EntreContos

Literatura que desafia.

Sozinho no Fim do Mundo, Eu Chorei Lágrimas de Vapor (Fabio Baptista)

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Conheci Suzana na fatídica viagem que fiz a Oslo, tantos anos atrás.

Estávamos a bordo de um dirigível LZ-129, um colosso de madeira que, à época, era a expressão máxima da engenhosidade humana. Ela, aeromoça. Eu, um tolo pretensioso, com uma maleta algemada ao punho e milhares de delírios de grandeza acorrentados na alma. Hoje, senhor da sabedoria que vem junto com o arrependimento quando tudo está perdido, consigo ver com muita clareza. Mas na ocasião, eu não via nada. Olhava pela janela, olhava para o oceano chispando fagulhas de sol, para os sonhos me aguardando de braços abertos nas terras geladas escondidas além das brumas do Atlântico, olhava as maravilhas reservadas ao futuro graças à minha genialidade e também as gaivotas, que ao longe mergulhavam em busca de sustento e traziam nas asas a simplicidade das coisas do mar. Olhava todas essas coisas, mas não via nada. Como não vi Suzana dirigindo-se a mim pela primeira vez, com a voz mecanizada pela repetição exaustiva:

— Bebida, senhor?

— Um uísque, por favor – respondi, sem tirar os olhos da janela.

— Preferes puro ou com gelo, senhor?

— Puro – falei, como se quisesse me livrar logo de um estorvo.

— Volto cá num instante – ela cumpriu o protocolo e se retirou.

Observei, sem qualquer interesse, o reflexo translúcido da comissária diminuir até desvanecer por completo no vidro e prossegui, absorto na convicção mentirosa de que tinha como principal objetivo melhorar a vida das pessoas, acabar com as injustiças, com as dores e as mazelas do mundo. Sim, eu queria isso, queria um lugar melhor para todos. Mas o que desejava mesmo era a fortuna, a fama de rostos sorridentes nas primeiras páginas, o tilintar das taças de champanhe, o livre acesso às portas e às mulheres que só se abrem aos grandes homens. E o conteúdo da pasta, carregada junto ao corpo com reverência de Santo Graal, me dava a certeza de que eu era um Golias, um Adamastor, o maior de todos os gigantes, um novo divisor de águas na história. Provavelmente teria continuado por tempo indefinido em meus devaneios soberbos e novamente ignorado a presença da aeromoça, mas então as caldeiras tiveram um pico de produtividade e o excesso de vapor engasgou nos canos, fazendo todo o dirigível sacudir como se alvejado por um desses meteoros que visitam o planeta para causar extinções, bem na hora em que ela me trazia a bebida.

Desnecessário dizer que todo o uísque veio parar no meu colo e eu me virei, furioso, pronto para dar uma bronca na funcionária descuidada, valendo-me do meu status sigiloso de futuro herói mundial. No entanto, ao ver aquele semblante repleto de constrangimento e desespero lutando por espaço debaixo da maquiagem, a raiva passou. E eu, que jamais havia acreditado nos clichês do amor, sobretudo nos que carregavam consigo o complemento “à primeira vista”, constatei que não era tão imune a certos venenos como imaginava.

— Perdão… perdão, senhor… a aeronave tremeu e não consegui segurar-me a tempo – justificou-se. – Já trago cá uma toalha.

Ela recuperou a bandeja espatifada e o copo trincado, virou-se e saiu, apressada. Logo voltou com a tal toalha. Dessa vez, prestei atenção em cada detalhe do vestido, tanto na ida, quanto na volta. Azul escuro, com rendas brancas e armações exageradas – um traje ordinário de comissária de bordo que agora, aos meus olhos, emprestava a ela um ar de princesa aprisionada em torre de feiticeiro, implorando para ser resgatada.

— Com licença – ela disse, pressionando a toalha em minhas pernas, com naturalidade de quem limpa o chão.

— Desperdiçar bebida assim é crime passível de apedrejamento em alguns países – arrisquei uma brincadeira.

— Valha-me São Teotónio! É verdade isso que estás a falar? – ela arregalou os olhos, horrorizada.

— Não, não… só foi uma piada – sorri, surpreso por ela ter levado tão a sério. – Bom, nesses países, apedrejam e fazem coisas mais terríveis por motivos mais banais.  Mas por desperdício de bebida mesmo, nunca ouvi falar. Pode deixar que eu continuo – completei, pegando a toalha.

— Perdoe-me, por obséquio, é que não sou exactamente a rapariga mais ligada a este tipo de notícia, como estás a perceber – sorriu, constrangida.

— É o melhor que faz. Eu mesmo, gostaria de poder esquecer muita coisa que me chegou ao conhecimento através dos jornais. Muita coisa…

— É a primeira vez que não estás a observar o oceano, desde que a aeronave se pôs a voar – ela disse, ignorando completamente minha última frase.

O sotaque, o oceano, o rosto bonito, a paixão inesperada. Tudo se juntou de uma vez e antes de me dar conta, estava falando:

— “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!” – declamei num lampejo cafona e ela me fitou, com olhos repletos de um encanto quase infantil. – “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu…” – quando terminei, ela deixou escapar a lágrima que segurara desde “quantas noivas ficaram por casar”. Imaginei um milhão de histórias tristes escorrendo junto àquela gota solitária e desejei continuar com o recital até pousarmos na Noruega, até o mundo ser dizimado pela fúria das estrelas, e até depois disso.

— Ah, gajo… fizeste-me até borrar a maquilagem! – ela sorriu, secando o rosto com a gola do vestido. – És um poeta de primeira, senhor.

— Ah, não! Essa não é minha! É de um conterrâneo seu. Bem conhecido, aliás…

— Bem, estás a ver que poesia também não é meu forte – o sorriso voltou a ser envergonhado. – Agora, coloco-me de volta ao que me cabe. Trarei cá outra dose e, desta feita, tomarás teu uísque a contento, senhor.

— Como é seu nome? – segurei-a pelo punho.

— Suzana.

— Suzana… – repeti, ganhando tempo, enquanto pensava em algo para falar, algo para não deixá-la ir, mesmo sabendo que logo retornaria. Acabei, claro, sendo completamente precipitado e estúpido, como os apaixonados costumam ser: – Você choraria por mim, Suzana?

Ela ficou sem reação e, por um momento, pensei que referências musicais também não fossem seu forte, mas, então, deu um riso de canto de boca, junto a um “hum” anasalado que fez minhas vísceras congelarem, feito menino em baile de colégio. E o que disse em seguida, gerou um efeito ainda pior:

— És do tipo por quem se vale a pena chorar, senhor?

Hesitação, engolida em seco, olhar se desviando – a linguagem corporal respondeu melhor do que qualquer palavra. Ela foi buscar a bebida, eu fiquei remoendo aquele ranço durante todo o final da tarde. À noite, impulsionado pelo amor e pelo álcool, fui procurá-la nas áreas de serviço. Encontrei-a por sorte – estava numa das varandas, comendo figos, com um vento frio de tempestade soprando-lhe os cabelos.

— Suzana, sei que parece abrupto e talvez até um pouco idiota, mas a verdade é que eu senti algo muito forte por você, algo que, confesso, jamais havia senti…

— Tens ideia de quantos passageiros, com cartolas de três salários e maletas misteriosas, vêm nos procurar em noites aprazíveis como esta, senhor? – ela me interrompeu. – Tens ideia de quanto duram as juras de amor e os sentimentos jamais sentidos outrora, depois que encontram um lugar quente e húmido para acalentar a solidão da viagem, senhor? – respirou fundo e apoiou os cotovelos no parapeito. – Aceitas um figo?

— Suzana, eu não sou assim… bom, na verdade, eu sou. Eu era. Eu… eu não seria assim com você. Não hoje. Eu só te peço um endereço para lhe enviar um telegrama depois de resolver meus assuntos. E um beijo…

— Ah, gajo… por São Teotónio, eu gostava de entregar-te os dois, agora mesmo. Mas já tive decepções suficientes para uma vida e meia. Perdoe-me.

— Eu faço qualquer coisa – implorei, do jeito que nunca se deve implorar a uma mulher.

— Qualquer coisa? – ponderou. – Então… volte.

— Voltar?

— Depois que resolveres teus assuntos, volte. Caso encontremo-nos novamente por estas bandas, então é certo que há algo de destino nisto. E não lhe negarei nem telegrama e nem beijo, se assim ainda quiseres. Pois então, o que tens a dizer?

Eu não queria dizer nada. Só queria que o chão se abrisse sob o mar lá em baixo, para ver as chamas do inferno tremeluzindo naquele lindo rosto antes do fim. Mas o Armagedom não parecia muito disposto a dar as caras, então peguei um figo e arrisquei um último gracejo:

— Só posso lhe dizer, Suzana… que esse é o melhor programa de fidelidade aérea que eu já vi na minha vida!

***

Chegamos a Oslo na manhã seguinte.

Do alto, quase não se podia ver nada – a cidade estava envolta numa nuvem perpétua, proveniente das caldeiras subterrâneas que faziam girar as engrenagens do “Relógio do Mundo”. Ao desembarcarmos, sussurrei “eu volto” para Suzana e logo ganhei as ruas. Ali, do chão, era possível ver todo o esplendor daquele oásis de vapor incrustado no gelo. Prédios tão altos como eu jamais poderia sonhar, todos erigidos em madeira nobre, com detalhes de prata e ouro esculpidos por gerações de ourives talentosos. Tudo se movimentava e girava e soltava fumaça branca por canos e pistões, o tempo todo. A capital do mundo era viva e não creio que alguém pudesse contemplá-la sem se encantar. Eu estava maravilhado e, apesar do calor sufocante, já queria morar ali para sempre. Caminhando pela zona portuária, nas imediações do aeroporto, vi os estivadores com seu vai e vem interminável de caixas. Pouco à frente, estavam as prostitutas, encostadas em uma cerca com extensão de autoestrada, com vestidos rendados, coletes, sombrinhas, espartilhos, chapéus e uma miríade de acessórios, de todas as cores, para todos os gostos, com coxas para fora e seios explodindo nos decotes, numa promessa velada de horas de prazer selvagem e gonorreia.

Teria ficado por ali mesmo, mas agora eu era um homem apaixonado. Segui meu rumo em direção ao hotel, resistindo bravamente às propostas (ora quase românticas, ora diretas de fazer corar) sussurradas pelas donzelas. Mais adiante, na rua do comércio, conheci o verdadeiro significado da palavra “balbúrdia” – toda sorte de vendedores, ofertando desde monóculos de precisão microscópica à garruchas de repetição, cercados por compradores, curiosos e transeuntes diversos, falando alto e caminhando como formigas desgovernadas, numa lentidão de passos apressados em meio aos bondes e automóveis de buzinas esganiçadas. Mas nem tudo era glamour e barulho. Antes de chegar ao meu destino, por acaso, acabei me deparando com uma horda silenciosa de trabalhadores braçais descendo as escadarias em direção às caldeiras. Estavam magros, com a sujeira do subsolo impregnada na pele e a desesperança raivosa dos excluídos escorrendo no semblante. Sorri com confiança diante dos olhos pouco amistosos que me encaravam e pensei: “tenham um pouco de calma, irmãos… amanhã, os fardos começarão a ficar mais leves, eu garanto!”. Continuei o trajeto, sentindo-me o messias de uma nova era.

Passei o resto daquele dia no hotel, menos por preguiça ou cansaço do que por receio de ficar circulando com a maleta. Os peixes, pães e queijos gordos servidos no refeitório também contribuíram um bocado para minha ancoragem por ali. Tentei me concentrar na leitura de um livro, mas não obtive sucesso. Fiquei escutando música local no rádio e depois dormi um sono de suor e inquietação. Na manhã seguinte, logo após o desjejum, parti em direção ao quadragésimo sétimo andar da Steam Factory Corporation.

Pronto para mudar o mundo.

***

O prédio da corporação era impressionante em todos os aspectos. Enquanto subia pelo elevador, fiquei imaginando quantas florestas foram devastadas para construir tudo aquilo, quantos litros d’água, quanto carvão era preciso para gerar energia e manter aquele conglomerado funcionando ininterruptamente. Meus anfitriões me cumprimentaram sorridentes, ajeitaram bigodes e cartolas, consultaram os relógios de bolso presos ao smoking por correntes de muitos quilates, me deixaram à vontade e me escutaram com atenção. Eu bajulei todos eles, ri das piadas sem graça, fingi não me incomodar com o sotaque carregado, nem com o mau hálito, nem com o barulho de máquina fotográfica feito por alguns monóculos ao trocar de lente para ajuste de distância do foco.

Durante a apresentação, eu era uma represa de confiança abrindo as comportas. Expliquei minuciosamente meu projeto para uma nova fonte de energia, gerada a partir do líquido negro que jorrou na minha fazenda. Poderia substituir o vapor com inúmeras vantagens, trazendo uma era de ouro para o progresso da humanidade. Não precisaríamos mais de turnos exaustivos nas caldeiras e minas de carvão, trilharíamos, a passos largos, o caminho para uma sociedade mais justa e igualitária. E, claro, eu tiraria disso o meu merecido quinhão. Concluí, certo de que a sala desabaria em aplausos e uma profusão de perguntas e propostas entusiasmadas faria a rua do comércio afigurar-se a um monastério. Mas não aconteceu nada disso. Após quase um minuto de silêncio claustrofóbico, o presidente da empresa resumiu o sentimento geral:

— O senhor veio até aqui tomar nosso tempo… para mostrar esta merda?

Foi como um mergulho no Ártico. Perdi qualquer ímpeto de argumentação e eles também não me permitiriam falar mais nada. Desci, praguejando contra a óbvia estupidez deles em não reconhecer a minha genialidade. Estava furioso, envergonhado, humilhado, ávido por uma vingança que não fazia nem ideia por onde iniciar. No meu coração, só havia espaço para ódio e mágoa. Assim, decidi ir à zona portuária. Pegaria a primeira meretriz disponível, a chamaria de Suzana, despejaria nela minhas sementes de frustração e, se tivesse sorte, morreria logo em seguida.

Cortei caminho por um beco e, pouco depois, notei uma mulher vindo na direção contrária. Toda de preto, parecia fugida de um convento, ou de alguma lenda oriental. Andava com desenvoltura de predador em caçada e, ao chegar bem perto, apontou um revólver de três canos para minha cabeça e gritou “abaixa!”. Eu abaixei, não por ter raciocinado e obedecido, mas por puro instinto de preservação. Senti o calor do projétil a milímetros do meu crânio e caí olhando para trás, a tempo de ver a cabeça do verdadeiro alvo transformando-se numa mancha vermelha.

— Venha comigo, se quiser continuar vivo, infiel – ela falou, com um sotaque carregado de “r”s guturais.

Eu fui.

Não estava entendendo nada, mas percebi que ao lado dela minhas chances de sobrevivência aumentavam consideravelmente. Seguimos pelos becos intrincados, até nos depararmos com um bando de dez pessoas, vestidos como assassinos, portando armas de assassinos e, certamente, prestes a realizar atos de assassinos. Não era preciso uma análise especializada para concluir que não havia a menor chance de escapar. Tive o ímpeto de me ajoelhar e implorar por misericórdia, encerrando com chave de ouro uma vida de pouca dignidade. Porém, antes disso, minha protetora misteriosa agarrou-me pelo colete e, com força desproporcional para seu porte físico, me arremessou dentro de uma das casinhas que ladeavam a viela onde estávamos. Meio segundo, uma porta estilhaçada e três costelas trincadas depois, eu estava salvo. Observei o combate se desenrolar no beco, com o máximo de detalhes que o medo me permitiu.

E vi um demônio lutando.

A arma de três canos disparou mais cinco vezes e, num átimo, os inimigos estavam reduzidos à metade. Antes que os demais pudessem sacar suas garruchas, ela avançou sobre eles, empunhando uma cimitarra em cada mão. Os assassinos tentaram reagir e até chegaram a aparar alguns golpes e oferecer certo perigo em duas investidas. Mas, no final que não tardou a chegar, acabaram numa poça de sangue onde não mais se podia saber de quem era cada braço, perna ou cabeça. Depois disso, ela veio até mim e tirou a máscara, revelando um rosto de traços exóticos, tão belos quanto ameaçadores.

— Sua próxima decisão pode te conduzir a vários caminhos, infiel – ela disse. – Em alguns, você fica vivo. Em outros, morto. Em alguns, continua com seus dois braços. Em outros, não. Em todos eles, eu saio daqui com a maleta. E então, o que vai ser?

— Quem é você? – gaguejei.

— Meu nome é Zulmira. Trabalho para os líderes de um país onde apedrejam aeromoças que desperdiçam uísque… – ela sorriu, debochada.

— Como você… ?

— Temos olhos e ouvidos em todo lugar. E você deveria ser grato por isso, infiel, pois foi muito estúpido em acreditar que a Steam Factory o deixaria sair vivo daqui.

— Qual é a proposta? – perguntei, suando frio.

— Debaixo das areias do meu país, há um oceano desse líquido negro que encontrou em sua fazenda. Meus líderes pagarão fortunas, concederão poder e haréns de infindáveis virgens a quem conseguir extrair energia dali. Parece que é seu dia de sorte, infiel. Ou, se preferir, me dê a pasta e vá viver uma vida pacata com sua aeromoça, criando filhos e colhendo uvas nos campos de Coimbra. Demoraremos um pouco mais dessa forma, mas decifraremos suas fórmulas, mais cedo ou mais tarde. Vamos, o tempo acabou. O que vai ser?

— Fortunas? Poder? – “Vingança”, completei em pensamentos.

— E haréns de infindáveis virgens… – Zulmira disse com malícia.

Em seguida, corremos na direção do barco de fuga que nos aguardava.

***

O resto foi um borrão.

Fiz minha parte, refinando o líquido negro para extrair o máximo de potencial. Máquinas poderosas foram construídas, utilizando-se do novo combustível. Máquinas de guerra. Meus patrões ficaram satisfeitos e cumpriram suas promessas – tive a fama, a fortuna, o poder e as mulheres que sempre desejei. E também minha vingança, quando a Steam Factory tornou-se uma pira. Apenas para perceber, não muito tempo depois, que nada disso era exatamente como eu imaginava. Mas já não havia possibilidade de desistir. Não se quisesse continuar com a cabeça presa ao pescoço. As outras nações não se deram por vencidas – impulsionadas pela necessidade, construíram armas maiores, reagiram como puderam e tudo desabou num inferno de óleo e radiação.

Toda beleza que um dia houve no mundo desapareceu junto às últimas nuvens de vapor. Hoje, depois de tanto tempo, não ouso pensar no que aconteceu com Suzana – eu não suportaria o peso dessa culpa. Tudo que queria saber é se alguma vez ela chorou por mim, ou se sequer lembrou-se da minha existência. Não que agora faça qualquer diferença, mas eu me lembrei e chorei por ela, todos os dias.

Todos os malditos dias em que me arrependo por não ter voltado.

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42 comentários em “Sozinho no Fim do Mundo, Eu Chorei Lágrimas de Vapor (Fabio Baptista)

  1. Leonardo Jardim
    16 de dezembro de 2016

    Minhas impressões de cada aspecto do conto:

    📜 Trama (⭐⭐⭐⭐▫): achei muito bem encaixada, com início, meio e um fim fechando tudo, mesmo que de forma melancólica. Fiquei muito feliz com o steampunk apresentado, sem exageros, e gostei da relação com a aeromoça. Só a segunda personagem feminina e o fim que acabaram um pouco corridos. O fim, porém, me ganhou.

    📝 Técnica (⭐⭐⭐⭐▫): muito boa, não encontrei nenhum defeito que me chamasse a atenção, exceto pela pontuação em alguns pontos, mas estava tão preso na trama que nem anotei.

    💡 Criatividade (⭐⭐▫): não trouxe nada muito novo, mas o quase romance do início, que poderia ter ficado sobrando, acabou trazendo as doses de novidade para o texto.

    🎯 Tema (⭐⭐): um steampunk sendo destruído pelo poder do petróleo.

    🎭 Impacto (⭐⭐⭐⭐▫): gostei muito, como já adiantei e, no final, fiquei pensando nas escolhas que fazemos na vida que parecem boas, mas que nos deixam pensando como seria sem elas. Um texto que nos faz pensar bem depois do ponto final é sempre especial…

    ⚠️ Nota 9,0

  2. Bia Machado
    16 de dezembro de 2016

    Achei interessante a proposta, mas o desenvolvimento não foi tão a contento. Sensação de “arrasto” por boa parte da narrativa, quando em alguns momentos me surpreendeu (no momento em que ele é salvo pela mulher, por exemplo) para nas linhas finais correr, passando a mim a ideia de resumir um pouco nos momentos derradeiros. Quanto à construção das personagens, as falas contribuíram para que faltasse algo, em minha opinião, os diálogos não me empolgaram. O sotaque da comissária não me pareceu natural. E uma repetição desnecessária de “senhor”, deixando a fala um tanto forçada também. Na parte gramatical, nada relevante. Talvez um pouco a mais de reticências do que o necessário. Resumindo, não me atraiu, a não ser pelo comecinho e aí foi desanimador, porque o desenvolvimento não correspondeu tanto quanto achei.

  3. Pedro Luna
    16 de dezembro de 2016

    Humm, gostei, mas também vi muitas coisas que me incomodaram. Primeiramente, preciso dizer que o diálogo entre o personagem e Suzana no zepellin foi muito forçado. Foi preciso um grande esforço da minha parte para aceitá-lo. Romântico demais para um primeiro contato, e com falas que na minha opinião, soaram irreais em uma conversa do tipo. Mal falaram cinco minutos e já estavam jurados de amor.

    Quanto ao resto, achei interessante as menções a descoberta do petróleo, e como o ingênuo personagem acredita que aquilo trará um futuro melhor. Foi justo o contrário, como bem sabemos. rs No fim, a inserção de Zulmira primeiro faz o leitor torcer a cara, pois é algo muito tirado do nada, mas depois vem a explicação e acabamos por aceitar. Enfim, eu gostei do texto, só não fui convencido da paixão entre Suzana e o personagem, e por isso esse fardo dramático, principalmente da última frase, não me capturou.

  4. Thiago de Melo
    16 de dezembro de 2016

    9. Sozinho no Fim do Mundo eu chorei Lágrimas de Vapor (Otto): Nota 8

    Amigo Otto,

    Cara, meus parabéns, você escreve muito bem. A primeira parte da sua história está um primor. Diversas frases me fizeram pensar “é assim que eu quero escrever”. As metáforas, o sarcasmo. Meus parabéns.
    PORÉM (sempre tem um porém, né?), achei que o seu texto caiu um pouco depois que o camarada saiu da reunião. Não que a sua história não aconteça diariamente com centenas de pessoas ao redor do mundo. Não. Eu mesmo, devo ter umas três ou quatro aeromoças perdidas aí pelo mundo chorando lágrimas de vapor. Mas é que não combinou muito bem o estilo James Bond encontra Carmen Sandiego em Oslo com o início da sua história, todo centrado na interação entre ele e a aeromoça.
    Não sei se posso te dar alguma dica para melhorar. Como disse, sua história está bem escrita, mas para o meu gosto pessoal a segunda parte não encaixou muito bem com a primeira.
    De qualquer forma, parabéns!
    Boa sorte no desafio.

  5. Leandro B.
    16 de dezembro de 2016

    Ola, Otto.

    Achei o texto bem escrito e, como em alguns outros contos, deu pra ver um autor bastante seguro do seu trabalho. Contudo, devo admitir que achei a construção romântica com Suzana bastante piegas, ao ponto de rolar os olhos uma ou duas vezes.

    A ideia da superação do Steampunk, que desembocaria em um universo dieselpunk foi bastante original. Não gostei tanto da intromissão de Zulmira. Particularmente achei que ela caiu como um deus ex no texto.

    O final voltou a reequilibrar a narrativa, fortalecido pela excelente escolha do título.

    Enfim, achei um conto bom, com partes que me fizeram perder o interesse e outras que recuperaram a minha atenção.

  6. Renato Silva
    16 de dezembro de 2016

    Olá.

    Achei o conto bem interessante no começo. O diálogo entre o narrador e Suzana está entre os pontos altos do conto. Tudo parecia estar indo bem até o momento em que o personagem-narrador se depara com a “misteriosa” Zulmira, naquela cena digna de uma filme do Jackie Chan. O diálogo que se seguiu me pareceu por demais forçado, a mulher mais parecia um membro do Estado Islâmico. Não me leve a mal, eu gosto de filmes de ação, dessas descrições cinematográficas, mas eu só esperava um outro rumo para a estória. Confesso que fiquei um pouco decepcionado com essa segunda parte, pois eu estava gostando bastante do ritmo da narrativa até então.

    Achei um tanto forçado esses edifícios em madeira. Não entendo de engenharia, mas acredito que seja meio improvável que a madeira consiga suportar a estrutura de prédios muito altos. Mesmo num cenário steampunk, os edifícios podem ser feitos em alvenaria.

    Algo que achei interessante no seu conto foi mostrar a tal transição do “steam” para o “diesel”, que considero complementares neste tipo de literatura (ambientadas no passado), assim como o cyber e o biopunk são complementares (ambientadas no futuro).
    Enfim, eu gostei do enredo. Como sempre, é o número limitado de palavras que impediu o surgimento de uma estória grandiosa. Te desejo boa sorte.

  7. Wender Lemes
    15 de dezembro de 2016

    Olá! Dividi meus comentários em três tópicos principais: estrutura (ortografia, enredo), criatividade (tanto técnica, quanto temática) e carisma (identificação com o texto):

    Estrutura: vi aqui um conto bem estruturado, gramaticalmente e em quesito de narrativa, mas com pequenas discrepâncias na busca por se adequar ao tema e impactar ao final. Explico: a cena da chegada a Oslo, ainda que rica em detalhes, me parece ter sido feita daquele modo escrachadamente em prol da ambientação no tema, o que não é em si um defeito, mas tira a magia de emergir no cenário inconscientemente. Sobre o final, senti-o dramático em demasia pelo protagonista que vinha sendo apresentado (o título também bebe dessa fonte).

    Criatividade: nesse quesito não há o que questionar, é um conto bastante criativo. A ideia de contextualizar a história no momento fictício da aurora do petróleo é bem legal, principalmente por trazer como protagonista o responsável pela reviravolta. A narrativa também é muito palpável, o que é sempre um ponto positivo.

    Carisma: ainda que os detalhes de estrutura que citei tenham incomodado um pouco, não foram suficientes para ofuscar o cuidado no trabalho descritivo, que ganhou pontos do início ao fim.

    Parabéns e boa sorte.

  8. Luis Guilherme
    15 de dezembro de 2016

    Boa tarde, querido(a) amigo(a) escritor(a)!
    Primeiramente, parabéns pela participação no desafio e pelo esforço. Bom, vamos ao conto, né?
    Uau, ótimo conto! Gostei bastante.
    A climatização tá excelente, a escrita tá ótima também, ambientação, e etc.
    Achei legal o paralelo entre o conto e a realidade, também.
    Enfim, até agora um dos melhores que li, parabéns!

  9. mariasantino1
    15 de dezembro de 2016

    Oi, autor (a)!

    Sua trama é muito boa e acredito que seu texto vai encabeçar o desafio (se não ficar em primeiro lugar). Vou falar umas coisinhas, mas só porque eu costumo observar mesmo, porém já adianto que a nota será dez (10).
    Um dos melhores steampunks do presente desafio. A trama é maior que o exposto e devido a esse fato o flerte para que o leitor conheça mais do personagem acabou se estendendo um pouquinho. A segunda parte (por assim dizer), é rápida e muito fluida e se lê tudo em um tapa (o que é ótimo), mas o personagem (com o perdão da palavra) é bobão e anêmico que cheguei a ficar incomodada com o fato dele ter essa sacada de refinar petróleo.

    Em resumo, uma puta trama que poderia ser mais objetiva.

    Parabéns e boa sorte.

    Nota: 10

  10. cilasmedi
    13 de dezembro de 2016

    Concordância verbal: o perigo e o abismo deu, (o perigo e o abismo deram,)
    Colocação do pronome átono: 1) não deixá-la ir, (não a deixar ir,) – 2) Steam Factory tornou-se uma pira. (Steam Factory se tornou uma pira.)

    Um bom conto, entre romance e ganância, estupidez e guerra, os personagens bem delineados e uma estrutura dinâmica para poucas páginas, acatando corretamente o desafio. Nota 9,0.

  11. Daniel Reis
    13 de dezembro de 2016

    Prezado Otto, segue minha análise:
    PREMISSA: um steampunk com elementos de espionagem. Interessante.
    DESENVOLVIMENTO: apesar da construção da personagem portuguesa, ela tem pouca interferência no clímax da história. Aliás, parecem duas histórias “coladas” com superbonder.
    RESULTADO: ainda que curioso, o conto não ultrapassa a linha do marcante.

  12. Fil Felix
    13 de dezembro de 2016

    GERAL

    Um conto com estilo próprio e que me dividiu. Está super bem escrito e dentro do tema. Há seu começo, meio e fim. Descrições muito boas, personagens que vão sendo criados e visualizados aos poucos. Seu clímax. Cenas bonitas de se ler, é um conto carismático. Mas não me cutucou muito. O começo ficou teatral e pensei que fosse emborcar num filme pornô, mesmo a descoberta do petróleo ou o desenrolar não me chacoalharam.

    O X DA QUESTÃO

    Um dos mais bonitos que li até agora, em relação a se encaixar no tema. As descrições, as máquinas, o vapor, o dirigível, as vestimentas, tudo nos conformes. Fico triste por não ter gostado tanto quanto gostaria e dar uma nota melhor. Apesar da “capa”, o conteúdo ficou um pouco… pacato, talvez.

  13. Jowilton Amaral da Costa
    13 de dezembro de 2016

    Um conto médio. O início, bem no início, antes dos diálogos com a aeromoça, a narrativa me instigou, depois disso achei que a história caiu um pouco. Não gostei muito dos diálogos. as cenas de ação foram boas e o desfecho do conto nem tanto. Boa sorte no desafio.

  14. Ricardo de Lohem
    13 de dezembro de 2016

    Olá, como vai? Vamos ao conto! Um Steampunk legítimo, mostrando uma realidade alternativa na qual a tecnologia se desnvolveu com a madeira no lugar do aço e plástico, e vapor d’água no lugar do petróleo. Nesse mundo alternativo, se desenvolve uma história de amor. A caracterização desse universo é bem construída. Resumindo a história, seria o seguinte: o protagonista, um homem cujo nome jamais nos é revelado, desenvolveu uma tecnologia para extrair tecnologia do petróleo faz uma viagem para oferecer a tal tecnologia a uma empresa de vapor. No caminho, a bordo de um dirigível, conhece uma aeromoça. A empresa rejeita sua teconoliga de petróleo e ainda tenta matá-lo, uma mulher o salva e diz que um país árabe que usar suas ideias, e ele deve optar entre ir com ela e ficar rico ou não. Ele acaba indo com ela e com isso perde a chance de uma vida com a mulher por quem se apaixonou, mas em compensação fica rico. O ponto principal parece ser a escolha que ele fez: amor ou dinheiro? O desenvolvimento desse tema foi justamente o fraco da história, já que o aspecto dramático das consequências disso na vida do protagonista não muito bem desenvolvido. O amor súbito deles deveria ser mostrado de forma mais convincente, ou o final deveria ter sido mais tocante, não sei, talvez ele vendo Suzana de longe, algo assim… Uma reviravolta, ou um toque de Ah! Foi isso que faltou. Terminando, achei a história com ambientação muito bem desenvolvida, parabéns, desejo para você muito Boa Sorte!

  15. rsollberg
    12 de dezembro de 2016

    Sozinho no Fim do Mundo, Eu Chorei Lágrimas de Vapor (Otto)

    Caro (a) Otto,

    Até o presente momento o texto com as melhores construções, demonstrando a preocupação do autor com o estilo e o variegado vocabulário usado. Além disso, é o primeiro texto que percebo a presença constante de referências, sem nunca parecer pedante, é claro.

    Não creio que o Autor seja português, mas os diálogos beiram a perfeição, provavelmente em razão da pesquisa. Sobrou até um húmido! O humor também sempre presente: “— Só posso lhe dizer, Suzana… que esse é o melhor programa de fidelidade aérea que eu já vi na minha vida!”.

    Meu único “porém”, é que senti uma quebra meio abrupta na estória. Na realidade, parecem dois contos distintos mesclados. Todavia, ainda assim, apesar de achar que faltou espaço para juntar e desenvolver melhor os dois, gostei do resultado final.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  16. Amanda Gomez
    10 de dezembro de 2016

    Olá,

    A escrita do(a) autor(a) é tão boa, que as palavras parecem escorregar da tela, de tão rápida e envolvente que é. Uma narrativa rebuscada, mas com simplicidade ao mesmo tempo, li este conto já meio cansada de outras leituras e, ele me deu um gás a mais, é como aquele ponto em que quase estamos nos rendendo ao sono durante uma leitura e de repente aparece algo que nos desperta!

    Gostei do desenvolvimento do enredo, o personagem chega falando várias coisas sem dizer como e quando, e isso cria expectativas, como ele vai salvar o mundo, afinal? O romance veio pra fechar as pontas no final, dando um ar meio melancólico. Os diálogos entre ele e a aeromoça são incríveis, realmente se fez uma conexão ali, e funcionou mesmo com a rapidez dos fatos. Veio a promessa e a vontade de se tornar um homem melhor para a amada. É esse clichê sempre funciona.

    A descoberta que se se trata de petróleo, foi inesperada, automaticamente a gente já pensa em algo como cientistas e afins, mas não, veio uma coisa mais pé no chão e verossímil. Eu gostei. As descrições do ambiente, em como são as pessoas em determinados pontos da cidade, ou do planeta foi interessante também, embora tenha sido apenas um vislumbre. Gostaria te ter sabido mais sobre como as coisas são, a definição do tempo em que se passa a história e etc. Mas tudo bem.

    Chegamos a conclusão, quando o homem estava sendo observado por esses ‘’inovadores’’ e fazem a proposta de glória ou morte a ele, que claro, aceita. Só não entendi o que o impedia de ir de encontro a Portuguesa. O fim foi apenas um resumão do que aconteceu. Pelo cuidado da primeira parte, o autor pareceu escrever sem se importar com limites, parece que chegou o fim e ele disse ‘’Ops, não vai dar pra fazer tudo isso’’aí, ele deu seu jeito pra caber tudo. Coube, mas eu esperei por mais.

    Também não vou saber julgar o tema apresentado aqui. Está…e não está.

    Parabéns pelo conto, ele está muito bom. Boa sorte no desafio!

  17. vitormcleite
    8 de dezembro de 2016

    Não vou me preocupar com o tema do desafio, gostei do texto, a espaços foi muito bom de ler e até entusiasmante, e em sequência, partes sem grande interesse na leitura, mas gostei das cenas finais e lamento que não tenhas desenvolvido mais esta parte, pois o conto tem ritmo e emoção.”És do tipo por quem se vale a pena chorar” desculpa a pergunta, mas o “se” não está a mais?

  18. Davenir Viganon
    6 de dezembro de 2016

    Olá Otto
    Gostei do Steampunk e essa estória com a matriz energética. O tom de aventura ficou leve e gostei do final não-feliz. Se não fosse o limite de palavras dava para colocar muita coisa ai. Os personagens falando com sotaques diferentes deu um toque muito bom ao texto. Foi uma viagem agradável. Pena que no final ficou meio apressado mas nada que tire o brilho. Parabéns!

    “Você teria um minuto para falar de Philip K. Dick?” [Eu estou indicando contos do mestre Philip K. Dick em todos os comentários.]
    Como esse conto é um Steampunk, ao invés de indicar PKD, vou te indicar o “Máquina Diferencial” do Bruce Sterling e do William Gibson, o romance é pedra angular do Steampunk que fala bastante de matrizes energéticas e tem uma construção de mundo espetacular. Não é a toa que desencadeou todo um esse subgênero.

  19. Sick Mind
    2 de dezembro de 2016

    A ideia foi boa, mas pecou na execução. Com o excesso de descrições, a linguagem explorada nem era necessária para compreender a época em que a história se passa, a união das duas coisas ficou maçante. O final reflexivo foi o melhor ponto da história, dando sentido ao título do conto, que poderia ser reduzido facilmente para “Lágrimas de vapor”.

  20. Paula Giannini - palcodapalavrablog
    1 de dezembro de 2016

    Olá, Otto,

    Tudo bem?

    Você criou uma trama consistente. A história, que se inicia em uma insólita viagem em um dirigível, passa por vários altos e baixos, além de alguns pontos de virada, até chegar em seu ápice.

    A recriação do universo Steampunk também é muito boa e bem detalhada, com o ponto alto na chegada do personagem a Oslo.

    Não consegui “embrarcar” muito no arrependimento do personagem, assim como em seu súbito amor pela aeromoça, mas o todo tem um resultado muito agradável de se ler.

    Parabéns por seu trabalho e boa sorte no desafio.

    Beijos

    Paula Giannini

  21. Gustavo Castro Araujo
    29 de novembro de 2016

    Gostei muito da primeira parte do conto – em que o protagonista-narrador está no dirigível e descobre-se atraído por Suzana. As descrições mentais, favorecidas pela narração em primeira pessoa, ficaram muito boas, revelando exatamente o que se passa, ou o que provavelmente se passa na mente de alguém que, de um momento para o outro, vê a autoconfiança evaporar. Aqui os diálogos ficaram muito bons, verossímeis, acompanhados por uma atmosfera ricamente descrita com frases inspiradas.

    Na segunda parte adota-se outro estilo narrativo. Os aspectos psicológicos são deixados de lado para privilegiar-se a ação. Com isso o conto perde um pouco da força, já que o protagonista-narrador passa ser um mero informante. Há algo de positivo, porém, que é questão inserida subliminarmente acerca da substituição da matriz energética – o vapor pelo petróleo – e suas implicações, algo que nos faz pensar como seria se alguém, hoje, surgisse com a ideia mirabolante de trocar o petróleo por água. A consequência é descrita no conto, com a perseguição do dono da ideia, algo que provavelmente aconteceria, mas que nesta narrativa ficou um tanto corrido, culpa, claro, do limite de 3 mil palavras.

    Contudo, apesar dessa questão interessante, fiquei frustrado com a ausência de Suzana na segunda parte, justo ela que, a meu ver, tornou o conto tão instigante lá no início. Entendo a opção do autor em focar o desenvolvimento na ação, mas acho que ainda assim faltou o gancho com o início.

    De todo modo, está muito bem escrito e, como dito no início, com passagens excelentes. Mas creio que poderia ter sido dado maior enfoque na relação entre o narrador e Suzana.

  22. Eduardo Selga
    29 de novembro de 2016

    Escrever literatura não é o mesmo que operar uma máquina: além de técnica, é preciso o engenho, sem o que a habilidade ferramental perde força. É como um habilidoso pintor de paredes que, diante de uma casa imensa, não obstante o proprietário tê-lo autorizado a pintar cada cômodo de uma cor, usa apenas o azul celeste e suas variantes tonais.

    Está evidente bom domínio técnico do(a) autor(a), desde o parágrafo inicial, quanto aos aspectos gramaticais, e razoável quanto aos outros. Apesar disso, o conto é o roteiro de filmes centrados na ação, com a diferença que, ao invés de se passar nas ruas de Nova York, ou em alguma nação umbilicalmente corrupta da América do Sul, ocorre na Noruega, que aos olhos do imaginário ocidental tem carga dramática neutra. Para não fugir ao tema, introduziu-se “[…]um dirigível LZ-129, um colosso de madeira […]” e depois um lugar onde “tudo se movimentava e girava e soltava fumaça branca por canos e pistões, o tempo todo”. Contudo, lá está, no enredo, a troca de tiros com alguém muito rápido no gatilho e hábil no manuseio de arma branca, além de paixão à primeira vista do homem bem postado socialmente pela mulher socialmente humilde, inclusive com uma recitação de versos de Pessoa que, assim entendo, soou patético. Não para o personagem (é coerente com a “paixão à primeira vista”), mas para a harmonia textual.

    A personagem Suzana também apresenta um comportamento estranho. A ingenuidade, o ar infantil com que atende o protagonista, a ponto de quase chorar de emoção ao ouvir a poesia, não combina em nada com a expressão de mulher experiente, demonstrada logo depois, quando na varanda da aeronave, onde ela corta as pretensões do protagonista com certa elegância (“tens ideia de quantos passageiros, com cartolas de três salários e maletas misteriosas, vêm nos procurar em noites aprazíveis como esta, senhor?”).

    Esse descompasso talvez se explicasse se a inocência fosse dissimulação, um dos clichês que frequentemente circundam personagens femininas. Mas com que objetivo? Suzana não reaparece ao longo do conto para explicar isso. E se Zulmira, a salvadora do protagonista, fosse, na verdade, a aeromoça? Pouco provável, pois ela aparece vestida de preto, mas não era impossível enxergar-lhe o rosto. Esse aspecto antagônico da personagem pode render mais.

    Obs: pode ser apenas implicância minha, mas percebi que o título do conto (“Sozinho no fim do mundo, eu Chorei lágrimas de vapor”), por sua estrutura sintática, guarda similaridade rítmica com o livro de Paulo Coelho “Na margem do Rio Pedra eu sentei e chorei”. É algum pecado? Não, apenas uma curiosidade inútil.

    Coesão textual: não encontrei nenhum erro.

    Coerência narrativa: há lacunas comprometedoras.

    Personagens: razoáveis, embora potencialmente bons. Esquemáticos demais, principalmente Suzana e Zulmira.

    Enredo: tive a sensação de que a estória não foi contada por completo e que essa incompletude não foi proposital, porque não há efeito estético. Além disso, a roteirizarão atrapalhou.

    Linguagem: boa, de um modo geral, mas a linguagem de Suzana, que segue dois caminhos paralelos, não foi explicada.

  23. Waldo Gomes
    29 de novembro de 2016

    bem escrito, envolvente a trama, não gostei da sonseira da portuguesinha, ficou estranho e nem do final.

    Bom conto.

  24. Pedro Teixeira
    29 de novembro de 2016

    Um belo conto, que tem uma “aura” steampunk muito bacana, combinada à história alternativa. A ideia é inspiradora. Está muito bem escrito, fluente, é divertido e faz pensar. De pontos negativos, só senti alguma pressa em certas passagens, como na da exposição do protagonista à Steam, a luta no beco e o final, parecendo que tudo ficaria ainda melhor numa narrativa mais longa, como uma novela, que explorasse com mais detalhes esses momentos.

  25. Catarina
    28 de novembro de 2016

    Trama cinematográfica graças ao talentoso argumento e domínio da ação. Eu teria terminado o conto com a charmosa frase: “O resto foi um borrão.”, mas como não é meu preferi apenas diminuir a nota por causa dessa explicação final desnecessária. Já sabíamos que ele tinha feito a escolha errada. Pena.

  26. Marco Aurélio Saraiva
    28 de novembro de 2016

    Textos assim são sempre um deleite. A sua escrita é tão boa que fica difícil fazer uma crítica neutra. Desde os trejeitos portugueses de Suzana até as descrições primorosas de mecanismos “Steampunk” e de diferentes sotaques, esta foi a melhor escrita que eu vi no certame até agora. Sem falhas, com leitura fluida e cristalina, ao mesmo tempo bela e artística. Parabéns!

    O enredo também é muito bom. A ambientação foi perfeita, daquelas que me fez pensar “como diabos eu não coloquei isso no meu conto?”. O Steampunk estava em cada esquina que o personagem principal cruzava; no ar que ele respirava; nas pessoas que ele conhecia; até mesmo na forma que ele organizava os seus pensamentos. Não houve grande aprofundamento em nenhum personagem, mas ao mesmo tempo todos os personagens foram muito bem definidos. Suzana e Zulmira são presenças marcantes.

    O conto conseguiu contar a história sem parecer apressado. O enredo não tem um impacto grande, mas você compensou isso com uma história interessante do início ao fim, realista, muito bem ambientada e gostosa de ler.

    Parabéns!

    • Marco Aurélio Saraiva
      28 de novembro de 2016

      Ah! E a passagem que mais marcou o conto para mim foi a seguinte:

      “Pouco à frente, estavam as prostitutas, encostadas em uma cerca com extensão de autoestrada, com vestidos rendados, coletes, sombrinhas, espartilhos, chapéus e uma miríade de acessórios, de todas as cores, para todos os gostos, com coxas para fora e seios explodindo nos decotes, numa promessa velada de horas de prazer selvagem e gonorreia.”

      Por incrível que pareça, acho que essa passagem, além de muito bem trabalhada, serviu bem pra ambientar o conto.

  27. Rubem Cabral
    28 de novembro de 2016

    Olá, Otto.

    Gostei do conto. Havia inicialmente pensado que o autor fosse português, mas mudei de ideia. A ambientação é bem-feita, a escrita é muito boa, com algumas metáforas bonitas. O enredo ficou meio apertado para três mil palavras, mas até que deu conta do “recado”.

    Oslo ficou muito interessante como capital do mundo. Lembrou-me um conto que eu mesmo escrevi, mas a minha capital era Reiquiavique. O personagem principal segue aquela linha de aventureiro meio cafajeste, o que combina com o estilo steampunk.

    Legal também essa coisa de incluir steam e dieselpunk no mesmo texto!

    Uma observação: acho que uma portuguesa muito dificilmente usaria a expressão “gajo” ao tratar um estranho. É muito informal e tem significados ofensivos também.

    Nota: 9.

  28. Bruna Francielle
    27 de novembro de 2016

    Tema: abordado de forma original; a substituição de uma forma de energia por outra; uma ambientação “low life” rápida e curta; e um embate rápido com uma corporação.

    Eu gostei bastante do conto.
    Destaco que não houve nenhuma cena desnecessária;
    Apresenta leitura fluida; Personagem bem montado, tendo 2 tramas principais: a história de amor e os almejos profissionais, ambas fecharam muito bem no final, sem pontas soltas.
    Também gostei bastante da inclusão de uma muçulmana, inclusive dizendo “infiel”, risos. E o detalhe sobre os países árabes ricos em petróleo. Não é um tema que se vê muito.
    Outro ponto forte, é a presença de certo humor no conto, na dose certa.
    Sem nada de negativo para citar.

  29. Priscila Pereira
    27 de novembro de 2016

    Oi Otto, muito bom o seu conto. Me lembrou os filmes do Jackie Chan…kkk Muito interessante e movimentado. Gostei dos personagens e do modo que tudo foi se desenvolvendo. Muito boa a sua ideia e muito bom o modo como você escreveu. Parabéns!!

  30. Dävïd Msf
    27 de novembro de 2016

    Sozinho no Fim do Mundo eu chorei Lágrimas de Vapor (Otto): Nota 6.0

  31. Zé Ronaldo
    26 de novembro de 2016

    Gostei das personagens, bem trabalhadas, bem definidas. Interessante a personagem de sotaque lusitano, bem sacado.
    O tema é bem bacana também, algo inusitado, bem interessante.
    Contudo, achei que se usou muita parte do texto para a introdução e para um desenvolvimento um pouco precário e se finalizou abruptamente. Sabe quando adolescente começa a escrever uma história e perde muito tempo no início e bate aquela preguiça e ele resolve terminar porque não quer mais escrever? (É só uma comparação, não estou dizendo que você escreve como adolescente, não é isso).
    Apesar de abrupto, gostei de como se deu o desfecho, foi bem engenhoso.

  32. Anorkinda Neide
    26 de novembro de 2016

    Olá, encontrei uma historia completa aqui, facilmente entendível, isto é um ponto bem grande para mim… hehe e sabrinesca.. uia! 🙂
    acho q poderia ser mais depressiva, acho q era esse o mote destes temas x-punk..mas o resumao final apontou para isto, mas ficou corrido, o limite apertou?
    é um bom conto, o autor fez um bom trabalho aqui. parabéns

  33. angst447
    24 de novembro de 2016

    Olá, autor.
    Não me deterei no quesito adequação ao tema do desafio, pois não me considero capacitada para avaliar este pormenor.
    E temos aqui, diria um conto sabrinesco-punk, se eu fosse nomear o seu texto. Início dá-se em uma viagem aprazível em um dirigível – ai que medo – lembrei daquele documentário O dirigível HIndenburg.
    O título me fez pensar logo naquele livro do Paulo Coelho – Na Margem do rio Piedra, eu sentei e chorei. – título longo, um tantinho melodramática.
    O nome Suzana e as piadinhas/cantadas do gajo reativaram minha memória musical – das primeiras aulas de piano – Oh, Suzana, não chores mais por mim. Gostei da imagem de lágrimas de vapor.
    A escolha por um enredo mais water-and-sugar foi bem arriscada. Mesmo temperando com um pouco de humor e ação, a trama perdeu a força e o sabor ácido que eu apreciaria mais. Uma questão de gosto, claro.
    A parte que se passa em Oslo achei mais arrastada, e tive de voltar para entender que tipo de negócio estava rolando ali. Os diálogos evitaram maiores entraves.
    Não encontrei falhas de revisão, a não ser pela palavra húmido (válido na norma europeia do português) > eu usaria úmido, já que o resto da narrativa segue o Português do Brasil. Se foi o caso de adequar a linguagem à fala da personagem lusitana, não vi muito sentido nisso. h
    Boa sorte!

  34. Zé Ronaldo
    24 de novembro de 2016

    Maravilhoso. SteamPunk de primeira!

  35. Micro Estória (Admin)
    21 de novembro de 2016

    TREM (Temática, Reação, Estrutura, Maneirismos)
    T: Steampunk mais intimista, com toques sutis aqui e ali, focado mais no personagem principal. O cenário, fácil de ser assimilado, foi um ponto bastante positivo. – 9,0
    R: Um texto em estilo relato nos deixa mais próximos do protagonista, mas a supressão de algumas passagens torna o texto um risco. Neste caso, as lacunas conseguem se preencher sozinhas, através das sugestões e diálogos, o que foi muito bom. Toda a atmosfera vitoriana está bem presente. No entanto, apesar de entender o que ia acontecer, achei o final um pouco exagerado. Seria melhor se deixasse apenas como sugestão o que o futuro traria após sua descoberta (como você fez em outras passagens). – 8,5
    E: O texto possui três eventos bastante distintos, mas com uma quebra de tempo suave. A história é interessante e intriga pelo suspense, deixando o leitor curioso no processo. Entretanto, pareceu começar no “meio” (mas compreendo que o autor preferiu iniciar direto na ação) e terminou com um final abrupto. – 8,0
    M: Nota-se a escrita portuguesa por alguns detalhes (como o “c” em certas palavras) e algumas gírias de lá. Gostei das metáforas e eufemismos, bem como a alusão à famosa cantiga “Ó Suzana, não chores por mim”. É uma escrita tranquila, suave, sem travamentos, mesmo com o sotaque empregado algumas vezes. – 8,5
    [8,5]

    • Brian Oliveira Lancaster
      21 de novembro de 2016

      Por distração, estava logado com outro usuário, mas o comentário acima é de “Brian Oliveira Lancaster”.

  36. Fheluany Nogueira
    20 de novembro de 2016

    Uma narrativa bastante interessante, que fugiu da TRAMA futurista para apresentar a transição da era do vapor para a do petróleo, ainda com uma dose de romance e de ação com a luta pelos recursos tecnológicos do novo poder. O personagem central foi bem construído e, no desfecho ficou bem evidente a sua melancolia pelo mundo do passado, em uma bonita frase de efeito. O texto está bem escrito, oferecendo LEITURA fluida e agradável; o título é sugestivo. É um dos contos de que mais gostei até agora. Parabéns! Abraços.

  37. Tatiane Mara
    20 de novembro de 2016

    Narrativa muito boa, envolvente. A estória vem crescendo de forma suave, gostei muito. A aeromoça me pareceu meio caricata, talvez em função do sotaque, não sei se era pra ser uma brincadeira, se não, me desculpe o autor.

    As cenas são bem descritas, inclusive as de ação, é um conto parecido com o meu, sem apresentar muito a decadência do personagem, aliás, não tinha nenhuma nesse caso.

    É isso.

  38. olisomar pires
    18 de novembro de 2016

    Mas que belo conto. Divertido, leve, fluido, muito bom mesmo. Obviamente, essa é minha impressão após a primeira leitura. Lerei novamente para confirmar. A trama é bem trabalhada e quando se pensa que não vai dar em nada, surge a ação. Os pontos foram conectados solidamente. Uma organização substituindo a outra, parece ter faltado apenas o elemento “punk”, mas é um bom texto. Parabéns.

  39. Evandro Furtado
    18 de novembro de 2016

    Gênero – Good

    Cheios de elementos particulares, o texto faz bem a transição steampunk-oilpunk. Creio que seja o primeiro, até agora, a ousar algo dessa natureza.

    Narrativa – Good

    A narrativa em primeira pessoa é bem intessante, apesar de não usar todos os recursos possíveis. O destaque maior vai para a primeira parte, onde os diálogos têm uma força interessante.

    Personagens – Good

    Se o texto se resumisse ao narrador, à Suzana e à relação entre ambos, alcançaria a perfeição. O restante dos personagens não trazem grandes contribuições, apesar de não serem preponderantes ao conto.

    Trama – Average

    A parte que se detém sobre o romance é fantástica, muito bem desenvolvida e causa comoção. Quando avança para a politicagem, perde força. Fica aquela vontade de ver o que aconteceria entre o narrador e Suzana, e acho que teríamos uma história muito mais interessante se o autor se detesse na relação, considerando o excelente desenvolvimento alcançado quando o fez.

    Balanceamento – Average

    Um conto excelente ao retratar o romance entre uma aeromoça e um passageiro que depois se perde em alguma coisa esquecível.

    Resultado Final – Average

  40. Evelyn Postali
    18 de novembro de 2016

    Oi, Otto,
    Eu gostei muito do seu conto. Gostei de seu personagem e de como conduziu a história. A primeira parte me encantou. Essa coisa de dirigível, do encontro dos dois. E, o conto está bem equilibrado. Gosto da mistura de narração com diálogos. Nem um, nem outro, em excesso. É uma história dramática, com final não muito feliz, não é? Mas eu gosto de finais adequados, que não pareçam forçados; sem muita água com açúcar ou que me lave em lágrimas, gastando, assim, os meus lenços da caixa.
    Parabéns ao autor.

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Publicado às 17 de novembro de 2016 por em X-Punk e marcado .