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Detox Literário.

Life Goes On – Conto (João Gabriel)

chic blue

João nasceu na periferia de São Paulo, sobreviveu as custas, tinha uma mãe que morreu de overdose de cocaína, era uma vez um irmão que levou três tiros no rosto porque não pagou o Carioca.

Com dezesseis estava espatifado e jogado no mundo igual uma porra espichada na barriga. Começou a fazer alguns corres com a bandidagem da periferia, levava marmita para traficante, que pelo menos dava mais dinheiro que levar marmita para os torneiros mecânicos. Estava ali, epichado, seu único pensamento de futuro era evoluir de entregador de marmita para fogueteiro e assim por diante, até chegar em uma cova não cavada por ele e sim pela situação. Seu delírio de diversão era sentar em uma calçada e fumar maconha com outros entregadores, as vezes subia e dançava no baile funk, ele odiava o baile funk, ia só para olhar e trepar com as cocotas de treze anos que rebolavam grávidas feito uma mola flácida e rebitada no cio.

Sua visão do mundo era descer o morro, pegar as marmitas e subir. Seus melhores amigos eram a solidão e o sentimento de desespero constante. Naquela situação você não tem amigos, naquela situação os seus amigos te trocam por um punhado de pó e uma Glock roubada da polícia militar. Pensou em suicídio diversas vezes, tentou apenas uma, com uma lata pela metade de Detefon espirrava feito louco guela abaixo, só conseguiu um mal-estar de três dias. No alto do morro em um barraco não chega wifi para pesquisar novas maneiras de suicídio.

Estava cansado daquela vida de miserável 2.0, o que ganhava não dava para se alimentar direito e com os tempos tinha que comprar a própria maconha que subia de preço a cada dia. Escutava algumas histórias de pessoas que saíram da favela a procura de um pote de moedas na descida do morro e o acharam.

Desceu aquele morro com cinquenta reais que sobrou do seu último salário, cem que os traficantes lhe deram para comprar as marmitas e alguns trapos na mochila. Ao cruzar a rua que se encontra com a avenida não tem mais volta, se os traficantes vissem aquele rosto marcado pelo sofrimento novamente iriam encher ele de bala, bandido armado e com fome é um perigo.

Sem lugar para dormir acabou aderindo o viaduto como seu cobertor, teto e segurança. O dinheiro contado deu para passar algumas semanas passando fome, comendo as marmitas e de vez em quando entornando uma barrigudinha, a camiseta do Corinthias que sua mãe usava quando começou a tremer na cama até ela quebrar já estava toda escura e cheia de furo, assim como o resto de suas roupas.

–– O que um jovem forte e com saúde como você está fazendo de baixo desse viaduto? Você devia estar trabalhando. Se eu tivesse essa estrutura sua eu estaria com minha família vivendo bem em perdizes…– dizia um velho esclerosado com artrose nos dedos das mãos e dos pés.

–– Porra nenhuma, não tem trabalho nem pa quem tem currículo, diploma e os caraio, imagina pra mim.

–– Você pelo menos pode andar, mudar de ‘’casa’’ se começar a chover, olha pra mim, só me resta uma barriguda e esses barulho constante de carro.

O velho rolava pra cima do seu skate todo decadente e com seus dedinhos entrevados começa a remar para o outro lado do viaduto.

João sabia que por um lado aquele velho estava certo, não tinha completado nem dezoito, estava saudável e podia arrumar um emprego de descarregador fácil, mas também sabia que estava se acostumando aquela vida e estava gostando. O velho se entrevou para o lado errado e caiu em uma espécie de ladeira, desceu igual um pigmeu encolhido e lá de cima ia vindo um carro a cem por hora, passou por cima do velho esclerosado como se fosse um rolo compressor de pigmeus. Olhando para João com os olhos esbugalhados e uma posição macabra o velho não vai precisar se preocupar mais com o barulho dos carros. Vida que segue.

João se masturba para a loira e suas amigas que voltam da balada bêbada com as suas bundas rebitadas e saias curtas, sentia falta das bucetas novinhas do morro, de ter o seu pinto esfregado e aconchegado dentro de uma vagina e as vezes com a ponta manchada de bosta quando ela deixava ele colocar no cu. Na rua podia transar com a maioria das mendigas que estavam na seca de uma pica jovial e da energia de um menino de dezessete, porém, não tinha achado nenhuma atraente o suficiente para fazer seu pau subir, diziam que as mendigas mais bonitas viviam em Florianópolis, se contentava na punheta.

Sem dinheiro e com fome nosso personagem caminha pelos fundos de restaurantes e bares atrás de alguma comida podre no lixo, as vezes no cardápio tinha um peixe coberto por fungo, as vezes uma fruta podre para balancear a dieta e praticamente ganhava na loteria quando achava uma marmita completa que fora jogado fora porque ali transavam baratas, ratos e vermes. João se sentia um verme, um inseto, um não desejável, então não teria problema fazer parte daquela orgia.

Enquanto via as opções do dia atrás de um restaurante aparece uma mulher com aparência jovial e com as mesmas marcas do rosto que João, metade do seu mamilo estava aparecendo, seus trapos não serviriam nem para alguém limpar o pau porque teria chance de se contaminar.

–– Ei moleque, essa lixeira é minha – dizia a mulher.

–– Porra nenhuma, cheguei aqui primeiro. Sai fora você.

–– Não vai sair não?

A mulher empurra João que dá uns passos para trás, ela pega o saco de lixo e começa a procurar feito uma cadela louca e esfomeada atrás de comida, João também como vira lata sedento puxa o lixo dela e os dois ficam em uma disputa de força até que o lixo se rasga e os restos caem no chão. Ambos pulam no chão e devoram os restos como selvagens. Uma família passa e olha aquela cena, a filha retira o seu iPhone e tira uma foto e vão embora. Não tinha sobrado nada, no final, ninguém comeu nada mais que muco de qualquer coisa. A fome e o desespero transformam todos em pequenos abutres selvagens.

–– Qual o seu nome? – perguntava João.

–– Rafaela.

–– Rafaela é um nome bonito.

–– Obrigado. Eu nunca te vi por aqui.

–– To caçando uns lugares novos para comer.

–– Esse você sabe que já tem dona. Mas vou deixar passar porque é meio bonitinho.

–– Olha Rafaela, você quer trepar?

João seguiu com Rafaela até um edifício invadido por bolivianos e alguns cracudos e também oque Rafaela chamava de lar doce lar. A cada degrau subido tinha–se a sensação de que aquilo iria cair a qualquer momento, mas para aqueles que estão ali aquilo seria uma espécie de alívio. O quarto de Rafaela era se um viaduto sujo e decadente trepasse com parte da cracolandia e saísse um bebe, aquele era o quarto, tudo isso com um colchonete no meio. Ambos deitaram no colchão alucinados, um na pressa e fúria por estar em uma seca desastrosa e a outra pela falta de uma transa por querer, uma chupada com prazer, não por alguns trocados atrás do bar ou dentro de um carro. Os dois fediam e não se importavam, aquele cheiro de urina, pica mal lavada e buceta azeda os deixavam mais excitados. Exaustos apagavam.

Em um andar a baixo começam uma cantoria de músicas bolivianas, com direito a flauta e tudo. Parado observando aquelas pessoas cantarem e parecerem tão alegres dava uma pequena esperança em sua vida, talvez iria começar a trabalhar, se juntar com Rafaela e comprar uma casa na favela, talvez ter filhos e depois morrer. Saia do edifício disposto da trabalhar e cheio de esperança, quando João vira a esquina escuta um estrondo gigantesco de fundo, de repente uma onda de poeira toma conta da sua visão, chega mais perto para averiguar e percebe que é o edifício que estava alguns segundos atrás. No meio de um dos escombros se vê uma viola, muito sangue e a cabeça que ainda expressava alegria daquele boliviano cantante. Vida que segue.

Enquanto procurava comida em frente um bar João foi chamado para uma roda de samba. Tocavam de clássicos até os atuais. João já tinha escutado algumas das canções e sabia até cantar. No meio tomou cerveja e comeu uma carne assada pela terceira vez em sua vida. Saudosa maloca, maloca querida… João estava se sentindo bem, por alguns minutos enquanto cantava parecia ter se esquecido de tudo, como os soldados que cantavam na guerra para esquecer que a qualquer momento pode levar um tiro e é aquilo, como os escravos na lavoura cantavam e agora cantam os negros de Missippi, o perdedor, aquele que a vida bateu forte e a sua única forma de esquecer é com um trago e uma boa canção na garganta, assim se sentia nosso personagem.

Em meio a cantoria apareceu um conhecido de João, era um traficante, seu amigo tinha sido morto no dia em que João abandonou a favela, dizia que não estava conseguindo trocar tico com a polícia por causa da tremedeira da fome e todos culparam o cara da marmita. Sacou um trinta e oito e descarregou o pente na cabeça e no torso de João no meio de todo mundo. João caia todo perfurado, sangrando até pelo cu.

Vida que segue…

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Informação

Publicado às 25 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .