EntreContos

Literatura que desafia.

Noite dos Afogados (Paula Giannini)

algas

Pegou a vara. E lambendo a ponta da linha, cacoete que aprendera com a irmã, enfiou a isca na extremidade pontiaguda. Agora era só esperar.

Ficar quietinha, meditativa. Deixar as correntes passarem por ela enquanto flutuava.

À espreita.

A respiração suspensa e o coração batendo devagarzinho para não assustar a presa.

Eles viriam.

Era noite de mar iluminado. Não tanto pela lua, mas pelo raro espetáculo das algas fluorescentes reluzindo na arrebentação.

Fenômeno assim, só em ocasiões especiais. Sinal de sorte. Era hoje. Ela capturaria seu homem, e provaria a todas que era sim, enfim, uma Sereia de verdade.

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169 comentários em “Noite dos Afogados (Paula Giannini)

  1. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Caraca gostei, nunca eu ia esperar que ela fosse uma sereia, gostei bastante do conto. Parabéns e boa sorte no desafio.

  2. Sra Datti
    27 de janeiro de 2017

    Outro conto, cujo título me levou a uma linha de pensamento e, de repente, pow!,
    Uma sereia diferente, que trocou o seu cantar por uma vara e uma linha… Muito criativo. Só uma ressalva: o brilho fosforescente* (azul) é sinal de poluição.
    Aconteceu aqui no litoral santista.
    Apreciado!

    *O plâncton e a Noctiluca se tornam mais abundantes quando o nitrogênio e o fósforo de escoamentos agrícolas aumentam. Créditos: G1 globo.

    • Paula Giannini - palcodapalavrablog
      1 de fevereiro de 2017

      Obrigada, Sra Datti, por sua leitura carinhosa.
      Me inspirei nesse fenômeno de Santos. Moro em Itanhaém. 😉
      Somos vizinhas.
      Beijos
      Paula Giannini

  3. Simoni Dário
    27 de janeiro de 2017

    Um bom conto. Uma leitura leve e prazerosa. Gostei da ambientação e da foto. Parabéns pelo texto.

    Bom desafio.

  4. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    27 de janeiro de 2017

    Outro conto que me surpreendeu, que me enganou direitinho, como tem acontecido com tantos outros textos aqui. Nada de peixe-peixe, hein? Uma sereia à procura do seu par. Muito bem desenvolvido e com um desfecho na média.Abraço e boa sorte comotraaho

  5. Pedro Luna
    27 de janeiro de 2017

    Putz, eu estava curtindo muito o conto. Gosto muito de pescar e o seu texto me lembrou de uma macabra noite quando estava pescando e vi uma luz verde acender no fundo do mar. Até hoje acho que era um submarino. Beleza, estava legal até surgir esse lance da sereia. Não gostei desse rumo. Queria que tivesse continuado com os pés no chão. Apenas minha opinião. Mas no geral, foi uma boa leitura.

  6. Victória
    27 de janeiro de 2017

    Gostei bastante do conto. Eu gosto bastante de sereias em geral e gostei bastante do conto, sobretudo da ideia de “pescar um homem”. Eu sei que, na maioria das lendas, sereias são criaturas cruéis que seduzem os homens através da sua voz, mas o fato do texto apresentar todo um contexto de pesca mesmo aproximou a criatura mística da nossa realidade. Muito bacana a inversão, parabéns.

  7. rsollberg
    26 de janeiro de 2017

    Existe uma releitura da lenda, onde a sereia pesca com vara.
    Essa é uma boa sacada pois subverte o que conhecemos.
    O impacto no final não foi tão grande, pois no inicio ela diz que aprendeu a técnica com a irmã, já dando fortes indícios do que estava por vir.
    De qualquer modo uma história criativa, bem escrita.
    Parabéns e boa sorte

  8. Lee Rodrigues
    26 de janeiro de 2017

    Gostei das imagens criadas, narrativa fluída, apenas, por questão de gosto, evitaria rimas, não tirou a beleza, mas infantilizou.
    Não é só peixe que morre pela boca. rs

    • Paula Giannini - palcodapalavrablog
      1 de fevereiro de 2017

      Querida Lee, não sei se você colou o comentário no local errado ou algo assim, pois o conto não tem rimas. Talvez uma cacofonia no final, mas rimas não.
      Obrigada por sua leitura carinhosa.
      Beijos
      Paula Giannini

  9. Gustavo Aquino Dos Reis
    26 de janeiro de 2017

    Náufrago,

    achei tua obra boa.

    Temos uma escrita leve, cadenciada e bonita.

    A reviravolta no final não foi arrebatadora, mas cumpriu o trabalho.

    Gostei.

    Parabéns.

  10. Felipe Teodoro
    25 de janeiro de 2017

    Conto bem feito, a reviravolta no fim apesar de ficar muito explicada, funciona bem. Eu gostaria de pelo menos alguma sinalização ou dica a mais no início do conto, para em uma segunda leitura pensar: Poxa, tá tudo aqui mesmo. Já que esse primeiro parágrafo com “Pegou a vara” acaba levando a gente pra um lado totalmente diferente. Ainda assim, um trabalho bom, com uma escrita segura e bem pensado. Parabéns!

  11. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    25 de janeiro de 2017

    Olá, Naufrago,

    Tudo bem?

    Certa vez assisti à uma matéria sobre afogamento e fiquei com essa mesma sensação de como seria o peixe pescando o homem. No caso aqui a mulher.

    A inaptidão da Sereia para cantar leva-a à usar isca e anzol. Mas afinal, quem de nós, de certa forma, não “pesca” na sedução?

    Outro ponto a ser considerado é a frase “eles viriam” ao invés de “ele viria”, isso significaria que para ela, Sereia, o importante era a captura em si e não o(um) homem especificamente.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  12. Andreza Araujo
    25 de janeiro de 2017

    O texto nos leva a crer que se trata de uma outra situação, completamente diferente da ideia inicial, e isto é excelente. Fiquei vidrada quando cheguei ao final do conto e fui surpreendida quase na última palavra, dando aquele baque agradável que só boas histórias trazem.

    Depois de muito pensar, acho que consegui visualizar como a sereia pescava os homens, e devo isso ao título do conto. Imagino que ela apenas conseguiria “pescar” os homens afogados, que flutuariam na superfície, enquanto a sereia ficaria imersa, meio que pescando ao contrário (pra cima, na direção da superfície).

    Se essa pescaria for algo mais metafórico, então imagino que a cena existe para traçar um paralelo com pescaria, e levar o leitor a pensar que se trata exatamente disto e apenas isto. Aí no caso seria apenas uma jogada do autor, mas sem muito sentido pra trama. Então fico com a minha primeira interpretação.

    Excelente conto!

  13. vitormcleite
    25 de janeiro de 2017

    surpreendente, não só o final mas também todo o conteúdo do texto, muitos parabéns

  14. Srgio Ferrari
    25 de janeiro de 2017

    A linha saía de ponta cabeça com que tipo de isca? ficava na superfície? Estranha colocação, mesmo que imaginativa, ficou confusa. Logo eu, o mestre da confusão? Pois é…. depois desse começo foi tudo bem conduzido. Uma pena.

    • Paula Giannini - palcodapalavrablog
      1 de fevereiro de 2017

      Olá, Mestre da Confusão,
      Tudo bem?
      A ideia de que a isca fica ao contrário surge apenas no final do conto, após a revelação de quem é a personagem ou de que se trata a narrativa. Me surpreendi por você ter “visualizado” já no início.
      Obrigada por ler e comentar com carinho.
      Beijão
      Paula Giannini

  15. Rubem Cabral
    25 de janeiro de 2017

    Olá, Náufrago.

    Bom conto! Bem interessante a reviravolta de expectativas ao final. Boa a escrita também: passou com correção o clima de pescaria e a beleza de uma maré de algas fluorescentes.

    Nota: 8.5

  16. Tiago Menezes
    25 de janeiro de 2017

    Ótima quebra de expectativa. No princípio acreditei ser alguém em meio a uma pescaria normal. O fato de ser uma sereia me surpreendeu. E a forma como escreveu, como descreveu o cenário tão lindo, foi perfeita. Texto muito bem construído, parabéns.

  17. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    Meu caro autor (e aqui, vou chutar, é uma autora – e bastante conhecida nossa): sua micro-história me encantou não só pela habilidade nas imagens do cenário e na preparação do desfecho, mas principalmente pelo contexto construído, tanto da história pregressa (aprenderia a ser uma Sereia) quanto à curiosidade quanto ao que aconteceria com ela. Acima de tudo, uma belíssima metáfora da construção da feminilidade. Parabéns, merece o pódio, na minha opinião!

  18. Tom Lima
    24 de janeiro de 2017

    Gostei muito da forma. A surpresa do final também funciona bem. O conto todo parece ir na direção de alguém esperando peixes. O “flutuava” da indícios, mas pensei primeiro em um barco.

    Muito bom!

    Parabéns.

  19. Leo Jardim
    24 de janeiro de 2017

    Minhas impressões de cada aspecto do microconto:

    📜 História (⭐⭐▫): existe um ponto de virada ao sabermos que é uma sereia em busca de um homem e não uma pescadora querendo um peixe. Não entendi, porém, a que alegoria se refere o anzol e isca.

    📝 Técnica (⭐⭐▫): boa, cria expectativa e deixa a história fluir.

    💡 Criatividade (⭐⭐): uma reviravolta criativa.

    ✂ Concisão (⭐▫): o texto se estende um pouco mais que o necessário. O clima de pescaria já tinha sido obtido e continuou um pouco além da conta.

    🎭 Impacto (⭐▫▫): Uma boa reviravolta, mas que depois gerou mais confusão que surpresa.

  20. Lohan Lage
    24 de janeiro de 2017

    Gostei do conto, o título casa bem, há um jogo de ideias interessantes aí… o lance do “capturar o homem”, trazendo um bocado de realismo a um universo mais fantástico. Valeu!

  21. Renato Silva
    24 de janeiro de 2017

    Hahaha, muito bom. Quando falou em “capturar seu homem”, me veio a ideia de que essa serei estava buscando um marido ou, no mínimo um parceiro sexual (será que elas precisam de homens para se reproduzir?)

    O início fez parecer que era uma simples pescaria e somente no último parágrafo tudo fica claro, esse elemento surpresa rende uns pontos ao seu conto. O modo como as sereis veem os humanos. Parece que houve uma certa inversão de papéis, senti que nós, homens, estamos em situação de vulnerabilidade perante o poder das sereias. Que seres perigosos!

    Boa sorte.

  22. Laís Helena Serra Ramalho
    24 de janeiro de 2017

    O conto me agradou bastante, tanto pelo enredo quanto pela forma como você construiu o cenário, ambientando o leitor aos poucos, mostrando todo um processo cuidadoso. Só fiquei curiosa quanto à isca. O que as sereias colocam na vara para atrair homens?

    A escrita está muito boa. Só houve uma leve cacofonia nesse trecho, no final: “…era sim, enfim…”.

  23. Vitor De Lerbo
    23 de janeiro de 2017

    Em poucas palavras, conseguimos perceber a importância desse momento pra protagonista. As partes descritivas estão ótimas e o final é surpreendente.
    Parabéns e boa sorte!

  24. Leandro B.
    23 de janeiro de 2017

    Oi, Náufrago.

    Achei o conto bem bacana. Interpretei todo o texto de forma bem literal, o que dá a entender que o autor não apenas utiliza o mito da sereia, mas o reconstroi.

    Aqui, capturar um homem parece um ritual de passagem e as sereias, de alguma forma, não me parecem as belas figuras mitológicas. Acabei pensando em um ser bizarro, utilizando bonecas para atrair homens. Enfim, um bom mini.

  25. Mariana
    23 de janeiro de 2017

    Admito que tomei um susto com o final, não o esperava mesmo. No quesito surpresa, o melhor dos contos… Parabéns pela condução da narrativa

  26. catarinacunha2015
    23 de janeiro de 2017

    MERGULHO leve e flutuante. Eu estava tão encantada com a construção das palavras que o maior IMPACTO foi descobrir o tipo de pesca que ela praticava. Achei uma finalização tão decepcionante e machista que, por ter me causado asco, valorizei mais ainda o afogamento. A gente vai envelhecendo e perdendo a capacidade de se surpreender então, mesmo que negativamente, quando acontece é inquestionável valorizar o momento.

    • Paula Giannini - palcodapalavrablog
      1 de fevereiro de 2017

      Olá, Catarina,

      Tudo bem?

      Confesso que quando li seu comentário quase abandonei o desafio. Fiquei bastante impactada por seu comentário negativo. Não por você não ter gostado. Ao contrário, isso é algo que não me perturba, afinal estamos no jogo para isso, para receber críticas de quem mais entende do assunto. Mas veja, ao comentar SABEMOS que por trás de cada conto há um amigo escritor, então a palavra ASCO soa forte e acaba balançando o autor, que no final das contas é o verdadeiro alvo de nossas críticas.

      Sobre o conteúdo que você julgou machista, discordo. A Sereia faz suas escolhas, ainda que possam ser equivocadas, pois só quer se enquadrar em sua “sociedade”. Mas é ela quem “caça”. É ela quem mata (e assim que o mito reza), ainda que usando a sedução para tanto. Porém, ainda que o conto fosse de fato machista, me responda: Qual o problema? Literatura deve ser politicamente correta? Panfletária? Creio que não. E essa é a minha escolha.

      Bom, é isso. Resolvi responder por aqui para não “causar” no grupo. Continuo admirando seu trabalho. A Rosa foi o meu segundo lugar. Por isso usamos pseudônimos. Estar incógnita causa boas e más surpresas. No caso foi boa. Aprendemos com todas as lições, não é?

      Beijos e até o próximo desafio.

      Paula Giannini

  27. Wender Lemes
    23 de janeiro de 2017

    Olá! Bem legal essa inversão de perspectivas. Quando li, senti o começo como uma calmaria, indicando que aconteceria alguma reviravolta – revelada na parte em que cita a captura do primeiro homem. Particularmente, o conto poderia acabar ali e eu ficaria com a imagem da sereia da mesma forma, mas compreendo a opção por tornar isto uma certeza – mesmo sacrificando um pouco da mágica da insinuação.
    Parabéns e boa sorte.

  28. Jowilton Amaral da Costa
    23 de janeiro de 2017

    Bom conto. Bem conduzido e nos surpreende no final mostrando que a narradora é uma sereia. Bacana. Boa sorte.

  29. Cilas Medi
    23 de janeiro de 2017

    A fantasia e o encanto da lua em um micro conto de ilusão e paixão. Gostei bastante da forma e da orquestração dessa fantasia. O final romântico. Dessa vez o título me enganou totalmente. Parabéns!

  30. Estela Menezes
    22 de janeiro de 2017

    Que coisinha mais fofa e gostosa a sua história! Quase uma animação muito delicada. Redondinho, arrumadinho, o final, embora previsível lá pelas tantas, foi contado com muita graça. O parágrafo “Era noite de mar iluminado.. na arrebentação.” é muito lindo. Só achei um pouquinho menos onírico todo o trecho “E lambendo a ponta da linha …extremidade pontiaguda”, sendo que “cacoete que aprendera com a irmã” me pareceu um detalhe desnecessário…

  31. Lídia
    22 de janeiro de 2017

    Ela era a isca? Pelo o que entendi, sim…
    Gostei da forma em que você representou a sereias sem aquela hiperssensualização que aparece com frequência…
    Conto bem escrito, aberto, objetivo… Gostei bastante.
    Boa sorte!

  32. Fil Felix
    22 de janeiro de 2017

    De início me lembrou outro conto do desafio, relacionado a peixes. Mas ele se revela uma outra coisa, o que é muito bom e se torna uma leitura surpresa! Gostei da sereia, mas o início meio que confunde o fim, pela história de pescar (e não cantar) o homem. Acho que não consegui encaixar bem um ao outro. Mas a cena criada é ótima!

  33. Thayná Afonso
    21 de janeiro de 2017

    Fiquei muito tentada a interpretar que se trata de uma mulher querendo demonstrar que é capaz, talvez usando a pescaria como meio de conexão com o homem que deseja. Mas as analogias foram boas demais e o final surpreendente demais para eu me limitasse a enxergar dessa maneira tão crua. A descrição do ambiente também foi bastante prazerosa. Ótimo conto, parabéns!

  34. Bia Machado
    21 de janeiro de 2017

    Meu questionamento com o conto é: por que ela pesca os homens, em vez de cantar para atraí-los? Dá para pensar em muitos motivos, e isso é muito bom! Sua ideia chegou a ser divertida, eu imaginei bem a sereia na segunda leitura. Desculpa, mas foi bem ao estilo de Ariel, rs. 😉

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Publicado às 13 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .