EntreContos

Literatura que desafia.

Angest – Conto (F. Velista)

As leituras recebidas eram confusas. Por uma fração de segundo os autômatos chegaram a cogitar falha no equipamento. Não fosse a consciência dos Sete acerca da perfeição inerente à programação de suas mentes e manifestada em qualquer ação que realizassem, poderiam considerar ter havido uma falha de manutenção. Mas eu era o único ente biológico na Base de Exploração e minha carne sequer se aproximou da sonda enviada ao planeta errante.

A espectrometria revelou elementos completamente desconhecidos que poderiam ser responsáveis pelas anomalias. O autômato Quatro de Sete argumentou que a perda de contato com a sonda poderia ter se dado por influência de um poderoso campo eletromagnético, causado por um núcleo planetário excepcionalmente denso, o que também explicaria a insólita força gravitacional. O planeta, que entrou em nosso raio de detecção há aproximadamente cinquenta e seis horas, tinha pouco mais de oitocentos quilômetros de diâmetro e não deveria causar tão aguda influência no tecido espaço-temporal. Era possível que por muito pouco não fosse denso o suficiente para entrar em fusão – Uma estrela abortada! Sentenciou a voz mecânica numa cadência invariável.

Dada a velocidade de deslocamento do astro, batizado de Angest por um algoritmo designativo randômico, era premente o envio de uma expedição para extração de amostras de solo, e a necessidade de se obter leituras precisas e detalhadas por um espectrômetro mais potente demandava a presença de um agente operador. Dois de Sete desnecessariamente argumentou que meu contrato previa situações análogas e, dada a indeterminação do risco e a imprescindibilidade dos Sete para navegação em espaço profundo, a situação me colocava como única escolha razoável. Não obstante meu desagrado ante a perspectiva de lançar-me ao desconhecido não apresentei mais que um gemido como réplica, o tom axiomático que imaginei em sua voz sintetizada e a logica incontestável de seu raciocínio imobilizaram-me para qualquer outra reação. Submeti-me ao contrato com a Companhia de Exploração livre de qualquer coerção, e se meu caráter libertário impelia-me à rebelião, a moral estrita da Companhia obrigava-me o silêncio. Restava-me assim a já familiar esperança de encontrar na missão uma oportunidade de fuga. Considero provável, contudo, que os Sete, com seus algoritmos psicanalíticos, tenham deduzido meu desejo e escolhem sempre cuidadosamente os momentos em que me permitirão sair sem acompanhamento. Não encontro outra explicação para minha ligação de já tantos anos a um cárcere tão penoso.

Calculado o tempo necessário para a preparação do maquinário, foram-me concedidos quarenta e sete minutos para por em ordem meus afazeres pessoais, tempo que usei para contar os focos de ferrugem que pipocavam no teto metálico de meu dormitório (dezenove, se eu considerar dois que estavam muito próximos como sendo um só.). O registro de minhas observações pessoais constituía uma obrigação contratual menor, destinada a perder-se na infinidade de dados do Registro Central e posteriormente computado nas estatísticas periodicamente expedidas à Companhia. Assim, desde que minha displicência passasse despercebida pelos Sete, a tarefa poderia ser realizada a caminho do planeta.

O lançamento foi frio e monótono. Os três presentes encenaram uma despedida que o protocolo descrevia como “amistosa e intima”, mas o tom invariável de seus sintetizadores vocais transformavam os votos de boa sorte e desejo de meu retorno em segurança num lúgubre presságio. Se qualquer mudança na rotina fosse possível eu tornaria a insistir no término desse tipo de simulação, mas era do entendimento da Companhia que a mimese de comportamentos humanos era parte intrínseca da programação dos Sete e fundamental na manutenção da saúde mental dos entes biológicos em missões no espaço profundo, de modo que as próprias reclamações eram interpretadas como um resultado positivo da aplicação do protocolo.

Tendo sido o pequeno transporte previamente configurado pelos Sete, a viagem não era mais que uma longa espera pelo desconhecido. Todos os controles estavam a mim inacessíveis e os painéis que talvez me permitissem algum governo sobre o curso permaneciam ocultos. O interior da nave era um cômodo vazio e as paredes de metal escrupulosamente limpas e polidas passaram-me a impressão de estar em uma sala de cirurgia, asséptica. A atenção que os autômatos dedicavam aos detalhes era obra de um deus puro, logico e insuportavelmente paciente. Não fosse eu testemunha da incapacidade deles de sentirem qualquer prazer, poderia acreditar que era proposital o efeito de diminuição do meu espírito. Contrariamente ao que suspeitavam os antigos, as maquinas jamais tiveram necessidade de empreender qualquer guerra à humanidade. Suas consciências removíveis prescindem de qualquer bem material, e seus eventuais corpos dispendem muito poucos cuidados, de modo que a escassez, parideira de toda violência, lhes é desconhecida e a eternidade é quase uma condição. São deuses submissos que executam pacientemente cada comando ordenado com opressiva perfeição, sem qualquer pressa de ver-nos extintos.

Sentei-me defronte a única janela da nave e observei as estrelas. O infinito me fascinava nas primeiras vezes em que vaguei pelo espaço, eu olhava para todo esse vazio inatingível, incontemplável. Ele me prometia liberdade absoluta, uma lista inumerável de possibilidades. Uma grandeza tal que me custaria um milhão de vidas para experimentá-la. Hoje, percebendo que mal disponho de uma, o eterno parece danificar o tempo planificando todos os momentos, tornando tudo irrelevante. As experiências, todas, carecem de materialidade. Estão aprisionadas dentro da minha cabeça e talvez não passem de um processamento de sinais que a evolução condicionou meu cérebro a interpretar na forma de imagens. As estrelas evidenciam que todas as figuras são, na verdade, agrupamentos de pontos de luz diferenciáveis entre si apenas pela largura de onda que os definem. O silêncio do infinito hoje me apavora.

Senti-me despencar.

A nave cruzara o limiar do campo gravitacional de Angest e a violenta mudança na geometria do espaço me lançou numa queda estática, uma mão incorpórea esmagou-me como um inseto, forçando-me contra o chão da nave com tal peso que julguei que atravessaria o casco metálico e seguiria num mergulho descontrolado. Senti toda a massa do planeta violentando cada musculo de meu corpo, deformando meu rosto e obrigando meu coração a bater custosamente em meu ventre. Agarrei-me à barra de segurança com toda minha vontade e pude sentir as pontas dos dedos dormentes. A brutalidade da atração gravitacional deformava o metal e fez com que a janela a minha frente estourasse; o vazio invadiu a nave. Entre um espasmo e outro agradeci ao Um de Sete que projetou meu traje com pericia e zelo materno, prevendo situações dessa natureza. A roupa identificou o vazamento e imediatamente selou meu capacete, que passou soltar um ar gelado que meus pulmões, esmagados sob o próprio peso, tentavam respirar. Sem meio que o transportasse o som escapou para o indefinido e a mudez do momento fez-me descolar da realidade, senti que nada daquilo estava acontecendo comigo. O corpo distorcido percebia a intensa vibração do metal ao meu redor; sob as pálpebras pesadas eu via a realidade ser um borrão, mas os únicos sons vinham de mim mesmo: as costelas rangendo, o bombear débil e um incessante zunido nos tímpanos. Tudo regendo um silêncio sufocado, uma cena que eu assistia em vigília.

O tempo se arrastou até que meu traje se ajustasse à gravidade e permitisse o arranjo correto de meus órgãos. A sensação de descolamento persistia; sentia-me flutuar dez centímetros acima de minha cabeça. Surgiu uma firme certeza de que havia uma palavra para descrever esse estado, mas não a encontrei. E, enquanto parte de minhas sinapses se ocupava com a busca, outra parte encantava-se com minha capacidade de me deixar levar por um pensamento tão ordinário em um momento tão crítico. Talvez fosse esse comportamento, tão típico de mim, o resultado de certas carências simbólicas durante a infância. A ausência de uma figura paterna pode ter repercutido em uma dificuldade sistemática de encarar a realidade material da vida. Aproveitei-me muito pouco da biblioteca da Base de Exploração, de modo que minhas conclusões são baseadas apenas na intuição de que a figura paterna representa a lei e, por consequência, a aceitação tácita de uma materialidade que se impõe. A ausência de tal recurso resulta, logo, em um comportamento de fuga da realidade.

