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Literatura que desafia.

Tatua, tatuagem – Conto (Rita Prates)

Lá vem ela faceira descendo a ladeira. Corpo escultural, pernas longas e bem delineadas, coxas grossas e firmes, vistas com prazer através de saias curtas, curtíssimas, que mostram todas as curvas e também a última tatuagem próxima ao bumbum.

Cintura fina, contornada por um cinto de tatuagens que parecem pequenos ramos de flores. Busto farto, firme, que provoca apetite, principalmente quando os olhos fixam o ponto onde estão algumas maçãs tatuadas próximas ao bico do desejo. Decotes ousados, provocativos, que enlouquecem os homens.

Ela sabe como rebolar, como provocar tesão, como mexer com o imaginário dos homens. No pescoço há um colar de corrente tatuado com esmero. A mesma corrente circula os braços e os punhos. Nas costas, uma enorme borboleta abre as asas simbolizando a sua liberdade de ser. Por fim, uma cobra de boca aberta se enrola em sua perna direita, avisando aos aventureiros que, se ameaçada, atacará sem dó o inimigo.

Casou-se cedo, aos dezessete anos teve um filho. Tinha uma vida razoável, porém foi seduzida pelas drogas e pelo dinheiro fácil. O marido nada sabia, até que ela avisou-o de que faria uma viagem para visitar uma tia doente no Rio. Foi, mas só voltou sete anos depois.

Foi um baque para a família e uma surpresa desagradável para o marido. Foram avisados que ela havia sido presa na fronteira do Brasil com o Paraguai. Estava em um ônibus com vários pacotes de cocaína amarrados na cintura. Um rapaz que viajava junto com ela passou mal e começou a vomitar. Ele havia ingerido uma quantidade muito grande de papelotes, um estourou no seu estômago. O rapaz foi preso e, ao vistoriarem o ônibus e os passageiros, prenderam a moça.

Serviu de mula por três mil reais, mas o pagamento lhe custou sete anos na prisão. Apanhou muito nas primeiras semanas, mas depois recebeu tratamento diferenciado. Passou a ser protegida por dois carcereiros que a cobriam de mimos, drogas e sexo.

Quando regressou ao morro, o marido estava amigado com outra, e não lhe devolveu o filho. Melhor para o menino: estava bem tratado e ela não era um bom exemplo como mãe.

Neste ínterim, encontrou um rapaz trabalhador que se encantou por ela e pelas suas tatuagens. Resolveram viver juntos. Gostava de trabalhar em casa de família, onde era querida e respeitada. No trabalho se vestia com roupas discretas e jamais contou as suas peripécias para a patroa.

Queria muito se regenerar. Porém, cansou de ficar em casa enquanto o companheiro trabalhava de vigia. Para espairecer, resolveu visitar as amigas. Visita vai, visita vem, acabou por se encontrar com a turma de batucada e de cheiradas. Divertia-se a valer até altas horas, mas, apesar de usar roupas curtas e provocativas, não deixava que nenhum engraçadinho se atrevesse a tocá-la. Pertencia somente a um, não tinha vontade de traí-lo.

Sentia prazer só de ver os olhos gulosos dos homens sobre o seu corpo. Gostava, também, de deixá-los excitados, só de imaginar que um dia ela poderia mostrar todas as tatuagens para eles, inclusive uma, que fizera questão de divulgar, mas que só o marido conhecia.

Estava em um boteco se divertindo quando um moço atrevido ficou zoando dela de forma ousada e agressiva. Fugiu dele o máximo que pode, mas quando ele tentou entrar no banheiro junto com ela, teve que se conter para não o agredir, foi socorrida pelos amigos que o colocaram para correr.

Resolveu trocar de bar, queria ouvir uns garotos que tocam funk e também vendiam cocaína da melhor qualidade. Não tinha jeito, o vício a perseguia ou ela perseguia o vício? Não importava. Sabia que não viveria muitos anos, pois a droga lhe provocava alucinações, tonturas e tremedeiras.

Estava animadíssima, havia cheirado todas. Divertia-se com os gracejos dos homens e com os olhares invejosos das mulheres. A noite corria animada com muita música e bebedeira. Tatuada estava dançando, solta, fogosa, sensual, quando sentiu uma mão pegando em sua bunda e dando-lhe um beliscão forte, cheio de desejo. Virou-se para trás e deu de cara com o traste do imbecil do outro bar. Não vacilou, meteu-lhe um tapa no rosto com força. De repente uma mulher partiu para cima dela, que nem uma gata brava e, aos gritos, xingou-a de vários nomes feios. Depois arrastou o moço pelo braço, e jurou que a mataria caso ela se engraçasse de novo com o seu homem.

Tatuada olhou-a com superioridade, disse que não retrucaria e que não se igualaria a ela. Mandou-a prestar mais atenção no safado, que era um covarde em deixar a mulher tirar satisfações.

Sentindo-se humilhado pelas risadas dos presentes, o traste deu um soco no olho da tatuada, fazendo-a cair nos braços do cantor. Vendo-a recuperar-se, chamou-a para brigar. Ela, refeita do susto, e ainda tonta pela dor, sorriu para o imbecil com doçura. Com discreta calma disse-lhe que estavam atrapalhando o pessoal de se divertir, e que deveriam conversar lá fora, como gente civilizada.

O agressor topou e saiu na frente rindo da garota. Tatuada, ao passar por uma mesa, pegou duas garrafas de cerveja, uma em cada mão. Com olhar de ódio bateu com força as garrafas na mesa, transformou-as em armas pontiagudas e, num gesto rápido, cortou com profundidade as costas do imbecil. Ferido, ele virou-se para se defender, e foi agredido novamente nos braços, na barriga e no peito, com cortes profundos e sangrentos.

As pessoas ao redor, atônicas com a cena de violência, não regiram, ficaram vendo o rapaz se esquivar da moça que o atacava com fúria assassina. Uma alma bondosa e corajosa foi em defesa do homem que estava ensanguentado ao chão e, com muita dificuldade, pegou-a por trás, imobilizando-a.

Bufando de raiva, de drogas e com o olho vermelho pelo soco, Tatuada procurou se acalmar, pois respeitava o amigo que a segurava pelos ombros. O rapaz a colocou sentada em uma cadeira, porém as garrafas ela não largou enquanto o ferido estava sendo retirado do bar.

A mulher do ferido, ao sair do bar, foi agredida aos berros por Tatuada, que a acusou de ter provocado todo aquele inferno. Um segundo de distração foi o suficiente para a enfurecida cortar em diagonal o rosto dela, e também o pescoço.

De acordo com as informações, o imbecil levou seis cortes profundos no corpo e mais alguns superficiais. As dores dos cortes e a humilhação sofrida fizeram com que jurasse que se vingaria dela, matando-a. A sua mulher está com o rosto costurado dos cílios ao queixo e também uma grande cicatriz no pescoço. Procura, com o marido, uma forma de matar Tatuada. O ódio que sentem é arrasador, vingativo por natureza. Já está certo que a matarão com golpes de facão. Irão retalhar todo o seu corpo e arrancar as tatuagens, uma a uma.

Não foi só o casal que saiu ferido do bar, uma jovem de treze anos, quando ouviu os gritos, em vez de correr e se esconder, foi ver de perto a briga. Chegou justamente quando Tatuada quebrava as garrafas para agredir o provocador. Pedaços de vidro voaram por todos os lados e um foi direto no olho esquerdo da garota. Disseram que o furou, e que a menina ficará cega.

Tatuada quase não se machucou. Ficou com as mãos feridas e um olho roxo. Sabe que foi jurada de morte e sabe que, para continuar a viver, deverá matar o casal. Sua amiga cansou de avisá-la que não se deve bater em ninguém no morro e nem deixar marcas. Afirma que o agredido, todas as vezes que olhar para a cicatriz, jurará vingança e não sossegará até matar o agressor.

A lei no morro é a lei do medo, mata-se por medo. Nem sempre é por raiva ou vingança e sim por medo. Quando a pessoa é ameaçada ou se sente ameaçada, fica com medo de ser morto e, para sobreviver, mata. Quando se torna vulnerável e acovardada, fortifica-se no medo. O medo está em quem também sobe o morro, na polícia e nos habitantes. As crianças acordam sobressaltadas com os tiros e com a sombra da morte. Os habitantes do morro vivem amedrontados, veem a morte exposta em cada esquina, circulando pelas encostas, tropeçando em seus caminhos.

Tatuada está assustada e se prepara para o pior. Vive com medo de topar com a morte. O casal de agredidos também está com medo, pois não sabe quem morrerá primeiro, se será ela ou eles.

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13 comentários em “Tatua, tatuagem – Conto (Rita Prates)

  1. Marco Aurélio Saraiva
    27 de dezembro de 2016

    Tatuada é uma personagem marcante. Suas tatuagens contam a sua história conflitante, de correntes a lhe prender a asas de borboletas a denotar liberdade, passando por uma boca de serpente que serve de presságio para o que há por vir no conto. Tenho a impressão de que você (Rita Prates) teve a visão de Tatuada muito clara na sua mente, descrevendo cada um dos seus detalhes com esmero.

    O conto inicia bem, visto que o foco é justamente Tatuada. Porém, ele ganha um rumo diferente mais para o final, perdendo o foco. O que era uma narração da vida de uma mulher passou para os detalhes de uma e outra festa onde coisas ruins aconteceram.

    No final, o saldo não me agradou muito. O conto narra demais e no fornece poucos detalhes; mostra muito pouco. A vida de Tatuada é uma pincelada, tudo ocorrendo em poucas linhas, sem nos ajudar a criar um vínculo interessante com ela. Acho que o conto pede mais espaço para narrar a vida de Tatuada, que me parece muito interessante. Queria saber como ela se meteu no contrabando de drogas, queria conhecer os seus trejeitos e compartilhar com ela o seu ódio pelo safado que a bolinou.

    Outra coisa que desagradou foi a falta de nomes dos personagens. Talvez seja apenas uma coisa minha de leitor, mas personagens sem nome, para mim, se tornam figuras genéricas e sem identidade. “O safado”; “O Marido”; “A Amiga” não me remetem a muita coisa. Mas, novamente, este pode ser o meu eu Leitor dando pitacos onde deveria ficar quieto.

    De qualquer forma, valeu a leitura. Parabéns Rita =)

    • vidasemcontosrita
      9 de janeiro de 2017

      Oi Marco, obrigada por todas as suas observações! Tudo anotadinho para ser avaliado! É a primeira vez que um conto meu é publicado por aqui e realmente é um local para se trocar e crescer, bem interessante. Sobre os nomes…é um traço de estilo que adotei para que esse dado instigue o leitor, o faça questionar e levar um pouco de sua criatividade também para o texto. Pretendo enviar mais texto pra cá nos próximos meses e espero que você acompanhe. Um abraço

  2. Brian Oliveira Lancaster
    27 de dezembro de 2016

    Textos cotidianos chamam a atenção pela sua “suposta” simplicidade. Aqui temos um enredo interessante, profundo, que começa muito bem. O início é excelente, pois dá o tom de interesse necessário. O meio, apesar de acelerar em algumas partes, ainda se sustenta com o suspense. Infelizmente, perto do fim, notei uma troca de tempo verbal que destoa do restante, dando a sensação de deslocamento. Realmente, apesar de todas as excelentes entrelinhas, a conclusão precisava de um pouquinho mais de cuidado.

    • vidasemcontosrita
      9 de janeiro de 2017

      Olá Brian! Obrigada pelo comentário. Mais uma pessoa que me pontua sobre o final. Observando e anotando tudo! =) Ah! Agradeço os elogios!

  3. Cilas Medi
    25 de dezembro de 2016

    O conto sofre da falta de diálogos. Ao invés de explicar, o autor deveria sair da ação e mostrar através de gritos, berros, explicando o ato. No penúltimo parágrafo, errou ao tentar explicar sobre como se mata e morre no morro, como se isso fosse, realmente, uma lei. Um final, também explicativo, desgastou um conto que poderia ser ótimo. Abraços.

    • vidasemcontosrita
      9 de janeiro de 2017

      Oi Cilas, obrigada pelo comentário. A falta de diálogos foi proposital, porém tenho vista várias pontuações de pessoas que sentiram falta. É algo a se pensar sim. Dizem por aí que comunicação não é o que se fala, mas o que se entende…algo assim…o que você falou sobre a “lei” me chamou atenção. Avaliando..colocar como uma “lei” de fato fique forte e passe uma mensagem não desejada de que isso é geral e que não acredito que seja fato dominante e uma lei para tudo e todos no morro, que abrange realidades diversas e histórias diversas também. Bom…ficam as observações que irei considerar para futuros contos. Um abraço! =)

  4. Priscila Pereira
    22 de dezembro de 2016

    Oi Rita, estou treinando minha avaliação para os desafios, então me desculpe se for muito rígida… Vamos lá, no geral eu gostei, está bem escrito, não notei nada que atrapalhasse a leitura do ponto de vista de ortografia e gramática, a única coisa que me incomodou foi a tatuada não ter nome nem uma personalidade complexa, você focou mais na aparência e nos vícios do que em quem ela de fato era. Achei também o final estranho, parecia no começo que a história seria diferente, que teria mais a contar…mas a sua imaginação é ótima e você sabe contar uma história. Consegui visualizar bem as cenas. Achei também que a moça que ficou ferida pelo caco de vidro no olho ficou sobrando no texto. Até mais!!

    • vidasemcontosrita
      9 de janeiro de 2017

      Oi Priscila, obrigada pelo comentário. Críticas embasadas e que despertam trocas são sempre bem-vindas! Bom…o fato dela não ter nome é proposital como um traço de estilo meu, para que a imaginação dos leitores também integre a narrativa. Qual seria um nome que combina com essa personagem? =) Sobre a “quem ela era” tentei fazer essa construção através da narração de fatos e sua vida e suas atitudes…acho que isso molda “o que somos”, mas concordo que a história começa aos 17 anos, talvez um contexto anterior a isso seria legal né? Sobre minha imaginação: além dela, esse conto conta também com fatos reais, como todos os meus contos. Ele integra a série “Morro da Agonia’, no qual estão contos baseados em histórias reais que me foram relatadas por uma moradora de uma comunidade de Belo Horizonte. Na série, tem ainda mais quatro contos: “Toca”, “O maldito buquê de noiva”, “A farra do boi” e “Tá lá um corpo estendido no chão”. Te convido a conhecê-los no link: https://vidasemcontos.com.br/tag/contos-seriadosmorro-da-agonia/ e, de quebra, ler também outros contos meus no meu blog “Vidas em Contos”. Um abraço!

  5. Davenir Viganon
    22 de dezembro de 2016

    Talvez meu comentário seja uma crítica muito fácil, mas vou opinar do mesmo jeito. Acho que nesse conto, em específico, os diálogos fizeram falta para que eu pudesse conhecer melhor a mulher “Tatuada” e o fato de não saber o nome dela aumentou essa distância que tive da personagem. Gostei da ambientação e das situações. No geral, conto é bom. Espero ler mais contos teus.

    • vidasemcontosrita
      9 de janeiro de 2017

      Oi Davenir, a coisa da falta de nome é uma opção de estilo que adoto para que os leitores criem a partir de sua imaginação e experiência, para que fique mais “divertido”…aguce a imaginação. Talvez a opção pelos diálogos realmente possa ser um método para atenuar essa
      “distância” já causada por esse traço de estilo. Ainda estou estudando, mas pretendo sim enviar mais contos para serem postados por aqui. Porém, se já quiser ler mais, tenho vários publicados em meu blog vidasemcontos.com.br. Te convido a visitar e ler! =)

  6. sergioricardosite
    22 de dezembro de 2016

    Muito bom.

    • vidasemcontosrita
      9 de janeiro de 2017

      Obrigada!

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Publicado às 22 de dezembro de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .