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Detox Literário.

Achados e Perdidos – Oliver Jeffers – Resenha (Gustavo Araujo)

Daniel Pereira

Preciso confessar: sou um sujeito apegado a tradições. Quando se trata de filhos e literatura, isso se traduz no hábito de ler para as meninas ao colocá-las para dormir. Normalmente, elas mesmas escolhem os livros, mas depois de tanto tempo, ambas já conhecem minhas preferências – denunciada, talvez, pelo entusiasmo empregado na leitura.

Invariavelmente, quando querem me agradar, puxam da estante um livrinho chamado “Achados e Perdidos”, do escritor norte-irlandês Oliver Jeffers. Não consigo evitar um sorriso. Elas sabem o quanto eu gosto da história, mesmo já tendo lido dezenas de vezes.

Em uma pequena vila litorânea, um pinguim bate à porta da casa em que vive um menino. Surpreso com a visita inusitada, o garoto imagina que a pequena ave está perdida e resolve ajudá-la a encontrar o lugar de onde veio. A procura os leva a diferentes lugares no vilarejo, sem resultados. “Os pinguins vêm do Pólo Sul”, descobre o garotinho ao ler um livro. É o que basta para que ele decida arrumar um pequeno bote e levar a ave até lá. Juntos, então, empreendem uma viagem pelos mares bravios e tempestuosos, contando histórias um para o outro. Até que chegam ao Pólo Sul e precisam se separar.

Sim, é uma história que se conta para crianças, mas que tem a qualidade de transmitir uma poderosa mensagem para os adultos também. O conceito de amizade independe de quantos anos se tem – cinco, quinze ou setenta. Todos temos a capacidade de compreender o que significa ter um amigo e quais as consequências de vê-lo partir.

Ao ler “Achados e Perdidos”, as crianças torcem para que o menino e o pinguim cheguem ao final da história juntos. A amizade, nessa fase da vida, é permeada por uma inocência maravilhosa. Encontrar um amigo é o mesmo que achar um presente, especialmente porque não se exige nada em troca, inexistem interesses secundários, apenas a simples vontade de estar juntos e descobrir coisas novas. Amizade pela amizade em seu sentido mais autêntico.

Ao ler “Achados e Perdidos”, um adulto passa pela estranha sensação de que algo se perdeu em algum ponto da adolescência. Não, não deixamos de ter a capacidade de fazer amigos, inclusive bons amigos, mas parece impossível não se indagar se isso, na verdade, não se trata de forjar alianças para atingirmos objetivos em comum, em vez da união descompromissada que experimentamos na infância.

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De fato, um garotinho que encontrasse um pinguim perdido faria de tudo para ajudá-lo sem esperar nada em troca. Um adulto dificilmente teria esse comportamento. É essa sensação que o livro de Oliver Jeffers desperta em quem deixou de ser criança há muito tempo, uma certa amargura por perceber que diversos anos se passaram desde que pudéssemos chamar alguém para ser nossos amigos sem qualquer receio.

Mas, então, por que gosto desse livro se a sensação trazida por ele é de certa agonia? Bem, primeiro é porque isso me faz perceber que tive a sorte de formar amigos de verdade quando criança – amizades que trago comigo ainda hoje. Só que mais importante que isso, é porque tenho a chance de presenciar minhas filhas no exato momento em constroem suas amizades mais verdadeiras.

Elas, certamente, acompanhariam o pinguim até o Pólo Sul. Eu, como adulto, o faria também – só que por elas, e não necessariamente pela ave.

Um livro maravilhoso, com ilustrações que fazem jus à mensagem passada. E, se isso não fosse suficiente, há também uma animação fantástica baseada livro. Emprestando meio verso de Pessoa, garanto: “tudo vale a pena.”

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3 comentários em “Achados e Perdidos – Oliver Jeffers – Resenha (Gustavo Araujo)

  1. Claudia Roberta Angst
    7 de setembro de 2016

    Também quero acompanhar o pinguim até o Polo Sul. Não li ainda este livro, mas a sua resenha me encantou. Queremos mais pinguins e amigos, menos polos antagônicos!

  2. Iolandinha Pinheiro
    4 de setembro de 2016

    Lendo a sua resenha a gente sente vontade de ler o livro indicado. Pena que me filho cresceu, quisera ainda tivesse dois anos e poder carregá-lo em meus braços.

  3. Fabio Baptista
    4 de setembro de 2016

    Resenha para o canal! (A moda agora é ser Youtuber! :D)

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Publicado às 3 de setembro de 2016 por em Resenhas e marcado , , .