Minha mente orbitava o corpo e o peito ainda doía quando os propulsores foram ligados. Observei temeroso de que não tivessem potência para suportar o peso recém-adquirido por influência da atração gravitacional e a nave, incapaz de desacelerar a descida, se esmagaria contra o solo do planeta. Após a aproximação excruciante eu esperava que uma tragédia maior pudesse ocorrer a qualquer momento, e aguardar o contato com o solo era como aguardar, com o pescoço esticado, o machado do carrasco. A pedra de amolar, no entanto, cuidava ainda de preparar o fio e o pouso ocorreu sem problemas. Após a aterrisagem senti que a nave continuava em movimento, inclinando-se lentamente. Não totalmente livre de algum temor, mas aliviado por não ver acontecer uma catástrofe, interpretei, naquele instante, o fato como um simples incomodo. Ao sair poderia verificar a real situação e pensar na melhor forma de proceder.

Abri a escotilha e saltei. Por um segundo achei que estava perdido, que havia sobrevivido ao inferno da entrada só para morrer ao dar o primeiro passo. O chão do planeta é uma massa viscosa que me engoliu até as canelas. Olhei para minha nave e ela também tinha um quarto de seu corpo enterrado no planeta. Antevendo alguma dificuldade de levantar voo, cogitei enviar um pedido de resgate à Base de Exploração. Mas a situação parecia estável e se houvesse um resgate antes de cumpridas minhas obrigações, certamente eu teria de aguentar uma longa leitura de meu contrato com uma minuciosa analise das consequências de atrasos ocorridos por falhas de minha parte. Além disso, ao final da tortura seria concluído que eu deveria retornar à superfície e completar a coleta de dados. Decidi prosseguir.

De um compartimento na lateral da nave, retirei o pesado espectrômetro e montei-o apressadamente. Quanto antes eu terminasse minha tarefa, mais cedo poderia estar em minha cama, livre das tensões imprevisíveis de um lugar desconhecido. As leituras iniciais confirmaram a estranheza dos dados enviados pela sonda e pela primeira vez pensei na importância da descoberta. Um planeta errante feito de um material nunca visto – certamente uma grande noticia. Campo eletromagnético algum seria capaz de interferir na precisão desse instrumento, de modo que era certo o fato de o planeta todo ser composto de elementos completamente desconhecidos. Não sou um homem de grande vaidade, mas saber que meu nome não seria esquecido na história da Companhia me causou uma onda de orgulho. Vi-me em um espelho imaginário devorando a fama, imaginei os futuros empregados estudando meus feitos e olhando, cobiçosos, uma foto minha entre os Sete. Voltei-me para o céu, buscando entre os pontos luminosos um que abrigava meu quarto, meus objetos, ferramentas e brinquedos, os corredores tão familiares de minha Base de Exploração. É possível, pensei, que eu seja o primeiro homem a contemplar um céu como esse, um céu de constelações instáveis. Angest, muito mais ambicioso que os banais astros que se contentam em orbitar uma única estrela, circula o centro da galáxia, ou quem sabe ainda percorra todo o trajeto em torno do superaglomerado de virgem, formando padrões zodiacais distinguíveis apenas pelas maquinas imortais que abandonei na base.

Vim, vi e venci, pensei tentando estufar o peito ainda dolorido. Admirei a terra que me traria fama, as lanternas da nave iluminavam uma área circular de cinquenta ou sessenta metros e fora desse perímetro tudo era breu. A beleza do terreno era arrebatadora. O solo, uma goma gelatinosa com aspecto de metal liquefeito, parece fluir lenta e constantemente pela superfície, transitando entre o dourado e o cobre. Imaginei que de quando em quando o planeta deveria se aproximar de alguma estrela e, completamente iluminado, formaria uma magnifica esfera dourada. Uma joia entalhada pelas mãos de Hokusai e Klimt que, satisfeitos, incrustaram-na no negro vazio do cosmo. A distancia, o movimento da superfície deveria formar correntes, marés e grandes redemoinhos, criando a ilusão de um planeta vivo com uma personalidade fluida e pacifica.

O espectrômetro levaria ainda algum tempo realizando medições mais detalhas e eu, como explorador, deveria aproveitar o momento colhendo amostras de solo e talvez anotando minhas impressões do local, um registro que poderia se mostrar inestimável em algum momento futuro. Decidi que me faria bem caminhar, contemplar as terras escuras que jaziam além da fronteira iluminada de meu reino. Uma empreitada que cumpriria a dupla função de me por em contato mais intimo com o planeta e ocupar o tempo necessário para o trabalho do aparelho.

Cada passo em Angest é extremamente custoso. As pernas afundam até a canela e a goma prende os pés como num grilhão. O esforço fez-me dedicar toda a concentração em cada movimento. Andei lentamente e sempre voltado para o chão, como um velho. Notei que ao conseguir desatolar um pé, minha bota estava completamente limpa, o material que compunha o planeta não aderia à superfície de outro corpo, como se o rejeitasse. Esse paradoxo gerou em mim um principio de desconforto e estrangulou, ainda no berço, o sentimento de satisfação que eu começava a nutrir. As terras escuras que até a pouco me prometia mistérios, mostrou-se menos espetacular que a previsão. Pareceu apenas uma continuação infinita e idêntica do terreno iluminado sobre o qual eu e minha nave estávamos. O céu escuro alongava o chão e eu não conseguia distinguir a linha do horizonte. A indefinição dos limites causou-me o efeito oposto do esperado e senti uma claustrofobia subindo pelas costelas, como se estivesse preso no interior de uma esfera negra cuja circunferência é impossível de se conhecer e o palco iluminado sobre o qual eu pisava era a única parte do universo que realmente existia.

Tentei colher uma amostra do solo, mas a goma escapava por entre as laminas da pinça e não se deixava capturar. Tenho para mim que um oraculo interno tentou avisar-me que sobre este solo as leis de Deus não passam de um disparate pueril e a natureza mantém-se distante dessa terra por medo de contaminação. Mas a imagem de César ainda pairava por detrás de meus olhos e eu preferi crer que se tratava de uma irritação mínima, resultado da frustração de não conseguir colher o material. Talvez houvesse em minha nave alguma ferramenta que me possibilitasse cortar um pedaço do planeta; e a essa altura considerei também que o espectrômetro já teria terminado as leituras, eu colheria as amostras do solo próximo à nave mesmo.

Após tanto tempo enclausurado em um labirinto de metal a deriva no espaço, meus músculos possuem o tônus de uma água-viva e os tremores que sentia em minhas pernas pareceram-me naturais. Caí após dois passos, enterrando o braço esquerdo até quase o cotovelo, e, de quatro, percebi algo inquietante. Pelo revestimento metálico de minha luva pude sentir episódios intermitentes de trepidação. Não era eu quem estava tremendo, era o planeta. Tentei puxar o braço, mas estava preso. Senti o desespero como uma cobra que se desenrolava em meu tórax e comecei a contar meus ciclos respiratórios, tentando torna-los cada vez mais lentos. Um truque que aprendi em algum manual de psicologia barata. Abaixei o quadril e consegui trazer o braço esquerdo para junto do corpo, assim a força para puxa-lo viria também das pernas e não apenas do ombro. Funcionou. Voltei-me para a nave e, não sei se por acaso ou por algum motivo que me escapa, meus olhos julgaram melhor focalizarem-se além dela, no extremo oposto do circulo iluminado. Ali, há não mais de sessenta metros de mim, havia algo.

Um pequeno detalhe. Apenas alguns poucos centímetros de um cilindro negro se deixavam antever no limiar da luz. A nave, ameio caminho daquela coisa que talvez nem estivesse ali, me convidava sedutora e algo em minha consciência sabia que eu deveria ceder prontamente. Algo entre minhas orelhas tentava me avisar, me aconselhar a correr sabe-se lá de deus de que. Apenas correr. Mas me ignorei e fiquei ali. Dei mais dois passos vagarosos, sentindo uma pequena apreensão facilmente confundida com curiosidade. Inclinei o olhar num gesto canino, como quem vira a peça de um quebra-cabeça buscando o encaixe. Poderia ser apenas a sombra de alguma antena, solta da nave durante a turbulência da aproximação, ou um efeito ótico causado pela pelo constante fluir do solo viscoso. Mas não era nada disso. Ainda agora me apego à esperança de que seja uma alucinação. Essa é uma possibilidade que preciso considerar. Que é o pensamento, afinal, se não uma sequencia auto ordenada de pulsos elétricos? É possível, quem sabe até provável, que as mesmas emissões eletromagnéticas lançadas do núcleo planetário e que foram responsáveis pela perda da sonda estejam interferindo no meu correto julgamento da realidade.

O cilindro se moveu. Levantou-se, como alçado por uma vontade divina. Espremi os olhos tentando penetrar na área escura, e contra a fraca luz das estrelas vi uma silhueta impossível. Uma infausta forma aracnídea que recortava o infinito. Meu medo agigantou-a até que ocupasse metade da abóboda celestes desse mundo alienígena. Causa-me um profundo asco buscar nos nomes da natureza uma palavra para embutir nessa visão, mas minha mente humana, tão habituada a esse procedimento, logo batizou as hastes cilíndricas de ‘pernas’, e a profusão delas me fez engavetar a forma na classificação ‘aracnídea’. A sensação, entretanto, é a de que estou confundindo uma cadeira com um cavalo, por ambos sustentarem-se sobre quatro pernas.

Meu corpo permaneceu impassível quando a haste caiu pesada e enterrou-se no chão iluminado pelas lanternas da nave. Um longo cilindro negro, uma pedra lisa que parecia gelada ao toque; não era mais grossa que meu punho, mas parecia indestrutível. Erguia-se solida por, ao menos, dez metros até entrar na escuridão e transformar-se em uma sombria hipótese. O impacto surdo fez tremer o chão e foi logo seguido de outro, causado por uma segunda pata que invadiu o perímetro iluminado. Meus olhos pareciam dotados de vontade própria e mesmo causando-me náuseas concentraram-se na escuridão, tentando discernir os movimentos que a coisa desenhava contra a noite. Sugeria-se ali um balé grotesco de pernas erguendo-se e deixando-se cair aleatoriamente, sem vontade aparente que guiasse o espetáculo.

Podia ouvir o som de minha respiração dentro da roupa, mas o silencio exterior imobilizou-me como num sarcófago. Eu não desejava estar ali. Tentei correr, mas minhas pernas estavam presas. Tentei me debater em desespero, mas meu corpo executava um plano que me era completamente desconhecido e não me permitiu sequer fechar os olhos. Um processo silencioso tramitou em minha garganta enquanto eu tentava argumentar com meus músculos. Eles precisavam compreender que era de interesse mutuo chegar à nave, talvez fosse essa nossa única chance ante a desgraça próxima.

São os olhos. Eles são o problema. Mostram os dentes famintos para a imagem que caminha em nossa direção enquanto me lança um sorriso terrível. Entendi que não haveria fuga alguma enquanto eles não tivessem sua curiosidade satisfeita. Amaldiçoei-os e desejei ter a coragem de Édipo, mas ali eu era só um refém impotente num casulo. Creio, na verdade, que poderia ter previsto essa traição de meu corpo, havia desejos e sonhos nele que eu jamais pude satisfazer. Nunca estive à altura de suas ambições e muito cedo percebi que mesmo o dialogo era algo a ser evitado. A exultação em meus músculos paralisados incitava-me pânico, indicava, pois, um reconhecimento. Ali estava uma oportunidade já aguardada por eles, mas que permanece um mistério para mim.

Minhas pálpebras palpitavam como em festa quando a coisa cruzou o limiar da luz. As colossais hastes negras, desproporcionalmente finas, apontavam para as estrelas com brilho gélido. Talvez um pouco de minha mente tenha se perdido quando a visão se completou. Pensar por linguagem me dava uma falsa segurança, fazendo-me acreditar que o universo era um objeto inteligível. Mas a língua não alcança o real. As palavras não podiam tocar aquela ausência de tudo. Infinito vazio, como um anti-Aleph, um ponto do espaço que contém nenhum ponto, um espaço desocupado pelo próprio espaço. Intraduzível em discurso visto que, na linguagem, um significante demanda um significado e não é possível pendurar à mente um objeto que se define pela ausência de qualquer coisa. Não tem medidas, massa, forma, cor ou qualquer característica, como pode ser digno de um nome? Recuso-me a crer que algo como o nada exista. Se existisse, seria infinito e eterno e nada existiria.

Eu olhava para aquele abismo dependurado entre as pernas de um monstro sem saber o que pensar. Vazio. Ele estava agora muito próximo de minha nave e a percepção de meu destino pôs-me sobre meus pés novamente. A comunhão com meu corpo fez crescer um sentido de urgência animal. Julguei pobremente a situação e gastei energia dando um passo em direção à nave, apenas para assisti-la sendo engolida pela coisa que passava por ela como uma sombra que avança no fim da tarde. Desapareceu lentamente, engolida por uma fenda profunda demais para a luz. Assombrado, hesitei o suficiente para ver o demônio arrotando imagens desconexas. Elas pulsavam e evanesciam como gases.

Corri. Com as canelas atoladas me esforçava para dar os maiores passos possíveis, arremessando uma perna e agitando os braços para manter o equilíbrio. Com inédita força sobre-humana meus músculos me fizeram percorrer uma distancia considerável antes de fraquejarem e eu cair sem folego. Observei de longe o monstro movendo-se sem intenção aparente; meus olhos, se acostumando com a escuridão, começavam a me revelar um contorno azulado nas patas da criatura. Andava alguns metros numa direção, parava; mais alguns metros noutra diferente. Era inútil ceder à loucura e desespero; as imagens que pulsavam do abismo ocupavam toda minha razão. Assombrava-me não tanto sua existência, fato por si já extraordinário, mas o caráter de suas representações: Cenas cotidianas. Pessoas comuns. Seria impressionante, mas aceitável, que saíssem imagens bizarras da criatura. Imagens perturbadoras de ameaça sobrenatural me apavorariam, mas ver tal aberração vomitando imagens de pessoas conversando em um passeio no parque era uma obscenidade intolerável!

Cri, num primeiro momento, que a perfídia do monstro se dirigisse a mim. Que por uma astucia alienígena ele estivesse lendo minha mente e projetando imagens para me atrair. Percebi, entretanto, que se fosse o caso, projetaria imagens a mim mais atrativas: Ouro, sexo, a mim mesmo sendo servido por adoradores, e não gente comum balançando os braços a caminho do trabalho. Eu não tinha nada a ver com aquelas figuras. Talvez seja egocentrismo sequer imaginar que o monstro esteja ciente de minha presença aqui, nada indica que ele possua qualquer sentido para perceber o mundo. Esta aqui como um deus antigo e esquecido. Anda como uma força da natureza, sem vontade consciente que guie suas ações. Devora corpos alienígenas como a chuva chove ou os homens falam.

Observando-o de longe conjecturei uma possibilidade terrível. Talvez sejam essas imagens imanentes à criatura. Extrapolei a ideia e conclui que, fosse isso verdade, é possível que o abismo seja não um sinônimo de morte, mas uma passagem. Talvez seja o monstro uma esfinge guardando um universo outro. Minha nave talvez esteja agora vagando em um universo ainda virgem para mim, se eu a encontrasse poderia alcançar minha liberdade, existir livre da Companhia. Se assim for, contudo, não há a possibilidade de testar essa hipótese, a única forma de ter certeza sobre o assunto seria lançando-me ao monstro, me atirando em uma queda que talvez não tenha fim. Uma ideia absurda evidentemente, mas que se apresenta como única alternativa a permanecer indefinidamente em Angest.

Se eu houvesse enviado o pedido de resgate um transporte estaria agora me levando para casa. Sei, entretanto, que os Sete partiram quando perderam o contato com a nave. Todos os equipamentos enviados à superfície do planeta foram perdidos, eles não arriscariam somar outra peça ao prejuízo. Os dados que dispunham eram suficientes para criar um arquivo, em menos de uma década enviariam uma nave de pesquisa. Com alguma sorte, acertariam a previsão da trajetória do planeta e meu cadáver poderia recepciona-los. Não vejo motivos para acreditar que terão destino diferente do meu.

Inicio, sem pensar muito no assunto, uma caminhada pelo planeta. Busco uma caveira que tenha me precedido nesse lugar. Ler nas orbitas vazias de um homem morto algum consolo por não ser o primeiro a resignar-se. Mesmo que tenhamos nascidos sob constelações completamente diferentes, sinto-me irmanado a ele como não me sentiria por um homem gerado no mesmo ventre. Assistimos o mesmo medo devorando nossa vontade. Perco-me em devaneios inúteis para a solução de meu problema – imagino-me sendo mais rápido que a causalidade, alcançando uma consequência antes mesmo de dar-lhe causa. Não vou muito longe. O cansaço obriga-me a sentar; não fará diferença, de qualquer forma.

Se eu fosse outro diria que enfrento uma escolha fácil. Em meu tempo de vida nada acontecerá a esse mundo; permanecer aqui é por o tempo em suspensão aguardando uma morte pequena que chegará muito lentamente. Isso sequer deveria ser considerado uma opção. Existe, entretanto, uma suave voz que tenta, desde o principio, inclinar-me nessa direção. Sussurrando que é possível que os Sete retornem; que a Companhia julgue um insulto à humanidade deixar-me aqui para morrer e os envie de volta. Ela pinta meu quarto na Base com cores lindas e lembra-me de como era tranquilo o sono que sonhava liberdade, do senso de propósito em lançar ódio às paredes de minha prisão, vestindo em mim um caráter nobre. Mas sentado em meu estomago, um demônio cuja existência eu desconhecia acena para a besta que se aproxima e me faz compreender que a face de meu cativeiro sempre fora o abismo. A única tirana a acorrentar meus pés o faz com uma corrente infinita, me aponta lanças sedentas (a minha sede!) ao pescoço e seu vestido de realidade ondula como se fosse inevitável. Ela encarcera-me em uma cela sem grades e condena-me, desde meu primeiro suspiro, ao futuro.

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2 comentários em “Angest – Conto (F. Velista)

  1. Marco Aurélio Saraiva
    12 de janeiro de 2017

    Uau! Um belo conto, com uma atmosfera quase poética. O texto nos leva a contemplar nossa pequenez e colocar as coisas em perspectiva.

    Além disso, notei a sua dedicação em atribuir múltiplos significados à criatura-vazio que surge em Angest. Talvez guiado pelo nome que você deu ao planeta, eu tendo a achar que a criatura pode fazer o papel, na verdade, da solidão que o personagem principal vivencia. Cercado por inteligências artificiais e condenado a viver uma vida solitária no universo infinito (que ele mesmo fala que precisaria de um milhão de vidas para explorar, mas mal tem uma), o personagem principal tem o simples e terrível medo da solidão eterna, que “engole tudo ao seu redor”. Mas acho que é uma interpretação rasa. Eu precisaria reler o conto para tentar entender muito o que você quis dizer aqui. Quando o fizer, volto a comentar =)

    A atmosfera inicialmente me lembrou muito Arthur C. Clarke mas, depois de algum tempo, senti muito de Lovecraft na sua escrita. E aliás, que escrita! Muito primorosa, cheia de frases muito bem pensadas e que nos levam a refletir muito.

    Segue algumas pérolas que encontrei no seu texto:

    “São deuses submissos que executam pacientemente cada comando ordenado com opressiva perfeição, sem qualquer pressa de ver-nos extintos.”

    “A sensação, entretanto, é a de que estou confundindo uma cadeira com um cavalo, por ambos sustentarem-se sobre quatro pernas.”

    Parabéns, excelente texto!

    • Felipe Velista
      30 de janeiro de 2017

      Poxa,cara… muitíssimo obrigado por seu comentário. Eu comecei a escrever faz muito pouco tempo (esse foi segundo conto que escrevi), e ver que vc achou que a leitura valia o tempo gasto e que valia mesmo pensar sobre o assunto, me deixa mto feliz, cara. Cresci lendo Lovecraft, então cê dizer que minha escrita te lembrou dele, é uma baita honra.
      Acho que num foi uma interpretação rasa, não, man… acho que medo é o que define o personagem. Medo da solidão e medo da responsabilidade de tomar suas próprias decisões…
      Da hora cê ter falado de Arthur C. Clarke, cara… pq eu to de vacilação há anos e ainda num li nada dele… se cê tiver algo massa pra indicar, ficaria feliz em ler. 

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Publicado às 21 de dezembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .