EntreContos

Literatura que desafia.

Veias Parnasianas (Sandra Datti)

veias

A vida de Theo, um soneto aparado em pedras marmóreas na incansável busca pela perfeição. Tudo em seu lugar, com seu ritmo próprio, alucinado por fecundas e ricas rimas. Seu transtorno rasga-se no culto à beleza, prima pelas formas simétricas, rabisca seu caminho com excesso de zelo e cuidado para não desmerecer o olhar atento de Apolo e suas musas. Em sonhos pálidos, leva seus lábios de carne a rastejar sobre os belos corpos de seda.  Suores e calafrios eriçam-lhe a pele quente e úmida.

Ao som de ABBA, percebe que a solidão arrebata o frescor de seus orgasmos.

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90 comentários em “Veias Parnasianas (Sandra Datti)

  1. Sra Datti
    28 de janeiro de 2017

    Bom, galera (suspiro)

    Foi o parnasianismo que me escolheu. E foi mais pelos defeitos do que por qualidades: tenho problemas com rebuscamento (coisa de poeta malsucedida) e sabia que poderia utilizá-lo a meu favor (embora o parnasianismo se afaste da subjetividade romântica); e pela falta de objetividade (sim, sim, concordo, já dizia a Lispector, que só se consegue a simplicidade depois de muito trabalho!), meus textos são enormes (!). Como condensar uma história inteira em tão poucas linhas? Então, as ideias entraram – isso não foi recente – e o cérebro vomitou essa tentativa de costurar uma colcha de retalhos com as características dessa escola literária e o conteúdo num mesmo tecido.

    Vicente Calib (homenagem)
    Vicente de Carvalho, poeta santista, meu conterrâneo
    Calib Ou Bilac, um dos nossos mais caros parnasianos.

    As Veias (antiga Ortodoxia) levam sangue sujo para o coração (com a exceção da pulmonar).

    O texto é uma cebola.
    Na primeira lâmina, segue o parnasianismo, em matéria e alma. Foi o que se leu. Theo (do grego, Deus), o homem mundano, manifestação de algo maior, que vai atrás daquilo que nunca alcançará. Aparecem lacunas na alma. A solidão o enterra, as rimas interpoladas ABBA de sua vida, o sufocam. Sim, ele curte o pop, curte a matéria e a musa que ainda o inspira.
    Não foi intenção enxertar malícia, mas um bocadinho de sensualidade (a imagem das musas, verbos como fecundar, inspirar, rasgar, os apelos aos sentidos) através desse vidro frio (mas cada um lê como quiser, fiquei feliz com a viagem de alguns (ri muuuuito, né Mariana?!): eu é quem agradeço, Lee, por tirar as teias diante de meus olhos (pera aê, mais adiante).

    Na segunda lâmina, vejo um homem que quer alcançar a utopia, mas há um abismo entre ele, o animal (o reprodutor, aquele que goza, o que está aterrado, que depende ainda de seus sentidos, dos seus desejos… Ele que saltar e alcançar o sagrado, mas não tem pernas compridas o bastante. Então a solidão o preenche por essa divisão interior: ele é a fera e o divino: mas e o humano? Essa ponte que precisa ser construída para que a humanidade realmente alcance seu Dharma (o sentido da vida).

    É o Eu Humano que lhe falta. Tem que ser construído. Mas para isso ele tem que escutar a Canção da Vida, a voz silenciosa da natureza, dos mitos das artes, das preces, a Canção do Pai (ABBA em hebraico), adentrar em seu próprio e labiríntico ser, ficar cara a cara com a besta fera, uma espécie de minotauro. E matá-lo. Ah, sem se esquecer do fio (de Ariadne), aquele que Teseu levou consigo para saber voltar. Então, Theo, o Filho manifestado, fara à Travessia em direção a sua libertação.

    (Amei sua leitura, Lee, muito obrigada pelo material inteligentemente costurado.)

    A terceira lâmina: já fritei-a com um bocadinho de carne seca. Acho eu até enjoei.

    Bom, mas não foi nada disso que pensei quando escrevi :0 kkkkkk. Desculpem. O conto me chegou num vômito e eu só fiz as costuras. A leitura foi me chegando, depois, através de outros olhos e do forninho ligado. Os loucos eus de mim agradecem a paciência.

    Paz e bem!
    Sandra Cristina Alonso Datti

    Peço permissão para dar a voz ao meu conterrâneo Parnasiano, Vicente de Carvalho, sobre a insatisfação da alma humana…

    VELHO TEMA I
    I
    Só a leve esperança em toda a vida
    Disfarça a pena de viver, mais nada;
    Nem é mais a existência, resumida,
    Que uma grande esperança malograda.

    O eterno sonho da alma desterrada,
    Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
    É uma hora feliz, sempre adiada
    E que não chega nunca em toda a vida.

    Essa felicidade que supomos,
    Árvore milagrosa que sonhamos
    Toda arreada de dourados pomos,

    Existe, sim: mas nós não a alcançamos
    Porque está sempre apenas onde a pomos
    E nunca a pomos onde nós estamos.
    ©VICENTE DE CARVALHO
    In Poemas e canções, 1928
    http://www.releituras.com/vcarvalho_velhotemaI.asp

  2. Gustavo Henrique
    27 de janeiro de 2017

    Esse texto tem uma escrita muito boa, gostei bastante. Parabéns e boa sorte!!

  3. Felipe Teodoro
    27 de janeiro de 2017

    Conto extremamente bem escrito. Você percebe o cuidado do autor, desde a escolha do nome dos personagens, até a forma como cada sentença é construída. Outro detalhe o conto e a imagem escolhida para ilustra-lo combinam demais. Gostei muito, principalmente as descrições e a sentença final, arrebatadora, mostrando que ninguém escapa da solidão, nem mesmo o criador. Parabéns!

  4. Victória
    27 de janeiro de 2017

    Texto muitíssimo bem escrito, com uma atmosfera poética e elegante, mas que não diz nada no final. Pelo título, acho que essa era a intenção. Parabéns!

  5. Remisson Aniceto (@RemissonA)
    27 de janeiro de 2017

    Pura poesia na roupagem do conto, com o autor remetendo o leitor à arte para prendê-lo na composição do texto. Gostei muito e parabenizo pelo cuidado com a clareza na linguagem.

  6. Thayná Afonso
    27 de janeiro de 2017

    É óbvio que você escreve muitíssimo bem, seu estilo é bastante bonito também, mas infelizmente o conto não me prendeu, achei um pouco entediante. É claro que eu não ter conseguido gostar não diminui a qualidade do conto, que é inegável. Parabéns!

  7. Estela Menezes
    27 de janeiro de 2017

    Será que posso dizer que, mais do que criar um conto, o autor se dedicou a fazer um exercício de estilo muito apurado, em que vai conduzindo o leitor pra onde quer, sem cerimônias e sem maiores satisfações, literalmente gozando com suas próprias referências? O orgasmo do personagem/autor pode até ter sido solitário, mas bem que o leitor/voyeur pode se excitar com o vocabulário sofisticado, com o humor fino, com a sutileza de certos detalhes … Enfim, texto instigante, inteligente, moderno, original e, sobretudo, raro… Fechou o desafio em alto nível!

  8. rsollberg
    27 de janeiro de 2017

    Neste curtíssimo espaço o autor prova que entende da coisa e esbanja habilidade nas construções e no uso correto do vernáculo. O ABBA, com dupla interpretação, o grupo e o esquema, fecharam o conto com maestria, ainda que o leve por um caminho anacrônico talvez. Ah, se eu tivesse lido esse conto em setembro…
    Parabéns e boa sorte!

  9. Gustavo Aquino Dos Reis
    27 de janeiro de 2017

    Anotei uma série de construções frasais.
    Achei de uma eloquência impar e esmeradamente bem escrito.
    Mas, mestre(a), ficou críptico demais para minha capacidade.

    Uma obra que tem valor pelo apuro, mas que é de difícil compreensão.

  10. Davenir Viganon
    26 de janeiro de 2017

    Não manjo de tudo que você usou no texto, fui pesquisar Parnasianismo. Acho que consegui aspirar alguma coisa mas nada que eu tenha segurança para dissertar. Theo, seira deus? Espero que sim pois minha viagem interpretativa começou ai…

  11. Vanessa Oliveira
    26 de janeiro de 2017

    Não sei se entendi ou não, na verdade, fiquei bem perdida. Mesmo com os comentários dos colegas, não consegui entender. Fico chateada quando leio e fico na ignorância. Mas tudo bem. Boa sorte!

  12. Cilas Medi
    26 de janeiro de 2017

    Um texto parnasiano? Todo rebuscado, sem levar a lugar nenhum. Infelizmente, palavra após palavra não consegui encontrar um elo entre elas, a não ser dizer sem esclarecer realmente. A última frase é que acrescentou algo, chegando ao ridículo, nesse comentário, que todo o resto poderia ser dispensado.

  13. Thata Pereira
    26 de janeiro de 2017

    Calma, estou zonza.

    Eu tive que ler com muita, muita calma para entender o conto. Acho que porque não estamos acostumados com uma escrita tão rebuscada (no bom sentido, porque é lindo de ler) assim. Ainda mais depois de 99 contos… rsrs’

    São as tais duas escolhas que fazemos, que já repeti em outros contos: escrevemos o que queremos, com receio das pessoas não entenderem o contexto ou escrevemos algo para ser aceito e dependemos exclusivamente do gosto pessoal de cada um.

    Gosto de quem escolhe escrever o que se deseja.

    Boa sorte!

  14. Glória W. de Oliveira Souza
    26 de janeiro de 2017

    Temática de cunho sensual e erótico. Toda a serenidade e absorção das premissas do contato corporal com as reações biológicas tem o ápice no gozo final. A princípio identifiquei o som do conjunto ABBA como anti-sensual, visto tratar-se de estilo musical dançante e agitado. Ao ler e reler, transformei o som musical como o gozo esplêndido do prazer. Interessante, principalmente porque permite – à nova leitura do final melódico e não melancólico – ingrediente dramático. Início da narrativa, bem como o desenvolvimento da história, permeia o romantismo descritivo. Legal!

  15. Srgio Ferrari
    26 de janeiro de 2017

    Neo paranaso em
    A
    B
    B
    A
    ?
    Ué, adorei. Só faltou não ser chato. Maldito parnasianismo, em 2017 consegue ainda ser chato. FUUUUuuuuu

    P.S.

    Adoro neoparnaso

  16. Rubem Cabral
    26 de janeiro de 2017

    Olá, Vicente.

    Muito bom o conto. Muito interessantes as impressões da vida de alguém tão parnasiano e perfeccionista. Divertida a revelação ao final! Muito boa a escrita também: com bom vocabulário, mas sem exageros que comprometam a compreensão de quem lê.

    Nota: 9

  17. Vitor De Lerbo
    26 de janeiro de 2017

    O trocadilho com o nome da banda ABBA e o estilo poético é muito bom. Não é uma piada gratuita, ela dialogo diretamente com o resto do texto.
    O conto levanta a questão da eterna busca pela beleza e perfeição e como isso nos afasta da realidade e de outras pessoas.
    Boa sorte!

  18. Anderson Henrique
    26 de janeiro de 2017

    Um texto difícil. Vi malícia na composição, a reflexão sobre uma canção, a menção de um grupo de musical, a composição de ABBA como se fosse a estrutura interpolada da rima. Tudo isso ligado ao parnasianismo. É um texto inteligente, mas a complexidade dele talvez tenha prejudicado o fato de que eu queria apenas curtir. Eu confesso: fiz força para entender.

  19. Lee Rodrigues
    26 de janeiro de 2017

    Caro Vicente, antes peço licença, pois falar da delicadeza do seu conto cora-me a face. Então, perdoe-me o abuso e leve em conta que realmente sou vesga.

    Seu conto fala da criação:

    A vida de Deus (Theo) é uma pequena composição poética que caiu na frieza da incansável busca da perfeição.
    Costela no seu lugar, no fluir da existência e ilusão da criação da mais bela obra, a sua semelhança.
    Traça seu caminho com forte disposição e cuidado para que o homem viril não perca o desejo pela mulher, fecunda, inspiradora.
    Ainda sonolento conhece o corpo de Eva e gosta, tornando-se ali pai (Abba), como o seu criador.

    E obrigada por ter tirado algumas teias da minha mente.

  20. Matheus Pacheco
    25 de janeiro de 2017

    Um conto sobe a solidão ou sobre uma relação sexual em particular?
    Eu não tenho muito o que elogiar, porque eu não compreendi muito bem o texto, mas o unico que posso opinar é sobre a escrita muito descritiva.
    Um abração e um ótimo conto.

  21. Leandro B.
    25 de janeiro de 2017

    Oi, Vicente.
    Talvez seja pela minha total ignorância no que diz respeito a obras parnasianas, no limite do que uma rápida pesquisa e o comentários dos colegas ajuda a esclarecer, mas achei o conto um pouco pálido.

    Talvez funcione enquanto crítica ou ode ao parnasianismo (e vi que tivemos leituras distintas), mas a história em si não prendeu minha atenção, tão pouco a linguagem.

  22. Simoni Dário
    25 de janeiro de 2017

    Boa tarde.
    Em minha opinião, este é um bom conto que fala de solidão de uma forma poética e bela. Gostei da escrita.
    Bom desafio!

  23. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    25 de janeiro de 2017

    Olá Vicent,

    Tudo bem?

    Seu conto já vale pelo esmero a que você se propôs. Brincar com a prosa poética é algo muito interessante. Eu gosto. O “clima” parnasiano está muito bem retratado. A atmosfera, os sentidos explorados.

    ABBA fala mais que da música, fala da rima, não é? Opostas, intercaladas ou interpoladas – (ABBA). Ótima sacada. Ótima analogia com a estrutura da poetisa.

    Gostei muito .

    Parabéns e boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  24. Miquéias Dell'Orti
    25 de janeiro de 2017

    Oi,

    A sacada entre a estrutura de um soneto e a banda pop já me ganharam sem nem precisar me aprofundar no seu texto.

    O poeta em seu devaneio mundano enquanto problema a perfeição de suas palavras aos deuses.

    A escrita não peca, é bem trabalhada e coloca referências no devido lugar.
    Parabéns.

    • Miquéias Dell'Orti
      26 de janeiro de 2017

      problema = proclama.

      Mals aê.

  25. Daniel Reis
    25 de janeiro de 2017

    Parnasiano da gema, no estilo e na escolha das palavras. Faltou só trabalhar em pentâmeros iâmbicos. Mas isso na forma. O conteúdo, evanescente, deixa em aberto qual fruição sensorial seria a ocupação de Theo. Um artista? Um prostituto? Ou ele só tinha uma banda cover do ABBA. E, a propósito, por que essa referência musical? Interrogações que, a meu ver, permanecerão interrogadas.

  26. Gustavo Castro Araujo
    25 de janeiro de 2017

    O conto parece de fato flertar com o Parnasianismo, pelo estilo de redação empregado no primeiro parágrafo – a prosa poética ricamente ilustrada demonstra isso muito bem. Essa introdução floreada propositadamente serve de escada para a menção ao grupo ABBA e, assim, para o arremate orgástico da solidão. Seriam os poetas onanistas parnasianos? Fica no ar a pergunta. No mais, um conto muito bem escrito, que demonstra o elevado grau de habilidade do(a) autor(a). Inteligente e com uma espécie de pegadinha no fim. Um bom trabalho.

  27. Laís Helena Serra Ramalho
    25 de janeiro de 2017

    Não sei se entendi o conto. De início, imaginei uma pessoa com mania de perfeição, mas esse último parágrafo me confundiu. Não ouço ABBA, então imagino que tenha perdido a referência.

  28. vitormcleite
    24 de janeiro de 2017

    gostei do teu texto, da linguagem a que recorres para montar aquele ambiente, mas o final desmoronou tudo!, “desunificando” o texto, se alterares esse final penso que atinges um nível excelente para o teu conto

  29. Sabrina Dalbelo
    24 de janeiro de 2017

    Não teve a minha simpatia, mas devo reconhecer a bela escrita, o domínio da língua culta e grande criatividade do autor.
    Creio que ficou um pouco vago… quase não saquei o enredo.

  30. Mariana
    24 de janeiro de 2017

    Desculpa a expressão, mas preciso dizer que é uma das “punhetas” mais bem escritas que já li… hahahahahaha Achei interessante trazer a expressão vulgar para comentar um conto que joga com isso, refinamentos e atividades tão primárias. Realmente, parabéns

  31. Luiz Eduardo
    24 de janeiro de 2017

    Infelizmente o conto me pareceu muito aberto, vago… Não ocnsegui captar a história apesar da escrita ser boa. Boa sorte

  32. Juliano Gadêlha
    24 de janeiro de 2017

    Sem dúvida, um texto muito bem escrito. Adorei a associação de ABBA e o esquema rímico do soneto, boa sacada. Só achei o conto um pouco vago. Talvez tenha coisas aí que eu não entendi realmente. Ainda assim, um bom texto. Parabéns!

  33. Andreza Araujo
    23 de janeiro de 2017

    A minha interpretação é que o autor transformou a vida do personagem num soneto, fazendo as analogias cabíveis, como em “rabisca seu caminho com excesso de zelo e cuidado”.O tom poético é elegante e muito bonito, o homem busca a perfeição e no final fica sozinho, percebendo que falta algo em sua vida para que seja plena. Ainda assim, o texto não me trouxe nenhum sentimento.

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Publicado às 12 de janeiro de 2017 por em Microcontos 2017 e marcado .