EntreContos

Literatura que desafia.

Marcela (Felipe Teodoro)

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— Qual teu preço? — Ele pergunta depois de encostar o carro.

Ela encara o homem. Acha que conhece o tipo. Tem grana, um casamento fodido e só quer um pouco de diversão.

— Duzentos reais.

— E eu posso fazer o que quiser?

— Quem sabe até mais.

— Entra aqui. — Ele diz sorrindo.

Dez minutos mais tarde, em uma rua deserta, ele atira ela no chão e inicia uma sequência de golpes. Chuta o estômago, a cabeça. Bate até ela perder a consciência. E pouco antes de retornar para a Hilux, cospe na cara deformada de Marcela e resmunga:

— Gostou? Viadinho de merda!

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92 comentários em “Marcela (Felipe Teodoro)

  1. Lohan Lage
    27 de janeiro de 2017

    Realidade nua e crua, bem descrita, com surpresa no fim. Muito bom!

  2. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Isso foi uma critica não? Quando comecei a ler pensei em mais um conto padrão e então o final surpresa mudou tudo, ficou bom, não é bem o meu gosto mas parabéns pelo conto. Boa sorte no desafio!

  3. Pedro Luna
    27 de janeiro de 2017

    Sem por um lado a desconstrução no final do conto soa um pouco forçada, para chocar, por outro é para chocar mesmo. Conto real e que bebe de inúmeros casos vistos por aí de violência contra travestis. É bem escrito também. Bom conto.

  4. Sra Datti
    27 de janeiro de 2017

    Não faz meu tipo de texto: desperta-me os piores sentimentos e sensações. Eis o mérito da narrativa. Facilmente se entranha, revolve, nos rouba a paz e devolve a raiva, o ódio. Se teve alguma faísca de crítica social, ele a embrulha novamente em pacote de impunidade. O bonzão se dá bem, Marcela exibe novas cicatrizes e a vida continua sem uma luz ao final. Quisera que esse vândalo da elite entrasse em nova vida numa situação parelha a da pobre “Marcela”. Maldito! Infelizmente, é o retrato de uma realidade não muito distante: está à porta todos os dias.
    Texto excelente, bem escrito, de tema horroroso.
    Des(gostado). Que paradoxo!

  5. Simoni Dário
    27 de janeiro de 2017

    Desculpa mas não gostei de ler o seu conto, pesado e triste. Não me agradou.

    Bom desafio.

  6. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    27 de janeiro de 2017

    Bom porque conseguiu me enganar até o finalzinho: pensei tratar-se de uma mulher. EScrito com desenvoltura, apesar de focalizar um tema usadíssimo. Mas a maioria do que se escreve hoje parte de temas banais mesmo e o que diferencia médios, bons e ótmos é a sutileza com que os autores abordam os assuntos. E neste há sutileza e bom gosto.

  7. Leandro B.
    27 de janeiro de 2017

    Oi, Misto.

    Bem, a realidade é uma foda. Mas verdade seja dita, existe uma penca de realidade. Antes de mais nada, uma coisa tem que ficar clara: não censuro sua escolha ao representar esta realidade (homem rico, faz o que quer, espanca uma minoria, injustificável, a minoria fodida, o homem poderoso). Sabemos que coisas assim acontecem. E, ora, tudo bem falar sobre isso.

    Entendo seu texto como um “texto-denúncia” dentro da questão do preconceito sexual. Funciona, na medida em que busca estabelecer empatia com Marcela, e mostrar que o cara é um cuzão. Ao mesmo tempo, da margem a interpretação de que Marcela é culpada pelo destino ao permitir que ele fizesse o que quisesse e talvez mais. E isso é uma merda.

    Mas existem outras abordagens sobre esse universo que eu gostaria que fossem mais exploradas por aí.

    Veja, o texto serve como denúncia, mas reforça essa realidade. Ela disse que ele poderia fazer o que quiser. Ele bateu, ela apanhou. Ele se deu bem, ela se deu mal. Sinto falta de textos com inversões, onde os oprimidos superam os opressores. Enfim, uma pena que Marcela não carregasse um canivete.

    Sobre a estética, achei bastante crua. Acho que caberia no desafio x-punk que tivemos um tempo atrás.

  8. Victória
    27 de janeiro de 2017

    Poxa, é um conto bem pesado retratando uma cena bastante realista. Infelizmente, apesar de eu achar que o tema precisa ser mais debatido, achei que o conto retratou apenas “violência gratuita”. Isso, no entanto, é uma opinião pessoal: No mais, só posso admitir que foi bem escrito e parabenizar o autor pela crítica social.

  9. Fil Felix
    26 de janeiro de 2017

    Primeiro, adorei o título e pseudônimo. Fantásticos. Escrita muito boa, consegue condensar um monte de sensação. A história é uma porrada. Lida com temas atuais e importantes de se colocar sob o sol como a transfobia e homofobia. Ganha pontos por isso. Porém, foi uma porrada que doeu. A realidade é dura e bem isso mesmo. Mas ao contrário do conto do 1 real, que acabamos por acreditar nas pessoas, nesse aqui não há esperança alguma.

  10. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    25 de janeiro de 2017

    Oi, Misto Quente,

    Tudo bem?

    Sem dúvida o final me surpreendeu.

    O tema é duro. O conto igualmente. Um triste retrato daquilo de que o preconceito e a intolerância são capazes.

    O texto é bem conduzido, construído com a segurança de quem sabe o que está fazendo.

    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  11. Lídia
    25 de janeiro de 2017

    MEU DEUS, ME SEGURA SE NÃO FAÇO TEXTÃO!
    Seu micro me tirou o fôlego, parabéns.
    Os diálogos casaram direitinho com o texto, por mais que eu não goste muito de diálogos nesse gênero.
    Lembrou-me muito alguns contos do Rubem Fonseca, principalmente de Feliz Ano Novo.
    Teve duas quebras de expectativas, a primeira no início da agressão, a segunda, no momento da revelação do gênero da vítima.
    A transfobia é um tema que precisa entrar mais em pautas de discussões. Gostei muito da sua coragem de abordar esse assunto ❤
    Adorei o seu texto.
    Boa sorte!

  12. Andreza Araujo
    25 de janeiro de 2017

    O conto é bem real, infelizmente. Além da crítica ao preconceito, a narração está bem estruturada e leva o leitor a pensar que já entendeu a história, que a gente já sabe tudo o que pode acontecer, e quando percebemos não é nada daquilo. Excelente!

  13. vitormcleite
    25 de janeiro de 2017

    duro e violento, é um pouco o retrato de muitas das nossas cidades. Podias ter levado o retrato desta violência a um extremo ainda maior, mesmo no uso da linguagem, ser ainda mais rude. Parabéns e só lamento estar limitado à escolha de vinte textos

  14. Gustavo Aquino Dos Reis
    25 de janeiro de 2017

    Só tenho aplausos.

    A literatura é isso! Ela veio para chocar, incomodar. Homofobia e transfobia são temas que precisam aparecer mais na literatura. Obrigado por ter feito isso.

    Parabéns, de verdade.

  15. Srgio Ferrari
    25 de janeiro de 2017

    FODA, FODA. Parabéns. Lacrou 😉 Conduziu à perfeição

  16. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    Hiperviolência. A realidade às vezes transborda para a ficção e deixa a gente fica pensando qual a motivação do agressor, o que ele quer provar com isso. Acho que o autor soube conduzir isso com muita técnica – lembrou o Rubem Fonseca. Um bom conto, parabéns.

  17. Tom Lima
    24 de janeiro de 2017

    Tem muita força. A revelação de ser uma mulher trans só vem no final, com o assassino chamando ela de “viadinho”. Infelizmente, é um conto muito realista, é uma cena que já aconteceu dezenas de vezes só esse ano…

    É um tema que me toca muito, então as emoções foram fortes durante a leitura. O conto já teria força se tratasse de uma mulher cis, ficou mais intenso por se tratar de uma trans.

    Sinto falta de histórias com pessoas trans e finais felizes, onde o fato de serem trans não fosse o centro da história… enfim.

    Gostei do conto, do tema, da forma…

    Parabéns.

    Abraços.

  18. Renato Silva
    24 de janeiro de 2017

    Será que ele ficou bravo por ter descoberto que marcela era um travesti? Hum, acho que não. Penso que foi mais um daqueles casos de violência contra prostitutas ou homossexuais que viram manchetes de vez em quando. Situação triste. Externalizar seu ódio de maneira tão covarde e violenta, isso é típico de pessoas com sérios problemas de auto estima.

    Gostei da narrativa. Deixou o elemento surpresa para o final e me surpreendeu. Eu achava mesmo que Marcela fosse uma mulher. Parabéns pelo conto e boa sorte.

  19. Laís Helena Serra Ramalho
    24 de janeiro de 2017

    O conto enveredou por um caminho que eu não esperava, o que certamente contou pontos comigo (embora seja um conto bem pesado).

    Quanto à escrita, o que me incomodou foi que o primeiro parágrafo não é tão impactante. Especialmente esse trecho: “Ele pergunta depois de encostar o carro”. Talvez você não tenha feito isso pois não era exatamente o foco, mas seria interessante conseguir visualizar o homem encostando o carro, já causando certa tensão, para depois dar início ao diálogo.

    O “Acha que conhece o tipo” foi outra coisa que me incomodou um pouquinho: esse “acha” já entrega que alguma coisa não vai sair de acordo com os planos. É só um detalhe, e o conto surpreende mesmo assim, mas talvez tirar esse “acha” deixe ainda mais impactante.

  20. Miquéias Dell'Orti
    23 de janeiro de 2017

    Ô loko, que pesado!

    Importante frisar que esse tipo de situação (infelizmente) é super comum. É foda, né. Não consigo deixar de fazer um paralelo disso com qualquer tipo de violência. Como uma situação de agressão tão ridiculamente sem sentido e que nos deixa tão incomodados, tão perplexos, pode ser tão comum?

    O conto tem um tema impactante. É forte e cria uma expectativa inversa à tensão e incômodo final, o que o torna muito bom.

    Parabéns.

  21. Vitor De Lerbo
    23 de janeiro de 2017

    Pesado e realista. Parece até a simulação de um entre tantos fatos que vemos nos noticiários.
    Boa sorte!

  22. catarinacunha2015
    23 de janeiro de 2017

    Gostei do MERGULHO no submundo. Tem cheiro de veia pulsando e revolta. Estou enjoada de ler história de princesas delicadas salvas por cavalheiros destemidos. Aqui os papéis se dissolvem em vergonha nos IMPACTANTO de forma inesperada.

  23. Wender Lemes
    23 de janeiro de 2017

    Olá! Um conto impactante, sem dúvida. As imagens são bem descritas e vão ganhando peso conforme a trama avança, conseguiu sintetizar muita força narrativa nesse curto espaço. Vemos a antecipação em julgamento por todas as partes (de Marcela, que pensa conhecer o tipo a quem se vende; do homem que a julga; de nós mesmos, que somos surpreendidos pelo final).
    Parabéns e boa sorte.

  24. Jowilton Amaral da Costa
    23 de janeiro de 2017

    Um bom conto. Forte e realista, que denuncia a homofobia. A condução sendo sempre no feminino, quando se referindo a Marcela, faz com que a o desfecho tenha um bom impacto. Boa sorte no desafio.

  25. Cilas Medi
    23 de janeiro de 2017

    Um violento retrato da realidade, feito com competência. Assim é a vida e a homofobia, dos que adoram participar e depois gritar que não são o que chutam para longe de si, da incapacidade de viver entre diferentes. O ódio estampado, bem escrito e estruturado. Parabéns!

  26. Thayná Afonso
    23 de janeiro de 2017

    Ai! Conto pesado, heim? Uma realidade bastante triste. Lembrei do livro “O lugar sem limites”, do José Donoso, onde conhecemos a travesti Manuela. Há ainda outra citação que combina muito com o seu conto: “o inferno não tem limites, não se localiza em um só lugar, porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre.”. Esse momento narrado no conto com certeza é um dos infernos de Marcela. Enfim, gostei bastante do conto. Parabéns pelo trabalho!

  27. Lee Rodrigues
    23 de janeiro de 2017

    Hi, Misto-Quente!

    Bom, dona moça, você nos trouxe uma temática inflamada, e isso gera opiniões diversas, naturalmente. Sem entrar no cerne da questão, indo ao enredo, seu conto nos traz uma trama simples, mas você soube construir em nossa mente (ao menos na minha) uma personagem para depois desconstruir o que havíamos moldado junto com a aparência. E foi essa quebra de expectativa que deu movimento ao texto.

    E eu achei massa o pseudo!

  28. Tiago Menezes
    22 de janeiro de 2017

    Nossa, o conto foi bem pesado, mas eu gostei bastante. Um começo onde não sabemos o que vai acontecer. Achei que talvez ela fosse fazer alguma coisa, mas parece que o cara descobriu que ela era um travesti e decidiu meter a porrada nele, ou já sabia antes e pagou os R$ 200 só pra fazer isso mesmo. Curti. Parabéns!

  29. Rsollberg
    22 de janeiro de 2017

    Conto porrada. Real, pesado e abrupto.
    Texto bastante visual, mas com bastante espaço para refletir e que provoca o leitor.

    A linguagem tem algo dos poetas sujos, creio que Misto-quente tenha sido uma referencia ao fodástico Henry Chinaski!!!!

    No meu entendimento, a repetição do “ela” é absolutamente proposital e, até mesmo, necessária para reforçar a ideia do texto. Sem contar que aparentemente brinca com o próprio nome do conto “Marcela”.

    Um bom candidato nesse certame.
    Parabéns e boa sorte!

  30. Estela Menezes
    22 de janeiro de 2017

    Apesar dos muitos pronomes ou adendos desnecessários (ele, ela, eu, ele diz) e também das “frases feitas” um tanto duras (“inicia uma sequência de golpes”), o conto vai fluindo, a cena inicial está bem construída, o diálogo da abertura é bastante natural, com poucas palavras o autor torna vivos os personagens. No entanto, fiquei imaginando que algum recurso, talvez até visual, poderia ajudar a dar uma ideia mais clara de tempo transcorrido ou de mudança de cena, o que tornaria menos brusca a transição para o último parágrafo, que acabou ficando meio forçado, por conta da tentativa de partir tão rapidamente para um fechamento surpreendente.

  31. Matheus Pacheco
    22 de janeiro de 2017

    Olha, eu não irei divagar sobre o conto, porque pelos comentários mais antigos já fizeram isso, mas essa foi uma abordagem totalmente diferente das que eu já sobre o assunto, que é algo sério mas foi banalizado por nossa mídia.
    Ótimo conto e um abraço.

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Publicado às 13 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .