EntreContos

Literatura que desafia.

Formigas (João Neto)

Ao entrar no galpão segurava uma trouxa com milho e batatas. Por sorte, conseguira surrupiar alguns pedaços de carne de porco também, enquanto as cozinheiras conversavam sobre a seca assolava a velha fazenda.

Encostou o portão lentamente, embora fosse difícil evitar os rangidos. Fechou a tramela atrás de si e deslizou os pés pelo chão batido, silenciosa como um gato, até chegar ao fundo, onde uma pilha de feno jazia desordenada. Assobiou uma nota qualquer, quase melodiosa. Um instante depois, um olhar furtivo e brilhante a atingiu demoradamente, desfazendo-se num sussurro.

“Sinhazinha…”, disse uma voz rouca, seguida de um aceno fugaz.

“Sim, Negrinho, sou eu. Trouxe seu almoço”, sussurrou de volta a menina, caminhando até ele.

“Deus a abençoe.”

Com o semblante refletindo o sol que se esgueirava pelas telhas, acentuando-lhe rugas de preocupação, o rapaz – pouco mais que um garoto, na verdade – se sentou, a perna esquerda esticada, exibindo um ferimento aberto. Ao receber a trouxa desfez o nó simples e mergulhou os dedos ávidos na comida.

“Muito obrigado, sinhá. Não fosse a senhora, acho que já teria morrido.”

A menina, ainda de pé, sorriu e disse:

“Vosmecê me protege. Eu o protejo. Não é assim que tudo funciona?”

“Foi a Virgem Maria que ensinou”, respondeu ele, limpando a boca com a manga da camisa rota e repleta de manchas escuras.

“Foi a Virgem Maria que ensinou”, repetiu a menina, fazendo o Sinal da Cruz, orgulhosa, mantendo o sorriso de fé.

***

Voltou ao casarão e dirigiu-se à biblioteca. Analisou a estante por um momento, qual observadora de pássaros, até encontrar o que desejava: “Lira dos Vinte Anos”, de Álvares de Azevedo. Puxou o livro pela lombada e examinou a capa. Pela fita que servia de marcação para leitura, abriu-o e, satisfeita, sentou-se, os olhos já deitados sobre as linhas.

Embora a poesia normalmente lhe tocasse a alma, tinha os pensamentos distantes. No Negrinho. De certa forma, não acreditava na boa sorte que tivera ao encontrá-lo. Imaginava a dor que ele deveria ter sentido por conta das formigas. Que suplício… E tudo porque perdera o pastoreio. Ninguém merecia um castigo como aquele só por ter caído no sono. Agora, ao menos, tudo estava bem. Cuidaria dele, com a graça de Deus e da Virgem Santíssima, pois era essa a sua tarefa.

Tentou retomar a leitura, mas a mente fugidia teimava em arrastá-la para o galpão. Estaria bem o Negrinho? Demoraria para se recuperar? Para onde iria depois de curado?

Mal percebeu quando ouviu seu pai cumprimentando alguém à porta da casa, alguém que rescendia a água-de-colônia barata. As palavras atingiram seus ouvidos como flechas. Mesmo sem querer, viu-se capturada pela conversa.

“Há um quilombo perdido depois da serra”, dizia seu pai.

“Isso é o que falam por aí, coronel”, respondeu a outra voz, com certo tom jocoso, típico de quem se considera imune a crendices. “Mas as suspeitas são de que eles estejam por esta região.”

“Meus negros jamais dariam abrigo a qualquer escravo em fuga.”

A menina reconheceu a entonação. A frase dita assim, de plano, firme, quase uma ordem, era reservada para os momentos em que o pai desejava recordar de quem era a autoridade.

“Os rastros apontam para cá, coronel, eu mesmo…”

“Vosmecê diga ao doutor Albuquerque que pode contar comigo. Já prendi negros fujões outras vezes. Não seria diferente agora.”

“Sei disso. O senhor tem o meu respeito.”

O som de botas martelando o piso de tábuas indicou que a conversa chegava ao fim.

“São quinze negros, todos de canela fina”, disse o homem que saía. “Têm tudo na fazenda, mas preferem viver na floresta, como bichos.”

“Nenhuma notícia dos capitães do mato?”

“Não confio em capitães do mato, coronel. São negros também.”

***

“Soube que alguns escravos fugiram da fazenda vizinha”, disse a menina, oferecendo uma maçã ao Negrinho.

“É uma pena.”

Conversavam ao final da tarde, quando o crepúsculo se derramava no céu com tonalidades amarelas.

“O homem que conversou com meu pai disse que eles talvez estejam por aqui.”

“A sinhá pode ficar tranquila. Se eu vir alguém suspeito, aviso.”

Mordeu o fruto e cerrou os olhos, como se o sumo o revigorasse. A perna continuava machucada, a ferida vermelha se prolongando do joelho ao tornozelo.

“Tive sorte em conhecê-la, sinhazinha”, disse o Negrinho, exibindo os dentes muito brancos.

“Eu é que tive sorte em encontrá-lo aqui.”

“Graças à senhora, estou me recuperando.”

“Às vezes me sinto culpada por não levá-lo para o casarão. Lá vosmecê poderia se curar mais rápido. Meu pai conhece um médico…”

“Seu pai parece ser um homem muito bom.”

“É, sim… Não nos falta nada. Tenho certeza de que ele entenderia a situação se fôssemos até lá. Vosmecê estaria novo em folha em poucos dias.”

“Acredite em mim, sinhá. Devo ficar por aqui. É um tipo de provação.”

“Mas minha mãe… Ela é tão devota quanto eu! É certo que cuidaria de vosmecê, Negrinho. Que bênção seria tê-lo entre nós.”

“Para mim seria uma bênção também. Mas posso ser confundido com um escravo.”

“Ora, que bobagem… Qualquer um pode ver que vosmecê não é um escravo.”

O Negrinho assentiu, mordendo novamente a maçã.

“Eu queria muito ir, sinhá. Mas a Virgem soprou no meu ouvido que devo ficar aqui até me recuperar.”

A menina assentiu. Por um lado, desejava levar o Negrinho para casa, onde poderia ajudá-lo de verdade, onde poderia tratar de seus ferimentos, alimentá-lo adequadamente. Mas por outro lado, gostava da ideia de tê-lo como segredo, como um tesouro escondido. Seu anjo da guarda pessoal.

***

“Carolina, onde está a minha Bíblia?”

Não houve resposta. A mulher repetiu a pergunta.

“Carolina?”

A menina veio apressada.

“Desculpe, mamãe. Eu não ouvi direito.”

“A Bíblia, Carolina. Onde está?”

Bateu o indicador no queixo, como se pensasse profundamente.

“Não sei… Achei que a senhora a tivesse levado para o quarto.”

A mulher a encarou longamente. Tinha olhos de ferro. O cabelo amarrado num coque sobre a cabeça deixando escapar fios rebeldes junto às orelhas. O vestido cinza com mangas compridas, elegante demais para o clima quente da fazenda, realçava a figura de quem estava acostumada a ser obedecida.

“Carolina, conheço vosmecê muito bem. O que está acontecendo?”

A menina mordeu o lábio inferior e ergueu as sobrancelhas.

“Minha filha, eu vi quando vosmecê pegou a Bíblia ontem à tarde. O que fez com ela? Pode me contar. Prometo não dizer nada a seu pai.”

A mãe tinha o olhar cândido agora, quase verdadeiro. Deveria contar-lhe sobre o Negrinho? Que leu para ele um trecho dos Salmos? Ela entenderia. Claro que entenderia. Era devota. Se havia alguém no mundo capaz de compreender a bênção que se espalhara sobre a fazenda com a chegada do Negrinho, esse alguém era ela. Sim, a mãe precisava saber. Deveria saber.

“E então, minha filha? Por que me olha assim?”

O Negrinho… Ele pediu segredo. A Virgem pediu, na verdade. Foi o que ele disse. Se alguém mais soubesse, ela ficaria triste. Talvez lhe virasse o rosto. Pior, talvez o Negrinho fosse embora. Não, não queria que isso acontecesse. O Negrinho era bom. Quase um santo.

“Mamãe, prometo que vou procurar. Prometo…”

***

Entrou no galpão logo cedo, ritualística. Trazia guisado de frango, sobras da noite anterior. Caminhou lentamente em direção ao fundo.

“Negrinho…”, sussurrou.

Não houve resposta.

“Negrinho…”, repetiu, examinando o monte de feno adiante.

Novamente, o silêncio.

Súbito, um odor enjoativo de água-de-colônia a envolveu. Alertada, olhou para trás, surpreendida por um homem grande, de aspecto sujo, atirando-se em sua direção. Seu grito foi sufocado por mãos ossudas, repletas de calos.

“Ajudando os negros, menina?”, indagou o homem, agora sobre ela, o odor de bebida se misturando ao perfume barato.

Seus olhos se abriram em desespero. Queria negar, dizer que não, que não sabia do que ele estava falando. Foi quando viu o Negrinho amarrado em um canto, sentado, as mãos entrelaçadas nas pernas. Imóvel e amordaçado, mas desperto, os olhos arregalados.

“Sabe o que eu penso sobre quem ajuda negros fujões?”, perguntou o sujeito, remexendo as anáguas do vestido que ela usava, camada a camada.

O horror aprofundou-se ainda mais. A mão tapando-lhe a boca, o fedor de bebida, os dedos imundos que abriam caminho por entre suas roupas e pernas. E o Negrinho… Pobre Negrinho… Queria gritar, pedir ajuda, mas o homem era tão pesado, tão asqueroso. Debateu-se, forçando braços, pernas, tentando desesperadamente escapar.

“Arre que esta égua é braba!”, disse o sujeito, rindo.

Mordeu-lhe a mão. Um segundo bastou. Gritou pedindo ajuda. Um baque seco na cabeça a fez desmaiar.

***

“O que esse negro fez com vosmecê, Carolina?”

A menina olhou ao redor, a visão ainda embaciada, a cabeça doída. Por fim, enxergou o Negrinho ainda amarrado, as costas no chão, a expressão assustada. Ao lado, o homem que a atacara, aprumado como um cavaleiro. Por fim, virou-se para o pai, que continuava:

“Diga, minha filha, o que ele fez, o que…”

“Não foi ele, papai. Não foi o Negrinho…”, respondeu ela, engasgando com o choro. Apontou para o homem em pé e disse: “Foi ele quem fez…”

O pai arqueou as sobrancelhas.

“Filha, este homem a salvou do negro… Graças a ele o pior não aconteceu. Devemos agradecer…”

“Não pai! Ele me atacou. O Negrinho estava preso!”

“O choque deve ter sido muito grande”, interveio a mãe, os braços cruzados sob o busto.

“Mamãe, não… A senhora não acredita? Esse homem pulou em cima de mim, ele…”

“Minha filha…”, disse a mulher, reservando à menina um olhar de condescendência. “Sei que deve ter sido difícil, mas este homem salvou a sua vida. É um herói!”

“Não, mamãe, veja, é o Negrinho, o Negrinho do Pastoreio…”

A mãe e o pai trocaram um olhar seguido de um sorriso discreto, rápido o suficiente para que se entendessem.

“Carolina, vamos para casa…”, ordenou a mãe.

“Não, eu não quero ir…” respondeu a menina, as lágrimas descendo pelo rosto. “Ninguém entende…”

“Deixe que os adultos cuidem disso”, arrematou o pai. No canto, o homem que rescendia a colônia barata tinha o rosto endurecido, a mão apoiada no punho da espada embainhada.

“O que vai acontecer com o Negrinho, papai? Por favor, não façam mal a ele…”

***

Quando Francisco Mendonça Sodré acordou na manhã seguinte tinha consigo a sensação de dever cumprido. A honra de sua filha fora salva, o castigo devidamente aplicado. Ainda precisava se desculpar com o doutor Albuquerque, mas ele haveria de compreender. Em breve, pediria à esposa que conversasse com Carolina. A menina precisaria de bons conselhos.

“Negrinho do Pastoreio”, dissera ela. Sim, por que não? Amarrá-lo a um poste, próximo a um formigueiro. Besuntá-lo com melado e esperar que as formigas fizessem sua parte durante a madrugada. Amordaçá-lo, naturalmente, para evitar os gritos. Sim, um fim adequado para um crime tão horrendo. Pobre Carolina.

Abriu a porta do quarto da menina, encontrando a cama vazia, à exceção da imagem da Virgem sobre o travesseiro. Provavelmente a filha não dormira direito devido ao trauma, refugiando-se na biblioteca. Desceu até lá, esperando encontrá-la sentada na poltrona com um livro entre as mãos. Queria confortá-la, dizer que o pior havia passado, que esquecesse o episódio. Tampouco estava lá, porém. Mesmo na cozinha não a encontrou. As cozinheiras não a viram. Talvez estivesse no balanço, então, sob a mangueira, nos fundos. Não…

Preocupado, percorreu o pátio, foi até mesmo à senzala, mas ninguém a vira. Onde está Carolina? Correu ao galpão, foi até o fundo, revirando o feno e outros víveres. Nenhum sinal. Voltou a casa. Chamou por ela. A esposa acordou, preocupada. Procuraram juntos, sem sucesso. A mulher segurava a imagem da Virgem, porque era nos momentos de maior angústia que se recorria à Santa.

Balançou a cabeça, a conclusão inevitável o atingindo. Caminhou até o poste onde deixara o negro. Também ele havia desaparecido. As cordas lambuzadas de melado jaziam no chão, as formigas ainda se refestelando. Ao lado havia uma faca. Rastros se desenhavam na poeira, desaparecendo à frente.

“Carolina!” gritou, mesmo sabendo que não seria ouvido.

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Informação

Publicado em 8 de março de 2017 por em Folclore Brasileiro.