EntreContos

Literatura que desafia.

Enquanto a chuva caía – Conto (Artur Sarmento)

As lágrimas se misturavam ás gotas de chuva que caíam da pesada e enorme nuvem negra que se movia lentamente. Juntas, lágrim­a e gota escorriam para os becos e frestas. Ninguém se aventurava a sair de casa debaixo de tão cruel tempestade.

Ninguém, menos uma menininha. Menos uma menininha que acabara de perder seu chão.

Ela corria pela ruela estreita e vazia, as lágrimas jorrando de seus olhos, a dor pesando em seu coração, sem um rumo certo a seguir. Só queria correr. Correr e chorar. Correr para longe daquele pesadelo.

Um raio iluminou a noite. A chuva engrossou como se ajudasse a menina a ficar mais melancólica ainda. Mas ela não lhe deu atenção.

Tinha chegado á uma pequena ponte de pedra, construída em cima de um rio que era selvagem desde sempre. Enormes pedras chatas se amontoavam de um lado do rio, que resistiam á água que jorrava sem piedade. A menina se inclinou, olhando aquele ser azul e indomado, desejando ser como ele, forte para aguentar as perdas. Inclinou-se, e inclinou-se… A última coisa que se pôde ouvir foi um grito, e o som de um corpo batendo nas pedras.

_ Foi um milagre ter sobrevivido. No entanto, o baque contra as pedras afetou a memória dela. Temo que não vá se lembrar de nada.

_ Nenhuma coisa?

_ Nenhuma.

_ Fiquem quietos… Ela está acordando.

A menina abriu os olhos vagarosamente, com medo do que veria. Mas a única coisa que havia era um teto branco. Um homem a observava. Devia estar na faixa dos cinquenta. Possuía barba e bigode marrom, olhos verdes, e traços fortes. No entanto, sua aparência em si levava um espírito leve, não condizente com suas feições. Seu rosto sustentava um sorriso branco, e ele usava uma touca branca para cobrir a cabeça. A garota não podia ver direito, mas ele também usava vestes brancas.

_ Tudo bem com você?

A garota não se sentia tentada a falar alguma coisa, então simplesmente acenou com a cabeça.

_Eh, você se lembra de alguma coisa?_ uma voz feminina perguntou.

_ Lina!!!_ outra voz, também feminina, repreendeu a primeira.

_ Me desculpe… Mas…_ continuou a primeira voz.

_ Fiquem quietos!_ ralhou o homem no campo de visão da menina. Ele tornou a olhá-la_ Consegue se levantar?

A garota acenou novamente com a cabeça, e, apoiada pelo homem, se levantou lentamente. Estava num quarto pequeno, todo branco. Uma mesinha ao lado da cama se erguia única, de cor marrom, diferindo do resto do cômodo. Não havia muita coisa mais. Um ventilador, uma janela com persianas. Tudo branco. Parecia até… Um hospital. Duas mulheres olhavam para ela. Uma era alta, morena, de cabelos cacheados e olhos castanhos que olhavam sérios. Devia ser a mais velha, acima de quarenta anos, segundo sua aparência. No entanto, não levava o espírito daqueles que chegavam perto do meio da vida. A outra era mais baixa, mas igualmente alta aos olhos de uma criança. Seus olhos verde-escuros faiscavam de ansiedade como se fosse ainda uma menininha esperando a hora de abrir os presentes no natal. Seus cabelos loiros estavam amarrados em um rabo de cavalo. As duas se vestiam casualmente, camiseta e calça jeans, mas pareciam estar em alguma missão ou coisa parecida.

A menina estremeceu, e tomou coragem para fazer uma pergunta:

_ Onde estou?

_ Está no hospital, minha querida._ disse o homem, afavelmente_ você sofreu um acidente, caiu de cabeça nas pedras. Lembra-se disso?

A menina olhou para ele.

_ Pedras? Acidente?_ Tornou a olhar o vazio, procurando lembranças que não estavam lá. Como não achou nada, sua resposta mais natural foi dizer:

_ Não me lembro disso.

O homem trocou olhares com a mulher mais velha, mas esta não se manifestou.

_ Quero sair daqui._ disse a menina, com uma vozinha fraca, quase soluçante. Havia algo… Pesado no ar. Isso a assustava.

_ Você vai sair daqui a pouco, sim? Só tenho que fazer alguns testes para ver se está tudo bem mesmo. Se passar, você vai para casa. Tudo bem?_ o homem tentava falar amigavelmente, mas a menina estava prestando atenção na mulher, que arregalou os olhos quando ele disse “casa”.

Havia algo errado com aquela palavra tão comum, acabou concluindo a garota, e se afastou do homem branco, indo para o outro lado da cama. O homem resolveu mudar de estratégia. Puxou do bolso um enorme pirulito laranja, embrulhado com uma embalagem colorida.

_ Eu te dou um pirulito depois.

O daqui a pouco do homem amistoso demorou algumas longas e tediosas semanas para a menina, mas num dia frio e particularmente triste, ela cruzou a porta do hospital rumo ao mundo lá fora, acompanhada das duas mulheres. Um carro preto as esperava. Elas entraram. A mais velha foi ao volante, e a mais nova foi junto com a garota no banco traseiro.

O motor ligou com um gemido alto, e começou a roncar. Era um carro velho. Muito velho. Enquanto andavam pelas ruas abarrotadas de pessoas, a menina espremia o rosto contra a janela fria, como se visse tudo pela primeira vez. O que era quase verdade. Passaram por parques, avenidas, lojas, ruas… Tanto que, depois, a garota não conseguiu lembrar-se com exatidão do caminho, por mais que tentasse.

Enfim, pararam em frente á um velho casarão, protegido por uma cerca de ferro que á muito tempo começara a enferrujar. O casarão em si não tinha cor. A tinta tinha descascado até que nada sobrasse. Havia um parquinho na parte da frente, mas os brinquedos pareciam quebrados, e a grama alta podia esconder animais perigosos. Somente uma única trilha, feita pelos pés daqueles que antes passaram, parecia segura. A mulher mais velha saiu do carro e levantou o banco para que a menina saísse. Em seguida foi a mais nova. Juntas, elas passaram pela cerca de ferro quase caída, e seguiram pela trilha, até chegarem em frente ao casarão.

_ Tomamos a liberdade de trazermos suas coisas._ disse a mulher mais nova. Logo depois disso, a mais velha pisou em seu pé. A mais nova protestou, até que olhou nos olhos da outra, e voltou o rosto para o chão.

_ Que lugar é esse? Eu não moro aqui._ a menina exclamou_ Eu não moro aqui! Quem são vocês?_ ela começou a se afastar da dupla. Começara a ficar com medo_ Onde estão meus pais?

A mais velha se precipitou a acalmá-la:

_ Não é nada, meu bem. Seus pais foram viajar e pediram para que eu cuidasse de você.

_ Meus… Pais?

A menina vasculhou a memória, tentando em vão procurar alguma coisa que dissesse quem  eram seus pais. Mas sua memória estava vazia. Como se tivesse acabado de nascer. Isso a assustou.

Foi então que a porta do casarão se abriu atrás dela. Ela se virou. Uma terceira mulher, mais velha ainda que as outras duas, estava parada, a observar a menina. Devia ter mais que oitenta anos, e usava um vestido amarelo florido. Usava óculos, e precisava se sustentar com uma bengala, tão velha quanto a sua dona.

_ Bom dia, menininha._ disse a senhora.

_ Bom dia._ respondeu a menina, se aproximando.

_ Entre. Temos biscoitos._ a senhora se virou e entrou. A menina a seguiu. O primeiro cômodo era uma sala, de paredes vermelhas, a tinta já descascando. A velha seguiu por uma das quatro portas que ali havia. Ela dava em um corredor longo e escuro, e logo a menina ficou com medo. Pensou em voltar e parou. Logo sentiu algo trombar com seu corpo. Era a mulher mais nova.

_ Vamos, já estamos quase chegando._ ela encorajou a garota, e esta – continuou andando. O corredor dava em um enorme salão, repleto de mesas e bancos. Estava vazio. Havia uma mesa de metal num canto, e lá estavam os prometidos biscoitos. A senhora foi até lá, e a garotinha a seguiu. Se ela tivesse prestado mais atenção no ambiente ao seu redor, teria visto que as paredes não tinham cor, a não ser por alguns pontos de sujeira, mais fortes nos cantos do salão, Que as mesas estavam velhas de mais e que as pernas dos bancos contínuos apodreciam. Ela também não notou as vigas de madeira que sustentavam o teto, carcomidas e podres, ou a única e grandiosa janela, uma parte do vidro quebrada, por onde entrava uma fria brisa. Não notou a mancha de sangue, pequena, mas visível, na qual pôs seu pé, em frente à mesa de metal. Não notou várias coisas. Não sei se era porque não queria notar, ou porque estava concentrada nos biscoitos que se alinhavam, ordenadamente, em uma travessa de ferro.

Os biscoitos tinham acabado de sair do forno, deles saía uma fumaça, e exalavam um cheiro de chocolate. A senhora ofereceu um á menina, e esta o pegou com avidez no olhar. Não se lembrava de qual fora a última vez que comera um biscoito… Foi então que parou para pensar… E retomou o assunto que discutia mentalmente com si mesma. Lembranças. Não se lembrava de nada. Pelo menos achava que não. Por que estava ali mesmo?

A menina pensou em externar essa pergunta, mas o medo da resposta a impediu. Virou o rosto para a janela, e a luz morta do sol, encoberto pelas nuvens, iluminou seu rosto. E então se sentiu triste. A tristeza se externou e uma única lágrima caiu no piso frio e sujo. Sentia-se triste por alguma coisa, mas não lembrava o que era, e isso a entristecia mais ainda. Começou a chorar desesperadamente, de tal forma que, (acho) as três mulheres concluíram que a menina era um pouco louca.

Mas aquela era a tristeza de não se lembrar. Quem nunca passou por isso, não sabe o que é. De qualquer maneira, aquele era o choro dos que esqueceram. E ele durou vários minutos. Minutos nos quais as três mulheres levaram a menina para um dos quartos. E lá ela chorou até finalmente dormir.

Uma última coisa que ela não notou quando chegou foi a velha placa, acima da cerca e fixada na fachada do casarão, ambas com os mesmos dizeres:

 

ORFANATO DAS GRAÇAS DE SANTO AGOSTINHO

Lar para crianças sem pais

 

 

Rutraon Van-Orb

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Um comentário em “Enquanto a chuva caía – Conto (Artur Sarmento)

  1. Anorkinda Neide
    27 de agosto de 2016

    Olá! O conto é interessante, mas não captei bem tudo o que ocorreu aí.
    Aconteceu una tragedia na vida da menina.. ela perdeu os pais? ou ela ja morava no orfanato e fugia dele? aposto na primeira alternativa, mas nao estou certa disso, o texto nao está claro, eu sei, é pra deixar o leitor descobrir, mas não pro leitor ficar confuso. (pode ser problema de interpretação minha… )
    .
    Estao muito sinistras estas mulheres e o proprio casarao, gostaria de ver elementos de terror aí, ficaria legal. Mas como o hospital liberou a menina pra ficar com elas?
    .
    Quanto ao texto, achei bem escrito gramaticalmente, ao menos no que me cabe perceber, mas a estrutura tem problemas. Os primeiros paragrafos achei ótimos, meio na pegada de prosa poética até. Mas qd começou a narrar os acontecimentos de forma direta, faltou clareza, talvez, pois nao entendi o enredo muito bem e tb achei descrições demais, ainda mais pelos olhos da menina, ficou meio deslocado isso. Acho que o narrador universal poderia ter descrito os ambientes e deixar para narrar através da menina, o q ela sentia, assim ficou misturado, sabe?
    .
    Bem, é isso. Gostei de ler teu texto. Dê uma chance à prosa poética, acho q vc leva jeito. Abraços

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Informação

Publicado às 25 de agosto de 2016 por em Contos Off-Desafio e marcado .