, ela perde os sentidos e quando acorda o homem está acusando o Negrinho. Apesar da menina, categoricamente, afirmar que o agressor era o funcionário da outra fazenda, os pais preferem acreditar no cara, e achar que ela está confusa, chocada, traumatizada. Parece que os pais da menina também não são nada inteligentes. Aí amarram o Negrinho no tronco, coberto de melado e esperam ele ser devorado pelas formigas, mas a menina acorda, corta as cordas com a faca e foge com ele. A segurança da fazenda, pelo jeito, é precária. Então, seu texto é bem escrito mas ficou cheio de furos, e isso prejudicou o resultado, e fez seu conto não ser mais um dos meus preferidos. Nunca é demais dizer que existem trechos muito bonitos, felicitações por isso. Abraços e bom sábado.

  38. Evandro Furtado
    11 de março de 2017

    Resultado – Average

    A ideia é bastante interessante. Ao longo do texto passaram alguns problemas que poderiam ter sido evitados com uma revisão mais profunda. A trama é construída na cadência certa, apropriando-se muito bem dos personagens. Ela começa lenta, com o autor apresentando suas ideias. Quando finalmente sente que tem o material, joga o clímax para o leitor se deleitar. O problema é que, depois disso, em direção ao final, essa excitação cai. O texto termina de forma um pouco abrupta, não condizendo com a excelente história contada até então. O final, muitas vezes, é a coisa mais importante, principalmente com o tipo de texto escrito aqui, com uma ascêndencia constante.

  39. Marco Aurélio Saraiva
    10 de março de 2017

    A sua escrita transformaria qualquer história em um deleite. Somada a um enredo muito interessante e a um ritmo muito bem calculado, transformou-se em um conto delicioso de ler. Mantive os olhos na tela o tempo inteiro, e não notei o conto chegar ao fim.

    Agora vem o mais interessante: você também dominou muito bem o clímax e a conclusão. Geralmente, contos bons me deixam com um gostinho de “quero mais”. Mas aqui, não senti esse gosto: o conto me parece completo, e não pede uma continuação.

    Além disso tudo, a história tem camadas. Pode parecer uma mera versão da história do Negrinho do Pastoreiro mas, pensando bem, vai além. No conto, os pais da Carolina já conheciam o Negrinho como uma lenda. Então quem era ele, afinal, na vida de Carolina? Um enviado da própria Virgem Maria? Um teste para o pai de Carolina? Uma fuga oferecida para ela pela Virgem, para que encontrasse um lugar na sociedade que não apenas como filha do coronel? Tudo isso me parece válido, e dá o que pensar.

    Sua escrita é, novamente, muito bela e agrada muito aos olhos. O conto inteiro também. Estou me sentindo bobo em tecer tantos elogios, então vou parar por aqui. Mas digo uma última coisa: este foi o primeiro conto que li no certame. Que bela forma de começar!!

  40. Felipe Velista
    10 de março de 2017

    Não entendi o pq da divisão na narrativa. Do primeiro para o segundo ‘capitulo’ não existe nenhuma quebra. A ação é seguida (me pareceu). O primeiro termina com o fim da conversa da Carolina com o ‘Negrinho’ no galpão. O segundo começa imediatamente após: “Voltou ao casarão e dirigiu-se à b…”
    Dito isso, achei o texto muito bem escrito. Embora a narrativa tenha me parecido meio “plana”. Mesmo quando as coisas acontecem, a sensação que se tem é de que nada está acontecendo.
    Em uma primeira leitura a trama me pareceu superficial. Inofensiva, na melhor das hipóteses. Na segunda, alguns detalhes me parecerem contar uma historia que estava camuflada. Achei inicialmente o ‘negrinho’ uma figura ofensivamente submissa à sinhazinha, só um cachorrinho machucado que ela bondosamente salvou. Depois me parece o oposto. O Negrinho (particularmente, acho que seria melhor ter dado um nome à ele), me pareceu estar manipulando Carolina durante todo o conto. Ele, tendo fugido da fazenda vizinha e se escondendo ali, tira proveito do romantismo da garota (leitora de Alvares de Azevedo – “Embora a poesia normalmente lhe tocasse a alma” – “Mas por outro lado, gostava da ideia de tê-lo como segredo, como um tesouro escondido”) e também de sua fé (“Foi a Virgem Maria que ensinou” que, como hipnotizada, ela repete – “Eu queria muito ir, sinhá. Mas a Virgem soprou no meu ouvido que devo ficar aqui até me recuperar.”). As respostas que ele dá no terceiro ‘capitulo’ são particularmente claras sobre isso. “Soube que alguns escravos fugiram da fazenda vizinha”, ele responde “É uma pena.”, “…Se eu vir alguém suspeito, aviso.”, “Seu pai parece ser um homem muito bom.”, “Devo ficar por aqui. É um tipo de provação.”. Frases que na boca de um escravo em fuga só fazem sentido se ditas com ironia. Creio que a descrição do Negrinho, logo no inicio do texto, como “pouco mais que um garoto, na verdade” enfraquece essa interpretação, é difícil de imaginar que alguém tão jovem tenha tanta malicia. É quase uma falha de verossimilhança. Mas não apaga as virtudes do conto.

  41. Bruno Garcia
    10 de março de 2017

    Interessante pelo retrato de época, mas senti alguns problemas na narrativa.

    A protagonista parece se afeiçoar extremamente ao menino a ponto de salvá-lo e fugir com ele, mas não o suficiente para se referir a ele por seu nome. Ele é apenas “Negrinho” ou “Negrinho do Pastoreio”.

    Entendo que dentro da narrativa a lenda fosse conhecida e as duas histórias sejam parecidas o suficiente, como o segundo capítulo da parte final dá a entender, para que ela fizesse a conexão. Mas como alguém pode se tornar emocionalmente tão ligado a outra pessoa a ponto de abandonar tudo com ela sem nem ao menos aprender seu nome?

    Se ela se referisse a ele por um nome próprio seria muito mais fácil convencer os pais de que não, não foi ele que a estuprou. Por exemplo se trocarmos ““Não foi ele, papai. Não foi o Negrinho…” por “Não foi ele, papai. Não foi o Felipe…”” Temos uma outra relação entre os dois e fica fácil convencer de que não era o choque que a fazia confundir um homem branco adulto com um garoto negro.

    A redenção da narrativa é que eu entendi que ele, cujo nome não sabemos, está jogando um jogo com ela. Ele finge, mente e manipula para ser ajudado enquanto está ferido e não pode se juntar aos outros fugitivos. Isso, se é a intenção do autor, realmente subverte a narrativa e o autor está de parabéns pela sacada.

  42. Eduardo Selga
    10 de março de 2017

    A princípio, enxerguei uma incoerência na narrativa: o fato de, mesmo havendo entre ambos os protagonistas uma relação de simpatia e confiança, o personagem ser denominado por ela apenas de Negrinho. Essa denominação é eficiente para identificar o protagonista com o mito do Negrinho do Pastoreio, mas a princípio considerei estranho não haver nome, apenas alcunha.

    Contudo, na versão difundida do mito pelo escritor João Simões Lopes Neto, de fato o personagem é pagão, conhecido apenas pelo apelido. Assim, a opção autoral se alinha a essa versão. Logo, não se pode falar em incoerência.

    Um ponto forte do conto é conseguir mostrar, proximamente, a relação hipócrita que a sociedade do século XIX possuía com o Cristianismo, vertente religiosa que sempre pregou a caridade e respeito ao próximo. No conto, vemos uma família religiosa, mas que trata o escravo (um próximo) como um animal, inclusive prejulgando e condenando, tendo por base não fatos, e sim preconceitos. É a mesma situação que vemos hoje em relação às comunidades negras brasileiras.

    A narrativa traz um viés ideológico sutil e interessante: minimiza o racismo, explicando o tratamento selvagem dispensado ao menino pelo fato pueril de haver um “homem mau”. O leitor pode perguntar-se: que racismo, se a moça, certamente branca, trata o personagem humanamente? Decerto é uma questão de índole, de gente boa e gente má, independente de estrutura social…

    Acontece que o conto trabalha com uma visão estereotipada da mulher: caridosa, temente a Deus etc., como se essas características fossem exclusivamente femininas, e não fossem aplicáveis ao grupo social que diz tê-las. Nesse sentido, o homem “pode” ser violento e pouco caridoso com o escravo: não é anticristão, e sim “natural” de sua posição.

    No trecho “[…] enquanto as cozinheiras conversavam sobre a seca assolava a velha fazenda” falta a palavra QUE entre SECA e ASSOLAVA.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 8 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro e marcado .